IMLB - Instituto Mãos Limpas Brasil

Missão: Ser a Entidade mais ética da História do Brasil

Diretor de Redação

Mtnos Calil

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NO BRASIL, um Diretor que é responsável pela garagem do Senado, ganha mais do que um Coronel do Exército, que comanda um Regimento de Blindados.

 

Notas introdutórias

                                                                 

A eleição de Bolsonaro se insere no contexto da esquizofrenia social vigente no Brasil e no mundo e que vem sendo agravada por crises políticas e econômicas. Crises e loucuras sempre estiveram presentes na história da humanidade. É razoável, portanto, supor que a crise atual será superada. Entretanto essa superação, infelizmente só poderá ocorrer a médio ou longo prazo porque não foi visualizada ainda a estratégia para evitar que caiamos no precipício.

 

 

A crise estrutural que afeta hoje o Brasil não pode ser resolvida por nenhum salvador, seja ele de esquerda, de direita, fascista ou democrata. Com a finalidade de contribuir para uma atitude de sensatez perante os dias difíceis que teremos pela frente estamos montando uma apostila com matérias onde psicólogos e psicanalistas expõem sua visão sobre o perfil psicológico do presidente eleito e sobre o comportamento extremamente desequilibrado manifestado por uma parte dos seguidores de Bolsonaro.

 

Entretanto as condições objetivas que ensejaram a loucura política que tomou conta das últimas eleições devem ser bem consideradas, porque constituíram uma de suas causas fundamentais.

 

 

A desenfreada corrupção da classe politica noticiada intensamente pela midia constituiu obviamente uma das razões básicas da vitória de Bolsonaro e também do ódio que tomou conta de uma parte dos eleitores, além é claro, da condenação ideológica de que foram alvo os petistas de uma forma generalizada.

 

Por outro lado, o estudo que nos propomos fazer é zero-ideológico, ou seja: não vamos nos deixar influenciar por variáveis ideológicas de esquerda que possam estar comprometendo o diagnóstico elaborado por alguns psicanalistas e nem vamos, por outro lado,  deixar-nos influenciar por uma visão direitista, ou seja, anti-esquerdista.

 

As ideologias, quaisquer que sejam, são incompatíveis com a análise objetiva da realidade que precisa ser orientada pelo espírito cientifico. Seguem agora 8 matérias que  fornecem os primeiros elementos para a psicanálise do Governo Bolsonaro.

 

Até a próxima

 

Mtnos Calil

 

MATÉRIA 1 - O atentado a Bolsonaro sob o olhar da psicanálise (Redigida antes da vitória de Bolsonaro no 2º. Turno)

 

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http://www.ip.usp.br/site/noticia/o-atentado-a-bolsonaro-sob-o-olhar-da-psicanalise/

 

10 set 2018

 

Em entrevista ao ‘Nexo’, Christian Dunker fala dos efeitos do clima social sobre atos extremos e da violência política na história brasileira

 

Por Conrado Corsalette, NEXO Jornal, 9/9/2018

 

Um ato de violência de grandes proporções, mesmo que realizado por um indivíduo aparentemente desequilibrado, pode ser dissociado do clima que toma conta de uma sociedade? O Nexo propôs essa questão a Christian Dunker, psicanalista e professor-titular do Instituto de Psicologia da USP, como introdução a uma análise do atentado contra Jair Bolsonaro ocorrido na quinta-feira (6).

 

O candidato do PSL à Presidência da República foi esfaqueado em Juiz de Fora, cidade mineira, num evento público de campanha realizado a pouco mais de um mês da votação de 7 de outubro de 2018. A agressão que levou o candidato à UTI, com sérios ferimentos na barriga, foi causada por Adelio Bispo de Oliveira, um homem de 40 anos que alega ter cometido o atentado “a mando de Deus”.

 

Bolsonaro, que ganhou projeção nacional com um discurso radical antissistema, com apologia a armas de fogo e contrário a uma política tradicional solapada por seguidos escândalos, lidera as pesquisas de intenção de voto nos cenários sem Luiz Inácio Lula da Silva. Ex-presidente, o líder petista está preso pela Operação Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro e foi considerado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral, com base na Lei da Ficha Limpa.

 

Adelio Bispo de Oliveira diz ter atacado Bolsonaro por motivação religiosa, de forma individual, sem ajuda de outras pessoas. Mas sobressaem também alegações políticas e raciais, segundo o advogado que o representa. A defesa pediu uma perícia sobre sua sanidade mental. Parentes já relataram desequilíbrio do agressor. As investigações estão em curso, sob o comando da Polícia Federal.

 

Nesta entrevista, concedida por e-mail, Dunker analisa o clima social brasileiro, como ele pode influenciar atitudes extremas de indivíduos, e relembra os contextos mais amplos da violência política na história brasileira.

 

Um ato de violência de grandes proporções, realizado por um indivíduo aparentemente desequilibrado, pode ser dissociado do clima que toma conta de uma sociedade?

 

CHRISTIAN DUNKER: Margaret Thatcher [primeira-ministra britânica na década de 1980] dizia que é preciso ter cuidado com o que se pensa, porque o pensamento vira palavra. E que é preciso ter cuidado com o que se diz, porque a palavra vira ato. O clima discursivo acelerado pelos conflitos sociais e pelo declínio relativo das instâncias de mediação favorece que os desequiIíbrios, transtornos e opressões se acentuem, passando de pensamentos a palavras e de palavras a atos.

 

A passagem da agressividade verbal para a violência em ato, assim como da violência isolada para a sua repetição em cadeia, é esperada em situações de tensão social como a que vivemos. Tragédias como a de Realengo [em 2011, quando um homem de 23 anos invadiu uma escola do Rio, assassinou 12 crianças e depois se suicidou] ou como a de Juiz de Fora [o atentado a Bolsonaro] não são criadas pela tensão social, mas pessoas em estado de agudo sofrimento psíquico são sensíveis à interpretação produzida sobre um determinado estado de mundo.

 

Na sua avaliação, o ódio político disseminado no país ajuda a explicar o ataque a faca contra Bolsonaro, mesmo diante do aparente desequilíbrio do agressor?

 

CHRISTIAN DUNKER: É preciso entender que um discurso é muito mais do que um conjunto de teses que alguém defende ou representa. Um discurso compreende os efeitos de reprodução e reverberação do que alguém diz autorizando, incitando ou por outro lado reprimindo ou deslocando afetos e disposições de ação. Tomando um exemplo simples, considerando a linguagem digital em redes sociais, o discurso de alguém compreende os comentários que ele gera, o conjunto de efeitos, que frequentemente exageram e amplificam o que foi dito, preservando a mesma gramática.

 

O que muitos chamam de discurso de ódio ou de polarização está caracterizado por isso: criação e acusação de inimigos, valorização de armas ou violência, uso de provocação e desqualificação, ataque contra instâncias de mediação. Este tipo de discurso incita efeitos que a psicanálise situa no campo do imaginário, caracterizado pelas paixões de ódio ou fascinação, assim como espelhamento e inversão simétrica. Isso é um perigo pois atrai contra si pessoas e atitudes que valorizam os mesmos meios de violência e agressividade, só que em sentido inverso, criando uma espécie de barril de pólvora.

 

O autor do ataque atribuiu o ato a uma ‘ordem de Deus’ e costuma publicar delírios nas redes sociais. Como avalia esse perfil? É um perfil incomum?

 

CHRISTIAN DUNKER: Não é incomum, trata-se de um discurso elaborado em torno de temas e agentes persecutórios, como a maçonaria e os partidos políticos, com o particular emprego de certos símbolos e grafismos. A interpretação conspiratória, em torno da hipótese de entes malignos que controlam o destino do mundo, com poderes de observação e onipresença, atravessa a história dos homens. Nas suas modalidades de megalomania, ciúmes, erotomania (certeza de que um determinado outro está apaixonado por nós) ou perseguição paranoica, tais interpretações de mundo se apresentam frequentemente combinadas com formas religiosas, projetos políticos e manifestações estéticas.

 

Os delírios são tentativas de estabilizar um mundo em desagregação e de reconstruir laços sociais. Delírios se tornam perigosos quando eles adquirem consistência social que sancionam e exigem uma “realidade suplementar” às suas figuras e temas, ou seja, por exemplo, quando um coletivo social começa a realmente acreditar que o mundo ou um país é controlado por uma conspiração de pessoas más, ou que nossos problemas serão resolvidos pela “eliminação” de tantas outras. Um delírio é um tipo de fantasia posta a céu aberto, e fantasias costumam captar um grupo (que com elas se satisfaz) em oposição a outros. Há políticos que pretendem catalisar explicitamente tais fantasias.

 

O Brasil é um país violento, com várias versões de violência, incluindo uma violência política já demonstrada em casos recentes, como o assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio e nos tiros de arma de fogo disparados contra ônibus da caravana de Lula no Paraná. Como localizar a violência política na história do país? Ela esteve sempre aqui?

 

CHRISTIAN DUNKER: A violência faz parte de nossa história desde os tempos da colonização portuguesa e da escravidão, mas esta não era a imagem na qual nos percebíamos. Podemos dizer que boa parte da violência, no campo e nas regiões pobres das grandes cidades, permanecia invisível para muitos dos brasileiros, que ainda assim a sentiam na carne ou a reproduziam desavisadamente. Isso é especialmente presente no caso da violência de classe, da violência de gênero e da violência de raça.

 

Isso pontua as mutações do poder desde a república de capa espada até o crime da rua Tonelero [atentado contra o jornalista e político Carlos Lacerda, adversário de Getúlio Vargas, em agosto de 1954], sem falar no período militar, de 1964 a 1985. A violência nunca foi tematizada como um problema político; isso abre portas para seu retorno ostensivo como projeto de governo.

 

A descontinuidade institucional, gerada pelo afastamento de Dilma [Rousseff, alvo de um impeachment por manobras fiscais em 2016], pelo que a antecedeu e pelo que a sucedeu, representa um marco no sentido de tornar visível, ostensivo e generalizado o uso da violência em contexto de conflito de interesses. Esse princípio que desligou a autoridade do poder, levando ao sentimento social de que direito e justiça estão muito dissociados, que as instituições que deveriam promover tal aproximação não nos representam. Essa interpretação desceu dos estratos mais altos para os mais baixos em uma espécie de efeito de capilarização da injustiça.

 

A violência não é um fato natural, ela depende de nossas narrativas e interpretações, de nosso sentido de justiça e legitimidade, assim como do ressentimento social e do sentimento de vingança. Adelio mantinha em sua página a balança, símbolo da justiça, ainda que neste caso feita com as próprias mãos. Tal passagem ao ato tem uma relação com o sentimento, correto ou equivocado, de injustiça, com a impotência sentida diante de instituições e da política em geral.

 

MATÉRIA 2 - Bolsonaro e o narcisismo das pequenas diferenças: uma leitura freudiana sobre as chances do candidato

 

(Redigida antes da vitória de Bolsonaro no 2º. Turno)

 

Por: Felipe Pena em 30/07/18 20:04 

 

https://extra.globo.com/noticias/brasil/contra-a-corrente/bolsonaro-o-narcisismo-das-pequenas-diferencas-uma-leitura-freudiana-sobre-as-chances-do-candidato-22934195.html

Não se iludam, o candidato da extrema-direita estará no segundo turno e pode vencer a eleição. Não importam os exíguos oito segundos na TV, a falta de conhecimento sobre o país, o fracasso nas entrevistas e a ausência de máquina partidária. Nada disso vai tirar votos de Bolsonaro. Não subestimem seus eleitores, não subestimem a estupidez brasileira.

 

Em artigo publicado nesta segunda-feira na Folha de S. Paulo, o professor Celso Rocha de Barros afirma que Bolsonaro não será como Trump e, portanto, não terá chances nas eleições de outubro. Discordo respeitosamente desta conclusão. Em primeiro lugar porque a eleição brasileira é pulverizada em diversos partidos e não apenas em dois, como é a americana. Daí a importância reduzida da máquina partidária. Em segundo porque há uma base consolidada de eleitores de Bolsonaro, os chamado bolsominions, que votam nele em qualquer circunstância. E, em terceiro, porque os principais temas do pleito serão a corrupção e a violência, terrenos em que Bolsonaro construiu um discurso raso (armamentista e conservador), porém eficaz, para alimentar seus eleitores.

 

Se fizermos um exercício para entender esses eleitores, estaremos no caminho mais próximo para entender (não para deter) o avanço do candidato. No registro da psicanálise, devemos perguntar: quem são os bolsominions e que conteúdo inconsciente os alimenta?

 

Talvez possamos recorrer ao conceito de "narcisismo das pequenas diferenças", explorado por Sigmund Freud nos textos Psicologia de grupo (1921) e Mal-estar na Civilização (1930). Para Freud, a civilização, sob o império da lei, é a responsável pela inibição da agressividade humana, que é uma expressão narcísica do ego. No entanto, tal narcisismo agressivo rompe a barreira do recalque e se manifesta publicamente quando incentivado por líderes que se supõem acima da lei (e, portanto, da civilização) ou quando avalizados por um grupo que recorre a pequenas diferenças em relação ao outro para justificar a barbárie.

 

Os bolsominions se encaixam em ambos os casos. Seguem o líder, a quem chamam de mito, e dão vazão aos recalques narcísicos atacando as diferenças dos grupos que elegem como rivais. Daí a constante referência agressiva a homossexuais, negros e feministas. Em muitos casos, tal referência esconde algo ainda mais profundo: um desejo reprimido de ser o outro. Portanto, matar o outro se torna uma forma de matar o próprio desejo reprimido. O discurso armamentista na segurança e conservador nos costumes é a perfeita expressão desse recalque.

 

Quando alguns críticos consideram a palavra nazista exagerada para definir um bolsominion no Brasil de 2018, sempre pergunto se as características citadas por Freud nos parágrafos acima não estavam presentes também na Alemanha da década de 1930. Algo como "Dr. Freud falou, Dr. Freud avisou!", parodiando a música dos Paralamas. Da mesma forma, recorro a algumas condições históricas, como crise econômica, desgaste da esquerda, falta de representatividade política e a busca por um salvador da pátria. Não estaria sendo pavimentado o caminho para um totalitarismo nazifascista no país? Ou vocês ainda acham que é exagero?

 

"Dr. Freud falou, Dr. Freud avisou!" - lembro-me novamente da música.

 

Além de Bolsonaro ter 17% de intenções de voto na última pesquisa do IBOPE (o que significa o apoio de mais de 20 milhões de pessoas e 25% dos votos úteis), sua página no facebook tem 5,3 milhões de seguidores. É lá que os bolsominions se organizam para hostilizar os grupos e pessoas com quem têm as diferenças narcísicas.

 

Eles usam a expressão "vamos lá oprimir". E, juntos, reverenciam o líder, atacam o "inimigo" e se masturbam mutuamente através dos xingamentos que utilizam. Já vimos esses acontecimentos na história recente (sim, refiro-me à Alemanha nazista). Novamente, peço que não os subestimem: a praça virtual pode se transformar rapidamente na praça do seu bairro.

 

A título de exemplo, destaquei alguns comentários dos bolsominions em minha página no facebook:

 

"Felipe, seu lixão."

 

"Vagabundo. Tu é gay?"

 

"Não entendi as críticas ao coronel Ustra. Sim, ele torturou e matou. Mas eram comunistas."

 

"Comunista de merda."

 

"Coronel Ustra, herói nacional."

 

"Felipe Pena, você é um escroto humano."

 

Reparem na homogeneização do discurso, sempre carregado de ódio e, principalmente, do narcisismo das pequenas diferenças. O tratamento que dispensam ao colunista (destacando suas supostas diferenças) é o mesmo dispensado a todos os inimigos. O inimigo é o diferente. E o inimigo sempre pode ser eliminado.

 

Esta é a lógica dos bolsominions. Um quarto do país já foi contaminado por ela. Basta outro quarto para elegê-lo. E ainda não consideramos os que têm vergonha de confessar que pensam deste jeito. Na eleição de Trump, os envergonhados não apareceram nas pesquisas. Na véspera do pleito, quase nenhum analista considerava possível a sua vitória. Ninguém achava que alguém tão despreparado chegaria à presidência da república.

 

Vamos cometer o mesmo erro com Bolsonaro?

 

  • Felipe pena é jornalista, escritor, psicanalista e professor da UFF.

MATÉRIA 3 -  Bolsonaro, deita aqui no meu divã!

 

(Redigida antes da vitória de Bolsonaro no 2º. Turno)

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Bolsonaro-deita-aqui-no-meu-diva-/5/32574

 

07/01/2015

É possível rever pontos de vista, mesmo quando nossos interesses estão em jogo, mesmo que isso ofenda a autoestima, o método para isso chama-se psicanálise

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Resumo da Ópera
 
Deputado federal, militar aposentado, declara para congressista, em espaço público e no exercício de suas funções: “jamais estupraria você porque você não merece”. Outro deputado federal, pastor neo-pentecostal, afirma: “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição”.
 
Articulista de jornal de grande circulação comenta:
 
De fato, não acredito que a humanidade aprenda muito em determinadas áreas, entre elas, romper a cegueira com a própria falha moral: dificilmente somos capazes de ver as coisas de modo claro quando está em jogo nossa autoestima e nossos interesses cotidianos. E quando (como no caso de “psicanalistas de esquerda”) se afirma que existe uma “clínica política” para questões como essas, o ridículo da coisa é maior ainda.” (Luis Felipe Pondé, “O quarto escuro”, Folha de S.Paulo)


 
Ao que é ecoado por outro luminar do pensamento liberal:
 
E é possível observar a baba de ódio escorrendo do canto de suas bocas[dos psicanalistas de esquerda] quando falam dos “conservadores”, dos “liberais”, ou dos Estados Unidos e Israel. Pergunta: o psicanalista de esquerda arriscaria a própria vida para salvar Jair Bolsonaro numa eventual ditadura bolivariana?” (Rodrigo Constantino, “Psicanalistas de esquerda e a covardia moral, Blog da Veja)


 
Que por sua vez teria sido precedido por uma síntese de conjunto, uma afirmação mais ampla e circunstanciada, que inclui os casos anteriores:


 
Sei, muitos ainda negam a ideia de que exista um processo de destruição da liberdade de pensamento no Brasil. Mas, uma das razões que fazem este processo ser invisível é porque a maior parte dos intelectuais, professores, jornalistas, artistas e agentes culturais diversos concorda com a destruição da liberdade de pensamento no Brasil, uma vez que são membros da mesma seita bolivariana.” (Luis Felipe Pondé, “Diálogo ou secessão”, Folha de S.Paulo)


 
O que fazer?


 
Declarações homofóbicas, misóginas, racistas, preconceituosas ou meramente agressivas como estas podem receber objeção, reprimenda jurídica ou reação institucional. O problema de tais discursos é que eles fazem com que pessoas propensas a atos de preconceito se sintam ainda mais legitimadas a pensar, dizer e finalmente agir de modo segregatório.


 
Contudo, como fazem parte de nosso debate público nos resta trabalhar para que aqueles que disseminam tais ideias sejam reprovados politicamente nas próximas eleições ou nas próximas consultas públicas para definir novos articulistas. Tais declarações despertam reações de protesto e críticas individuais ou coletivas, mas não um desejo de censura. A indignação é contida em nome da lei maior da liberdade de expressão, ou pelo espírito burocrático e leniente que ainda vigora quando o assunto são os crimes da palavra.


 
Parece pouco.


 
Alguns advogam que a melhor atitude neste caso seria a indiferença. Considerados como anacronismos sociais, tais exageros opinativos seriam gritos de quem resiste à mudança até o fim, uma espécie de intensificação do sintoma antes que ele seja abandonado. Ou então seriam expressão de um desejo de chamar a atenção, capitalizando o descontentamento com brados cada vez mais altos e intimidadores. Creio que esta tática de deflação narcísica, baseada na recusa ao reconhecimento, no silêncio obsequioso e na tolerância paciente, acredita demasiadamente que o debate público é uma questão de combate entre os “juntadores” de opinião. Cedemos assim à ideia de que tudo é uma questão de audiência, espetáculo ou de luta pela “aparecência”.


 
Ainda parece pouco.


 
Partilho do sentimento generalizado de que há uma pobreza de meios para lidar com tais excessos. Pobreza que nem uma lei de imprensa poderia evitar. Processos jurídicos, por difamação, calúnia ou injúria, execuções penais por crime de racismo, Comitês de Ética, falta de decoro parlamentar, até mesmo a execração pública de lado a lado são sentidos como instrumentos tímidos e impotentes. Quando questões de tratamento e respeito mútuo chegam neste acirramento o processo tende a caminhar pela força da lei ou pela arte da guerra. Ocorre que declarações como estas são de difícil trato em termos da coisa pública.

 


 
O que deveríamos fazer? Um plebiscito para saber se Bolsonaro merece ou não ser estuprado? Uma escola de re-educação, semelhante à que impomos aos maus motoristas, na qual Feliciano seria obrigado a passar alguns meses em convivência íntima com homossexuais? Um curso de estatística para fazer Pondé reaprender o conceito de “maioria” ou outro curso de filosofia para entender que significa “liberdade de pensamento”? Um exame toxicológico de hidrofobia para mostrar a Constantino que a “baba de ódio que escorre pela boca dos psicanalistas de esquerda” é imaginária, não contagiosa e tem poderes terapêuticos contra o neoliberalismo?


 
Divã político
 
Ainda que saibamos que não se pode recomendar a psicanálise para alguém, e que o tratamento só funciona se houver um movimento da própria pessoa de buscar ajuda, às vezes vem a tentação, vem o desejo de testar os limites do seu próprio desejo de analista. Isso provém do sentimento, quiçá delirante, de que muita humilhação e constrangimento poderia ser evitado, para o próprio e para os que o cercam, se o tal se dispusesse a falar livremente, em situação de sigilo e suspensão de julgamento, sobre seus fantasmas e tormentos. Sim, quero crer que está faltando um tanto de divã político para esta turma.


 
Se pudesse colocá-los todos no divã o primeiro passo do tratamento seria recusar a falsa divisão da qual eles acham que estão sofrendo, entre PT e anti-PT, entre bolivarianos e anti-bolivarianos, entre “inteligentinhos” e “burrinhos”, entre “nós” e “eles”, entre os que são contra a corrupção e os outros que seriam… o quê, a favor da corrupção? Melanie Klein chamou isso de posição esquizo-paranóide. Primeiro dividir entre bons e maus, depois demonizar o outro e em seguida sentir-se perseguido pelo que projetamos neste outro a partir do que não podemos suportar em nós mesmos.


 
Não é que não existam mais esquerdas e direitas, mas existem muitas esquerdas e muitas direitas. Quero crer que uma divisão mais aceitável em termos psicanalíticos se daria entre universalistas, que entendem que a essência universal do sujeito é dividida e vazia, e os particularistas, que tentam ocupar tal essência com traços positivos e contingentes, de sexo, de gênero, de religião, de raça, de orientação política ou de classe. O desafio para os universalistas está em saber como definir quem estaria além das palavras e da razão. Para um psicanalista estas figuras constituem o limite do analisável, a fronteira final que nosso desejo pode suportar. Casos limites para o exercício do método e da ética que lhe cabe.


 
Recentemente estive na exposição Topographie des Terrors [Topografia do terror] junto ao que sobrou do muro de Berlin. O material iconográfico detalha minunciosamente o processo jurídico e institucional pelo qual o nazismo se impôs como uma solução inesperada depois dos anos de avanço cultural e liberdade da República de Weimar. Um dado ressoou forte com nossa situação brasileira. A primeira lei, que uma vez aprovada parece ter desencadeado a progressiva institucionalização da barbárie, tratava de um assunto um tanto esquecido: a eliminação dos pacientes incuráveis ou terminais. Antes de judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e demais formas de vida não arianas, o regime introduziu a ideia teste de que existem “certas pessoas” que “nós” não podemos suportar. Uma vez aceito este princípio de que há condições, crenças ou disposições morais que não têm direito à existência, está instituído o processo de segregação, cujo capítulo seguinte será a inexorável expansão do tipo de diferença sentida como intolerável. Portanto, o segundo ponto do tratamento conjectural desta nova direita brasileira passaria pela inoculação da dúvida sobre a consistência real de seus inimigos.


 
Estou certo que aqui Rodrigo Constantino voltaria a me perguntar sobre a idoneidade de minhas intenções e sobre a pureza de meu desejo de psicanalista. Mostraria então o título desta coluna: sim, estou disposto a arriscar a vida para salvar Jair Bolsonaro da ditadura bolivariana. Não quero que ele seja excluído da condição de voz ativa e saliente no debate público de nosso país. Mas, convenhamos, ele deve se comportar melhor. Há que se ter um pouco de compostura. Talvez a análise ajude com isso. Mais do que um reformatório militar.


 
O tratamento deste discurso não se justifica apenas em nome de algum sintoma ou diagnóstico que torna esta atitude uma figura patológica ou moralmente execrável. Você não precisa se reconhecer de saída como um fraco, covarde molestador de mulheres, basta admitir que existem pontos que talvez valha a pena colocar em discussão, digamos, em foro íntimo. É possível sim, rever pontos de vista, mesmo quando nossos interesses estão em jogo, mesmo que isso ofenda nossa autoestima, o método para isso chama-se psicanálise.


 
Gente como Habermas viu neste método um exemplo de exercício da razão comunicativa, outros como Foucault entendiam que ela seria um caso do dispositivo de confissão e disciplina. Veja, Bolsonaro, pela esquerda ou pela direita é possível que o senhor se sentisse em casa para rever suas posições e aceitar o palpite amigo de Reinaldo Azevedo: peça desculpas. A capacidade de voltar atrás é um grande sinal de saúde psíquica. Acredite, você não se tornará menos macho por pedir desculpas a uma colega de trabalho.


 
Este seria o momento de resistência do tratamento. Seria forçado a reconhecer que a expressão “psicanálise de esquerda” é, de fato, um contra senso, não sem antes lembrar que não fui eu a empregá-la pela primeira vez nesta conversa. Freud definiu a psicanálise como um método de tratamento, um método de pesquisa e uma teoria que reúne e se transforma a partir da clínica assim praticada. Há um grande consenso nesta matéria: a psicanálise é uma ciência laica, não é uma visão de mundo e, portanto, não pode ser nem conservadora nem liberal, nem comunista nem capitalista, nem de esquerda nem de direita.


 
Mas a psicanálise não opera sem psicanalistas e estes são muito mais terrenos do que os métodos nos quais acreditam. É por isso que desde Lacan entende-se também que a psicanálise é uma ética. Uma ética que coloca em seu centro o desejo em sua dimensão trágica. Uma ética que começa pela suspensão do julgamento e do interesse no serviço dos bens baseando-se em seguida na associação livre. Neste ponto talvez nos depararemos com a ideia de que a experiência psicanalítica tem no seu centro o conflito, tratando pela palavra, gerido no interior de uma relação. Aqui o conflito não será eliminado pela força, mas tratado pela palavra, exatamente como na política. Tanto faz se contra isso enfrentaremos ilusões de bondade ou de maldade sobre nós mesmos, teremos que atravessar tais ilusões.


 
Chegará então o momento em que ficará claro que seu psicanalista não pode ser parte de uma “seita bolivariana” porque ele não opera a partir de sua própria identidade de classe, gênero e orientação moral. Ele não está tentando convencer você a ser outra pessoa, apenas tentando entender porque você precisa tanto de inimigos.


 
Aqui nos lembraremos de Pondé para quem a psicanálise é uma ética sem consequência política, para perceber que uma análise nestes termos é operação ganha-ganha. Se esta ética, que busca o bem individual, não tem nada que ver com a política, que orienta-se pelo bem comum, então não há risco, só potenciais ganhos. Por dever de ofício estamos impedidos de julgá-los em praça pública, que é o que está acontecendo agora. Pensem bem, os senhores que defendem a cura gay, a cura pela palmada, a cura pelo estupro, não estariam mais à vontade com algo bem mais simples e tradicional, como a cura pela palavra?


 
Estou sugerindo que muitas vezes é mais fácil assumir processos jurídicos, responder a comitês de ética, fazer cursos e penitências nominais e públicas, pagar indenizações, do que um gesto mínimo de mudança subjetiva como pedir desculpas. É grátis. Quase tão simples quanto instruir seu filho a não participar de comícios e manifestações públicas de massa com um revólver na cintura. Não temam. Se Pondé e Constantino estão certos, em nenhum caso a sua reflexão ética afetará suas disposições políticas. Uma viagem de palavras, sobre nossos inimigos imaginários mais privados não vai alterar jamais suas crenças públicas sobre mulheres, educação, sexualidade ou o sentido da família e da comunidade, incluindo-se aí bandidos e estupradores. Então, Bolsonaro, vem aqui, deita no meu divã!

MATÉRIA 4 - Ódio que Bolsonaro espalha chega aos consultórios de psicanálise

 

Clima de terror e ódio provocado por Bolsonaro chega às clínicas de psicanálise e os depoimentos são chocantes. Psicanalistas do Brasil inteiro narram uma enxurrada de relatos sobre violência, medo e pânico político em seus consultórios

 

11/OCT/2018

 

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/10/odio-bolsonaro-espalha-psicanalise.html

 

A onda da terror provocada pela candidatura fascista de Jair Bolsonaro (PSL) chegou aos consultórios de psicanálise. Psicanalistas do Brasil inteiro narram uma enxurrada de relatos sobre violência, medo e pânico político em seus consultórios.

 

Esses relatos foram organizados em uma matéria do jornal El País e chocam pelo desalento político que tomou conta do país.

 

O relato de um paciente sobre a ameaça sofrida resume o drama: “e aí, seu viadinho de merda, já viu as pesquisas? Vai aproveitando até o dia 28 pra andar de mãozinha dada, porque, quando o mito assumir, acabou essa putaria e você vai levar porrada até virar homem“.

 

A reportagem do jornal El País destaca a narrativa de um dos psicanalistas: “ele entra sem dizer uma palavra e logo começa a chorar. Pergunto o que aconteceu e ele me diz, assustado, que foi abordado por um cara da faculdade, com as seguintes palavras”:

 

– E aí, seu viadinho de merda, já viu as pesquisas? Vai aproveitando até o dia 28 pra andar de mãozinha dada, porque, quando o mito assumir, acabou essa putaria e você vai levar porrada até virar homem.

 

Depois, é a menina que já entra chorando e me diz:

 

— Sil, me ajuda… não sei o que fazer… você não vai acreditar no que aconteceu comigo hoje… Eu estava na escola e fui pegar um livro no meu armário… Tinha uma folha de papel

 

Aí ela me mostra uma foto no celular, porque entregou a tal folha na diretoria, com esta mensagem aqui:

 

– Achou mesmo que era só sair gritando #elenão pra parar o bolsomito, feminazi??? Perdeu, escrota!! E daqui a pouco você vai ter motivo pra gritar de verdade!!!

 

O relato, feito pelas redes sociais, é da psicanalista Silvia Bellintani, pouco antes do primeiro turno das eleições. Devidamente autorizada pelos pacientes, ela conta o que escutou de dois deles no seu consultório, numa mesma tarde: “ele, homossexual, 19 anos; ela, heterossexual, 17 anos, feminista“.

 

A matéria informa que “nos últimos dias, começaram a circular posts de psicanalistas e psicólogos que decidiram levar para o debate público o que escutam no seu consultório. Sem expor os pacientes, mas apontando o que vem acontecendo na sociedade brasileira apenas pela possibilidade, bastante grande, de um homem como Jair Bolsonaro, defensor da ditadura, da tortura e da violência, assumir a presidência do país“.

 

Em um post intitulado “Ser analista sob o ódio“, Ilana Katz escreveu:

 

Alguém, dilacerado, conta que apanhou em casa por defender suas posições e, na sessão seguinte, outro alguém refere como fake news o que a colega conta sobre amigos homossexuais sofrerem agressões. Alguém diz que não pode votar em corrupto, xinga os corruptos, odeia os corruptos e se inflama ao dizer que as instituições da República vão controlar a misoginia e o racismo de Bolsonaro, e então renova seus votos. Entra depois a menina que sofreu constrangimento público no metrô por vestir #EleNão, e nem pessoa nem instituição nenhuma correu em seu socorro. Essas não são conversas de WhatsApp. Nas duas últimas semanas, o ódio deitou no meu divã e não saiu mais. Entra e sai gente: criança, adulto, adolescente, e esse é o tipo de afeto que circula. Desde o final do primeiro turno, o ódio tomou mais corpo. Mais corpos“.

 

Palavras que incentivam a negação absoluta do outro são como balas perdidas: encontrarão um ponto de parada para perfurar

 

A reportagem ainda aponta que várias instituições de psicanálise fizeram manifestos pela democracia –e contra a opressão representada pela candidatura de extrema direita. Entre elas, a Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano:

 

A política da psicanálise se associa à ética do bem-dizer e nos leva a fazer frente ao discurso do ódio ao outro, em pleno Estado democrático. O discurso do analista deve circular na pólis e, quando nos dirigimos ao mundo, o silêncio do ‘terror conformista’ não nos cabe‘.

 

Segundo o jornal, psicanalistas da Escola Brasileira de Psicanálise também posicionaram-se, propondo “um movimento de circulação de breves relatos do que tem sido escutado nas ruas do país sobre os efeitos nefastos que a ameaça do fascismo é capaz de provocar“. Em texto veiculado nas redes, afirmam:

 

Quando o valor das palavras é banalizado, a ponto de o pior poder ser dito por um candidato à presidência da República, como se fossem apenas palavras ao ar, perdemos a noção de que estamos escrevendo, com elas, nossa história. Perdemos a noção de que palavras se cravam na história, nos ouvidos e nos corpos de um país. Palavras que incentivam a negação absoluta do outro são como balas perdidas: encontrarão um ponto de parada para perfurar. E nunca se sabe ao certo, de antemão, onde será. Não será sem consequências nos fazermos de surdos para o pior. Escutemos, pois“.

 

MATÉRIA 5 - “O ódio deitou no meu divã”

 

(Redigida antes da vitória de Bolsonaro no 2º. Turno)

 

Relatos de psicanalistas revelam a violência que cresce e se infiltra no Brasil com a possibilidade de Jair Bolsonaro chegar à presidência da República

 

ELIANE BRUM

11 OUT 2018

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/10/politica/1539207771_563062.html

 

 

Ele entra sem dizer uma palavra e logo começa a chorar. Pergunto o que aconteceu e ele me diz, assustado, que foi abordado por um cara da faculdade, com as seguintes palavras:

 

– E aí, seu viadinho de merda, já viu as pesquisas? Vai aproveitando até o dia 28 pra andar de mãozinha dada, porque, quando o mito assumir, acabou essa putaria e você vai levar porrada até virar homem.

 

Depois, é a menina que já entra chorando e me diz:

 

— Sil, me ajuda... não sei o que fazer... você não vai acreditar no que aconteceu comigo hoje... Eu estava na escola e fui pegar um livro no meu armário... Tinha uma folha de papel...

 

Aí ela me mostra uma foto no celular, porque entregou a tal folha na diretoria, com esta mensagem aqui:

 

– Achou mesmo que era só sair gritando #elenão pra parar o bolsomito, feminazi??? Perdeu, escrota!! E daqui a pouco você vai ter motivo pra gritar de verdade!!!

 

O relato, feito pelas redes sociais, é da psicanalista Silvia Bellintani, pouco antes do primeiro turno das eleições. Devidamente autorizada pelos pacientes, ela conta o que escutou de dois deles no seu consultório, numa mesma tarde: ele, homossexual, 19 anos; ela, heterossexual, 17 anos, feminista.

 

Nos últimos dias, começaram a circular posts de psicanalistas e psicólogos que decidiram levar para o debate público o que escutam no seu consultório. Sem expor os pacientes, mas apontando o que vem acontecendo na sociedade brasileira apenas pela possibilidade, bastante grande, de um homem como Jair Bolsonaro, defensor da ditadura, da tortura e da violência, assumir a presidência do país.

 

"Desde o final do primeiro turno, o ódio tomou mais corpo. Mais corpos"

 

Em um post intitulado “Ser analista sob o ódio”, Ilana Katz escreveu:

 

“Alguém, dilacerado, conta que apanhou em casa por defender suas posições e, na sessão seguinte, outro alguém refere como fake news o que a colega conta sobre amigos homossexuais sofrerem agressões. Alguém diz que não pode votar em corrupto, xinga os corruptos, odeia os corruptos e se inflama ao dizer que as instituições da República vão controlar a misoginia e o racismo de Bolsonaro, e então renova seus votos. Entra depois a menina que sofreu constrangimento público no metrô por vestir #EleNão, e nem pessoa nem instituição nenhuma correu em seu socorro. Essas não são conversas de WhatsApp. Nas duas últimas semanas, o ódio deitou no meu divã e não saiu mais. Entra e sai gente: criança, adulto, adolescente, e esse é o tipo de afeto que circula. Desde o final do primeiro turno, o ódio tomou mais corpo. Mais corpos”.

 

"Palavras que incentivam a negação absoluta do outro são como balas perdidas: encontrarão um ponto de parada para perfurar"

 

Várias instituições de psicanálise fizeram manifestos pela democracia –e contra a opressão representada pela candidatura de extrema direita. Entre elas, a Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano:

 

“A política da psicanálise se associa à ética do bem-dizer e nos leva a fazer frente ao discurso do ódio ao outro, em pleno Estado democrático. O discurso do analista deve circular na pólis e, quando nos dirigimos ao mundo, o silêncio do ‘terror conformista’ não nos cabe”.

 

Psicanalistas da Escola Brasileira de Psicanálise também posicionaram-se, propondo “um movimento de circulação de breves relatos do que tem sido escutado nas ruas do país sobre os efeitos nefastos que a ameaça do fascismo é capaz de provocar”. Em texto veiculado nas redes, afirmam:

 

“Quando o valor das palavras é banalizado, a ponto de o pior poder ser dito por um candidato à presidência da República, como se fossem apenas palavras ao ar, perdemos a noção de que estamos escrevendo, com elas, nossa história. Perdemos a noção de que palavras se cravam na história, nos ouvidos e nos corpos de um país. Palavras que incentivam a negação absoluta do outro são como balas perdidas: encontrarão um ponto de parada para perfurar. E nunca se sabe ao certo, de antemão, onde será. Não será sem consequências nos fazermos de surdos para o pior. Escutemos, pois”.

 

Em seguida, enumeram alguns relatos escutados nas ruas do Brasil nos últimos dias:

 

“Uma amiga estava amamentando seu filho, que tem menos de um ano, em uma padaria próxima à sua casa, quando passaram dois caras e um deles gritou, olhando pra ela: ‘Quando ele ganhar, essas vagabundas não vão mais poder fazer isso!’”;

 

“Um casal de meninas anda na rua e ouve de um passante: ‘Aproveita, porque o 17 vem aí!’”;

“Depois de uma longa conversa com alguém, na tentativa de argumentar contra o que representa o ‘Coiso’, o alguém perde os argumentos e enuncia a verdade velada. 'Ah, quer saber, foda-se se ele defende a tortura. Comunista pode ser torturado!’”;

 

“Meu enteado andando na rua com camiseta da faculdade (UERJ) ouviu de cinco homens passando de carro: isso vai acabar quando o mito ganhar, você estuda nessa merda e nunca vai ganhar dinheiro”;

 

“Minha filha, ontem, na saída da escola, foi abordada por um cara, que, por conta do adesivo do Haddad, que ela trazia colado na camisa, mandou essa: 'Fica esperta que eu sou do exército Bolsonaro que esfola comunista'".

 

A crise no Brasil não é só política e econômica, mas uma crise da palavra

 

Tenho escrito há anos que a crise do Brasil não é só política e econômica, mas uma crise da palavra. Quando tudo pode ser dito, nada mais diz. As palavras, no Brasil, se tornaram palavras fantasmas, porque nada movem. Essa realidade ficou explícita quando Jair Bolsonaro, ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais sádicos torturadores da ditadura, responsável pela morte de pelo menos 50 pessoas e pela tortura de centenas –e nada aconteceu.

 

Nesta eleição, seus filhos e apoiadores vestiram camisetas com o rosto do torturador e as palavras “Ustra vive!” – e, mais uma vez, nada aconteceu. Enquanto isso, mães ainda choram por seus filhos assassinados por Ustra – e mulheres torturadas por ele, que levaram choques elétricos nos seios e vaginas e tiveram baratas e ratos enfiados nos seus corpos, ainda acordam gritando à noite.

 

Se as palavras se tornam cartas extraviadas, cartas que não chegam ao seu destino, o diálogo é interditado, e o ódio se instala. O fenômeno Bolsonaro pode ser compreendido também a partir do esvaziamento das palavras. É uma resposta possível para o fato de que quase 50 milhões de brasileiros foram capazes de votar em alguém que diz o que Bolsonaro diz. Muitos deles, inclusive assistindo a vídeos em que ele diz o que diz, negam que ele disse o que diz. Veem, mas não veem. Ouvem, mas não escutam.

 

Sem diálogo, as palavras perfuram os corpos. É urgente que as palavras voltem a dizer no Brasil –ou elas serão cada vez mais balas perdidas. E sabemos que balas perdidas acham corpos. É este o movimento dos psicanalistas que escolheram não se omitir neste momento de tanta gravidade para o Brasil, certamente o momento mais grave da história recente do país, talvez o momento mais grave desde o golpe de 1964.

 

Algo muito profundo, muito tenebroso, se infiltra mais e mais nos ossos deste país

 

ódio ao PT, explicação dada por parte dos que votam em Bolsonaro e por muitos que pretendem votar em branco ou anular o voto ou se abster de votar não é a doença, mas o sintoma. Algo muito profundo, muito tenebroso, se infiltra mais e mais nos ossos deste país. É no divã dos psicanalistas, em que a palavra tem espaço e carne, que essa escuridão emerge em todo o seu horror.

 

Ao iniciar o seu relato, Silvia Belintani afirma: "Eu poderia dizer que estou sem palavras para descrever o que testemunhei hoje no meu consultório. Mas tive o dever de encontrá-las, para não deixar que algo assim, gravíssimo, fique sem registro”. E, mais adiante: “O cenário das eleições sequer foi definido, mas já encoraja o sadismo e promete ser palco do terror. Fico imaginando o que vem pela frente”.

 

Em seu post, Ilana Katz faz uma análise profunda sobre o papel de um analista também neste momento (abaixo reproduzo o post). E afirma: “O antipetismo é um dos nomes para o ódio. De novo, palavras que encurtam o dizer: autocrítica, criminoso, preso, poste. São palavras que falam de todos e de tudo ao mesmo tempo. Mas, o que dizem para quem diz de quem diz?”

 

E termina:

 

“Por força e por exercício do ofício, um psicanalista não pode recuar no espaço público diante da ameaça à democracia. Não pode se curvar ao ódio, e não deve responder especularmente ao ódio. Para que os odiadores e os odiados possam seguir se deslocando de seus lugares e posições, para que possamos achar palavra e movimento, hoje desdobro minha condição de psicanalista em direção à cidade para dizer #DemocraciaSim”.

 

"SER ANALISTA SOB O ÓDIO"

 

Alguém, dilacerado, conta que apanhou em casa por defender suas posições e, na sessão seguinte, outro alguém refere como “fake news” o que a colega conta sobre amigos homossexuais sofrerem agressões. Alguém diz que não pode votar em corrupto, xinga os corruptos, odeia os corruptos e se inflama ao dizer que as instituições da República vão controlar a misoginia e o racismo de Bolsonaro e então renova seus votos. Entra depois a menina que sofreu constrangimento público no metrô por vestir #EleNão, e nem pessoa nem instituição nenhuma correu em seu socorro.

 

Essas não são conversas de WhatsApp.

 

Nas duas últimas semanas, o ódio deitou no meu divã e não saiu mais. Entra e sai gente: criança, adulto, adolescente, e esse é o tipo de afeto que circula.

 

Desde o final do primeiro turno, o ódio tomou mais corpo. Mais corpos. Ouço as histórias, tento escutar, procuro as sutis diferenças. No esforço de escutar esses sujeitos, brigo comigo para abandonar o ritmo do WhatsApp. Aqui, assim como lá, não há trégua porque não há outro tema. Há odiados e odiadores. E eu aprendo, mais uma vez, que ódio varia pouco, e permite poucas variações também.

 

As palavras, em looping, não permitem que o sujeito possa se dizer. São as mesmas palavras que ocupam o discurso de uns (corrupção-ladrão- quadrilha-dinheiro-justiça. Eu-não-sou-idiota), e o mesmo medo que distribui os termos dos outros (fascismo-direitos sociais-apanhar-fugir-lutar. Medo-pânico-medo).

 

O antipetismo é um dos nomes para o ódio. De novo, palavras que encurtam o dizer: autocrítica, criminoso, preso, poste. São palavras que falam de todos e de tudo ao mesmo tempo. Mas, o que dizem para quem diz de quem diz?

 

O estancamento do dizer é uma tarefa do analista na clínica. É preciso fazer isso trabalhar. É preciso procurar a ligação particular entre esses termos em cada história. Drenar o ódio e oferecer a chance da subjetivação das experiências. Como direção, tocar o gozo, alçar responsabilidade subjetiva.

 

Por força e exercício do ofício de psicanalistas, sabemos o que a palavra quer dizer como possibilidade para o sujeito e para suas formas de laço. Para que seja possível um viver com os outros. É assim que aprendemos que psicanálise e democracia se fazem valer do mesmo princípio condicionante, que é a circulação livre das palavras. A diferença entre clínica e espaço público guarda a também fundamental diferença dos níveis de tratamento que a palavra que circula deve receber. A tão famosa neutralidade do analista só vale se, sustentada no Desejo do Analista, garantir a possibilidade de que aquele que fala seja o mais livre possível na sua relação com o que diz.

 

No exercício do seu ofício, um psicanalista suporta, em sua clínica, a hiância entre o singular e o coletivo que o sintoma sustenta. Por força e exercício do ofício, um psicanalista se responsabiliza pelo que a psicanálise e a clínica lhe ensinam sobre o que é o controle do dizer, que é também o controle do pensar e do limite do gesto de um outro. Por força e por exercício do ofício, um psicanalista não pode recuar no espaço público diante da ameaça à democracia. Não pode se curvar ao ódio, e não deve responder especularmente ao ódio.

 

Para que os odiadores e os odiados possam seguir deslocando-se de seus lugares e posições, para que possamos achar palavra e movimento, hoje desdobro minha condição de psicanalista em direção à cidade para dizer  #DemocraciaSim.”

 

(Ilana Katz, psicanalista, São Paulo)

 

MATÉRIA 6 -  UM PERFIL PSICÓLOGICO DE JAIR BOLSONARO

(Redigida antes da vitória de Bolsonaro no 2º. Turno)

 

http://www.tiagocabral.net/2018/08/um-perfil-psicologico-de-jair-bolsonaro.html

 


Escrito por Psicólogo Tiago Cabral  agosto 06, 2018

 

Esse texto foi publicado originalmente em forma de uma Thread no meu Twitter onde vamos usar um pouco de psicanálise para entender por que o conservadorismo está tão popular e por que se destacam figuras como a de Jair Bolsonaro.



Pra começo de conversa, psicanálise é uma ferramenta teórica terapêutica embasada na filosofia, sociologia e outros desenvolvida pelo famoso médico Sigmund Freud e seu conceito principal é o inconsciente.

Freud e outros autores contemporâneos também pensaram na “psicologia as massas” e descreveram que em momentos de crise social e econômica as pessoas tendem a se sentir inseguras, o que gera uma necessidade de procurar autoridades que se parecem com figuras paternas.


Para a psicanálise uma figura paterna não é um pai literal, mas sim uma figura de autoridade que diz como você deve se comportar e até mesmo quais devem ser os seus desejos.


A psicanálise diz que em sociedades em crise essas figuras são sedutoras e perigosas, pois levam as pessoas a abrir mão de seus próprios pensamentos em troca dessa falsa sensação de segurança.

 

Também nos é dito da coesão grupal. Um grupo social é um conjunto de pessoas com características semelhantes e um objetivo em comum. Fazer parte de um grupo traz a sensação segurança às pessoas.

 

Portanto, ao eleger  características  ou comportamentos “ideais” para as pessoas faz com que elas se sintam parte de um grupo ao seguir essas regras. Uma outra forma de tornar um grupo coeso é fazer com que ele tenha um inimigo comum que seja a causa de todos os problemas.

 

Outra característica observada pelos psicanalistas é um culto ao “homem comum” por essa autoridade que assume características como um senso de “honestidade” ao dizer o que quer, e um discurso extremamente simplista (senso comum) que cria uma falsa sensação de representatividade.

Estas características foram descritas pelos psicanalistas principalmente tendo como exemplo sociedades fascistas, ou seja baseadas na autoridade e no conservadorismo que são conhecidas por reprimir violentamente seu povo e limitar seus direitos.

 


Portanto temos em Bolsonaro: uma figura paterna (que diz o que você tem que fazer, sentir, desejar), que faz as pessoas se sentirem parte de um grupo ao eleger um inimigo comum (esquerda/PT) e apresenta soluções simples para problemas complexos, mesmo que sejam falsas e faz com que o “homem comum” se sinta representado.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

MATÉRIA 7 -  Como superar o trauma dessas eleições, segundo o psicanalista Christian Dunker

(Redigida após a vitória de Bolsonaro no 2º. Turno)

https://www.vice.com/pt_br/article/3km3vb/como-superar-o-trauma-dessas-eleicoes-segundo-o-psicanalista-christian-dunker

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Por Danilo Venticinque; ilustrado por Flora Próspero e Juliana Lucato

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Oct 30 2018

 

Para curar as feridas do pleito marcado por rupturas, brigas, mortes, mentiras e má fé, o professor dá a dica: “Tome distância, mas não se desligue.”

 

Professor do Instituto de Psicologia da USP e dono de um popular canal sobre o tema no YouTube, o psicanalista Christian Dunker colocou o eleitorado brasileiro no divã. Seu vídeo “A psicanálise e o discurso de Jair Bolsonaro” recebeu mais de 750 mil visualizações nos últimos dois meses. Sua conclusão de que Bolsonaro “extrai de nos o que temos de pior” motivou muitas críticas e ofensas de seguidores do candidato, mas Dunker não pareceu se abalar. Pelo contrário: usou os comentários desses eleitores como inspiração para dois novos vídeos no canal analisando o discurso de apoiadores do PSL e do PT. Terminadas as eleições, Dunker volta ao tema, desta vez abordando a saúde mental dos eleitores. Em entrevista à VICE, ele faz um diagnóstico dos traumas e as rupturas causadas pelo processo eleitoral e propõe ideias para curá-los. 

 

VICE: Uma eleição atípica e cheia de conflitos como a que o Brasil viveu poderia ser considerada uma experiência traumática, no sentido psicanalítico do termo?

 

CHRISTIAN DUNKER: Um trauma atinge diferentes pessoas de diferentes maneiras, portanto nem todos sofrerão efeitos desta natureza. O que torna um evento realmente traumático é a conexão entre o fato e a fantasia de cada um, que interpreta e simboliza ou repudia e rejeita o que se passou. Um trauma envolve dois tipos de efeitos. Há os positivos, como a recorrência de sonhos e pesadelos e a repetição de palavras e imagens que nos causam mais medo. É essa a reação que temos, por exemplo, quando passamos por um assalto ou um acidente de trânsito: as cenas ficam se repetindo, perdemos o sono, nos congelamos na repetição daquele instante que não passa. Mas há também os efeitos negativos do trauma, não no sentido de que seriam piores que os efeitos positivos, mas porque apagam ou neutralizam o ocorrido. Pessoas sob esse efeito vivem o evento traumático “como se nada tivesse acontecido”. A transmissão silenciosa do trauma expõe a pessoa ao seu retorno inadvertido mais à frente. E ele retorna em atos disruptivos de violência, em reações de choro ou de despersonalização, em rupturas inexplicáveis de laços e relações. Este segundo grupo de efeitos do traumático traz a repetição que às vezes demora gerações inteiras para se realizar e ao que parece está sendo empregada pela retórica eleitoral para evocar fantasias dormentes de gerações anteriores, com seus respectivos traumas.

 

Como é possível superar esses traumas?

 

A forma de superar traumas é fácil de enunciar e difícil de praticar. É preciso um esforço coordenado de lembrança e reconstrução da história. É preciso um esforço de subjetivação ou de implicação de cada qual nos acontecimentos e suas consequências. É preciso simbolizar coletivamente o que se viveu coletivamente como traumático. Finalmente, é preciso ações de reparação, de reconhecimento, em vários níveis: pessoal, familiar, comunitário e institucional, o que é mais difícil quando se consideram as violências de Estado.

 

Que lições o país poderia aprender com nações cujas populações passaram por processos políticos traumáticos?

 

Há alguns modelos para assimilar, todos eles relativos a culturas diferentes da brasileira, mas com contribuições importantes, pesadas as suas relatividades. Do pós-guerra alemão devemos reconhecer a importância da educação política e do regramento de certas estratégias institucionais de formação crítica. Da experiência sul-africana e sua comissão de Reconciliação e Verdade é preciso extrair a importância do reconhecimento de abusos praticados e das experiência públicas de reparação. Das experiências com as ditaduras sul-americanas deveríamos tirar a importância de punir os verdadeiros mandantes ainda que seja no longo prazo histórico. Das guerras civis na Guatemala e em demais países centroamericanos devemos trazer a importância de reconstituição da história das famílias e dos ritos e partilhas coletivas que são desmembrados e apagados pelos traumas políticos. As experiências locais precisam de alguma generalização para que o trauma particular, daquele grupo de pessoas, seja elevado à condição de universalidade, que toca a todas as pessoas, para desta extrairmos um fragmento singular que sirva a cada um de nós na transmissão desta experiência. Desta maneira transformamos o pior do sofrimento no melhor da partilha social de uma experiência comum. Impedimos que a vergonha se transforme em ressentimento e vingança, amenizando assim a tentação da repetição.

 

"Aquele que xingou movido pelo espírito de massa provavelmente esquecerá o que disse. Mas aquele que foi ofendido seguirá com as palavras ofensivas na sua carne."

 

Algumas pessoas, particularmente gays e membros de outras minorias, relataram sentir-se "abandonados" por familiares que votaram em Bolsonaro. Como o senhor avaliaria o dano que as eleições causaram as relações familiares?

 

O dano é muito mais prejudicial do que se imagina. Aquele que xingou movido pelo espírito de massa e pela coragem odiosa que se apossa de nós nestas circunstâncias provavelmente esquecerá do que disse. Se enganará atribuindo seus atos e palavras às circunstâncias, à guerra de todos contra todos, que é a política. Mas aquele que foi ofendido, o vulnerável que depende de alguma tolerância e respeito, seguirá com as palavras ofensivas na sua carne. É como uma situação de prova real, na qual descobrimos, pela agonia e severidade da situação, quem é quem. É nessa hora que surgem os heróis anônimos, que nos estendem a mão de onde menos esperávamos, mas também dos vilões decepcionantes, aqueles que quem esperávamos algo mais além da isenção calculada ou da covarde neutralidade. Esta situação nos leva a desconfiar de nossas identificações verticais, ou seja, a quem atribuímos maior poder de proteção e auxílio, e a valorizar mais nossas identificações horizontais, ou seja, aqueles outros, que, como nós, se veem confrontados com efeitos similares de opressão e segregação.

 

É possível reparar os danos a essas relações?A reparação é possível e desejável, mas em geral ela toma um trabalho que as pessoas não estão muito dispostas a realizar nas condições de vida “normal em pressão e temperatura”. O mais esperado é que sobrevenha uma espécie de pressão para o esquecimento, de perdão por decurso de prazo, de redução do efeito das palavras, o que é péssimo para a vida política e para a elaboração de conflitos. Os efeitos desta ausência do trabalho de reparação podem ser sentidos, inesperadamente, muito tempo depois: o filho que se recusa a cuidar do velho pai doente, a filha que se retira para outro país perdendo contato com sua família de origem, o sobrinho que corta relações diplomaticamente com aquele ramo da família. Tudo isso de forma limpa e silenciosa, desperdiçando assim nosso capital social mais precioso e nossa relações de cuidado mais importantes para o seguimento da jornada. O sofrimento mal tratado individualiza as pessoas, que depois se queixarão de solidão e abandono.

 

"O sofrimento mal tratado individualiza as pessoas, que depois se queixarão de solidão e abandono."

 

Alguns eleitores chegaram a cometer atos de violência física contra opositores nas últimas semanas. Depois de eleições marcadas pela forte rejeição entre candidatos e eleitores dos dois lados, é possível restabelecer a tolerância?

 

A tolerância vai ser restabelecida. Se seguimos os padrões americanos isso vai acontecer mais rápido do que pensamos. A fórmula mágica do “voltemos a trabalhar” será aplicada e as coisas ditas e feitas cairão sob a penumbra da tolerância. No entanto penso que, para nosso momento de antagonismo social, tolerância é pouco. Precisamos de bem mais do que isso, ou seja, manter uma distância respeitosa e um silêncio obsequioso sobre o outro, suas opiniões e sua forma de vida. Nenhuma inclusão escolar será bem sucedida se se limitar à tolerância, nenhuma solidariedade produtiva será realizada à base de cada qual em seu quadrado, fazendo sua parte para nosso “belo quadro social”. Se queremos que a diversidade de raça, de gênero, de classe, de formação cultural, seja realmente produtiva, precisamos de estratégias ativas de mediação. Não basta colocar todo mundo num mesmo caldeirão, mexer bem, colocar fogo em baixo e dizer: "Abracadabra! Faça-se uma nação!" Uma verdadeira diversidade de desejos vai além da distribuição judicialista das nossas propriedades de gozo, identitárias, ideológicas e subjetivas.

 

"Para o nosso momento de antagonismo social, tolerância é pouco. Precisamos de bem mais do que isso."

 

O ódio e a insegurança causados pela política já chegaram aos divãs dos psicanalistas?

 

Chegaram como nunca, balançando a atitude dos psicanalistas tanto com relação ao conflito subjetivo de seus pacientes quanto o sentido político de sua inserção no espaço público. É possível sim tratá-los porque os conflitos políticos apenas intensificam as fantasias e os sintomas de nossos pacientes, porque inflacionam sua experiência social e intersubjetiva de sofrimento. Mais do que nunca comprova-se a tese freudiana de que os delírios contém um fragmento de verdade, inclusive os delírios políticos. Mais do que nunca se mostra como a associação livre e a força da palavra têm uma função terapêutica em situação de censura e opressão. Mais do que nunca precisamos desfazer identificações imaginárias, em torno do grande mal, do grande inimigo, da posição que nunca consegue se perguntar: “qual a sua contribuição para a miséria da qual você se queixa?”. Mais do que nunca precisamos pensar sobre nossa paixão pela violência, pela nossa tentação ao sadismo ou ao masoquismo, e ao uso que fazemos do outro para recalcar nosso próprio desejo. Mas do que nunca é importante perceber que nunca somos tão maus senão quando nos apegamos aos ideais de bondade ou de purificação.

 

Já se disse que estamos na era do pós-verdade, em que somos expostos cada vez mais a informações falsas e temos dificuldades de saber o que é real. Que impacto isso tem sobre a saúde mental dos brasileiros?

 

É grande o impacto da experiência digital em nossa subjetividade. Isso se dá tanto porque estamos diante de uma nova forma de linguagem, com sua velocidade própria, com seus efeitos de negação novos e com suas alienações ainda insuspeitas, quanto porque estamos em uma espécie de reconfiguração de modos de relação e consequentemente de nosso narcisismo, com as respectivas patologias de redução do tamanho do mundo, aumento do volume do eu e tensionamento da gramática da diferença e indiferença. O terceiro impacto subjetivo deste estado de coisas diz respeito à estrutura do saber e a economia da sua autoridade. Formas de opinionismo, de impulsão à pseudo-participação e a crença de que a verdade é realmente apenas um fator de convenção tornam-nos mais frágeis e expostos à falta de critério e de crítica, o que retorna sobre nós com uma incrível voracidade de auto-exigência, culpabilização e auto-observação.

 

Para uma parcela considerável da população brasileira, essas eleições foram um processo de decepção e ruptura. O sentimento de pertencimento ao país pode ser afetado por isso?

 

Isso iria acontecer em algum momento. Aprendemos com a psicanálise que a história dos desejos desejados não se apaga nem se evapora. As contas com nosso passado escravista, com nossa razão segregatória em termos de classe, com nosso desprezo pela distribuição dos bens simbólicos como a cultura e a sociabilidade, tudo isso deixa uma dívida. Uma dívida simbólica que ou é paga e elaborada ou retornará em formações de violência disruptiva. O sentimento social de injustiça, nosso pacto de distribuição de poderes, nossa alienação histórica e nossa tendência a colocar a causa de nossos problemas no outro parecem ter chegado ao fim. Como ao fim chegou nossa confiança e nosso ideal de que é possível uma vida em forma de condomínio, onde alguns se salvam atrás dos muros e outros se matam, também atrás dos muros. Essa estratégia chegou ao fim, é preciso entender a radicalização e não simplesmente rezar para que ela passe.

 

É preciso entender a radicalização e não simplesmente rezar para que ela passe."

 

Que recomendações gerais o senhor daria para quem quer manter a saúde mental no Brasil de Bolsonaro?

 

Antes de tudo, tome distância mas não se desligue. Cuide de si, mas não abandone a conversa. Encontre seu lugar, entre os seus, mas também com alguma diferença. Não imagine que a solução para o ódio seja um estado de paz e beatitude. Um pouco de raiva é importante para nos separar. Muita raiva, ao contrário, cansa, mata e não produz nada. Não se refugie na culpa, seja a própria, seja a do outro. Experiências coletivas nos fazem dividir o pior e melhor, não há santos nesta jornada. É importante autocrítica, assim como é importante o trabalho de luto. Luto de pessoas “perdidas”, de ideais perdidos, de sonhos perdidos. Faça o luto em toda a sua extensão. Por outro lado é preciso levar a sério o que se deu em termos de novas formas de organização e pertencimento que surgiram no interior do caos. Nossa imaginação política precisa ser reinventada, a nossa experiência política precisa ser trazida de volta para o cotidiano e para a vida ordinária das pessoas, porque com isso podemos praticar e pensar a pequena transformação e a grande ou pequena resistência. A palavra, a palavra partilhada com o outro é fundamental nessa hora. Não deixe que ela se degrade como estamos vendo nestas eleições.

 

MATÉRIA 8 – Bolsonaro pratica “política da paranoia” em país com “patologia histórica profunda”, diz psicanalista

(Redigida após a vitória de Bolsonaro no 2º. Turno e antes da posse)

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/psicanalista-diz-que-bolsonaro-pratica-politica-da-paranoia-em-pais-com-patologia-historica-profunda/

28-11-2018 

Por Paloma Varón

 

Um mês após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência do Brasil, intelectuais e pesquisadores ainda tentam entender o que levou um povo conhecido internacionalmente por sua cordialidade e alegria a eleger um candidato de extrema direita. Para o psicanalista, ensaísta e professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp Tales Ab’Saber, a própria psicanálise, mas também a filosofia e a literatura podem explicar as contradições de um Brasil em crise de identidade.

 

“Os brasileiros ficaram loucos?”, perguntou uma conhecida jornalista na rádio France Inter ao entrevistar o fotógrafo Sebastião Salgado após a eleição. Salgado respondeu: “Foi o Brasil que ficou louco” e remontou à destituição de Dilma Rousseff em 2016.

 

Esta também é a opinião de Ab’Saber, autor do livro “Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica”, entre outros, e vencedor de dois Jabutis (em 2005 e 2012). “O Brasil ficou louco, sim. Uma loucura que diz respeito claramente a romper o pacto democrático ocidental, seus princípios de civilidade e sociabilidade, e até mesmo seus fundamentos legais, já que a velha ética, no nosso caso, já foi dispensada há muito tempo”, dispara.

 

RFI - Quais os efeitos dessa "loucura"?

 

Tales Ab’Saber - O Brasil se torna reduzido e provinciano novamente, caipira e inimigo dos valores democráticos globais. Parece mesmo que o Brasil está louco, rompendo os tratos societários da vida contemporânea global. Pelo menos é isso que ouvimos todos os dias da imprensa liberal mundial e de cidadãos democráticos esclarecidos de toda parte. Todo mundo nos diz que estamos loucos, é verdade. E não é de hoje. Não por acaso já diziam isso abertamente durante os 18 meses da crise artificial movida para a derrubada da presidente Dilma Rousseff. Um ano e meio de país parado e bloqueado por si mesmo. E depois diante das práticas de exceção jurídicas de muitas ordens utilizadas para criminalizar e prender o ex-presidente Lula, criando as condições estranhas para a eleição de um Bolsonaro, para muitos juristas, de toda parte, um julgamento sem provas. As elites brasileiras, e o povo brasileiro engajado no populismo autoritário do ex-capitão do Exército, de fato fizeram – ou desfizeram – tudo isso em apenas quatro anos. Uma loucura política única, de efeitos graves, até mesmo para um país como o Brasil.

 

RFI - Como aconteceu esse processo?

 

TAB - Hoje existem juristas que dizem simplesmente que a Constituição brasileira de 1988 não legisla mais. Ela é usada, falseada e ultrapassada de acordo com os poderes que estão em jogo, a cada momento do quadro de forças e de interesses. Nossa ordem jurídica seria uma falsificação interessada, pronta para ser negada, como foi em muitos momentos da criminalização da esquerda, ou da liberação geral dos atos de quebra de decoro democrático de Jair Bolsonaro, espantosos, por um pacto social ordenado desde cima, que o desejou e criou como uma alternativa possível. O Brasil tornou a voz de uma posição exterior à democracia democrática. E, de fato, o interesse das elites ditas modernas, que agora se acanham diante do mau humor do mundo com o destino do Brasil, é que o governo de extrema direita no poder destrua de modo livre e definitivo os pactos sociais que foram necessários, acordados na saída da ditadura em 1988, que orientavam a construção da tênue social democracia brasileira, para fazer o ajuste fiscal desejado, tornado hoje como um verdadeiro Santo Graal econômico da vida brasileira e da cabeça de tabela de bolsas de valores de nossas elites. E, como todo mito, pronto para explodir no ar.

 

RFI - As "fake news" são um sintoma da doença?

 

TAB - O Brasil está louco, por todos estes critérios de civilidade, cosmopolitismo e de lei que perde a própria legitimidade. E também não. Não, o Brasil não está louco. Porque, apesar da novidade tecnológica espetacular do uso maciço e de forma ilegal de mentiras industriais na internet, deste novo tipo de tomada do poder de nossa elite com tendências antidemocráticas, de fato observamos apenas o retorno de um ciclo de desrespeito democrático de uma nação que foi constituída assim desde suas raízes. Apenas verificamos mais um dos tropeços de nosso trabalho democrático, um grande mal-entendido, como dizia Sérgio Buarque de Holanda, que vai alinhar esta fase perigosa da democracia brasileira com os períodos antissociais ou não democráticos do passado: nosso Império escravocrata do século XIX, nossa República Velha antipopular e racista, a ditadura dos anos 1930 e 1940, de Getúlio, e por fim, mas não por último, a ditadura militar da Guerra Fria de 1964-1985, na qual tem origem o espírito belicoso e de política da paranoia de Jair Bolsonaro.

 

RFI - Nada de novo, então?

 

TAB - Não, sobre este aspecto o Brasil apenas reedita os seus tradicionais fundamentos psicopolíticos autoritários e conservadores, cujas origens, as raízes, estão na nossa configuração econômica escravocrata e concentracionária colonial, nosso conservadorismo simbólico católico ibérico e cortesão e nosso atraso satisfeito, nossa burrice ostentada, em relação ao andamento produtivo do mundo moderno. 

 

RFI - Mas o Brasil parecia ter avançado...

 

TAB - Embora o mundo não saiba direito, e nos julgue por liberais, democráticos e criativos, há um Brasil real que sempre foi inimigo desta modernidade que o próprio país representou em algum momento do século XX, a modernidade derivada e expressa em nosso modernismo cultural, uma modernidade que poderíamos chamar de erótica. Sempre existiu um forte Brasil autoritário, antissocial e antierótico, que talvez o mundo desconhecesse em intimidade. Mas nós não. Certamente esta é uma faceta triste de nossa normalidade nacional, de fato a nossa maior loucura, nossa própria história, que insiste em se repetir.

 

RFI - E qual seria, então, o remédio para esta loucura coletiva?

 

TAB - Podemos dizer que não estamos mais nas condições de alienação e miséria dos anos de 1960, da nossa última gestão política abertamente autoritária: o país se modernizou, se integrou numa sofisticada rede de comunicações e milhões sentiram a experiência da subjetivação política e da cidadania nos últimos anos, embora o resultado produzido na política seja uma lamentável tendência neofascista, uma real regressão democrática. Há acumulação de experiência e algum debate público, nem sempre isento ou qualificado, que será interessante observarmos o desenvolvimento quando os equívocos anunciados e as violências projetadas do governo da nova direita se revelarem. Como está escrito no túmulo de Marcuse, em Berlim, não temos nenhuma alternativa neste momento, apenas a certeza de que 'o trabalho da civilização continua'.

 

RFI -O médico e psicanalista Donald Winniccott escreveu que “a democracia pressupõe maturidade para lutar com as contradições”. Neste caso, eleger alguém que diz que as minorias têm de se adequar à maioria é antidemocrático?

 

TAB - Para Winnicott, como para a psicanálise, nossas capacidades de pensar, de imaginar, de sonhar e de desejar estão assentadas em profundas raízes emocionais, na origem mesmo de nossa relação com a realidade partilhada, da qualidade dos vínculos afetivos com o outro que vivemos e da introjeção da negatividade universal da lei comum. Pensamos e agimos com base no que ordenamos inconscientemente como os vínculos de amor, ódio, respeito ou competição, com nossos objetos internos, os outros que nos constituíram.

 

A norma kantiana de mútuo reconhecimento ético racional não é nem nunca foi inteiramente sustentável pela estrutura de lei particular do desejo humano, nos diz com realismo e algum pesar a psicanálise. Mas haveriam condições emocionais boas, necessárias, de raiz inconsciente, que ele chama de maturidade, para o bom exercício, na medida do possível, da vida de uma democracia.

 

Neste sentido, seria importante uma sociedade democrática evitar a própria patologia, a sua tendência à cisão e ao fascismo, permitindo a chegada ao poder de homens que não têm claro os direitos à existência, à vida e aos direitos, do outro. Enfim, homens que desrespeitem abertamente os direitos humanos e acreditem em soluções mágicas e violentas para as complexidades da vida democrática plural. Pois foi exatamente isso que a paixão política popular, e a astúcia das elites antissociais brasileiras, fizeram: permitiram um semblante antidemocrático chegar ao poder em uma democracia.

 

RFI - A obra de Machado de Assis traz algum paralelo com o Brasil de hoje?

 

TAB - Se prestarmos atenção ao círculo de homens grotescos e verdadeiros malandros políticos que cercam Bolsonaro, veremos vários dos tipos irresponsáveis, autoritários e delirantes, com certeza social garantida na sociedade de escravos, parecidos com personagens de Machado de Assis, reeditados agora sob outra roupagem, pós-moderna em época de comunicação degradada na internet. Como já foi dito, a história do Brasil avança, mas não passa. Assim, os de baixo, que votaram no líder autoritário, têm muita vocação para Rubião, o ingênuo e basbaque servo do poder que não tem contrapartida de Quincas Borba, enquanto a elite que sustentou o projeto Bolsonaro, nunca foi tão escancaradamente Brás Cubiana, volátil, esperta e cínica quanto hoje. Machado de Assis realmente entendia de patologias sociais em sociedade de patologia histórica profunda.

 

RFI - Muitas pessoas adoeceram diante da violência dessa campanha...

 

TAB - Há um bom tempo que temos, de um lado, luto e desespero, degradação da esperança política comum e sofrimento, e de outro, excitação e passagem ao ato, gozo ilusório e gosto pela violência, nas palavras ou nos atos, no Brasil contemporâneo.

 

De um lado estão aqueles que viram a destruição do projeto e do pacto democrático que funcionou até 2014, do outro os vencedores da violência simbólica e política atual, que gozam com suas novas práticas de predomínio e poder. Se observarmos as toneladas de mentiras veiculadas pelos bolsonaristas na internet para degradar o sentido político de seu adversário, teremos acesso a um verdadeiro museu contemporâneo da perversão bizarra e mórbida, da degradação da linguagem a uma modalidade de fragmentos de pesadelo, grotescos pop, inimaginável em qualquer ordem de direito minimamente mediada por uma lei decente.

 

O pessoal se esmerou na perversão do imaginário bizarro e sádico para efeitos de política democrática, que pressupõe alguma racionalidade pública mínima, mas não era esse o nosso caso, de modo algum. É a forte tendência à difamação, calúnia e delinquência simbólica da nova direita agressiva brasileira. Do outro lado temos o luto e a melancolia degradante, a exaustão e a perda de referências, diante da vitória do que nos parece o pior existente e da perda da presença efetiva e à altura do tempo da esquerda despedaçada. Por isso escrevi em algum momento deste processo cindido, entre dor e excitação: hoje no Brasil quem não está doente, está doente, e, quem está doente, não está doente.

 

 

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