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NO BRASIL, um ascensorista da Câmara Federal, ganha mais para servir os elevadores da Casa, do que um Oficial da Força Aérea, que pilota um Mirage.

 

  Marcos Santos/USP Imagens  
30/10/2014 – Brasil – Pela primeira vez em seis meses, o Banco Central (BC) alterou os juros básicos da economia. Por 5 votos a 3, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar a taxa Selic para 11,25% ao ano. A taxa está no maior nível desde novembro de 2011, quando estava em 11,5% ao ano nota de real | fotos publicas
Notas e moedas de real

 

O reconhecimento pelo FMI da insustentabilidade da dívida grega após sete anos consecutivos de erros em suas projeções de crescimento –causados pela subestimação dos impactos negativos do ajuste fiscal naquele país– alertava ainda em 2015 sobre os riscos de realizarmos a mesma aposta no Brasil.

 

 

Conforme tratei em minha primeira coluna nesta Folha"Tragédia de erros", em julho daquele ano, os cortes de gastos em meio à recessão poderiam contribuir para agravar o problema fiscal ao invés de solucioná-lo, pelo efeito negativo que teriam sobre os níveis de renda e arrecadação tributária.

 

As metas fiscais de 2015 não seriam cumpridas, e as projeções otimistas de retomada da confiança e do crescimento também não. Ao final da coluna, ficou a torcida para que os erros de projeção não durassem tantos anos por aqui.

 

Infelizmente, a tática parece ser mesmo a de "repetir o mesmo erro o maior número de vezes e ao final passar a culpa adiante", como descrevi naquela ocasião.

 

O corte de mais de 30% dos investimentos públicos e de 2,5% do total de despesas primárias efetivas em 2015 não impediu a frustração das ambiciosas metas fiscais anunciadas pelo então ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

 

Muito pelo contrário. A recessão de 3,8% contribuiu para fazer despencar a arrecadação tributária em 5,6% e elevar o deficit primário dos R$ 17 bilhões de 2014 para os R$ 111 bilhões de 2015.

 

Nos primórdios de 2016, em vez do sonhado mea-culpa, duas teses principais dominaram o debate econômico.

 

A primeira sustentava que o ajuste não tinha sido feito, ignorando que o aumento do deficit primário se deu apesar dos cortes substanciais nos gastos discricionários, pela queda ainda maior nas receitas.

 

A segunda culpava a figura da presidente Dilma Rousseff pela falta de confiança dos investidores.

 

A presidente foi derrubada, o deficit primário projetado foi parar em R$ 170 bilhões e a recessão em 2016 acabou sendo tão profunda quanto a de 2015, de acordo com as mais recentes estimativas.

 

A mediana das projeções de crescimento para 2017 do boletim Focus, que havia caído de 2% em junho de 2015 para 0,5% em maio de 2016 e subido a 1,3% em outubro após a queda de Dilma, hoje encontra-se novamente no patamar de 0,5%.

 

Assim como na Grécia, diante do fracasso do ajuste e dos erros sucessivos de projeção, as pressões voltaram-se para as chamadas reformas estruturais.

 

Acrescentamos então à nossa Constituição o mais audacioso plano de austeridade do mundo: a PEC 55. Agora, a bola da vez é a reforma da Previdência: "Com a sua aprovação, o crescimento vem", garantem os analistas.

 

A alternativa de acabar com as desonerações tributárias pouco criteriosas e com a jabuticaba da isenção de impostos sobre lucros e dividendos distribuídos a acionistas de empresas –que vigora no Brasil desde 1995 e é responsável por uma perda de mais de R$ 40 bilhões anuais de arrecadação e por grande parte da injusta tributária brasileira– é muito mais promissora.

 

Essas duas medidas sozinhas reduziriam o deficit fiscal pela metade, ajudando a abrir espaço para a retomada dos investimentos públicos em infraestrutura, que têm reconhecida capacidade de indução do investimento privado –ainda mais em um contexto de crise profunda agravada pelo alto endividamento das empresas.

 

As medidas de estímulo ao crescimento anunciadas, por sua vez, não farão nem cócegas nesse cenário. Água mole em pedra dura... 

 

laura carvalho

Laura Carvalho é professora do Departamento de Economia da FEA-USP com doutorado na New School for Social Research (NYC).

 

Tragédia de erros

Brincam que os economistas só mantêm alguma credibilidade porque existem os meteorologistas, mas os avanços recentes da meteorologia vêm nos colocando cada vez mais em maus lençóis. O FMI reconheceu na semana passada que, mesmo na hipótese de adoção das medidas rejeitadas maciçamente no plebiscito de domingo, a dívida da Grécia é insustentável e deve, portanto, ser perdoada e renegociada.

 

No jogo das projeções econômicas, achar sete erros ficou fácil demais. Basta uma olhadinha, por exemplo, no crescimento projetado pelos relatórios anuais do FMI para a economia grega desde 2008.

 

  Editoria de Arte/Folhapress  

 

Tirando o do ano passado, todos se mostraram excessivamente otimistas. O objetivo do jogo passou a ser, então, o de repetir o mesmo erro o maior número de vezes e no final passar a culpa adiante. Não é à toa que o mais recente estudo da instituição veio como um alento para muitos analistas e, principalmente, para o povo grego. Mas por que os economistas erram tanto em suas previsões?

 

Uma primeira resposta possível é de caráter propriamente econômico: os pressupostos dos modelos utilizados são equivocados. Ao considerar que a economia está sempre restrita pelo lado da oferta, os cenários construídos ignoram, por exemplo, que as próprias medidas de ajuste têm impacto contracionista pelo lado da demanda, direta e indiretamente.

 

Isso porque uma redução nos gastos e investimentos públicos não só reduz a contribuição do próprio governo para a demanda agregada, como também afeta o emprego e a renda da população, e assim desestimula o consumo das famílias, as vendas dos empresários e o próprio investimento privado.

Além de causar erros nas previsões de crescimento, esse equívoco torna ineficaz a própria tentativa de melhora nos indicadores fiscais, já que o PIB menor e a queda na arrecadação tributária que o acompanha impossibilitam a retomada de uma trajetória sustentável de endividamento.

 

Uma outra possível resposta estaria em um plano, digamos, mais político e ideológico. Não é difícil reinterpretar a insistência na defesa de políticas que fracassaram, tanto do ponto vista fiscal, quanto da retomada do crescimento, como muito bem-sucedidas em cumprir outros objetivos: a limitação ao provimento de serviços públicos e de proteção social abrangentes, a repressão ao crescimento dos salários, em suma, o enfraquecimento dos Estados de bem-estar social europeus em geral.

 

Infelizmente, parece que o nosso lado do mundo, que andava inovando, resolveu apostar nas mesmas fichas. Apesar dos consecutivos aumentos no desemprego, frutos do baixo dinamismo das demandas externa e interna, os defensores do ajuste fiscal no Brasil continuam a projetar uma melhora na confiança dos empresários e no crescimento econômico, que até agora não deram qualquer sinal de que vão aparecer.

 

A consequência é que, apesar dos cortes substanciais de gastos, as sucessivas quedas no crescimento e na arrecadação tributária projetados para este ano já indicam que o governo federal não conseguirá chegar nem perto da meta de superavit primário anunciada no fim do ano passado. Como esperar um mea culpa seria querer demais, resta torcer para que os erros não sejam repetidos tantas vezes por aqui. 

 

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