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Mtnos Calil

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NO BRASIL, um motorista do Senado, ganha mais para dirigir um automóvel, do que um Oficial da Marinha, para comandar uma fragata!

 

"Due cuori e una capanna" é uma expressão italiana (ou especialmente popular na Itália). Seu sentido mais óbvio é que duas pessoas que se amam, para ter uma vida boa, não têm necessidade de riquezas: podem até morar numa barraca –só o básico para se proteger do frio, do sol e da chuva. Talvez nem isso. "Dois corações e uma cabana" significa que o amor é tudo de que precisamos.

 

De fato, se você estiver passando por um momento de vacas magérrimas, não há dúvida de que um casal companheiro, apaixonado e amigo pode ser de grande ajuda.

 

Mas o sentido da expressão vai além das contas do fim do mês. "Dois corações e uma cabana" significa também que um casal, rico ou pobre, SE basta, ou seja, não precisa de mais ninguém.

 

"Passageiros", de Morten Tyldum (em cartaz), é um blockbuster excelente –também pelas reflexões que ele introduz inevitavelmente.

 

A primeira (sem perigo de spoiler) é: "Será que um casal pode se bastar?". Você viveria 30, 40, 50 anos só com seu companheiro (ou sua companheira)? Cuidado, repito: literalmente SÓ com seu companheiro ou companheira.

 

Como fica a vida do casal sem vizinhos, queridos ou incômodos? E sem colegas de trabalho, também queridos ou incômodos? Como será a vida na "Casa no Campo" de Elis Regina sem os amigos (sejam eles do peito ou não)?

 

Alguém poderia pensar que, sem nenhum outro, é mais fácil o casal ficar junto para sempre –sem tentações, seduções, distrações"

 

Mas a questão não é só se um casal se basta sem mais ninguém (para amar, para admirar ou para detestar, tanto faz). A questão é também: será que um casal se aguenta se o único propósito da vida de ambos for, justamente, viver juntos e se amar?

 

Os protagonistas de "Passageiros" fazem parte de milhares de colonos que dormem hibernados numa nave espacial que chegará a sua destinação (um mundo novo, uma colônia) depois de uma viagem de 120 anos.

 

Ora, eles acordam 90 anos antes do momento previsto, e não há como voltar a dormir. Pedir ajuda a alguém na Terra levaria o tempo de uma vida inteira.

 

Agora, por que se queixar? Não é a realização do ideal dos dois corações com uma cabana? Não é isso que os amantes sempre deveriam querer: apostar na felicidade a dois, como se os outros não existissem?

 

Uma questão volta regularmente quando um casal se interroga sobre o que não está funcionando: a vida social atrapalha ou enriquece a relação?

Os membros de um casal podem se olhar reciprocamente nos olhos: é o olhar patético, tocante e um pouco ridículo. Eles podem olhar na mesma direção (e não um para o outro): é o olhar atarefado, numa obra comum. Eles podem olhar cada um numa direção que lhe é própria: é o olhar desejante (cada um segue seu desejo e apenas gosta de ter o outro do seu lado na sua empreitada, que é diferente da do outro).

 

Dos três olhares, o mais perigoso é o patético, em que cada um seria o propósito da vida do outro. Se olhar muito tempo olho no olho é quase sempre um bom começo para se estrangular.

 

Agora, outra reflexão (também sem spoiler). Minha avó dizia que, quando um casal se junta, uma das famílias perde e a outra ganha mais um filho ou uma filha.

 

Na verdade, é normal que um amor nos arranque de uma vida que estava relativamente pronta, de um caminho já traçado.

 

Por amor a gente pode renunciar a profissão, filhos, família, outro casamento, sonhos, nação, religião.

 

O amor, em suma, é um grande fator de mudança –se não o maior.

 

Mais de uma vez, um amor me fez mudar de país, de língua e de caminho. Os amores me afastaram de minha família de origem. Lamento?

 

Não sei, talvez. Se tivesse ficado com minha primeira mulher, seria fotógrafo. Se tivesse ficado com a mãe de meu filho, seria psicanalista na França. Enfim, não sei se o amor nos transforma, mas ele quase sempre nos engaja por novos caminhos.

 

Os amores, numa palavra só, arrebatam –um pouco por sua virulência e um pouco (suspeito) por nossa própria vontade de sermos arrebatados, de encontrar razões para mudar: "Leve-me para longe daqui. Salve-me da família, do hábito, do destino já escrito para mim".

 

Por isso mesmo, quando o casal acaba ou simplesmente quando ele corre perigo, sempre tendemos a acusar o outro pela mudança que ele produziu em nós: "Mas por que você me tirou de onde eu estava?". 

 

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