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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

Há 100 anos, uma revolta popular marcou o início de um levante que derrubaria um império de dois séculos e criaria o primeiro estado comunista da história. Registros históricos de documentos e testemunhas oculares recontam, passo a passo, os oito meses da Revolução Russa

 

Em 8 de março de 1917 – há, portanto, exatamente 100 anos –, dezenas de milhares de pessoas tomavam as ruas da então capital russa Petrogrado com uma única e desesperada reivindicação: queremos pão. A partir deste marco inicial, em uma vertiginosa cadeia de eventos ao longo dos oito meses seguintes, um império de dois séculos cairia, uma tentativa de governo democrático seria esmagada por radicais e a primeira revolução comunista da história triunfaria na Rússia.

 

Na gênese daquela passeata de famintos na cidade que futuramente voltaria a se chamar São Petersburgo estavam os desmandos do czar Nicolau II e seus sucessivos fracassos militares na I Guerra Mundial. No início de 1917, a grande guerra já havia ceifado a vida de mais de um milhão de russos. E, enquanto os soldados morriam no front, suas famílias passavam fome nas cidades.

 

Em um retrato simbólico do atraso do país, a Rússia estava treze dias atrás do resto do mundo por ainda não ter adotado a transição do calendário juliano para o gregoriano – mudança proposta em 1582 para corrigir uma defasagem entre os dias e as estações do ano. Por causa disso, a Revolução de Fevereiro e a de Outubro aconteceram, na verdade, em março e novembro.

 

Doze anos antes da Revolução Russa, o czar já havia enfrentado uma grande revolta, que o obrigou a fazer concessões para seguir no poder. Uma delas foi a criação de um Parlamento, a Duma Imperial, que abrigava desde liberais até esquerdistas revolucionários. Nicolau, porém, só convocava a assembleia em momentos de crise – e a dissolvia a seu bel-prazer. Cada vez mais impopular, não resistiu a uma segunda revolta.

 

Com o vácuo de poder, dois grupos passaram a controlar a Rússia: um governo provisório formado por membros da Duma e os sovietes – conselhos populares de inspiração marxista. Do segundo, faziam parte duas facções esquerdistas que, antes aliadas, haviam se separado por divergências programáticas: os bolcheviques, que pregavam a ação revolucionária para a implantação do comunismo, e os mencheviques, que defendiam reformais graduais rumo ao estado socialista.

 

O “duplo poder” de governo e sovietes funcionou por pouco tempo. A decisão de seguir na guerra – para não perder territórios nem desagradar a aliados poderosos – minou a popularidade dos moderados e a volta de Vladimir Lenin do exílio desequilibrou o jogo a favor dos radicais. A ilusão de março de uma Rússia democrática acabou em novembro, com os bolcheviques tomando o poder quase sem resistência. Quando, meses depois, o povo escolheu uma Assembleia Constituinte com uma maioria de social-democratas, Lenin simplesmente a dissolveu. E se faltou sangue na queda do Palácio de Inverno, sobrou nos anos seguintes, com a carnificina da Guerra Civil Russa, as execuções sumárias do Terror Vermelho bolchevique e a tirania paranoica do stalinismo.

 

8 DE MARÇO

 

Começa a Revolução de Fevereiro. No Dia Internacional das Mulheres, uma multidão toma as ruas de Petrogrado para protestar contra a escassez de comida. O movimento grevista é formado em sua maioria por mulheres – mães ou esposas de soldados que lutavam no front – que trabalhavam nas fábricas de tecido.

 

"A maior parte da multidão, incluindo muitas mulheres, estava lá para assistir a outras pessoas fazerem bagunça. A atmosfera geral de entusiasmo é como a de um feriado com nuvens carregadas.” - Relato do jornal The New York Times de 9 de março

 

Guarda imperial organiza fila para a entrega de pão
 

9 DE MARÇO

 
Os protestos crescem e 200.000 trabalhadores aderem à greve em Petrogrado. O movimento ainda não tem uma liderança clara. 
 
"Nas ruas principais, as massas cresceram, e os regimentos policiais foram engolidos pela multidão. A turba pode ficar fora de controle a qualquer minuto, mas assim como ontem não há líderes, e até agora apenas pequenos e dispersos atos de vandalismo ocorreram." - Registro do diário de Aleksander Balk, prefeito de Petrogrado
 
Multidão se aglomera na Avenida Nevsky, ponto central de Petrogrado
 
"Sem olhar para trás, as massas fizeram sua própria história” - Análise de Leon Trotsky em A História da Revolução Russa
 

10 DE MARÇO

 

Greve geral em Petrogrado. Estudantes se juntam aos protestos, que agora passam a pedir a saída da Rússia da guerra e a abdicação do czar. Os primeiros confrontos entre os manifestantes e a polícia são registrados. 

 

"Os distúrbios são obra de baderneiros. Jovens e garotas correm pelas ruas gritando que não têm pão; eles fazem isso apenas para criar alguma agitação. Se o clima estivesse frio, provavelmente estariam em casa. Mas isso vai passar e tudo se acalmará.” - Carta da czarina Alexandra para o czar Nicolau II, que estava no front

11 DE MARÇO

 

Sob ordens do czar, a polícia abre fogo contra os grevistas e dezenas de pessoas são mortas. Soldados começam a se juntar aos protestos.

 

"A situação é séria. A capital se encontra em um estado de anarquia. O descontentamento geral aumenta. O governo está paralisado. Há tiroteios desordenados nas ruas; tropas disparam umas contra as outras.”
Telegrama de Mikhail Rodzianko, presidente da Duma, para o czar
 

12 DE MARÇO

 

O czar perde a autoridade sobre as tropas, que se recusam a atirar nos manifestantes. Milhares de soldados se juntam aos protestos, espalhados agora por outras cidades do país. Delegacias são incendiadas e presos, libertados. O Soviete de Petrogrado – conselho popular composto de trabalhadores, camponeses e soldados – é formado.

 

Vítimas de fevereiro recebem funeral em massa na capital russa

 

Eu me lembro de soldados derrubando retratos de Nicolau naquela manhã. [O czarismo] estava acabado. Havia desmoronado em um instante. Três séculos para se erguer, e três dias para sumir."
Relato de Nikolai Sukhanov, político menchevique e cronista da revolução, em A Revolução Russa 1917
 
Fim da monarquia: brasão de armas do czar é queimado em praça pública
 

14 DE MARÇO

 

Em meio ao vácuo de poder, o Soviete de Petrogrado publica sua Ordem Número 1. O decreto determina que as unidades militares devem agora obedecer ao conselho popular. 

 

"Na atmosfera ardente daquelas horas, nasceu a famosa Ordem Nº 1 – o único documento respeitável da Revolução de Fevereiro.” - Leon Trotsky, A História da Revolução Russa

 

O czar Nicolau II, a czarina Alexandra e seus cinco filhos. Todos seriam mortos após a revolução

15 DE MARÇO

 

Pressionado pela Duma, o czar Nicolau II abdica em favor de seu irmão mais novo, o grão-duque Miguel. A Duma forma o Governo Provisório, com o liberal Georgy Lvov como premiê. 

 

"Nestes dias decisivos na vida da Rússia, nós acreditamos que é nosso dever trabalhar pela mais estreita união e organização de todas as forças por uma vitória rápida [na guerra]. Por essa razão, em um acordo com a Duma, nós reconhecemos que, pelo bem do país, devemos abdicar da Coroa da Rússia. " - Decreto de abdicação de Nicolau II

 

16 DE MARÇO

 

Termina a Revolução de Fevereiro. Miguel declina da coroa e afirma que só aceitará o trono caso uma futura Assembleia Constituinte valide a monarquia. Três séculos de poder da dinastia Romanov na Rússia chegam ao fim. O grão-duque seria assassinato por bolcheviques em junho de 1918. Um mês depois, Nicolau II, Alexandra e seus cinco filhos também seriam mortos. 

 

"Inspirado pelo pensamento único de toda a nação – que o bem-estar do país ofusca todos os outros interesses –, eu estou decidido a aceitar o poder supremo apenas se esse for o desejo do povo." - Carta de renúncia de Miguel

 

New York Times reporta: “Dinastia Romanov acaba na Rússia. Abdicação do czar é seguida pela de Miguel. Assembleia Constituinte será convocada”
 

19 DE MARÇO

 

O Governo Provisório declara anistia aos presos políticos, abrindo caminho para o retorno de exilados como Lenin e Trotsky. Em um sistema que ficou conhecido como duplo poder, os sovietes e o Governo Provisório comandam a Rússia paralelamente, com cooperações pontuais.

 

"O Governo Provisório não tem nenhum poder de verdade. Seus decretos só são executados se o Soviete assim permite. O Soviete controla os elementos mais importantes do poder: tropas, ferrovias e telégrafos. Pode-se até dizer, de forma crua, que o Governo Provisório existe apenas enquanto o Soviete autorizar.”

Carta de Alexander Guchkov, ministro da Guerra do Governo Provisório, para o general Mikhail Alekseev
 
 
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