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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

Manifestação                Elijah Nouvelage/Reuters
 
 
A polícia de Los Angeles avisa: não vamos perseguir nenhum imigrante
 

Na mesma eleição em que o resto da América se jogou nos braços de uma temeridade pomposa chamada Donald Trump, a Califórnia elegeu para o Senado a procuradora-geral do Estado, Kamala Harris. Kamala é a síntese de uma Califórnia plural, democrática, liberal e multiétnica. Passa a ser a segunda negra eleita para o Senado da República.

 

É, ao mesmo tempo, a primeira senadora que, casada com um branco, mescla a origem indiana do pai e o sangue dos americanos nativos do lado materno. Só lhe faltaria – para retratar a íntegra do DNA de sua fascinante São Francisco natal – o fator genético de um terço da população daquela formosa city by the bay: os chineses e seus descendentes.

 

Ms. Harris tem a responsabilidade de substituir Barbara Boxer, que estava na Câmara Alta desde 1993, mas decidiu não concorrer a mais uma reeleição. Barbara Boxer iluminou o Senado com seus princípios humanitários e suas convicções antibélicas no pior momento em que os Estados Unidos chafurdavam na histeria vingativa do pós-11 de Setembro. Foi o único – é bom repetir: o único – voto em todo o Senado contra a intervenção militar no Iraque.

 

A nova senadora pela Califórnia emerge para a alta política nacional a bordo de uma crcunstância especial: o estado que ela representa começa a se sublevar contra a monumental besteira que os outros americanos produziram em novembro e o clima insurrecional tende a levar a um desafio aberto contra as medidas arbitrárias, xenófobas e discriminatórias inscritas no cardápio eleitoral de Trump. A mobilização começou entre os imigrantes e os estudantes sem visto de residência, dois dos alvos mais óbvios do bombardeio segregacionista do presidente eleito.

 

Já tem até um grupelho propondo o Califixit – uma versão californiana do Brexit inglês. Não é para ser levado muito a sério, pois, como quase toda iniciativa separatista, costuma abrigar gente truculenta e sentimentos perversos de superioridade bobinha.

Superioridade que, de fato, existe, mas que a Califórnia acolchoa na atitude laid back de quem indulge em continuar fazendo parte, sem abrir mão da sua nobre distinção, do território de indigência ética e intelectual chamado América. No pleito-calamidade, Hillary Clinton obteve no estado o dobro (8,7 milhões) dos votos de Donald Trump (4,4 milhões).

1967
O 'verão do amor', em 1967, liberou o LSD e a vibe do Silicon Valley

 

Se fosse um país independente, a Califórnia seria a sétima economia do mundo, ultrapassando o Brasil, propulsionada pela turbina de vitalidade criativa e inovadora que é a indústria pontocom do Silicon Valley. Mas não é a estatística dos economistas ortodoxos que faz da Califórnia o melhor de um EUA que definitivamente não faz merecer por ela. 

 

A Califórnia é a liberdade prateada do surfe, é a contracultura nascida da geração beat, é a força insurgente dos Black Panthers que acordaram, em Berkeley e em Oakland, o sentimento antiguerra dos anos 60 e 70, é a requintada vinicultura dos vales de Napa e de Sonoma, e é, mais que tudo, a sede secular de um empreendimento que fabrica sonhos – uma indústria consagrada mundialmente com o nome de Hollywood.

 

E, neste momento trevoso de intolerância, a Califórnia é um exemplo de como abrigar imigrantes e de estabelecer com eles um modus vivendi de respeito e até mesmo de produtividade que o novo mandatário quer proscrever à força de muros e rancores.

 

Mas a Califórnia está disposta a reagir. Mora no estado um quarto de todos os 11 milhões de imigrantes ilegais – aqueles que, escorraçados por Trump como “criminosos, traficantes e estupradores”, o presidente de sangue germânico da outra América ameaça deportar, sem antes, quem sabe, confiná-los em campos de concentração severamente vigiados.

 

São esses mais de 3 milhões de sem-papéis que legalmente contribuem em 130 bilhões/ano para robustecer a economia californiana – calcula o professor Manuel Pastor, da Universidade do Sul da Califórnia (USC).

 

É uma categoria afluente, cuja renda tenderia a crescer em 15% nos próximos três anos, avalia Pastor. Ou seja, ao demitir esses milhões de agentes produtivos o empresário Donald Trump estaria igualmente fazendo um péssimo negócio.

 

Kamala Harris
A senadora Kamala Harris exprime uma terra sem preconceitos (Foto: Josh Edelson/AFP)

 

A maioria – a grande maioria – é de latinos. Vêm de Honduras, de El Salvador, da Nicarágua, da Guatemala, do México (os latinos da Costa Leste procedem basicamente do Caribe e da América do Sul).

 

Escapam das carências econômicas, das perseguições políticas e da violência de grupos de extermínio ligados ao narcotráfico. Conseguem, sabe-se lá como, atravessar uma fronteira ferozmente vigiada.

 

Nem sempre a adaptação é fácil. Se você mora na Califórnia e precisa de alguém que lhe venha fazer um reparo hidráulico em casa, é bem provável que apareça um Carlos, salvadorenho ou hondurenho, que, embora viva há 14 anos na América, se sente muito mais confortável falando espanhol. Mas nada justifica que um troglodita da espécie white trash pretenda recambiar Carlos e outros Carlos de volta a seus países.

 

As reações preventivas começaram no dia seguinte ao surpreendente resultado eleitoral. Nos campus da Ucla, em Los Angeles, e no da Universidade de Berkeley, ambas escolas públicas mantidas pelo Estado, os estudantes deixaram, imediatamente, as salas de aula para anunciar que iriam defender seus colegas ameaçados.

 

Há, nos Estados Unidos, oficialmente, 741.500 jovens universitários ainda sem o status da cidadania ou do Green Card, mas protegidos pelo Deferred Action for Childhood Arrivals (Daca), baixado por Barack Obama. Gente que ingressou no país ainda criança ou adolescente, juntamente com pais sem documentos. A maior parte desses jovens está na Califórnia. 

 

Por coincidência, quem é hoje a presidenta da Universidade da Califórnia é Janet Napolitano, que serviu sob Obama como diretora da sinistra Homeland Security, a Gestapo criada por George Bush a pretexto do 11 de Setembro para vigiar os estrangeiros suspeitos. Ms. Napolitano acolheu o temor dos estudantes com a promessa de que a universidade vai protegê-los, sim, “dentro do possível”.

 

Mais categórica tem sido a reação de setores até então tidos como conservadores. Da controvertida polícia de Los Angeles, frequentemente às voltas com acusações de racismo e ora e vez envolvida em tórridos conflitos de rua, veio a surpreendente decisão, veiculada pelo chefão Charlie Beck. “Não contem conosco para perseguir e enquadrar imigrantes”, avisou Beck. Se a Homeland Security tiver de fazê-lo, que faça por conta própria.

 

City Lights
A City Lights, que ousou editar a geração beat, está no epicentro uma resistência intelectual histórica que inclui o Caffé Trieste, o Tosca, o Vesuvio e o estúdio da Zoetrope, de Coppola (Foto: Daren Fentimani/Fotoarena)

 

Trombadas institucionais estão à vista, não só porque o grosseiro Trump há de querer retalhar o vexame eleitoral que a Califórnia lhe impingiu, mas também porque vai encontrar, do outro lado, a firmeza cool de alguém como o peculiar governador Jerry Brown, democrata da melhor cepa.

 

Somados os três mandatos que teve, este atual, desde 2011, e os dois anteriores, entre 1975 e 1983, Jerry é o mais longevo dos governadores da Califórnia – e, ao contrário do que pode acontecer eventualmente em outros redutos terceiro-mundistas, em que os administradores são eleitos e reeleitos não pelo que fazem, mas pelo que deixam de fazer, a Jerry Brown pode-se acusar de muita coisa, menos de omissão.

 

O pai dele, Edmund Pat Brown, já havia sido governador, mas Jerry desabrochou para a política no berço psicodélico da geração flower power. Alternou na trajetória pública altas ambições – por duas vezes tentou ser o candidato democrata a presidente, perdendo para Jimmy Carter e para Bill Clinton – e um desprezo solene.

 

Chegou a se distanciar por seis anos de qualquer cargo político, período em que ninguém havia de estranhar se encontrasse Jerry, católico por fardo familiar irlandês, sentado em posição de lótus num daqueles templos budistas de meditação à moda – so Californian! – de Esalen. Voltou em 1999 prefeito de Oakland, cidade complicada, negra, pobre e violenta – pelos padrões americanos – situada do outro lado da baía em relação à sofisticada São Francisco.

 

Não que a Califórnia não tenha feito suas besteiras políticas. Fez germinar figuras como Richard Nixon e Ronald Reagan, este um ator canastrão que ingressou na vida pública pela porta escura da delação contra os supostos comunistas de Hollywood.

 

Reagan era um idiota, como Trump, mas se cercou no governo de figuras razoavelmente respeitáveis, coisa que será impossível esperar de Trump. O eleitorado produziu também, na circuntância excepcional do recall do desastrado democrata Gary Davis, o governador Arnold Schwarzenegger. Durou de 2003 a 2010. A sorridente Califórnia amaciou o brutamontes.

 

Se o impiedoso Trump quiser agora se mostrar por lá, a este político pop e zen de 78 anos chamado Jerry Brown bastará o recurso de cantar para ele I will get by/I will survive, do sarcástico hit Touch of Grey (do álbum premonitoriamente chamada Dentro do Escuro), daquela banda que enevoou de fantasia e de outras cositas más a geração de Jerry: The Grateful Dead.

 

Se o bandleader Jerry Garcia estivesse vivo – como ainda supõem, à moda de Elvis Presley, muitos de seu irrestrito fã-clube – a América toda talvez fosse mais Califórnia e menos Alabama. Mesmo sem o lirismo beat do passado, mas com a criatividade ativa do presente, a chama da tolerância e da rebeldia estará acesa. E – no simbolismo da velha canção de Scott McKenzie – quando você vier por aqui. não esqueça de usar flores no cabelo. 

 

 
 
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