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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

Miséria e glória do PT

A inequívoca derrota nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições municipais de domingo passado (2/10) surge como epílogo do impeachment, ao endossá-lo com a chancela do voto popular. Aparece como epílogo também da trajetória desse partido, versão nacional autêntica do fenômeno político internacional, lastreado na matriz histórica europeia, da social-democracia.

O roteiro é parecido: o capitalismo industrial forma um exército operário que passa a exercer enorme poder de barganha, o qual logo se condensa num partido de massas, dedicado a uma oposição radical, extraparlamentar e principista. Êxitos e obstáculos dessa fase inicial encorajam concessões no rumo de um reformismo cada vez mais moderado, apto a eventualmente arrebatar a maioria dos votos e o poder central.

Quando isso de fato acontece, já então um pragmatismo desenvolto terá convertido o partido ao establishment, reduzido seus princípios à formalidade e aberto suas portas à corrupção. Como saldo, ele terá canalizado pressões distributivas que tendem a universalizar o acesso a um acervo de direitos básicos da cidadania.

Leon Trótski definiu o capitalismo mundial como "desenvolvimento desigual e combinado" a fim de ressaltar a sincronia entre componentes modernos e arcaicos de sua articulação e a consequente abreviação do tempo nas sociedades periféricas, como Rússia ou Brasil; foi assim que o PT galgou, em pouco mais de 30 anos, o percurso que a social-democracia clássica levara um século para transpor.

O demiurgo que reencenou esse conhecido enredo de ascensão e queda, o ex-presidente Lula, acrescentou-lhe três aspectos originais, ao menos no cenário latino-americano. O primeiro foi atinar que o feitiço se volta contra o feiticeiro sempre que o governante cede à tentação de fazer política social via manipulação da macroeconomia, razão da derrubada de inúmeros governos populistas e cuja reincidência terminaria por contribuir para a deposição de sua própria sucessora.

O segundo aspecto foi ter demonstrado que era viável fazer transferências de renda às camadas mais pobres da população, de modo a garantir-lhes um patamar mínimo, em escala muito superior à praticada até então e sem causar desastre financeiro –é verdade que numa diretriz facilitada, na década passada, pelos excedentes da forte alta no preço de produtos que o Brasil exporta, como ferro e soja.

Além disso, Lula resistiu à aventura de um terceiro mandato consecutivo, que os altos índices de popularidade na época lhe teriam talvez propiciado, ainda que ao preço de atropelar resistências encasteladas em boa parte do Congresso, do Judiciário e da sociedade. Um caudilho qualquer teria se lançado ao abuso, que ele teve a perspicácia de recusar, como se intuísse que, ganhando, faria um governo acossado.

A popularidade inebriante, os 13 anos de controle da máquina federal (que apropria quase dois terços da arrecadação) e o Eldorado do pré-sal se combinaram para levar a cúpula do partido, na metáfora de um de seus dirigentes, a se lambuzar como no ditado sobre melaço. Difícil saber se corrupção numa escala semelhante acontecera em período anterior: os mecanismos de investigação eram mais precários, e a lei não facultava delação premiada.

Deve ter sido ao menos a era de corrupção mais sistêmica, dado que o PT é um partido de verdade, não mera agência de interesses eleitorais consorciados como quase todas as demais siglas. Quando um presidente brasileiro ascende, sobem com ele centenas de apaniguados; quando um partido como o PT chega ao poder, são dezenas de milhares de quadros que se incrustam na máquina e passam a aparelhá-la.

É cedo para dizer se o partido será substituído por um PSOL, por exemplo, que parece repetir seus passos iniciais rumo à moderação, ou se voltará recuperado após gramar longo ostracismo: a distância do poder exerce incomparável efeito desinfetante. É óbvio que o Brasil não pode nem deve prescindir de um amplo partido democrático de centro-esquerda.

Se existe algo de funcional, aliás, no antagonismo pendular entre direita e esquerda que predomina na história política moderna é que, sem aquela, a sociedade corre o risco de estagnar no atraso econômico e tecnológico, ao passo que, sem esta, pode ser dilacerada pelas iniquidades sociais. Como diz o Eclesiastes (3:2), há tempo de semear, e há tempo de colher o que foi semeado. Este é, definitivamente, tempo de semear.

OTAVIO FRIAS FILHO - diretor de redação da Folha de São Paulo 

09/10/2016

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