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As ideologias foram necessárias para o desenvolvimento do homem até que...

através da ciência, o conhecimento atingisse o avançado estágio a que chegamos hoje. Entretanto, como a governança da humanidade continua nas mãos de lideranças politicas que já demonstraram a sua iinsanável incompetência para adotar métodos de uma gestão voltada para o bem comum, as ideologias continuam, embora moribundas, a ocupar espaço em nossos dias. O objetivo da Ideologia Zero é demonstrar que a solução dos problemas da humanidade não pode mais depender de nenhuma ideologia, seja ela politica, filosófica ou religiosa, simplesmente porque todas as ideologias já tiveram a oportunidade de serem testadas, tendo revelado o mais rotundo fracasso. A série de artigos que começamos agora a publicar no site do IMLB fará parte da edição eletrônica do livro "Ideologia Zero" com  debates desde já abertos  a todas as pessoas interessadas.

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IDEOLOGIA ZERO - 1

O que distingue o homem dos outros animais é a palavra como expressão do pensamento. E para expressar seu pensamento, o homem inventou milhares de palavras, sendo que até hoje  existem pensamentos ou sentimentos para cuja expressão não encontramos palavras. Reproduzo abaixo, uma passagem do meu livro "Lógica na comunicação humana" que aborda as vicissitudes da palavra.
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Tendo muito mais coisas para nomear * do que permitia o seu reduzido vocabulário, os humanos da pré-história e da antigüidade usavam um mesmo vocábulo para designar diferentes emoções, idéias ou objetos. A atribuição de diferentes significados a uma mesma palavra recebeu em nossos dias o nome de "polissemia".

*Ao contrário das palavras que têm uma limitação física, o pensamento e as emoções apresentam um potencial ilimitado de criação. Além disso, a palavra é material, sendo por natureza inadequada para expressar fenômenos imateriais. Quando tentamos traduzir em palavras um sentimento como o amor, frases como "eu te amo", mesmo quando sinceras, representam apenas longinquamente o real significado deste sentimento. Para expressar sentimentos e emoções a linguagem não verbal se revela muito mais eficaz. Um sorriso, um suspiro e uma lágrima, por exemplo, tornam possível expressar o que as palavras não conseguem.
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O homem moderno mantém até nossos dias o viés milenar da polissemia. Só mais recentemente, com a advento da lingüística, a ambigüidade da palavra, passou a ser objeto de pesquisa científica. Muitas palavras, desde as mais simples, a exemplo das interjeições, até as mais complexas, utilizadas tanto na linguagem científica como na popular, sofrem, ainda hoje, do mal da imprecisão, que acabou se incorporando à linguagem corrente como uma "norma cultural" característica da linguagem. Assim, uma única interjeição - "ah!" - denota alegria, satisfação, desejo, excitação, espanto, frustração e até desânimo! (Por esta razão, não é aconselhável o uso de interjeições, principalmente quando não acompanhadas de outras frases ou palavras que deixem claro o sentido que o usuário está lhes emprestando.) As interjeições e frases exclamativas continuam desempenhando até hoje a função de veículo da agressividade humana, como ocorre com os palavrões aos quais os indivíduos, apelam, no mais das vezes, com a finalidade de exteriorizar perturbações emocionais. Outra importante razão histórica do uso ambíguo das palavras, foi registrada por Freud (1910) em seu artigo "A significação antitética das palavras primitivas", quando recorreu a um texto do filólogo Karl Abel, escrito em 1884. Neste texto, citado por Freud, Abel chama a atenção para o duplo significado de termos básicos utilizados na língua egípcia:

"...nesta extraordinária língua não só existem palavras significando igualmente ‘forte’ ou ‘fraco’, e ‘comandar’ ou ‘obedecer’, mas há também compostos como ‘velho - jovem’, ‘longe - perto’, ‘fora - dentro’, que apesar de combinarem os extremos de diferença, significam somente jovem, perto e dentro, respectivamente.
Deste modo, nestas palavras compostas, conceitos contraditórios se combinaram de modo inteiramente intencional, não de maneira a produzir um terceiro conceito, como às vezes acontece no chinês, mas apenas de modo a usar o composto para exprimir a significação de uma de suas partes contraditórias. * (...) Nossos conceitos devem a sua existência a comparações. Se sempre houvesse luz, não seríamos capazes de distinguir a luz da escuridão, e conseqüentemente, não seríamos capazes nem de ter o conceito de luz, nem a palavra para ele (...) "
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* Nota de MC:  Na verdade, estes termos de dupla significação não eram "contraditórios" e sim "contrários,  opostos. Confundiu-se aqui, no texto original ou na sua tradução, "contradição" com "oposição".

Com o desenvolvimento da comunicação humana, este sistema lingüístico foi abandonado por razões de ordem prática: assimilado o conceito de relação por oposição, não havia mais necessidade de referir, na mesma expressão verbal, os antônimos: jovem tinha o sentido preciso de "não - velho" e velho, o sentido preciso de "não - jovem". Na medida, porém, em que o universo da linguagem foi se expandindo, a conceituação precisa das palavras tornou-se cada vez mais difícil. Perdemos em precisão dialética para ganharmos em conhecimento: cada nova descoberta ou invenção passou a exigir uma nova palavra. Da simples oposição velho-jovem, evoluímos para bebê-criança-jovem-adulto-velho, etc., onde "jovem" que significava precisamente o oposto de "velho", passou a transitar, ambiguamente, de um estado para outro: na ótica de uma pessoa de 80 anos, outra de 60 é vista como jovem. A linguagem tornou-se assim, sutil, mas eivada de conceitos ambíguos e relativizados. Além disso, a introdução de cada nova palavra demandava uma descrição de seu significado, através do uso de palavras pré - existentes. Este quadro de imprecisões e ambigüidades levou alguns lógicos a concluir pela inevitabilidade do círculo vicioso da linguagem.
Algumas palavras foram adquirindo, ao longo do tempo, cada vez mais novos significados que os dicionários consagraram, chegando-se ao absurdo de uma mesma palavra, como o verbo sentir, receber 23 signficados diferentes, (Cf. Aurélio, 1986) sendo um deles,   "compreender". É óbvio que pelo menos nos últimos 100 anos na língua portuguesa falada no Brasil, sentir é uma coisa e pensar é outra. Tudo indica porém, que na maioria das outras línguas esta diferença entre os dois termos já existia há muito tempo. Quando estes exageros da polissemia ocorrem, os usuários da língua acabam chegando elegendo alguns signficados básicos e excluindo outros. No caso do verbo sentir, a decisão (lógica) deixou de lado todos os signficados relacionados com a área mental (entender, compreender, pensar, etc.) para contextualizar este termo no âmbito do mundo afetivo-emocional.

E no caso do termo ideologia, o que teria ocorrido? Existiria hoje um significado básico atribuido pelos especialistas de modo que o público em geral pudesse reconhecer este signficado sem ter que fazer uma pesquisa como esta que acabou nos conduzindo a escrever um livro???!!!  Um livro para definir o significado de uma palavra? Pior que isso: um livro que tinha por objetivo definir o significado de uma palavra e que mudou de rumo para propor a virtual extinção desta palavra, através da expressão especialmente criada com esta finalidade - "ideologia zero".

Vejamos que significados o Aurélio atribui ao termo ideologia:  ideo + log (o) + ia *

1. Ciência da formação das idéias.  
2. Tratado das idéias em abstrato.  
3. Sistema de idéias.
4. Pensamento teórico que pretende desenvolver-se sobre seus próprios princípios abstratos, mas que na realidade é a expressão de fatos, principalmente sociais e econômicos, que não são levados em conta ou não são expressamente reconhecidos como determinantes daquele pensamento.
5. Sistema de idéias dogmaticamente organizado como um instrumento de luta política.
6. Conjunto de idéias próprias de um grupo, de uma época e que traduzem uma situação histórica: ideologia burguesa.

Nota de MC:   * ideo = idéia (grego); logo = estudo, ciência (grego), sendo que edeologia significa, segundo o mesmo dicionário, estudo dos órgãos genitais, onde edeo = órgãos genitais

Basta uma simples leitura destes 6 significados para se perceber que alguns deles são completamente antagônicos como é o caso dos significados 1 e 4. Assim, se o leitor tiver que usar a palavra ideologia, recorrendo a este dicionário, vai ser obrigado a escolher um ou mais significados que não sejam antagônicos entre si. E para isso vai ter também que se valer de alguns critérios pessoais com base nos quais fará a sua escolha, correndo o risco, naturalmente, de não agradar ao seu interlocutor.

Vejamos agora qual é significado atribuído pelo dicionário Webster's para " Ideology" (1977)

1. The study of ideas, their nature and source (O estudo das idéias, sua natureza e fonte)
2.The theory that all ideas are derived exclusively through sensation (A teoria segundo a qual todas as idéias são derivadas exclusivamente da sensação)
3. Thinking, speculating, or theorizing, especially when the theory or system of theories is idealistic, abstract, idle, impractical, or farfetched (Pensamento, especulação ou teorização, especialmente quando a teoria ou sistema de teorias é idealistíco, abstrato, inútil, impraticável ou artificial)
4. The doctrines, opinions, or way of thinking of an individual, class, etc. (As doutrinas, opiniões ou modo de pensar de um indivíduo, classe, etc.)

O consagrado dicionário de filosofia de Nicola Abbagno, editado no Brasil pela editora Mestre Jou, com tradução coordenada e revisada por Alfredo Bosi dedica quase duas páginas inteiras para citar os significados que foram sendo atribuídos por diversos autores, ao termo ideologia, desde que foi inventado no século XIX.  Dentre outros autores, são mencionados:

1. Destutt de Tracy, o criador da palavra ideologia; 2. Condillac; 3. Napoleão;4. Marx; 5. Pareto; 6. Mannheim

Dada a enorme quantidade de autores que meteram a sua colher nesta sopa de tão variados ingredientes (conceitos), Abbagnano deixou de citar outros importantes personagens:
7. Max Weber;  8. Gramsci;  9. Lukacs; 10. Lenin; 11. Althusser; 12. J. Thompson; 13. Eagleton; 14. Durkheim; 15. Comte; 16. Raymond Aron;  7. Locke; 18. Helvetius; 19. Hegel; 20. Bacon; 21. L. Goldman

Temos aqui uma relação de mais de 20 autores que propuseram conceitos diferentes para o termo ideologia, sendo alguns convergentes e outros radicalmente divergentes.  Mas certamente há outros autores importantes que escreveram sobre o tema e que não estão citados aqui.

Este fato, por si, já revela - e muito - que algo de errado ocorreu com a significação deste termo. Para identificar o erro cometido vamos precisar conhecer os múltiplos sentidos atribuídos por essa plêiade de prestigiados autores e examinar a consistência lógica dos diferentes conceitos ou definições, para assim podermos justificar criteriosamente a nossa concepção de "ideologia zero", já que a liberdade de criar e modificar conceitos de termos tão  importantes como este,  não deveria ser assim tão "ampla, geral e irrestrita" ao ponto de se criar tamanha confusão conceitual.    

                                                                        
IDEOLOGIA ZERO -  2

QUEM INVENTOU A PALAVRA IDEOLOGIA

O Conde  francês Antoine Louis Claude Destutt de Tracy (1754-1836), filósofo e militar, participante da Revolução Francesa, criou o termo ideologia no final do século XVIII. Em 1801,  exilado em Bruxelas, começa a publicação de "Elementos da Ideologia", em 4 volumes. Destutt de Tracy, além de ser um político liberal, era um intelectual de orientação científica. Teve,  com  sua "Ideologie", a intenção de  fundar uma nova "ciência das idéias", assim por ele conceituada de acordo com a citação de  Karl Mannhein em seu clássico "Ideologia e Utopia" (1931):

" A ciência pode ser chamada ideologia, considerando-se apenas a matéria que lhe constitui o objeto; gramática geral, considerando-se apenas seus métodos; e lógica considerando-se apenas o propósito. Qualquer que seja o nome, ela contém necessariamente estas três sub-divisões, visto que não se pode tratar adequadamente uma sem tratar as outras duas. Ideologia me parece ser o termo genérico, porque a ciência das idéias abrange a de sua expressão e a de sua derivação"

Destutt de Tracy pertencia à corrente da filosofia que sustentava a tese de que o conhecimento tinha origem na experiência e que as idéias e pensamentos não eram apriorísticos, como postulavam os filósofos idealistas, a exemplo de Descartes, para quem o pensamento tinha prevalência sobre a realidade "Penso, logo existo". 

A ideologia de Destutt de Tracy foi uma evolução do pensamento de  Condillac (1715 -1780) , outro filósfo francês que foi discípulo de Locke, (1632-1734), este um filósofo inglês que pode ser considerado, segundo Bertrand Russel,  o pai do empirismo, doutrina que situa a origem do conhecimento exclusivamente na experiência. 

Condillac e Destutt de Tracy acabaram criando uma engenhosa teoria a respeito das idéias, removendo-as do mundo imaginário de Platão para inseri-las no contexto da física, da biologia e da linguística.

Para Condillac as idéias se originam das sensações, o que lembra o "sensismo" de Epicuro, (342-270 a.C.)  para quem a sensação é o critério da verdade e o critério do bem, sendo o bem identificado com o prazer.

Para Epicuro "o prazer é o começo e o fim da vida abençoada", mas não o prazer sexual o qual considerava um mal. Era um materialista que ao mesmo tempo desprezava a religião e o prazer do sexo e privilegiava a amizade como fonte segura de prazer.

Com estas idéias, divulgadas em seu "Traité des sensacions", ( 1754) Condillac, contribuiu com a criação de Destutt de Tracy.

...dans l’ordre naturel, tout vient des sensations (na ordem natural, tudo vem das sensações)
...toutes nos connaissances viennent des sens, et particulierement du toucher (...todos os nossos conhecimentos vêem dos sentidos, e particularmente do tato.
...aussi-tôt de ces sensations, qui ne présentoient d’abord qu’un petit nombre de plaisirs grossiers, vont naître des plaisirs délicats, qui se succéderont dans une variété étonnante (logo destas sensações que não se apresentam inicialmente senão como um pequeno número de prazeres grosseiros, vão nascer delicados prazeres numa variedade admirável)
...o juízo, as reflexões, as paixões e numa palavra, todas as operações da alma não são senão a própria sensação que se transforma de várias maneiras.

Para Destutt de Tracy o conhecimento se materializa nas idéias, derivando daí a noção de que a mais importante de todas as ciências, seria a ideologia entendida como "ciência das idéias". Mas estas idéias tinham na visão de Destutt um cordão umbelical que as liga à natureza animal do homem, de modo que, assim concebida, a ideologia sensitiva se situaria no campo da zoologia. A ideologia seria, portanto, uma espécie de "ciência natural das idéias". Para levar adiante esta abordagem materialista das idéias, Destutt  se aliou ao médico fisiologista George Cabanis considerado um dos precursores da psicofisiologia moderna o qual chegou a declarar que "o cérebro secreta a consciência assim como o fígado secreta a bile".

À luz do conhecimento que temos hoje, este conceito zoológico de ideologia e consciência seria visto como uma pobre manifestação de um materialismo mecanicista e vulgar. Entretanto, essa visão reducionista da mente humana poderia ter sido o início de um processo que viesse a situar a ideologia  no campo da ciência, evitando que  fosse cooptada pela filosofia especulativa em cujo colo acabou contraindo uma doença fatal  que poderíamos chamar de "metástase polissêmica" (polissemia = uma palavra ter muitos significados distintos). Foi uma primeira tentativa na história do conhecimento de abordar o mundo das idéias com um olhar científico e que mereceu esta benévola citação de Marilena Chauí, em seu pocket book, "O que é Ideologia", coleção Primeiros Passos, Abril Cultural/Brasiliense, editado em 1984 em que comete alguns equívocos lógicos, que serão comentados em outra parte desta publicação.

"Cabanis pretende construir ciências morais dotadas de tantas certezas quanto as naturais, capazes de trazer a felicidade coletiva e de acabar com os dogmas, desde que a moralidade não seja separada da fisiologia do corpo humano".  ( M. Chauí).

QUEM FOI O PRIMEIRO INIMIGO DA IDEOLOGIA

Coube nada mais nada menos que a Napoleão Bonaparte abortar essa nova "ciência das idéias", que havia sido fundada por liberais que cultivavam a utopia da revolução francesa sintetizada em seu slogan "Liberdade, igualdade e fraternidade" através do qual os futuros donos do poder francês conquistaram o decisivo apoio popular para derrotar a monarquia, numa das revoluções mais sangrentas da história da humanidade, que teve na guilhotina um de seus principais símbolos. Militar de grande  sucesso e prestígio, Napoleão qualificou de "ideologues" seus opositores liberais, chegando a prender alguns, logo depois que assumiu o poder em 1799, através de um golpe militar, que foi a última alternativa para acabar com o caos que perdurava na França há 10 anos, desde a Queda da Bastilha em 1789. Embora Napoleão tivesse condições intelectuais para fazer uma crítica elaborada ao conceito pré-científico  de Destutt, ele tinha naturalmente coisas mais importantes com que se preocupar, bastando-lhes poucas palavras para arrasar com os ideológos e sua recém- nascida ideologia, numa reunião do Conselho do Estado, em 20/12/1812.

"à doutrina dos ideólogos, essa tenebrosa metafísica que, investigando penetrantemente as causas primeiras, tem como objetivo estabelecer sobre as suas bases a legislação dos povos, em vez de ajustar as leis ao conhecimento do coração humano e às lições da história, devem ser atribuídas todas as desgraças das nossas batalhas da França. Esses erros tinham de conduzir, e conduziram, de fato, ao regime dos sanguinários. Senão, vejamos quem foi que proclamou o princípio da insurreição como dever? Quem adulou o povo, proclamando-o o detentor de uma soberania que ele é incapaz de exercer? Quem destruiu a santidade e o respeito pelas leis, fazendo-as depender não dos sagrados princípios da justiça, da natureza das coisas e da ordem civil, mas da vontade de uma Assembléia composta de homens alheios ao conhecimento das leis civis, penais, administrativas, políticas e militares? Quando se for chamado a regenerar um Estado, é necessário seguir constantemente os princípios opostos a isso "

Essa crítica de Napoleão não passou de uma retórica de marketing político com o objetivo de neutralizar a oposição dos liberais para assim melhor atender à nova classe que ascendia ao Poder, o que fica escancaradamente exposto nesta frase:  "Quem adulou o povo, proclamando-o o detentor de uma soberania que ele é incapaz de exercer? " Evidentemente, as desgraças da França devem-se a um conjunto de fatos históricos, dentre os quais se destacam a luta pelo poder numa fase de ascensão do sistema capitalista marcada por uma crise econômica de graves proporções. Assim, inadvertidamente, Napoleão constrói uma falsa interpretação sobre a conduta dos "ideologues", incorrendo ele próprio, no mal que condenava, o que viria também a suceder com Marx, que ao mesmo tempo que combatia uma ideologia criava outra!       
IDEOLOGIA ZERO -  3

KARL MARX: O SEGUNDO GRANDE INIMIGO DA IDEOLOGIA

Marx segue a trilha aberta por Napoleão na batalha contra a ideologia, tendo porém como alvo, os ideólogos alemães, os "jovens hegelianos", ao invés dos ideológos franceses, posto que estes, à diferença dos alemães, eram revolucionários. Em "Ideologia alemã" (1845)  Marx e Engels deixam muito clara a sua visão negativa a respeito da ideologia à qual atribuem a função diabólica de servir exclusivamente aos interesses das classes dominantes:

"As idéias das classes dominantes são, em todas as épocas, as idéias dominantes, i.e.,  a classe que é a força material governante da sociedade, é ao mesmo tempo, sua força governante intelectual. A classe que  tem à sua disposição os meios da produção material controla concomitantemente os meios de produção intelectual, de sorte que, por essa razão, geralmente as idéias daqueles que carecem desses meios ficam subordinadas a ela. As idéias dominantes não passam de expressão ideal das relações materiais dominantes, consideradas estas como idéias; daí as relações que fazem de uma classe a dominante, portanto as idéias de sua supremacia. Os indivíduos componentes da classe dominante possuem, entre outras coisas, consciência, e por conseguinte, pensam.  Na medida pois, que eles dominam como classe e determinam a amplitude e o ritmo de uma época, é evidente fazerem isso em todos os setores, donde dominarem, também, dentre outras coisas, como pensadores, como produtores de idéias e regularem a produção e a distribuição de idéias de seu tempo. Destarte, suas idéias são as dominantes da época" -

(Trecho de "Ideologia Alemã" citado por E. Fromm em "Conceito Marxista do Homem", pág. 182)

É inequívoco o sentido pejorativo que Marx  atribui ao termo ideologia. Palavras como dominação e subordinação não deixam margem à qualquer dúvida sobre o caráter negativo da ideologia, posicionada no campo político, como força governante. Os governantes se servem da ideologia como arma de dominação dos governados. Portanto, enquanto Napoleão recorre a uma vaga fraseologia para combater outra fraseologia, Marx vai buscar na história e nas relações concretas entre os homens, pautadas pelo conflito de interesses entre dominantes e subordinados, os fundamentos para construir uma definição de ideologia onde procura retratar a realidade como de fato ela é.  Para Marx, governar implica a ação de dominar.  Acrescente-se que este domínio, não pode prescindir da força das armas com a finalidade de conter os atos de transgressão dos governados em relação às leis estabelecidas, seja qual for o regime político vigente, (democrático burguês ou totalitário), e seja qual for a  qualidade  do caráter  dos governantes, (altruísta ou egoísta),

Todavia, ao mesmo tempo que repudia a ideologia por ser um instrumento das classes dominantes (a burguesia era a classe dominante que ele queria derrubar pela força das armas), Marx conserva o viés científico da primeira conceituação dada ao termo por seus criadores, os ideólogos e enciclopedistas franceses, também chamados de "sensorialistas".  Marx atribui ao  termo "consciência" a mesma natureza material e animal que Destutt de Tracy e Cabanis conferem às idéias, as quais, são naturalmente conscientes e não inconscientes, como revela este outro momento de "Ideologia alemã":

"A linguagem é tão velha quanto a consciência; ela é consciência prática, tal como existe para outros homens, e por essa razão está começando realmente a existir para mim pessoalmente; pois a linguagem, assim como a consciência só brota da necessidade de intercâmbio com outros homens (...) A consciência é desde o começo um produto social e continuará a sê-lo enquanto houver homens. A principio, é claro,  consciência só se refere ao meio sensível imediato e ao conhecimento da ligação restrita  com outras pessoas e coisas exteriores ao indivíduo que vai se tornando autoconsciente. Ao mesmo tempo ela é percepção da natureza que aparece primeiro  ao homem como uma força completamente estranha, onipotente  e invulnerável, com a qual  as relações do homem  são exclusivamente animais e que os deixam totalmente atemorizados como se fossem feras; é pois uma consciência  puramente animal da natureza" ["religião natural"]

( E.Fromm - Meu encontro com Marx e Freud)
Assim, Marx comunga com os ideólogos franceses uma visão científica, ainda que embrionária, acerca das idéias, atribuindo-lhes uma origem e uma função sociais e materiais. Tanto Marx como os ideólogos franceses são, sob este aspecto, materialistas.  É crucial, porém, termos em mente que o termo "materialismo" como era usado nos séculos XVIII e XIX não tinha o sentido pejorativo que lhe foi erroneamente atribuído por seus oponentes. Ser materialista, significava buscar explicações científicas para os fatos que eram interpretados à luz de conceitos religiosos e filosóficos, portanto idealistas.  É bem verdade que a escolha do termo materialismo com este sentido de ciência, feita na época pelos filósofos não foi adequada.  Uma alternativa melhor teria sido, por exemplo, "naturalismo",  termo utilizado pelo próprio Marx, em oposição ao idealismo. Segundo Erich Fromm, Marx nunca  teria empregado as expressões "materialismo histórico" e "materialismo dialético".  ( Conceito marx... pág. 20)

Por isso o materialista poderia ser ateu ou não, da mesma forma que existem hoje cientistas ateus e religiosos. Quando estas explicações não se baseavam em  argumentos científicos, eram qualificadas como "materialismo vulgar". 

O próprio Marx critica o materialismo, nestes termos:

"A doutrina materialista referente à mudança das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são modificadas pelo homem e que o próprio educador tem que ser educado"

O materialismo em Marx surge como oposição ao  idealismo hegeliano, que serve, por assim dizer,  de adorno à ideologia,  a qual deixa de ser uma mera ferramenta a serviço das classes dominantes, para se transformar numa  construção teórica alicerçada no pensamento dos filósofos e intelectuais que lhe são leais.  O idealismo como filosofia tem aqui a função de justificar a ideologia, na tentativa, ingênua ou engendrada, de exorcisar a sua origem de classe. Em "Ideologia alemã" Marx e Engels assim se posicionam contrariamente ao idealismo alemão:

"Em contraste direto com a filosofia alemã, que desce do céu à terra, aqui nos elevamos da terra ao céu. Isto significa que não partimos daquilo que os homens dizem, imaginam, concebem, nem dos homens como são descritos, pensados, imaginados, concebidos a fim de chegar aos homens em carne e osso. Principiamos com homens reais, ativos e, baseados em seu verdadeiro processo vital, demonstramos a evolução dos reflexos e ecos ideológicos desse processo vital. Os fantasmas formados no cérebro humano  são também forçosamente sublimados de seu processo vital,  empiricamente verificável e ligado a premissas materiais. Assim, moral,  religião, metafísica, todo o restante da ideologia e suas formas correspondentes de consciência, não mais conservam o aspecto de sua independência. Não têm história nem evolução; mas  os homens, desenvolvendo  sua produção material e seu intercâmbio material, alteram a par disso, sua existência real , seu pensamento e os produtos deste. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência" E. Fromm (Conceito Marxista do Homem, pág. 182)

Outro aspecto relevante da concepção de Marx a respeito da ideologia diz respeito à falsificação da verdade. Fromm conseguiu fazer esta síntese brilhante a respeito do processo ideológico de falsificação da realidade:

".... deve-se notar que Marx, como Spinoza e mais tarde Freud, achava que a maioria do que os homens pensam conscientemente é uma percepção 'falsa', é uma ideologia e racionalização; que as verdadeiras molas mestras das ações do homem são inconscientes para este. Segundo Freud, elas têm suas raízes nos meios libidinosos do homem; segundo Marx, em toda a organização social do homem que norteia sua percepção para certas direções e o impede de dar-se conta de determinados fatos e experiências".

Aqui reside a grande arma dos processos políticos de dominação e manipulação das massas: elas não percebem o que está oculto nas mensagens que os "bichos dominantes" lhes transmitem através dos meios de comunicação. (Uso aqui a expressão "bichos dominantes" para signfiicar que as "classes dominantes" constituem apenas um estágio mais avançado - social e culturalmente- de um sistema social primitivo e natural).

O que entretanto Fromm deixou de fazer (ou se o fez não foi com a ênfase necessária) foi estabelecer uma relação entre psicanálise e ideologia, no sentido de que, tendo percepção das forças inconscientes que impulsionam o homem a adotar uma ideologia, ou seja a pensar de modo ideológico, ele poderia se livrar das ideologias do mesmo modo que se livra dos sintomas neuróticos. Assim sendo, a ideologia pode perfeitamente ser inserida no campo da psicopatologia, pois a percepção falsa da realidade é um evidente sintoma de perturbação psicológica.  Por isso a loucura humana interessa às classes dominantes, desde que, é claro, os alienados mantenham o seu desequíbrio controlado de modo a lhes permitir que se dediquem de forma contínua  e eficaz, à produção de todas as mercadorias, tangíveis ou intangíveis, que a sociedade demanda, ou que pode vir a demandar, se for devidamente estimulada,  a consumir, consumir e consumir! Podemos afirmar que a percepção falsa da realidade (ideologia) se materializa no consumismo, transformado em fonte suprema da felicidade. Assim a ideologia falsifica o sentido da vida e o significado da palavra que expressa este sentido, a palavra felicidade.

Procuramos neste capítulo proceder a uma síntese fiel do conceito marxista de ideologia ( com base nas próprias palavras de  Marx e não de seus seguidores falando a respeito de Marx) de modo a permitir ao leitor formar uma visão objetiva e não ideológica acerca dos significados básicos atribuídos por Marx ao termo ideologia.

Lembro a propósito desta minha preocupação em reproduzir fielmente o pensamento dos autores que vão aqui desfilar seus conceitos de ideologia, que grande parte deles carece de objetividade na comunicação, que se revela em:

* Reproduzir o pensamento de outros autores com suas próprias palavras, sem deixar claro se está interpretando ou descrevendo o texto escrito por terceiros
* Não especificar o sentido com que usa termos chaves
* Falta de didática na exposição das idéias  
* Emprego de uma linguagem tecnicista que impede a compreensão do texto por parte dos leigos.

O quanto eu mesmo estou incorrendo em alguma (s) desta (s) falhas é uma questão a ser verificada juntamente com o leitor, já que este livro além de ter a sua versão virtual, é interativo.

Cabe ainda lembrar que as eventuais distorsões ideológicas em que Marx incorre ao elaborar sua concepção de ideologia serão objeto de outro capítulo.

IDEOLOGIA ZERO -  4
Lenin rompe a unidade conceitual conferida por Marx à ideologia

Para Lenin, ao contrário do que pensava Marx,  não é apenas a burguesia que tem o privilégio de fazer da ideologia um instrumento de dominação, o qual estaria ao alcance também de sua classe antagônica, o proletariado. Ora, se a proletariado deve também ter a sua ideologia,  esta deixa de ter um sentido exclusivamente negativo ou pejorativo. Deixa de ser algo condenável, para se transformar em algo a ser cultivado. Deixa de ser um mal e seu valor ético passa a depender de quem dela se utilizar! Deste modo, numa simples penada, Lenin transforma o marxismo numa ideologia a serviço da classe operária. Ao tomar o poder, a classe operária, passaria a impor sua ideologia ao conjunto da sociedade como faz a burguesia. Ao atribuir este novo sentido à palavra, Lenin  golpeava a abordagem científica de Marx.

Assim, ao dar este 4º significado ao termo, Lenin consagra a polissemia e a confusão conceitual que outros autores depois de Lenin viriam a disseminar, afastando-se definitivamente do caminho científico que Marx tinha inaugurado.  Dois argumentos poderiam ser utilizados em favor do "revisionismo leninista":

a) O livro "Ideologia Alemã", escrito por Marx e Engels, só foi publicado após a morte de Lenin
b) A própria conceituação de Marx sobre ideologia das classes dominantes deixava uma brecha para desvios da rota inicialmente traçada. Senão vejamos:

"As idéias das classes dominantes são, em todas as épocas, as idéias dominantes, i.e.,  a classe que é a força material governante da sociedade, é ao mesmo tempo, sua força governante intelectual. A classe que  tem à sua disposição os meios da produção material controla concomitantemente os meios de produção intelectual, de sorte que, por essa razão, geralmente as idéias daqueles que carecem desses meios ficam subordinadas a ela. As idéias dominantes não passam de expressão ideal das relações materiais dominantes, consideradas estas como idéias; daí as relações que fazem de uma classe a dominante, portanto as idéias de sua supremacia. Os indivíduos componentes da classe dominante possuem, entre outras coisas, consciência, e por conseguinte, pensam.  Na medida pois, que eles dominam como classe e determinam a amplitude e o ritmo de uma época, é evidente fazerem isso em todos os setores, donde dominarem, também, dentre outras coisas, como pensadores, como produtores de idéias e regularem a produção e a distribuição de idéias de seu tempo. Destarte, suas idéias são as dominantes da época" .

Marx não confere uma especificidade burguesa à ideologia que é instrumento de qualquer classe dominante em todas as épocas. Ora  como a classe operária seria a próxima classe dominante, poderia se deduzir que ela também poderia fazer uso da ideologia como instrumento de dominação.  Ocorre porém, que o objetivo do socialismo marxista era eliminar todas as classes, de tal modo que não teria o menor sentido criar uma ideologia provisória, implantá-la na mente da futura classe dominante, para em seguida ter que desmontá-la!  Se fosse o caso de se pensar numa ideologia para a classe operária, esta ideologia teria que ter como fundamento o próprio desaparecimento da classe operária, seja como classe dominante, seja simplesmente como classe.

A necessidade imperiosa da utilização pela classe operária do conceito de "dominação" imbricado na "ditadura do proletariado" acabou se tranformando na matéria prima para a construção leninista de uma "ideologia socialista" baseada em conceitos não socialistas como o Estado e o Partido.  As idéias de um estado socialista e de um partido único que representasse os interesses da classe operária,  e outras correlatas, como a "ditadura do proletariado", que deveriam constituir os fundamentos de uma fase de transição do capitalismo para o socialismo se solidificaram com a "ideologia socialista", falsificando assim o socialismo científico de Marx orientado para  uma sociedade sem classes (e sem ditadura).  Lenin, ele próprio, foi vítima do conceito de ideologia que criou, radicalizando a luta de classes de modo  que milhões de camponeses  pobres e ignorantes fossem  tratados com a mesma violência revolucionária  reservada aos inimigos de classe.  As ideologias, em sua destrutividade, têm o condão de vitimar seus próprios autores, já que segundo a conceituação de Marx, são instrumentos de dominação e poder.

Com a ruptura conceitual de Lenin, ficaram escancaradas as portas para a onda polissêmica que viria a seguir. O próximo autor a desfilar nesta passarela de adornos conceituais produzidos para o encantamento das sedutoras Ideologias, é Karl Mannheim, (1893-1947) sociológo de procedência húngara que viveu na Alemanha, onde criou a "Sociologia do Conhecimento".

 

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