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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

 
 
Frequentemente, políticos menos escrupulosos embarcam em cruzadas que visam a sua própria promoção à custa do bom nome de outros. Este fenómeno, que consiste numa exploração pouco escrupulosa da queda em desgraça de uma qualquer figura pública, frequentemente alimentada por mentiras ou meias verdades sobre a sua vida privada ou sobre a moralidade das suas acções, (pelo personagem que procura a ascensão), chama-se a “Fogueira das Vaidades”. É uma das formas mais habituais de usar um bode expiatório para atingir objectivos políticos, aproveitando a natural inveja que a pessoa que se quer que caia em desgraça possa suscitar nos outros, (pares ou eleitores).

 

 

 

O termo “Fogueira das Vaidades” nasceu no dia de Carnaval de 1497, quando os fanáticos seguidores do padre Girolamo Savonarola, (o mesmo que é retratado no livro “A regra de quatro”, de Ian Caldwell), reuniram e queimaram publicamente milhares de objectos em Florença. Entre estes encontravam-se livros, manuscritos de peças musicais, quadros e muitos artigos de luxo como espelhos, cosméticos ou vestuário, mesas de jogo, e outros objectos supostamente pecaminosos a que conseguiram deitar as mãos. Conta-se que terão sido queimadas todas as cópias do Decameron de Bocaccio e das obras de Ovídio que haviam, na época, em Florença e que o próprio Boticelli foi obrigado deitar quadros seus ao fogo.

 

 

 

Estas fogueiras de vaidades não foram inventadas por Savonarola, de facto, eram um acontecimento relativamente comum à época e os actos deste padre baseavam-se nas fogueiras que frequentemente acompanhavam os sermões de São Bernardino de Siena, na primeira metade do Séc. XV. Os primeiros registos deste tipo de fogueiras datam do tempo dos antigos Egípcios.

 

 

 

Dois anos depois, em Granada, um auto de fé ordenado pelo Arcebispo Cisneiro levou à incineração pública de mais de um milhão de livros Árabes e Hebraicos. A Santa Inquisição, de resto, foi profícua neste tipo de acções ao longo de todo o Sec. XVI.

 

 

 

No final do Séc. XVII, as obras de vários autores, entre eles e principalmente, as de Thomas Hobbes, foram queimadas nos jardins da Universidade de Oxford. Depois, no final do Séc. XVIII, Robespierre ordenou a destruição pelo fogo das bibliotecas religiosas, bem como de todas as obras que glorificassem a monarquia ou os Reis Franceses, esses livros foram classificados como “Inimigos da França Reformada”.

 

 

 

No Início do Séc. XX, durante a Revolução de Outubro, os Bolcheviques ordenaram a destruição de todos os livros contrários ao Comunismo, incluindo muitas obras religiosas, obras sobre a história Czarista, sobre o nacionalismo, a liberdade ou o lucro económico. Em torno desta realidade, desenrola-se o fabuloso romance de Boris Pasternak, “O Dr. Jivago”, consagrado como um dos melhores filmes de todos os tempos pela lente de David Lean.

 

 

 

Duas décadas mais tarde, os Nazis queimavam publicamente as obras de todos os autores Judeus e de livros apelidados de “degenerados”, num total de cerca de dezoito mil títulos que consideravam não corresponder à sua ideologia.

 

 

 

Mais próximo a nós passaram-se alguns episódios similares nos Estados Unidos da América, no tempo do Senador McCarthy, dirigidos aos livros Comunistas, e no Brasil de Getúlio Vargas, que ordenou a queima pública das obras de Jorge Amado.

No alvorecer do nosso Século XXI, mais concretamente em Janeiro de 2001, o Ministro Egípcio da Cultura mandou incinerar seis mil volumes da obra de poesia homo-erótica da autoria de Abu Nuwas, depois de ter sido pressionado por grupos de fundamentalistas Islâmicos.

 

 

 

Os exemplos são muito mais numerosos do que os que nos foi dado descrever aqui, e ocorreram em todas as épocas e em todas as localizações geográficas, no entanto, o mais emblemático destes eventos, por não se limitar à queima de livros, estendendo a diabolização do outro aos próprios objectos que eram considerados simbólicos do pecado foi o que deu o nome a este tipo de acção, a Fogueira das Vaidades de Florença, ordenada por Savonarola.

 

 

 

Quando nos dedicarmos ao tema da censura, no nosso Breviário, exploraremos mais este aspecto das queimas de livros. Hoje, debruçamo-nos sobre o aspecto mais simbólico destas fogueiras e dos seus objectivos psicológicos no controlo das massas, verificando que há paralelos não literais entre o acto concreto de queimar objectos que simbolizam determinado bode expiatório e a exploração da destruição da imagem pública de um qualquer personagem com base em comportamentos supostamente imorais, ilegais ou desonrosos, mesmo que não correspondam inteiramente à verdade.

 

 

 

Esta “Fogueira das Vaidades” simbólica foi magistralmente utilizada por Tom Wolfe no seu romance com esse nome que actualizou o termo para os nossos dias, tornando-o uma expressão comum na descrição de determinado tipo de acções políticas focadas na utilização de um determinado bode expiatório.


21- A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe

“A Fogueira das Vaidades” é o título um romance escrito por Tom Wolfe, em 1987. A história anda à volta dos temas da ambição, do racismo e da ganância na Nova Iorque dos anos oitenta. Apesar do título ter origem na fogueira de Savonarola, a história do livro não se desenvolve em torno desse evento histórico, (o que, na realidade, se passa com um outro livro: “A Regra de Quatro”, de Ian Caldwell). O título refere-se então à vaidade, ao materialismo e à ânsia de poder que marcaram a época dos yuppies.

 

 

 

Sinopse

O enredo centra-se em Sherman McCoy, cuja luxuosa vida como “Mestre do Universo” em Wall Street é destruída quando a sua amante, Maria Ruskin, atropela um jovem negro no Bronx enquanto segue ao volante do carro de McCoy.

Este evento representa uma oportunidade única para Peter Fallow, um jornalista alcoólico e caído em desgraça que escreve para o tablóide City Light. Ao ser persuadido a escrever uma série de artigos sobre o caso de um jovem afro-americano que foi vítima de um atropelamento e fuga por parte de um condutor branco, Fallow suspeita estar a ser usado por um líder político e religioso Nova-Iorquino, o Rverendo Bacon, que está a explorar o acontecimento para progredir na sua carreira política à custa da comunidade negra de Nova Iorque. Bacon encoraja a mãe da vítima, que entretanto ficou em estado de coma a seguir ao atropelamento, a processar o Hospital em que o filho se encontra, por não lhe terem prestado tratamento apropriado, que o poderia ter salvo.

 

 

 

 

Quando McCoy é identificado como dono do carro que efectuou o atropelamento, Fallow inicia uma série de artigos que insinuam que Sherman McCoy é o culpado. A um dado momento, sabe-se que esta série de artigos lhe vale um prémio Pulitzer. McCoy torna-se o homem mais odiado em Nova-Iorque e torna-se o alvo de numerosas manifestações. Abe Weiss, um ambicioso Procurador Público do Bronx à beira da re-eleição, decide que McCoy tem de ser condenado a qualquer custo, o que inclui a obtenção de um falso testemunho por parte da amante deste. A condenação de McCoy permitiria a Weiss ganhar o apoio da população negra de Nova-Iorque para a sua re-eleição.

 

 

 

Quando a amante de McCoy foge do país com outro homem para evitar ter de admitir que era ela a verdadeira condutora, um investigador privado, contratado por McCoy descobre a gravação de uma conversa incriminatória feita pelo seu senhorio durante um dos seus encontro com Maria Ruskin. McCoy usa a gravação para se livrar das acusações que lhe são feitas na audiência preliminar e quase ocorre um motim à porta do tribunal, durante o qual McCoy perde a cabeça e agride vários manifestantes.

No final descobrimos que o jornalista Fallow se casou com uma mulher rica, Maria fugiu à justiça e McCoy vive na miséria enquanto aguarda julgamento por homicídio involuntário.
Discussão

 

 

 

“A Fogueira das Vaidades” foi a primeira novela de Tom Wolfe. O seu trabalho antes deste livro consistiu fundamentalmente de artigos e livros não-ficcionais. As suas obras de ficção e de não-ficção têm em comum um fascínio intenso com as incríveis histórias e surpreendentes detalhes da vida americana. Tal como o seu trabalho jornalístico anterior, “A Fogueira das Vaidades” funde intriga, enredo e detalhe sociológico. O enredo baseia-se nos conflitos de classes da Nova-Iorque dos anos oitenta e na exploração desses conflitos pelos políticos. Ao longo de capítulos extensos e imensamente texturados, que parecem inspirados em Émile Zola, Wolfe descreve os pormenores mais singulares de cada personagem e de cada circunstância.

 

 

 

A atenção de Wolfe ao pormenor chega a ser cansativa de tão exaustivo que é na descrição de todos os pequenos nadas e nos apartes que faz para nos levar em direcções perfeitamente desnecessárias ao desenrolar da história, no entanto, este facto torna “A Fogueira das Vaidades” um livro único, que nos dá a perceber todos os tons e matizes da sociedade Nova-Iorquina dos anos oitenta. Na versão original, chegamos ao ponto de perceber nos diálogos, toda uma variedade de dialectos e sotaques das diversas zonas daquela imensa cidade.

 

 

 

Em 1990, Brian de Palma realizou o filme com o mesmo nome, baseado na história de Wolfe, que foi nomeado para cinco Óscares, contando no elenco com Tom Hanks, Bruce Willys, Melanie Griffith e Morgan Freeman, entre outros. Um filme que vale a pena ver. De Palma mantém o nome mas dá uma volta completa à história, que chega ao fim muito diferente, mas não menos ilustrativa que a obra de Wolfe.

 

 

 

A cinematografia apresenta uma vaidade própria, com imagens filmadas de todos os planos e com todos os graus de aproximação possíveis, chegando alguns planos a poder ser considerados vertiginosos e alucinantes. De Palma parece nem chegar a usar o livro e a fazer a sua própria história, preservando unicamente a espiral descendente dos personagens McCoy e Fallow. Acaba de vez com o livro ao mudar o final e entregando a Morgan Freeman o papel de Juiz, que no livro é apresentado como sendo Judeu e transformando o julgamento numa paródia circense de conflito racial, que traz ao de cima uma leitura doentia do sistema judicial Americano. No filme, em vez do Juiz Judeu do livro, é um Juiz Negro que faz a sensível leitura política final. Imperdível.

 

 

 

Enfim, cada história muda conforme quem a conta, mas no final, o sentido genérico é o mesmo: A ganância e a inveja são ingredientes poderosos para a criação de bodes expiatórios e a vaidade, a luxúria do poder e a sensação de impunidade são provavelmente a principal causa da queda em desgraça de figuras mais ou menos públicas.

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