IMLB - Instituto Mãos Limpas Brasil

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No Brasil, um Assessor de 3º nível de um Deputado, que também tem esse título para justificar seus ganhos, mas que não passa de um "aspone" ou mero estafeta de correspondências, ganha mais que um Cientista-pesquisador da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, com muitos anos de formado, que dedica o seu tempo e a sua vida, buscando curas e vacinas para salvar vidas.

Li poucos dias atrás que alunos de jornalismo da City University, em Londres, barraram certos jornais de poluírem os ares do departamento. O "Daily Mail" ou o "Daily Express", para citar apenas dois, fomentam o "fascismo, a tensão social e o ódio na sociedade" —e as crianças, que serão jornalistas, não querem ser expostas a tanta violência.
O caso não tem nada de anormal. Todas as semanas, para não escrever todos os dias, lá aparece mais uma notícia sobre a boçalidade dos jovens em ambientes acadêmicos. Podem ser alunos de direito que não querem ouvir falar de "violação". Ou alunos de literatura que não toleram referências a "negros" em certas obras. O "direito à segurança" é mais importante do que o conhecimento e a maturidade.

Perante esses cenários, a minha pergunta é sempre a mesma: e os professores? Que atitude têm os professores quando as crianças tomam de assalto a instituição?

 

No caso da City University, a diretora da faculdade condenou a histeria dos alunos. Mas não é difícil imaginar que essa sensibilidade para a histeria foi tolerada, e até incentivada, nos múltiplos casos que vou lendo com espanto e repulsa.

A pergunta, naturalmente, mantém-se: por quê?

Nelson Rodrigues já respondeu há muito. Por razões profissionais, passei os últimos tempos com as crônicas do "reacionário". Foi bom relê-las —estilisticamente falando. Mas é preciso reconhecer, sobretudo e acima de tudo, que Nelson Rodrigues foi um "profeta". Meio século atrás, ele já escrevia sobre a cultura abjeta que elevou o "jovem" a patamares insanos.

 

Não direi, como Nelson Rodrigues dizia, que o "jovem" só tem dois caminhos: ser um Rimbaud ou um idiota. Como professor, conheço vários exemplares da espécie bem mais inteligentes e civilizados do que muitos adultos.

Mas entendo a observação: atribuir à "juventude" uma virtude particular é uma rendição moral e intelectual de adultos covardes —os "compreensivos", como escrevia Nelson Rodrigues com sarcástico desdém.

 

Infelizmente, essa "compreensão" tem consequências. Uma delas, que escapou ao sábio Nelson, encontra-se hoje nas pobres sociedades democráticas do Ocidente. Melhor dizendo: na forma arrogante e cega como uma (falsa) "elite" intelectual é incapaz de entender as inquietações mais básicas de pessoas reais. Talvez porque essas inquietações provocam "desconforto" no mundo seguro e higienizado dos "compreensivos" e seus discípulos.

O medo do terrorismo islâmico; da imigração irrestrita; da mera criminalidade quotidiana —tudo isso é desprezado pela agenda dos "compreensivos". E as massas, que insistem em falar dos assuntos, são metralhadas com as munições conhecidas: racistas, atrasadas, iletradas.

 

Irônico. Se os "compreensivos" tivessem lido o "Daily Mail" ou o "Daily Express", teriam encontrado, mesmo que de forma rude, alguns sinais importantes da realidade. Sinais que merecem atenção, não desconsideração. Mas quem deseja conhecer a suja realidade quando é possível criar uma realidade alternativa?

O problema é que a suja realidade não desaparece só porque não gostamos da paisagem. Ela emerge sazonalmente para consagrar o líder "populista" que soube ler o "Daily Mail" e o "Daily Express" sem tapar o nariz. Ou, pelo menos, tapando só uma narina.

 

A esse respeito, aplaudo Simon Jenkins, um dos raros casos de inteligência no insuportável "The Guardian", quando escreve sobre os "compreensivos": "Eles vêem autoritarismo nos outros, mas não neles próprios. Eles vêem discriminação nos outros, mas não a sua própria discriminação. Protegendo as suas tribos preferidas, eles falham o teste definitivo da democracia: a tolerância pelas preocupações daqueles com quem discordam." Aplausos, aplausos.

 

Depois da vitória de Donald Trump, a Europa treme com o futuro da França, da Itália, da Holanda —em suma, do continente inteiro. O tremor é justificado.

Mas é importante dizer que o triunfo do novo populismo só foi possível pela ignorância dos jovens idiotas e pela compreensão dos adultos covardes. 

 

 joão pereira coutinho João Pereira Coutinho

Escritor português, é doutor em ciência política. 

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