IMLB - Instituto Mãos Limpas Brasil

Missão: Ser a Entidade mais ética da História do Brasil

Diretor de Redação

Mtnos Calil

Login

NO BRASIL, um ascensorista da Câmara Federal, ganha mais para servir os elevadores da Casa, do que um Oficial da Força Aérea, que pilota um Mirage.

A polêmica da última pesquisa revela a debilidade do processo democrático no Brasil

Transcorrem nos últimos dias duas teses a respeito da polêmica a envolver a mais recente pesquisa de opinião do Datafolha. A primeira é que o jornal Folha de S.Paulo, dono do instituto e contratante da pesquisa, deliberadamente fraudou o levantamento de forma a produzir resultados favoráveis ao presidente interino Michel Temer (PMDB). A segunda é que as incongruências na divulgação dos números e na construção das perguntas foram fruto de uma leitura equivocada dos dados.

Desvendar a resposta não é uma tarefa exatamente simples, mas o mais importante é que o caso revela a fragilidade de duas instituições determinantes para o processo democrático: o jornalismo e as pesquisas de opinião.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer os erros da pesquisa. Em abril, quando Dilma Rousseff ainda estava no Palácio do Planalto, o Datafolha foi às ruas e perguntou aos eleitores (em PDF): Caso a presidente Dilma e o vice-presidente Michel Temer sejam cassados ou renunciem aos seus cargos seriam convocadas novas eleições presidenciais. Você é a favor ou contra a realização de nova eleição para presidente da República? 

Naquele momento, 79% dos entrevistados se disseram a favor de novas eleições e o dado foi divulgado com destaque pelo jornal.

Datafolha

No último fim de semana, com Temer no poder, a Folha divulgou nova pesquisa e "informou" que apenas 3% dos eleitores eram favoráveis a novas eleições. Ocorre que a pergunta apresentada em abril e a feita em julho eram completamente diferentes.

Como destacou o site The Intercept, neste mês o Datafolha (orientado pela Folha, contratante da pesquisa) ofereceu um cenário alternativo (em PDF): Na sua opinião, o que seria melhor para o país: que Dilma voltasse à Presidência ou que Michel Temer continuasse no mandato até 2018? 

Datafolha2.jpg

Diante deste questionamento, apenas 3% citaram novas eleições, pois a pergunta não versava sobre isso e o cidadão que desejava responder "novas eleições" precisaria fugir das opções apresentadas pelo entrevistador.

Piorou a situação da Folha e do Datafolha uma revelação do site Tijolaço. Uma pergunta semelhante à feita em abril foi também apresenta em julho, mas os resultados foram omitidos pelo jornal. Finalmente tornados públicos oficialmente na noite de terça-feira 21, os dados mostram que 62% são favoráveis a uma nova eleição.

Folha03.jpg

Folha justificou as discrepâncias e a não divulgação da pergunta alegando que "é prerrogativa da redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa" e que os 62% não pareceram "especialmente noticiosos". As respostas chamam a atenção, uma vez que em, em 2 de abril, a Folhapublicou editorial intitulado "Nem Dilma nem Temer", no qual defendia novas eleições. Além disso, é preciso questionar: por qual motivo um número supostamente irrelevante foi retirado do relatório do Datafolha?

O caso enseja duas reflexões importantes. A primeira é que o Brasil encontra-se em estágio rudimentar em termos de inserção das pesquisas eleitorais e de opiniões no debate político e social. Esse tipo de levantamento é essencial para uma democracia, mas é fundamental que os números sejam críveis, por todos os envolvidos nos debates políticos e sociais.

Os institutos de pesquisa não escaparam da polarização política. Esta não é a primeira polêmica gerada por levantamentos deste tipo. O Datafolha, por exemplo, pertence a uma empresa jornalística que tem lado em muitas disputas políticas e se recusa a explicitar essa condição, apesar de ela ser evidente em diversas ocasiões.

O resultado inevitável é a suspeição. Em especial se lembrarmos a agilidade do instituto em outras ocasiões comparadas com o momento atual. De imediato, o Datafolha mostrou o impacto eleitoral da morte de Eduardo Campos, em 2014, e divulgou rapidamente as estimativas da quantidade de pessoas em atos pró e contra Dilma Rousseff. No período final do governo petista, quando a popularidade de Dilma teve uma leve alta, e no início do governo Temer, em que o interino estava evidentemente fragilizado, a agilidade do Datafolha esvaneceu.

Uma solução para isso seria o surgimento de ao menos um instituto com capacidade de produzir pesquisas confiáveis para toda a população. Nos Estados Unidos,  as pesquisas de boca de urna nas eleições são conduzidas pelo National Election Pool, criado em 2003 pelos canais de televisão ABC, CBS, CNN, FOX e NBC e pela agência de notícias Associated Press. No Brasil, não há nada parecido, talvez por falta de dinheiro, talvez por falta de interesse.

A segunda reflexão envolve a dicotomia fraude x imprecisão na discussão a respeito da manchete da Folha que cravou que 50% dos brasileiros desejam a permanência de Temer.

Para o leitor, pode parecer uma análise corporativista, mas inúmeros casos apresentados nas redes sociais como manipulações evidentes são, pura e simplesmente, erros. Erros provocados por questões estruturais, como a pressão do fechamento, a falta de pessoal para ampliar uma cobertura, a inexperiência do jornalista ou mesmo a soberba dos mais experimentados de se acharem infalíveis.

No caso específico da Folha, isso pode ser relevante neste debate. O jornal é conhecido pela extrema pressão que exerce sobre os jovens profissionais a respeito de seus erros, mas os caciques da redação não sofrem com o mesmo problema. O fato de a diretoria do jornal negar que tenha errado neste caso é um exemplo disso.

No que diz respeito a pesquisas eleitorais, essa presunção de indefectibilidade é particularmente perniciosa, pois retratar pesquisas é um trabalho sensível, que demanda especialização e equilíbrio, características que muitos jornalistas tarimbados não têm.

Soma-se a isso o clima geral das redações. Em geral, pesa muito mais um erro contra quem o veículo simpatiza do que contra um adversário. Essa é uma das fontes do viés jornalístico no Brasil. A pressão é sutil, difícil de comprovar, mas está clara para quem trabalha numa redação. Como disse uma colega certa vez: "Ninguém fala isso claramente, mas há coisas que você simplesmente não pode escrever". 

Como as pesquisas de opinião, o jornalismo é fundamental para a saúde de uma democracia. Que o jornalismo brasileiro seja tão pouco plural, tão pouco transparente e tão pouco humilde para reconhecer suas falhas é um fato a se lamentar.

Pin It

Logo TAYSAM Web Design 147x29

Selo Google1