IMLB - Instituto Mãos Limpas Brasil

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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...


Quero uma escola retógrada...; Escola da Ponte - 1; Escola da Ponte - 2 Escola da
Ponte - 3 Escola da Ponte - 4 Escola da Ponte - 5


Quero uma escola retrógrada...
Aforismo que repito sempre: "Numa terra de fugitivos aquele que anda na direção
contrária parece estar fugindo." O poeta T. S. Eliot, que o escreveu, pôs o fugitivo no
singular: um ser solitário. E era assim que eu sempre me sentia, andando sozinho na
direção contrária.

Mas, repentinamente, descobri um outro "fugitivo", um velho de
longas barbas e que fumava um charuto fedorento. Não gosto de cheiro de charutos.
Mas gosto de companhia. Aproximei-me dele e o reconheci. O nome dele era Karl
Marx. Fiquei espantado porque sempre pensei que ele se encontrava no meio da
multidão dos que andam para a frente, os modernos, economistas, cientistas - pois foi
isso que sempre disseram dele os que se diziam seus intérpretes. De fato, as roupas que
ele usava eram modernas, feitas de tecido fabricado naquelas tecelagens (que ele
odiava) onde trabalhavam mulheres e crianças 16 horas por dia, para enriquecer os
donos. Evidentemente faltava-lhe tempo e habilidade para fazer o que fazia aquele outro
retrógrado chamado Gandhi, que tecia seus próprios tecidos num tear doméstico que ele
afirmava ter poderes terapêuticos e sapienciais. Percebi que ele era moderno por fora
mas o seu coração era retrógrado; andava para trás. Como o meu.
Psicanalista, presto atenção nos detalhes, os lapsus, e foi assim que descobri esse
segredo que ninguém mais sabia: um pequeno texto...Ele dizia nesse texto que o
operário, ao ver o objeto que produzira, tinha de ver o seu próprio rosto refletido nele.
Cada objeto tem de ser um espelho, tem de ter a cara daquele que o produziu. Quando o
operário vê seu rosto refletido no objeto que ele produziu ele sorri feliz. O trabalho, com
todo o seu sofrimento, valeu a pena: foi dor de parto.
Agora, meu leitor, lhe peço: ande por sua casa e examine os objetos modernos que há
por lá: liquidificadores, torradeiras, fogões, computadores. Olhando para eles, cara de
quem você vê? Se, ao invés de estar comprando um desses objetos numa dessas lojas
que vendem tudo para fazer sua mãe feliz - eles, os vendedores, acham que sua mãe é
muito curta de inteligência e de sentimentos - você estiver numa exposição de arte -
esculturas do Santos Lopes, esse extraordinário artista português, por exemplo - e você
se apaixonar por uma delas - você poderá procurar um lugar, na escultura, onde ele
colocou a sua assinatura. Você compra a escultura, leva-a para sua casa, põe na sala, e
se eu for visitá-lo, ao ver a escultura, direi imediatamente, antes de examiná-la: " Ah!
Você tem uma Santos Lopes!" Todas as esculturas do Santos Lopes têm a cara dele (
mesmo que ele não as assine; são inconfundíveis!). Mas o nome de que artesão irei dizer
ao ver seu liquidificador, sua torradeira, seu computador, sua esferográfica? Esses
objetos foram feitos por pessoas sem nome. Foram produzidos em linhas de montagem.
São todos iguais. Quando ficam velhos são jogados fora e outros, novos, também
produzidos em linhas de montagem, são comprados. Operários que trabalham em linhas
de montagem não assinam as suas obras - porque não são deles - e nem vêem o seu
rosto refletido nelas. Foi isso que me fez concluir, a partir da pequena afirmação de
Marx, que ele destruiria as linhas de montagem, se pudesse, voltando então a um tempo
passado onde cada obra era espelho como assinatura. Acontece que objetos com o rosto
do artesão e assinatura não chegam para alimentar a economia capitalista, que tem uma
fome insaciável. Marx sonhava com uma situação que já não mais existia, o atelier do
artesão medieval, cada artista, cada aprendiz, fazendo uma coisa única, que nunca mais
se repetiria: em cada objeto o rosto do que o produzira, cada objeto uma experiência de
felicidade narcísica. É isso que combina conosco, seres humanos, únicos, que nunca se
repetem.
Como são produzidos liquidificadores, máquinas de lavar roupa, computadores,
automóveis? São produzidos numa "linha de montagem". De maneira simplificada: uma
esteira que se movimenta. Ao lado dela estão operários. Cada operário tem uma função
específica. O processo se inicia com uma "peça original" à qual, à medida que esteira
corre, os operários vão acrescentando as partes que irão compor o objeto final. Nenhum
operário faz o objeto, individualmente. Cada operário faz uma única operação: juntar,
soldar, aparafusar, cortar, testar. O resultado da linha de montagem é a produção rápida
e controlada de objetos iguais. A igualdade dos objetos finais é a prova da qualidade do
processo. O que não for igual, isso é, que apresentar alguma peculiaridade que o
distinga do objeto ideal, é eliminado. A função da "peça original", como se vê, é a de
ser simples suporte para as outras peças que lhe vão sendo acrescentadas. Ao final do
processo a "peça original" praticamente desapareceu. No seu lugar está o objeto que
vale pela sua função dentro do processo econômico.
Nossas escolas são construídas segundo o modelo das linhas de montagem. Escolas são
fábricas organizadas para a produção de unidades bio-psicológicas móveis portadoras de
conhecimentos e habilidades. Esses conhecimentos e habilidades são definidos
exteriormente por agências governamentais a que se conferiu autoridade para isso. Os
modelos estabelecidos por tais agências são obrigatórios, e têm a força de leis. Unidades
bio-psicológicas móveis que, ao final do processo, não estejam de acordo com tais
modelos são descartadas. É a sua igualdade que atesta a qualidade do processo. Não
havendo passado o teste de qualidade-igualdade, elas não recebem os certificados de
excelência ISO-12.000, vulgarmente denominados diplomas. As unidades biopsicológicas
móveis são aquilo que vulgarmente recebe o nome de "alunos".
As linhas de montagem denominadas escolas se organizam segundo coordenadas
espaciais e temporais. As coordenadas espaciais se denominam "salas de aula". As
coordenadas temporais se denominam "anos" ou "séries". Dentro dessas unidades
espaço-tempo os professores realizam o processo técnico-científico de acrescentar sobre
os alunos os saberes-habilidades que, juntos, irão compor o objeto final. Depois de
passar por esse processo de acréscimos sucessivos - à semelhança do que acontece com
os "objetos originais" na linha de montagem da fábrica- o objeto original que entrou na
linha de montagem chamada escola ( naquele momento ele chamava "criança") perdeu
totalmente a visibilidade e se revela, então, como um simples suporte para os sabereshabilidades que a ele foram acrescentados durante o processo. A criança está,
finalmente formada, isso é, transformada num produto igual a milhares de outros. ISO12.000:
está formada, isto é, de acordo com a forma. É mercadoria espiritual que pode
entrar no mercado de trabalho.
Aí o meu companheiro de direção contrária me perguntou se não seria possível mudar
as coisas. Abandonar a linha de montagem de fábrica como modelo para a escola e,
andando mais para trás, tomar o modelo medieval da oficina do artesão como modelo
para a escola. O mestre-artesão não determinava como deveria ser o objeto a ser
produzido pelo aprendiz. Os aprendizes, todos juntos, iam fazendo cada um a sua coisa.
Eles não tinham de reproduzir um objeto ideal escolhido pelo mestre. O mestre estava a
serviço dos aprendizes e não os aprendizes a serviço dos mestres. O mestre ficava
andando pela oficina, dando uma sugestão aqui, outra ali, mostrando o que não ficara
bem, mostrando o que fazer para ficar melhor ( modelo maravilhoso de "avaliação").
Trabalho duro, fazer e refazer. Mas os aprendizes trabalham sem que seja preciso que
alguém lhes diga que devem trabalhar. Trabalham com concentração e alegria,
inteligência e emoção de mãos dadas. Isso sempre acontece quando se está tentando
produzir o próprio rosto ( e não o rosto de um outro). Ao final, terminado o trabalho, o
aprendiz sorri feliz, admirando o objeto produzido.
São extraordinários os esforços que estão sendo feitos para fazer com que nossas linhas
de montagem chamadas escolas tão boas quanto as japonesas. Mas o que eu gostaria
mesmo é de acabar com elas. Sonho com uma escola retrógrada, artesanal...
Impossível? Eu também pensava. Mas fui a Portugal e lá encontrei a escola com que
sempre sonhara: a "Escola da Ponte". Me encantei vendo o rosto e o trabalho dos
alunos: havia disciplina, concentração, alegria e eficiência.

A Escola da Ponte - 1
Tudo começou acidentalmente num lugar de Portugal cujo nome eu nunca ouvira: Vila
Nova de Famalicão. Posteriormente me ensinaram que era a cidade onde vivera Camilo
Castelo Branco, romancista gigante de vida trágica. Menino ainda, li o seu livro "Amor
de Perdição", evidentemente sem nada compreender. Li porque não tinha outra coisa
para fazer e o livro estava lá, na estante do meu pai. Camilo se apaixonou por uma
mulher casada que, por sua vez se apaixonou por ele, e os dois fugiram para viver um
amor louco e criminoso. Naqueles tempos do século passado adultério era crime, o
marido traído pôs a polícia ao encalço do sedutor que foi preso e passou anos na prisão -
sem que o seu amor diminuísse. Imagino que o título do seu livro "Amor de Perdição"
tenha sido inspirado por sua própria desgraça. Mas o marido finalmente morreu e os
dois apaixonados viveram o resto de suas vidas na casa que pertencera ao marido.
Velho, Camilo Castelo Branco ficou cego e foi abandonado pelos amigos. De tristeza,
pôs um fim à sua vida. A casa é hoje um museu.
Existe ali um "Centro de Formação Camilo Castelo Branco", dirigido pelo professor
Ademar Santos. Pois há alguns anos atrás, por obra de uma brasileira que lá vive,
chegou às mãos do professor Ademar um livrinho meu, velho e surrado, "Estórias de
quem gosta de ensinar". O Ademar sentiu logo que éramos conspiradores de idéias,
passou a caçar o que eu escrevia, descobrindo-me finalmente nas crônicas que publico
aqui no Correio Popular aos domingos. Passamos a nos corresponder via e-mail e o
"Centro de Formação Camilo Castelo Branco" acabou por convidar-me a lá passar uma
semana. E foi o que fiz de 2 a 7 de maio. Eu já havia estado anteriormente em Portugal
como turista, tendo conhecido monumentos, restaurantes e cidades. Dessa vez foi
diferente. Conheci pessoas. Conversei com elas. Tive a recepção mais generosa e
inteligente de toda a minha vida. Recepções generosas - isso é fácil: passeios, jantares,
presentes, homenagens. Mas eu insisto no "inteligente". Cada ocasião era uma
aprendizagem que me assombrava. Dentre elas a "Escola da Ponte". Pedi que o Ademar
me desse explicações preliminares, antes da visita. Ele se recusou. Disse-me que
explicações seriam inúteis. Eu teria de ver e experimentar.
A "Escola da Ponte" é dirigida por José Pacheco, um educador de voz mansa e poucas
palavras. Imaginei que ele seria meu guia e explicador. Ao invés disso ele chamou uma
aluna de uns 10 anos que passava e disse: "Será que tu poderias mostras e explicar a
nossa escola a este visitante?" Ela acenou que sim com um sorriso e passou a me guiar.
Antes de entrar no lugar onde as crianças estavam ela parou para me dar a primeira
explicação que tinha por objetivo, imagino, amenizar a surpresa.
Aqui, quando a gente vai a uma escola, sabe o que vai encontrar: salas de aulas, em cada
sala um professor, o professor ensinando, explicando a matéria prevista nos programas
oficiais, as crianças aprendendo. A intervalos regulares soa uma campainha - sabe-se
então que vai haver uma mudança - muda-se de matéria, freqüentemente muda-se de
professor, pois há professores de matemática, de geografia, de ciências, etc., cada um
ensinando a disciplina de sua especialidade. Já falei sobre isso na crônica passada: as
linhas de montagem.
É preciso imaginar o delicioso "portuguesh" que se fala em Portugal para sentir a
música segura e tranqüila da fala da menina. "Nósh não têmosh, como nas outrash
escolash (daqui para frente escreverei do jeito normal...) salas de aulas. Não temos
classes separadas, 1º ano, 2º ano, 3º ano... Também não temos aulas, em que um
professor ensina a matéria. Aprendemos assim: formamos pequenos grupos com
interesse comum por um assunto, reunimo-nos com uma professora e ela, conosco,
estabelece um programa de trabalho de 15 dias, dando-nos orientação sobre o que
deveremos pesquisar e os locais onde pesquisar. Usamos muito os recursos da Internet.
Ao final dos 15 dias nos reunimos de novo e avaliamos o que aprendemos. Se o que
aprendemos foi adequado, aquele grupo se dissolve, forma-se um outro para estudar
outro assunto."
Ditas essas palavras ela abriu a porta e, ao entrar, o que vi me causou espanto. Era uma
sala enorme, enorme mesmo, sem divisões, cheia da mesinhas baixas, próprias para as
crianças. As crianças trabalhavam nos seus projetos, cada uma de uma forma. Moviamse
algumas pela sala, na maior ordem, tranqüilamente. Ninguém corria. Ninguém falava
em voz alta. Em lugares assim normalmente se ouve um zumbido, parecido com o
zumbido de abelhas. Nem isso se ouvia. Notei, entre as crianças, algumas com síndrome
de Down que também trabalhavam. As professoras estavam assentadas com as crianças,
em algumas mesas, e se moviam quando necessário. Nenhum pedido de silêncio.
Nenhum pedido de atenção. Não era necessário.
À esquerda da porta de entrada havia frases escritas com letras grandes, afixadas na
parede. A menina explicou: " Aprendemos a ler lendo frases inteiras". Lembrei-me que
foi assim que eu aprendi a ler. Minha primeira cartilha se chamava "O Livro de Lili".
Na primeira página havia o desenho de uma menininha com o seguinte texto, que nunca
esqueci: " Olhem para mim. / Eu me chamo Lili. / Eu comi muito doce. / Vocês gostam
de doce? / Eu gosto tanto de doce!" Imaginei que a diferença, talvez, fosse que o texto
do "Livro de Lili" tinha sido escrito por uma pessoa no seu escritório. E que as frases
que se encontravam escritas na parede da "Escola da Ponte" eram frases propostas pelas
próprias crianças, frases que diziam o que elas estavam vivendo. Aprendiam, assim, que
a escrita serve para dizer a vida que cada um vive. Pensei que é assim que as crianças
aprendem a falar. Elas aprendem palavras inteiras, pois somente palavras inteiras fazem
sentido. Elas não aprendem os sons para depois juntar os sons em palavras.
"Mas é importante saber as letras na ordem certa", ela continuou, "porque é assim que
se aprende a ordem alfabética, necessária para o uso dos dicionários". ( Ela falava assim
mesmo, não é invenção minha...)
Notei, numa mesa ao lado, uma menina que escrevia e consultava um dicionário.
Agachei-me para conversar com ela. " Você está procurando no dicionário uma palavra
que você não sabe?" - perguntei. "Não, eu sei o sentido da palavra. Mas estou a escrever
um texto para os miúdos e usei uma palavra que, penso, eles não conhecem. Como eles
ainda não sabem a ordem alfabética e não podem consultar o dicionário, estou a
escrever um pequeno dicionário ao pé da página do meu texto para que eles o
compreendam." "Estou a escrever um texto para os miúdos" - foi o que ela disse. Na
"Escola da Ponte" é assim. As crianças que sabem ensinam as crianças que não sabem.
Isso não é exceção. É a rotina do dia a dia. A aprendizagem e o ensino são um
empreendimento comunitário, uma expressão de solidariedade. Mais que aprender
saberes, as crianças estão a aprender valores. A ética perpassa silenciosamente, sem
explicações, as relações naquela sala imensa.
Na outra parede encontrei dois quadros de avisos. Num deles estava afixada a frase: "
Tenho necessidade de ajuda em...". E, no outro, a frase: " Posso ajudar em..." Qualquer
criança que esteja tendo dificuldades em qualquer assunto coloca ali o assunto em que
está tendo dificuldades e o seu nome. Um outro colega, vendo o pedido, vai ajudá-la. E
qualquer criança que se ache em condições de ajudar em algum assunto, coloca ali o
assunto em que se julga competente e o seu nome. Assim, vai-se se formando uma rede
de relações de ajuda.
Ando um pouco mais e encontro uma menina com síndrome de Down trabalhando com
outras, numa mesinha. Ela trabalha de forma concentrada. Seu presença é uma presença
igual à de todas as demais crianças: alguém que não sabe muitas coisas, que pode
aprender muitas coisas. Acima de tudo ela aprende que ela tem um lugar importante na
vida.
Andando, vi um texto intitulado: " Direitos das crianças quanto à leitura". O primeiro
direito rezava: "Toda criança tem o direito de não ler o livro de que não gosta." Ah!
quot;, pensei, " é possível que Jorge Luis Borges tenha andado por aqui..." Li depois, o
texto dos "Direitos e Deveres", elaborados pelas próprias crianças. Dentre todos, o que
mais me impressionou foi o que dizia assim: "Temos o direito de ouvir música na sala
de trabalho para pensarmos em silêncio"...
Nesse momento eu já estava encantado! No próxima coluna eu conto mais...
A Escola da Ponte - 2
que minha imaginação é muito fértil! A menina que me guiava apontou para um
computador num canto da sala imensa: "É o computador do "Acho bom" e do "Acho
mal". Quando nos sentimos contentes com algo, escrevemos no "Acho bom". Quando,
ao contrário, nos sentimos infelizes, escrevemos no "Acho mal". Examinei o "Acho
mal". A curiosidade é sempre espicaçada por coisas ruins. "Acho mal que o Tomás de
estalos na cara da Francisca". Pensei: "Ah! Tomás! Tu estás perdido! Todos já sabem o
que fazes! Se continuas, certamente terás de comparecer perante o Tribunal para dares
conta dos teus atos." E, no "Acho bom" estão os louvores ao gestos e coisas boas.
Treinamento dos olhos e da fala. O normal é que os olhos vejam mais as coisas ruins e
que a boca tenha mais prazer em falar sobre elas. Mas lá, na Escola da Ponte, as
crianças são convidadas a ver o bom, o bonito, o generoso, e a falar sobre eles.
Tribunal...A menina me havia falado sobre problemas de disciplina. Para tais situações
as crianças estabeleceram um tribunal. Aquele que desrespeita as regras de convivência
por elas mesmas estabelecidas tem de comparecer perante esse tribunal. Sua primeira
pena é pensar durante três dias sobre os seus atos. Depois ele retorna, para dizer o que
pensou. Minha guia não me esclareceu sobre o que acontece com os impenitentes
reincidentes. Mas o culpado fui eu: não perguntei.
Aí fomos para o refeitório. Havia um grupo de alunos e professoras reunido à volta de
uma mesa. "Estão a preparar a assembléia de hoje. Temos uma assembléia que se reúne
semanalmente para tratar dos problemas da escola e para sugerir soluções. Aquele é o
presidente", ela me disse, apontando para um menino.
Ao fim do dia reuniu-se a assembléia. Fui convidado a falar alguma coisa. Havia levado
comigo um carrinho, feito com uma lata de sardinha. Já escrevi sobre ele. Quando o vi
pela primeira vez, numa exposição de brinquedos na Bahia, fiquei tão impressionado
que a dona da exposição m'o ( Meu Deus! Fiquei infectado pela maneira portuguesa
erudita de falar! Para quem não sabe: m'o = me + o ) deu como presente. Conversei com
as crianças sobre o carrinho. O que me interessava não era o carrinho. Era o processo de
sua produção. Brinquedo construído por um menino pobre que sonhava com um
carrinho e não tinha dinheiro para comprar. Se fosse rico, era só pedir para o pai - ele
compraria um carrinho eletrônico movido ao aperto de um botão, o que desenvolveria o
dedo e atrofiaria a inteligência. Dinheiro demais é emburrecedor. Perguntei uma
pergunta tola: " Em que loja se compra um carrinho assim?" Esperava a resposta óbvia:
" Esse carrinho não se compra em lojas..." Uma menina levantou o dedo. O que ela
disse me assombrou: "Esse carrinho se compra na loja das mãos". "Loja das mãos": ela
me respondeu com poesia. Seguiu-se um período de perguntas. Pasmem: em nenhum
momento qualquer aluno interrompeu o outro. Isso é lei que as crianças estabeleceram.
Está escrito na lista de "Direitos e Deveres". Pensei que o senador Antônio Carlos
Magalhães e o deputado Jader Barbalho deveriam fazer um estágio na Escola da Ponte.
Quem desejava falar levantava na mão e aguardava a indicação do presidente. Às cinco
horas o presidente falou: "Já está na hora de terminar. Vou dar a palavra para mais um
colega e terminaremos." E assim foi. Ao final, vieram conversar comigo. Uma menina
me perguntou: "Tens mirk?" Nem sei se é assim que se escreve. O fato é que eu nunca
havia ouvido essa palavra. Ela me explicou: "Aquele programa de computador que
permite que se converse. Quero conversar contigo..." Não. Eu não tinha mirk... Um
menininho chegou à minha frente segurando um chaveiro: uma correntinha com um
pequeno sino na ponta. Ficou olhando para mim. Perguntei: "E isso?"
"Um presente para ti", respondeu. Não me esquecerei do Sérgio...Sei que vocês devem
estar incrédulos. Como é possível uma escola assim, sem turmas, sem professores e
aulas de português, geografia, ciências, história, em lugares e horas determinadas, de
acordo com um programa, linha de montagem, com testes e conceitos ao final? Será que
as crianças aprendem?
Respondo fazendo uma pergunta: qual é a coisa mais difícil de ser ensinada, mais difícil
de ser aprendida, quem ensina não sabe que está ensinando, quem aprende não sabe que
está aprendendo e, ao final, a aprendizagem acontece sempre? É a linguagem. Não
existe nada, absolutamente nada que se compare à linguagem em complexidade. No
entanto, sem que haja qualquer ensino formal, sem que os que ensinam a falar - pai,
mãe, tio, avô, irmãos - tenham tido aulas teóricas sobre a formação da linguagem, as
crianças aprendem a falar.
Imaginem que o ensino da linguagem se desse em escolas, segundo os moldes de linha
de montagem que conhecemos: aulas de substantivos, aulas de adjetivos, aulas de
verbos, aulas de sintaxe, aulas de pronúncia. O que aconteceria? As crianças não
aprenderiam a falar. Por que é que a aprendizagem da linguagem é tão perfeita, sendo
tão informal e tão sem ordem certa? Porque ela vai acontecendo seguindo a experiência
vital da criança: o falar vai colado à experiência que está acontecendo no presente.
Somente aquilo que é vital é aprendido. Por que é que, a despeito de toda pedagogia, as
crianças têm dificuldades em aprender nas escolas? Porque nas escolas o ensinado não
vai colado à vida. Isso explica o desinteresse dos alunos pela escola. Alguns me
contestarão dizendo: "Mas o meu filho adora a escola!" Pergunto: Ele adora a escola por
aquilo que está aprendendo ou por outras razões? Confesso não saber de um aluno que
tenha prazer em conversar com os pais sobre aquilo que está aprendendo na escola.
Explica também a indisciplina. Por que haveria uma criança de disciplinar-se, se aquilo
que ela tem de aprender não é aquilo que o seu corpo deseja saber? E explica também a
preguiça que sentem as crianças ao se defrontar com as lições de casa. Roland Barthes
tem um delicioso ensaio sobre a preguiça. Segundo ele há dois tipos de preguiça. Um
deles, abençoado, é a preguiça de quem está deitado na rede de barriga cheia. Não quer
fazer nada porque na rede está muito bom. O outro tipo é a preguiça infeliz, ligado
inseparavelmente à escola. O aluno se arrasta sobre a lição de casa. Não quer faze-la. A
vida o está chamando numa outra direção mais alegre. Mas ele não tem alternativas. É
obrigado a fazer a lição. Por isso ele se arrasta em sofrimento.
O conhecimento é uma árvore que cresce da vida. Sei que há escolas que têm boas
intenções, e que se esforçam para que isso aconteça. Mas as suas boas intenções são
abortadas porque são obrigadas a cumprir o programa. Programas são entidades
abstratas, prontas, fixas, com uma ordem certa. Ignoram a experiência que a criança está
vivendo. Aí tenta-se, inutilmente, produzir vida a partir dos programas. Mas não é
possível, a partir da mesa de anatomia, fazer viver o cadáver. O que vi na Escola da
Ponte é o conhecimento crescendo a partir das experiências vividas pelas crianças.
Aí vocês me perguntarão: "Mas o programa é cumprido?" Sobre isso falarei na próxima
crônica.
A Escola da Ponte - 3
Contei sobre a escola com sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. Mas
existia, em Portugal...Quando a vi, fiquei alegre e repeti, para ela, o que Fernando
Pessoa havia dito para uma mulher amada: "Quando te vi, amei-te já muito antes..."
Gente de boa memória jamais entenderá aquela escola. Para entender é preciso esquecer
quase tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer é livrar-se
dos jeitos de ser que se sedimentaram em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm
de ser do jeito como são. Não. Não é preciso que as coisas continuem a ser do jeito
como sempre foram.
Como são e têm sido as escolas? Que nos diz a memória? A imagem: uma casa, várias
salas, crianças separadas em grupos chamados "turmas". Nas salas os professores
ensinam saberes. Toca uma campainha. Terminou o tempo da aula. Os professores
saem. Outros entram. Começa uma nova aula. Novos saberes são ensinados. O que é
que os professores estão fazendo? Estão cumprindo um "programa". "Programa" é um
cardápio de saberes organizados em seqüência lógica, estabelecido por uma autoridade
superior invisível, que nunca está com as crianças. Os saberes dos cardápio "programa"
não são "respostas" às perguntas que as crianças fazem. Por isso as crianças não
entendem por que têm de aprender o que lhes está sendo ensinado. Nunca vi uma
criança questionar a aprendizagem do falar. Uma criancinha de 8 meses já está doidinha
para aprender a falar. Ele vê os grandes falando entre si, falando com elas, sentem que
falar é uma coisa divertida e útil, e logo começam a ensaiar a fala, por conta própria.
Fazem de conta que estão falando. Balbuciam. Brincam com os sons. E quando
conseguem falar a primeira palavra, sentem a alegria dos que a cercam. E vão
aprendendo, sem que ninguém lhes diga que elas têm de aprender a falar e sem que o
misterioso processo de ensino e aprendizagem da fala esteja submetido a um programa
estabelecido por autoridades invisíveis. Elas aprendem a falar porque o falar é parte da
vida.
Nunca ninguém me disse que eu deveria aprender a descascar laranjas. Aprendi porque
via o meu pai descascando laranjas com uma mestria ímpar, sem arrebentar a casca e
sem ferir a laranja, e eu queria fazer aquilo que ele fazia. Aprendi sem que me fosse
ensinado. A arte de descascar laranjas não se encontra em programas de escola. O corpo
tem uma precisa filosofia de aprendizagem: ele aprende os saberes que o ajudam a
resolver os problemas com que está se defrontando. Os programas são uma violência
que se faz com o jeito que o corpo tem de aprender. Não admira que as crianças e
adolescentes se revoltem contra aquilo que os programas os obrigam a aprender. Ainda
ontem uma amiga me dizia que sua filha, de 10 anos, lhe dizia: "Mãe, por que tenho de
ir à escola? As coisas que tenho de aprender não servem para nada. Que me adianta
saber o que significa "oxítona"? Prá que serve esta palavra?" A menina sabia mais que
aqueles que fizeram os programas.
Vamos começar do começo. Imagine o homem primitivo, exposto à chuva, ao frio, ao
vento, ao sol. O corpo sofre. O sofrimento faz pensar.: "Preciso de abrigo", ele diz.. Aí,
forçada pelo sofrimento, a inteligência entra em ação. Pensa para deixar de sofrer.
Pensando, conclui: "Uma caverna seria um bom abrigo contra a chuva, o frio, o vento, o
sol..." Instruídos pela inteligência os homens procuram uma caverna e passam a morar
nela. Resolvido o sofrimento, a inteligência volta a dormir. Mas aí, forçados ou pela
fome ou por um grupo armado que lhes toma a caverna, eles são forçados a se mudar
para uma planície onde não há cavernas. O corpo volta a sofrer. O sofrimento acorda a
inteligência e faz com que ela trabalhe de novo. A solução original não serve mais: não
há cavernas. A inteligência pensa e conclui: "É preciso construir uma coisa que faça às
vezes de caverna. Essa coisa tem de ter um teto, para proteger do sol e da chuva. Tem
de ter paredes, para proteger do vento e do frio.Com que se pode fazer um teto?" A
inteligência se põe então a procurar um material que sirva para fazer o teto. Folhas de
palmeira? Capim? Pedaços de pau? Mas o teto não flutua no ar. Tem de haver algo que
o sustente. Paus fincados? Sim. Mas para fincar um pau é preciso descobrir uma
ferramenta para cortar o pau. Depois, uma ferramenta para fazer o buraco na terra. E
assim vai a inteligência, inventando ferramentas e técnicas, à medida em que o corpo se
defronta com necessidades práticas. A inteligência, entre os esquimós, jamais pensaria
uma casa de pau-a-pique. Entre eles não há nem madeira e nem barro. Produziu o iglu.
E a inteligência do homem que vive na floresta jamais pensaria um iglu - porque nas
florestas não há gelo. Produziu a casa de pau-a-pique. A inteligência é essencialmente
prática. Está a serviço da vida.
Um exercício fascinante a se fazer com as crianças seria provocá-las para que elas
imaginassem o nascimento dos vários objetos que existem numa casa. Todos os objetos,
os mais humildes, têm uma história para contar. Que necessidade fez com que se
inventassem panelas, facas, vassouras, o fósforo, a lâmpada, as garrafas, o fio dental?...
Quais poderiam ter sido os passos da inteligência, no processo de inventá-los? Quem é
capaz de, na fantasia, reconstruir a história da invenção desses objetos, fica mais
inteligente.
Depois de inventados, eles não precisam ser inventados de novo. Quem inventou passa
a possuir a receita para a sua fabricação. E é assim que as gerações mais velhas passam
para seus filhos as receitas de técnicas que tornam possível a sobrevivência. Esse é o seu
mais valioso testamento: um saber que torna possível viver. As gerações mais novas,
assim, são poupadas do trabalho de inventar tudo de novo. E os jovens aprendem com
alegria as lições dos mais velhos: porque suas lições os fazem participantes do processo
de vida que une a todos. A aprendizagem da linguagem se dá de forma tão eficaz porque
a linguagem torna a criança um membro do grupo: ela participa da conversa, fala e os
outros ouvem, ri das coisas engraçadas que se dizem. O mesmo pode ser dito da
aprendizagem de técnicas: o indiozinho que aprende a fabricar e a usar o arco e a flecha,
a construir canoas e a pescar, a andar sem se perder na floresta, a construir ocas, está se
tornando num membro do seu grupo, reconhecido por suas habilidades e por sua
contribuição à sobrevivência da tribo. O que ele aprende e sabe, faz sentido. Ele sabe o
uso dos seus saberes. ( A menininha não sabia o uso da palavra "oxítona". Nem eu. Sei
o que ela quer dizer. Não sei para que serve. Quando eu escrevo nunca penso em
"oxítona". Ninguém que fale a língua, por ignorar o sentido de "oxítona", vai falar
"cáfe", ao invés de café, ou "chúle", ao invés de "chulé"... A palavra "oxítona" não me
ensina a falar melhor. É, portanto, inútil....)
Disse, numa outra crônica, que quero escola retrógrada. Retrógrado quer dizer "que vai
para trás". Quero uma escola que vá mais para trás dos "programas" científica e
abstratamente elaborados e impostos. Uma escola que compreenda como os saberes são
gerados e nascem. Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo
faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser
cumprido (inutilmente!), mas o corpo da criança que vive, admira, se encanta, se
espanta, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, se machuca, brinca. Uma escola
que seja iluminada pelo brilho dos inícios.
Mas, repentinamente, desfaz-se o encanto da perda da memória e nos lembramos da
pergunta: "Mas, e o programa? Ele é cumprido?"
Depois eu respondo.
A Escola da Ponte - 4
Imaginar não faz mal. Pois imagine que você é uma mãe das antigas. E sua filha vai se
casar. Mãe responsável que você é, você a chama e lhe diz: "Minha filha, você vai se
casar. Desejo que seu casamento seja durável. Casamento durável depende do amor. E
você nada sabe sobre as artimanhas do amor. O que você está sentindo agora não é
amor; é paixão. Paixão é fogo de palha. Acaba logo. Casamento não se sustenta com
fogo que acaba logo. Vou lhe ensinar o segredo do amor permanente, o fogo que não se
apaga nunca. Você deve aprender o segredo do fogo que faz o coração do seu marido
arder, no dia a dia. Pois bem, saiba que o caminho para o coração de um homem passa
pelo estômago. O casamento não se sustenta com o fogo da cama. Ele se sustenta com
o fogo da mesa. Vou lhe dar o presente mais precioso, o "Livro de Dona Benta",
centenas de receitas. Mas não só isso, vou lhe ensinar todas as receitas desse livro
maravilhoso." Ditas essas palavras você, mãe, dá início a um programa de culinária,
uma receita depois da outra, na ordem certa. Cada dia sua filha deve aprender uma
receita e, uma vez por mês, você faz uma avaliação da aprendizagem. Ela deve ser
capaz de repetir as receitas.
É claro que isso que eu disse é uma tonteria. Ninguém ensina a cozinhar assim. Não é
possível saber todas as receitas. Por que ter de saber todas as receitas, se elas estão
escritas no livro de receitas? A gente aprende uma receita quando fica com vontade de
experimentar aquele prato nunca dantes experimentado. O ato de aprender acontece em
resposta a um desejo. "Quero fazer, amanhã, uma "vaca atolada"." Como é que se faz
uma "vaca atolada", se nunca fiz? É só procurar no livro de receitas, sob o título "vaca
atolada". A gente lê e aprende porque vai fazer "vaca atolada"...
Pois os programas de aprendizagem a que nossas crianças e adolescentes têm de se
submeter nas escolas são iguais à aprendizagem de receitas que não vão ser feitas.
Receitas aprendidas sem que se vá fazer o prato são logo esquecidas. A memória é um
escorredor de macarrão. O escorredor de macarrão existe para deixar passar o que não
vai ser usado: passa a água, fica o macarrão. Essa é a razão por que os estudantes
esquecem logo o que são forçados a estudar. Não por falta de memória. Mas porque sua
memória funciona bem: não sei para que serve; deixo passar...
Na "Escola da Ponte" a aprendizagem acontece a partir de pratos que vão ser preparados
e comidos. Por isso as crianças aprendem e têm prazer em aprender. Mas, e o
programa? É cumprido? Pergunta tola. É o mesmo que perguntar se a jovem casadoira
aprendeu todas as receitas do "Livro de Dona Benta"... É claro que o "Livro de Dona
Benta" não é para ser aprendido. Programas não podem ser aprendidos... São logo
escorridos.
Quando visitei a "Escola da Ponte" o tema quente era a descoberta do Brasil e tudo o
mais que a cercava. As crianças estavam fascinadas com os feitos dos navegadores seus
antepassados nessa aventura, mais ousada que a viagem dos astronautas à lua. Imagine
agora que algumas crianças tenham ficado curiosas diante do assombro tecnológico que
tornou os descobrimentos possíveis, as caravelas. Organizam-se num grupo para estudálas.
Um diretor de escola rigoroso e cumpridor dos seus deveres torceria o nariz. "O
tema "caravelas" não consta de nenhum programa nem aqui e nem em nenhum outro
lugar do mundo", ele diria. E concluiria: "Não constando de nenhum programa não deve
ser objeto de estudo. Perda de tempo. Não vai cair no vestibular."
Acontece que uma caravela é um objeto no qual estão entrelaçadas as mais variadas
ciências. As caravelas são um laboratório de física. Parece que a caravela brasileira,
construída para comemorar o descobrimento, teve de retornar ao ancoradouro, por
perigo de emborcar. Um famoso vaso de guerra sueco, o Wasa, se não me engano do
século XVI, virou e afundou depois de navegar por não mais que 400 metros. Retirado
do fundo do mar há cerca de 25 anos, ele pode ser visto hoje num museu de
Estocolmo. O que havia de errado com o Wasa e a caravela brasileira? O que havia de
errado tem, em física, o nome de "centro de gravidade". O "centro de gravidade" estava
no lugar errado. O tal centro de gravidade é o que explica por que os bonequinhos
chamados João Teimoso" não caem nunca! A regra é: para não emborcar, o centro de
gravidade do navio deve estar abaixo da linha do mar. Essa é a razão por que os navios,
freqüentemente, têm necessidade de um lastro - um peso que faz com que o centro de
gravidade se desloque para mais baixo. "Se o centro de gravidade estiver fora do lugar,
o navio vira e afunda.
Os estudantes aprendem, em física, como parte do programa abstrato que têm de
aprender, uma regra chamada do "paralelogramo" - regra de composição de forças.
Duas forças incidindo sobre um ponto, uma delas F1, a outra F2, cada uma numa
direção diferente. Para onde se movimenta o objeto sobre o qual incidem? Nem na
direção de F1, nem na direção de F2. Diz essa regra que o objeto vai se movimentar
numa direção que se determina pela construção de um "paralelogramo". É o que se
chama de "resultante". Os alunos aprendem a resolver o problema no papel mas não
sabem para que ele serve na vida. E o aprendido escorre pelos furos do "escorredor de
macarrão"... Pois é essa regra que explica, teoricamente, o mistério de um barco que
navega numa direção contrária à do vento. Se o barco estivesse à mercê do vento ele só
navegaria na direção em que o vento sopra, situação essa que tornaria a navegação
impossível. Quem se aventuraria a navegar num barco que só navega na direção do
vento e não na direção que se deseja? Mas os navegadores descobriram que, com o
auxílio de uma outra força, de direção distinta da direção do vento, é possível fazer com
que o barco navegue na direção que se deseja. E é essa a função do leme. O leme, pela
resistência da água, cria uma outra força que, colocada no ângulo adequado, produz a
direção de navegação desejada. Os alunos aprenderiam melhor se, ao invés de gráficos
geométricos, eles fosse instruídos na arte da navegação. Da física passamos à história, a
influência de Veneza, dominadora do Mediterrâneo com seus barcos, sobre a tecnologia
lusitana de construção de caravelas. Da história para a astronomia, a ciência da
orientação pelas estrelas. O astrolábio. A bússola. Daí, para esses assombros simbólicos
chamados mapas - que só fazem sentido para o navegador se ele conhecer a arte de se
orientar, a direção do norte, mesmo quando nada pode ser visto, a não ser o oceano que
o cerca por todos os lados. ( Olhando para a lua, de noite, você é capaz de dizer a
direção do sol?). Dos mapas para a literatura, a "Carta de Pero Vaz de Caminha", a
poesia de Camões, a poesia de Fernando Pessoa: "Ó mar salgado, quando do seu sal são
lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos quantas mães choraram, quantos filhos em vão
rezaram! Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena?
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem de
passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o
céu."
Aceitemos um fato simples: um programa cumprido, dado pelo professor do princípio
ao fim, é só cumprido formalmente. Programa cumprido não é programa aprendido "
mesmo que os alunos tenham passado nos exames. Os exames são feitos enquanto a
água ainda não acabou de se escoar pelo escorredor de macarrão. Esse é o destino de
toda ciência que não é aprendida a partir da experiência: o esquecimento.
Quanto à ciência que se aprende a partir da vida, ela não é esquecida nunca. A vida é o
único programa que merece ser seguido.
A Escola da Ponte - 5
Imagino que você, que procura minhas crônicas aos domingos, deve estar cansado. Pois
este é o quinto domingo em que falo sobre a mesma coisa. Pessoas que falam sempre
sobre as mesmas coisas são chatas. Além do que essa insistência em uma coisa só é
contrária ao estilo de crônicas. Crônicas, para serem gostosas, devem refletir a imensa
variedade da vida.
Um cronista é um fotógrafo. Ele fotografa com palavras. Crônicas são dádivas aos
olhos. Ele deseja que os leitores vejam a mesma coisa que ele viu. Se normalmente não
sou chato, deve haver alguma razão para essa insistência em fotografar uma mesma
coisa. Quem fotografa um mesmo objeto repetidas vezes deve estar apaixonado.
Comporta-se como os fotógrafos de modelos, clic, clic, clic, clic, clic...: dezenas,
centenas de fotos, cada uma numa pose diferente! Um dos meus pintores favoritos é
Monet. Pois ele fez essa coisa insólita: pintou um monte de feno muitas vezes. E o
curioso é que ele nem mudou de lugar, não procurou ângulos diferentes. Ficou
assentado no seu banquinho, cavalete no mesmo lugar, e foi pintando, pintando. Porque,
na verdade, o que ele estava pintando não era o monte de feno, uma coisa banal, de
gosto bovino. O que ele estava pintando era a luz. Ele só usou o monte de feno como
espelho onde a luz aparecia refletida, não como uma coisa fixa, mas como uma coisa
móvel. A série de telas do monte de feno bem que poderia chamar-se "Strip tease da
luz": devagar, bem devagar, ela vai se desnudando...
Pois estou fazendo com as minhas crônicas o que Monet fez: ele, diante do monte de
feno; eu, diante de uma pequena escola por que me apaixonei -- pois ela é a escola com
que sempre sonhei sem ter sido capaz de desenhar.
Nunca fui professor primário. Fui professor universitário. O Vinícius, descrevendo a
bicharada saindo da Arca de Noé, disse: "OS fortes não na frente tendo a cabeça erguida
e os fracos, humildemente, vão atrás, como na vida..." Pois é exatamente assim que
acontece na Arca de Noé dos professores: os professores universitários vão na frente
tendo a cabeça erguida, e os primários, humildemente, vão atrás, como na vida...
Professor universitário é doutor, cientista, pesquisador, publica em revistas
internacionais artigos em inglês sobre coisas complicadas que ninguém mais sabe e são
procurados como assessores de governo e de empresas. Professor primário é professor
de 3ª classe, não precisa nem ter mestrado nem falar inglês, dá aulas para crianças sobre
coisas corriqueiras que todo mundo sabe. Crianças -- essas coisinhas insignificantes,
que ainda não são... Haverá atividade mais obscura? Professores universitários gostam
das luzes do palco. Professores primários vivem na sombra...
Quando entrei na universidade para ser professor senti-me muito importante. Com o
passar do tempo fui sendo invadido por uma grande desilusão -- tédio --, um cansaço
diante da farsa. Partilhei da desilusão dos alunos que se sentiram muito importantes
quando passaram no vestibular e até ficaram felizes quando os veteranos lhes rasparam
o cabelo. Cabelo raspado é distintivo: "Passei! Passei!" Não levou muito tempo para que
descobrissem que a universidade nada tinha que ver com os seus sonhos. E essa é a
razão por que fazem tanta festa e foguetório quando tiram o diploma. Fim do sofrimento
sem sentido.
A velhice me abriu os olhos. Quando se chega no topo, quando não há mais degraus
para subir, a gente começa a ver com uma clareza que não tinha antes. "Tenho a lucidez
de quem está para morrer", dizia Fernando Pessoa na "Tabacaria". Fiquei lúcido! E o
que vi com clareza foi o mesmo que viu Joseph Knecht, o personagem central do livro
de Hesse O jogo das contas de vidro: depois de chegar no topo, percebeu o equívoco. E
surgiu, então, o seu grande desejo: ensinar uma criança, uma única criança que ainda
não tivesse sido deformada (essa é a palavra usada por Hesse) pela escola.
Também eu: quero voltar para as crianças. A razão? Por elas mesmas. É bom estar com
elas. Crianças têm um olhar encantado. Visitando uma reserva florestal no estado do
Espírito Santo, a bióloga encarregado do programa de educação ambiental me disse que
é fácil lidar com as crianças. Os olhos delas se encantam com tudo: as formas das
sementes, as plantas, as flores, os bichos. Tudo, para elas, é motivo de assombro. E
acrescentou: "Com os adolescentes é deferente. Eles não têm os olhos para as coisas.
Eles só têm olhos para eles mesmos..." Eu já tinha percebido isso. Os adolescentes já
aprenderam a triste lição que se ensina diariamente nas escolas: Aprender é chato. O
mundo é chato. Os professores são chatos. Aprender, só sob ameaça de não passar no
vestibular.
Por isso quero ensinar as crianças. Elas ainda têm olhos encantados. Seus olhos são
dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a
capacidade de se assombrar diante do banal. Tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca,
um ninho de guaxo, uma concha de caramujo, o vôo dos urubus, o zunir das cigarras, o
coaxar dos sapos, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Dessas
coisas, invisíveis aos eruditos olhos dos professores universitários (eles não podem ver,
coitados; a especialização tornou-os cegos como toupeiras, só vêem dentro do espaço
escuro de suas rocas -- e como vêem bem!), nasce o espanto diante da vida; desse
espanto, a curiosidade; da curiosidade, a fuçação (essa palavra não está no Aurélio)
chamada pesquisa; dessa fuçação, o conhecimento; e do conhecimento, a alegria!
Pensamos que as coisas a serem aprendidas são aquelas que constam dos programas.
Essa é a razão por que os professores devem preparar seus planos de aula. Mas as coisas
mais importantes não são ensinadas por meio de aulas bem preparadas. Elas são
ensinadas inconscientemente. Bom seria que os educadores lessem ruminativamente
(também não se encontra no Aurélio) o Roland Barthes. Ele descreveu o seu ideal de
aula como sendo a criação de um espaço -- isso mesmo! Um espaço! -- parecido com
aquele que existe quando uma criança brinca ao redor da mãe. A criança pega um botão
leva para a mãe. A mãe ri, e faz um corrupio (você sabe o que é um corrupio?). Pega um
pedaço de barbante. Leva para a mãe. A mãe ri e lhe ensinar a fazer nós. Ele conclui que
o importante não é nem o botão nem o barbante, mas esse espaço lúdico que se ensina
sem que se fale sobre ele.
Na Escola da Ponte o mais importante que se ensina é esse espaço. Nas nossas escolas:
salas separadas -- o que se ensina é que a vida é cheia de espaços estanques; turmas
separadas e hierarquizadas -- o que se ensina é que a vida é feita de grupos sociais
separados, uns em cima dos outros. Conseqüência prática: a competição entre as turmas,
competição que chega à violência (os trotes!). Saberes ministrados em tempos
definidos, um após o outro: o que se ensina é que os saberes são compartimentos
estanques (e depois reclamam que os alunos não conseguem integrar o conhecimento.
Apelam então para a "transdisciplinaridade", para corrigir o estrago feito. O que me faz
lembrar um filme de O Gordo e o Magro. Ainda falo sobre o tal filme, Queijo Suíço...).
Ah! Uma vez cometido o erro arquitetônico, o espírito da escola já está determinado!
Mas nem arquitetos nem técnicos da educação sabem disso...
Escola da Ponte: um único espaço, partilhado por todos, sem separação por turmas, sem
campainhas anunciando o fim de uma disciplina e o início da outra. A lição social:
todos partilhamos de um mesmo mundo. Pequenos e grandes são companheiros numa
mesma aventura. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. Ao ritmo da
vida: os saberes da vida não seguem programas. É preciso ouvir os "miúdos", para saber
o que eles sentem e pensam. É preciso ouvir os "graúdos", para saber o que eles sentem
e pensam. São as crianças que estabelecem as regras de convivência: a necessidade do
silêncio, do trabalho não perturbado, de se ouvir música enquanto trabalham. São as
crianças que estabelecem os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a
obedecer às regras. Pois o espaço da escola tem de ser como o espaço do jogo:o jogo,
para ser divertido e fazer sentido, tem de ter regras. Já imaginaram um jogo de vôlei em
que cada jogador pode fazer o que quiser? A vida social depende de que cada um abra
mão da sua vontade, naquilo em que ela se choca com a vontade coletiva. E assim vão
as crianças aprendendo as regras da convivência democrática, sem que elas constem de
um programa...
Minha cabeça está coçando com o sonho de fazer uma escola parecida... Você
matricularia seu filho numa escola assim? Mande sua resposta com suas razões para
[email protected] -- estou curioso! Mas, para fazer essa escola, tenho de
resolver primeiro um problema: como é que o graxo coloca o primeiro graveto para
construir o seu ninho?


Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da UNICAMP. As
crônicas aqui transcritas foram originalmente publicadas no jornal Correio Popular, de
Campinas, SP (respectivamente em 14/5, 21/5, 28/5, 4/6, 11/6 e 18/6 do ano 2000) mas
estão hoje publicadas no livro A escola com que sempre sonhei sem imaginar que
pudesse existir (Papirus Editora, Campinas, SP, 2001 e Edições Asa, Porto, 2001). A
primeira crônica, que tem o título de “Quero uma Escola Retógrada...”, serve como
prefácio para as cinco outras, que tratam da Escola da Ponte, de Vila Nova de
Famalicão, Portugal. Seu site é http://www.rubemalves.com.br/.

Fonte: http://www.educacao.rs.gov.br/dados/edcampo_texto_rubem_alves_a_escola_com_que_---_existir.pdf

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