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Na Europa, impasses políticos e estagnação se alimentam

 

 

O ministro da Economia Sigmar Gabriel, social-democrata, ironizou, com razão: “Não sei se eu deveria rir ou chorar pelo fato de um banco que fez da especulação um modelo de negócio agora dizer que é uma vítima de especuladores”.

 

Ralph Orlowski/Bloomberg/Getty Images
Alemanha

Acostumados a punir supostas imprudências fiscais de nações, Merkel e Schäuble não sabem lidar com a leviandade dos próprios bancos

 

 

 

Segundo o jornal alemão Die Zeit, o governo de Angela Merkel, apesar dos desmentidos oficiais, mantém conversações sobre um resgate ao Deutsche Bank e fala-se de uma participação de 25% do governo no capital, hoje de 63 bilhões de euros. Os dirigentes do banco queixam-se da especulação do mercado sobre suas dificuldades financeiras, que reduziu seu valor a menos da metade desde o início do ano, enquanto políticos da União Social Cristã, governista, acusam os Estados Unidos de mover uma “guerra econômica” ao multar em 14 bilhões de dólares o banco que serve de ponta de lança aos negócios e investimentos das empresas alemãs no exterior. Multa quase igual aos 15 bilhões de dólares à Volkswagen por fraudar a emissão de poluentes.

 

 

 

Pseudonacionalismo à parte, o principal responsável pelas dificuldades é, porém, o próprio Deutsche Bank. O ministro da Economia Sigmar Gabriel, social-democrata, ironizou, com razão: “Não sei se eu deveria rir ou chorar pelo fato de um banco que fez da especulação um modelo de negócio agora dizer que é uma vítima de especuladores”.

Como muitos outros grandes bancos, inclusive Goldman Sachs, UBS, CitiGroup e Bank of America, o Deutsche Bank participou de 2003 a 2008 da farra do mercado imobiliário estadunidense e vendeu aos clientes títulos sabidamente destinados a virar pó. Nada menos de 93% dos títulos subprime de 2006 com classificação AAA – a mais alta possível – foram rebaixados a “lixo” até o início de 2010. 

 

 

 

Mais que a multa pela manipulação fraudulenta do mercado, o Deutsche Bank ainda tem a temer os processos de investidores lesados. Em meados de outubro, a Justiça da Califórnia indeferiu a tentativa do banco de anular um processo movido por 465 fundos liderados pela gestora de ativos BlackRock, cujas perdas somam 75,7 bilhões de dólares. As próprias negociatas levaram esses bancos à beira da falência. Para evitar que arrastassem consigo toda a economia, os governos dos países ricos os socorreram com empréstimos e capitalizações no valor total de 12,8 trilhões de dólares nos EUA e 5,3 trilhões na União Europeia.

 

 

 

Para isso, aumentaram pesadamente suas dívidas públicas e fizeram seus povos pagarem pela incompetência das elites. Foi só o começo: desde 2010, a UE aplicou o equivalente a 600 bilhões de dólares em “resgates a países” cujos povos jamais viram a cor desse dinheiro, pois se tratou de meros socorros indiretos a seus credores bancários. Pelo contrário, na Grécia, à qual foram destinados 57% desses recursos, a renda mediana caiu de 10,8 mil para 7,5 mil euros e, na Espanha, de 14 mil para 13,4 mil, sem falar nos aumentos de impostos e cortes de aposentadorias e serviços públicos.

 

 

 

O saco continua sem fundo. Enquanto juros baixos, arbitrados pelo Banco Central Europeupara aliviar a crise econômica e o desemprego, comprimem a rentabilidade, os bancos europeus continuam notoriamente sobrecarregados de créditos podres: 1,1 trilhão de dólares, estimava a Autoridade Bancária Europeia no início de 2016, incluindo na conta a Itália (mais de 30% do total), mas não a Grécia, que somaria mais um terço a esse valor. O Deutsche Bank estimou em julho que os bancos europeus precisam de 166 bilhões em resgates. É o dobro do “resgate” de Portugal ou a metade do grego – e, na época, não se incluía na conta.

 

 

 

Na época, Merkel alegou normas europeias para não permitir ao primeiro-ministro italiano Matteo Renzi socorrer seus bancos em dificuldades. Na terça-feira 25, o Monte dei Paschi di Siena, o banco mais antigo do mundo e um dos mais problemáticos, anunciou a demissão de 2,6 mil funcionários e o fechamento de 500 das 2 mil agências, mas sua sobrevivência ainda depende da transferência do equivalente a 30 bilhões de dólares em créditos podres, mais de metade de seus ativos, a uma nova entidade.

 

Deutsche Bank
As agruras da UE ainda se devem às travessuras de seus banqueiros (Foto: Hannibal Hanschke/Reuters)

Assim como na França, a incapacidade de Roma de se impor em Bruxelas desgasta Renzi, visto há não muito tempo como o possível “salvador da alma da Europa” contra os populismos nacionalistas. O Movimento 5 Estrelas saiu vitorioso das eleições municipais de junho e cada vez mais pesquisas indicam que o governo caminha para uma derrota no referendo de dezembro sobre a reforma constitucional. Isso pode significar outra crise política e nova eleição, talvez tão desestabilizadora para a União Europeia quanto para o Brexit. Theresa May decidiu não buscar um acordo como o da Noruega e Suíça, pelo qual manteria o acesso ao mercado da UE, mas aceitaria boa parte das suas normas – um Brexit para inglês ver, digamos –, e insiste em ruptura completa.

 

 

 

Com isso, o Reino Unido caminha para perder o acesso privilegiado ao mercado comercial e financeiro europeu, um problema não só para Londres, cujos bancos representam 10% do PIB britânico e têm 1,35 trilhão de dólares aplicados na Europa, quanto para as empresas europeias (principalmente alemãs e holandesas) que exportam para o Reino Unido ou lá têm filiais. Para o discurso dos conservadores britânicos, a União Europeia terá de ceder ao Reino Unido para minimizar suas perdas. É um paradoxo, pois, pelo critério do livro-caixa, o Brexit jamais teria sido aprovado e suas lideranças sabem disso. Na quarta-feira 26, o jornal Guardian vazou uma palestra privada da própria May a banqueiros do Goldman Sachs em maio, quando ainda se acreditava na vitória do “não”. “Os argumentos econômicos são claros. Fazer parte de um bloco comercial de 500 milhões é significante para nós. Muitos investiram aqui porque o Reino Unido está na União Europeia.”

 

 

 

Ante o crescimento de extremismos xenófobos como aquele do Ukip, forças tradicionalmente moderadas se inclinam, como o Partido Conservador britânico, a não tentar conter a onda populista e surfá-la para sobreviver politicamente. Talvez até a esdrúxula escolha pela Academia Sueca de Bob Dylan para o Nobel de Literatura, desdenhada pelo próprio músico, deva ser lida como expressão de ansiedade das elites por não serem deixadas para trás. Mas, se May mudou de posição por esse motivo eminentemente político, os líderes europeus têm suas razões de Estado para não ceder. Teria sido economicamente racional negociar com o governo do Syriza, afrouxar as exigências de austeridade e anular parcialmente a dívida de Atenas, obviamente tão mais impagável quanto mais severa for a “austeridade”.

 

 

 

Entretanto, as autoridades europeias optaram por puni-lo para não incentivar outros movimentos de esquerda a se rebelar pela anulação de dívidas. Essa continua a ser uma obsessão: na quarta-feira 26, com o Deutsche Bank e todo o sistema financeiro europeu a fazer água, o ministro da Fazenda alemão, Wolfgang Schäuble, lembrou-se de criticar a política expansionista dos socialistas em Portugal e afirmar que com o anterior governo “tudo ia bem”.

Protesto
A rigidez da UE enfraquece Renzi, cuja possível derrota no referendo deixaria o M5S mais perto do poder, com um impacto comparável àquele do Brexit (Foto: Christian Minelli/AFP) 
Desta vez, deixar de fazer Londres pagar um preço alto pela deserção seria fortalecer outros populismos antieuropeus de direita, inclusive o italiano, o francês e o alemão, e precipitar a dissolução da organização. E, se a Grécia teve ao menos a simpatia impotente de outros governos endividados do Sul da Europa, o Reino Unido não pode esperar o mesmo. Os nacionalistas conservadores do Leste Europeu têm suas próprias queixas de Bruxelas, mas estão ainda mais inconformados com a pretensão de Londres de expulsar seus migrantes, negar-lhes assistência social ou impedi-los de fazer remessas aos países de origem. O polonês Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, tem sido mais duro que Merkel.

A julgar pela experiência grega, nada será de fato decidido até as 3 da madrugada seguinte ao último dia da última prorrogação após o fim do prazo oficial, dois anos após março de 2017, quando Londres deve apresentar a solicitação formal de saída. É mais incerteza e investimentos adiados de ambos os lados, quando o continente e o mundo mais precisariam de estímulo e perspectiva de futuro. Stephen Roach, ex-economista-chefe do Morgan Stanley, assinala que a economia da China, mesmo capenga, é o único obstáculo a uma recessão mundial. Se for descontado seu crescimento esperado de 6,7% em 2016 e seu efeito indireto sobre as exportações de seus parceiros comerciais, o aumento da produção mundial neste ano cairia de 3,1% para 1,6%.

The Economist Intelligence Unit espera para 2017 “o último hurra da economia mundial”, impelido por uma suposta (e por ora improvável) recuperação da Rússia e do Brasil, pois em 2018, após o congresso do Partido Comunista, Pequim seria obrigada a puxar o freio e reduzir o crescimento de 6% para 4%. Parece cada vez mais difícil desarmar a armadilha. O governo grego é apenas o exemplo mais dramático de promessas vazias de defender os interesses populares seguidas de submissão à tecnocracia financeira.

 

 

 

Quanto mais as lideranças da União Europeia se apegam a um pacto entre elites insensíveis à inquietação popular, esvaziam a democracia e mostram inflexibilidade ante um cenário de estagnação e incerteza a pretexto do “não há alternativa”, maior é a disposição de romper o círculo vicioso pelo voto em movimentos dispostos a mandar essa lógica às favas e dar voz aos seus temores e indignações, mesmo que de forma irracional. As falsas respostas do populismo de direita devem piorar o quadro, mas, enquanto forem a expressão mais audível e compreensível do “não” a esse estado de coisas, serão ouvidas pelas massas suficientemente nostálgicas de autenticidade para consumir suas piores falsificações. 

 

 

por Antonio Luiz M. C. Costa — 05/11/2016 

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