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NO BRASIL, um Diretor que é responsável pela garagem do Senado, ganha mais do que um Coronel do Exército, que comanda um Regimento de Blindados.

A nossa absurda desigualdade social não é uma simples herança da escravidão.


 
Reprodução

Certamente, você não lembra mais. Mas durante uns dois ou três dias, há mais ou menos um mês atrás, o assunto mais discutido do Brasil era uma foto tirada no Rio de Janeiro. Nela um casal, seus dois filhos e uma babá estavam a caminho da manifestação pró impeachment do dia 13 de março. A foto em questão, que viralizou em todas as redes sociais, retratava uma família de brancos, do advogado e diretor do Flamengo Claudio Pracownik, e uma babá negra. A babá, em um impecável uniforme branco que destoava dos verde-amarelos, carregava com visível dificuldade um carrinho duplo com duas crianças, enquanto a mãe levava um cachorro e o advogado a si mesmo.  

Não foi por acaso o sucesso instantâneo da foto: foi o clique certo, na hora certa. Dias antes, chegava-se ao auge das discussões sobre as diferenças entre as manifestações pró e contra o impeachment da presidenta Dilma Roussef. Cada vez mais chamava-se a atenção para a mágica do MBL e seus afins que conseguiram realizar aquilo que muitos políticos do século 19 apenas tentaram com a migração europeia: branquear o Brasil, ou pelo menos uma parte dele. As fotos das manifestações, especialmente na avenida Paulista, são quase inacreditáveis: como um movimento de milhares de pessoas no Brasil, um país marcado pela miscigenação, podia ser tão predominantemente branco? Segundo a pesquisa da Datafolha, quase 80% dos manifestantes que foram a avenida Paulista no dia 13 se declaravam como brancos, número muito superior à média registrada pelo IBGE para a região sudeste. 

No entanto, parece claro que o traço de corte não é fundamentalmente racial, mas econômico. O problema é que no Brasil estas duas coisas estão profundamente interligadas. Talvez alguns dados e argumentos consigam encobrir para alguns algo que está visível até para uma criança. Sem conhecer algo para além da sua vivência, outro dia fui constrangido pela pergunta de uma menina, de apenas seis anos, que me questionou porque todos os moradores de rua eram negros. Logicamente, nem todos os moradores de rua são negros, assim como nem todos os médicos são brancos. Mas deve haver uma razão para que durante a chegada de médicas cubanas no Brasil, predominantemente negras, a jornalista Micheline Borges tenha soltado a pérola de que elas não pareciam médicas e, sim, tinham “cara de empregada doméstica”. 

Em São Paulo, as manifestações favoráveis ao impeachment de Dilma Roussef têm um recorte semelhante ao perfil daqueles que anteriormente votaram em Aécio Neves, como demonstram várias pesquisas. Não é demais lembrar que, em 2014, manifestações de apoio a Aécio Neves em São Paulo foram, ironicamente, classificadas pela The Economist como a “revolução de cashmere”. Mais recentemente, Roberto Schwarz surpreendeu a todos ao responder à Folha de São Paulo se era contra ou a favor do impeachment de Dilma Roussef. Em vez de uma declaração de voto, Schwarz simplesmente contrapôs o fato de que a favor do impeachment, naquela semana, centenas de associações empresariais tinham custeado um anúncio caríssimo que para ele tinha o tom de deixar claro “quem manda”. Enquanto isso, estava disponível na internet um manifesto “Das Periferias Contra o Golpe”, formado por mais de 400 associações. Claro que isso não resume todo o conflito atual e que há muitos pobres, brancos e negros, favoráveis ao impeachment. Mas, dado o entrecruzamento no Brasil entre raça e condição econômica, não são surpreendentes as fotos de uma avenida Paulista quase inteiramente branca em um país tão miscigenado. 

Tudo isso impulsionou, semanas antes da manifestação de 13 março,  vários tipos de ironia nas redes sociais, entre elas a de que homens e mulheres negras só iam às manifestações a favor do impeachment na condição de serviçais dos militantes brancos. Às vésperas da manifestação, a provocação ganharia contornos na replicação de uma gravura em que aparece uma mulher, branca e estereotipada com ares de madame, segurando um cartaz “Justiça para o Brasil”, seguida logo depois por um babá negra carregando um carrinho. De repente, a foto materializou essa narrativa. 

Usos e abusos da história

Há também razões mais sutis do encanto pela foto. O instantâneo tinha marcas tão fortes que praticamente não era necessária nenhuma legenda para entender o que estava acontecendo. O uniforme branco é uma marca de distinção gritante naquele contexto, que é complementado pelo leve recuo da funcionária em relação aos patrões. Não há como negar que a cena lembra fotos e pinturas que retratam a escravidão no Brasil. Não é difícil encontrar fotos em que escravos e o senhor estão juntos em uma aparente harmonia e até mesmo sem diferenças tão gritantes entre as qualidades de suas roupas. Mas há sempre detalhes, como a posição central e proeminente do senhor, bem como a sutil falta de sapato dos demais, uma marca inconfundível no século 19 daqueles que tinham a condição de escravos. De maneira igual, também há muitos pinturas de senhores e suas famílias seguindo pelo passeio, acompanhados mais atrás por seus escravos que levavam todos os pertences daqueles que à frente podiam seguir de mãos limpas. 

Dadas essas semelhanças e ao fato de que a babá era negra, não podia haver outro resultado: dezenas de montagens que comparavam a foto do dia 13 de março às imagens que registraram a escravidão no Brasil. Mais do que isso, a foto teria se tornado para muitos a prova de que os nossos problemas derivam de uma sociedade que mantém a mentalidade da escravidão.     

Daí decorre um sentimento dúbio para um professor de história. De um lado, é prazeroso ver tantas pessoas recorrendo à história para compor seus argumentos, inclusive pesquisando imagens e estabelecendo relações entre o passado e o presente. Por outro lado, confesso, considero que simplificações que igualam a condição da babá negra a de escravos muitas vezes mais atrapalham do que ajudam a esclarecer o que está em disputa. 

É o que chamo de “síndrome da continuidade”, fenômeno que acompanho bem todos os anos quando dou aulas para calouros do curso de história. No Brasil, é argumento de botequim recorrer à “herança colonial” para explicar todas as mazelas do país. Desconhecem, no entanto, que o texto seminal de Sérgio Buarque de Holanda que consagrou o termo “herança colonial”, buscava compreender também a sua desagregação no contexto do surgimento do Brasil. Mais recentemente, Ilmar Mattos deu outra chave interpretativa a essa questão, ao lembrar que os homens que ergueram o Império do Brasil eram “herdeiros”, mas também “construtores” de uma realidade nova. Até mesmo a escravidão, o grande símbolo da herança da colônia para o país independente, tem sido revista pelos historiadores, daqui e de outras partes, que veem esta instituição no século 19 como uma “segunda escravidão”, já conformada por elementos do liberalismo e justificada no âmbito dos Estados Nacionais.   

Não se trata de uma discussão secundária, mas central na vida brasileira. Isso porque o argumento da “herança colonial” serve para reafirmar a ideia, defendida à direita e à esquerda, de que no Brasil as coisas nunca mudam. Nada mais falso e pernicioso para um historiador. Ainda que a história tenha muitas continuidades, a arte do nosso ofício está em compreender a especificidade dos processos, o que não exclui a sua conexão com o passado mais distante. 

Não dá para dizer que o Brasil tem grandes latifúndios por conta das Capitanias Hereditárias. Isso ocorreu porque não fomos capazes de realizar uma Reforma Agrária real e porque a Lei de Terras de 1850 foi totalmente desvirtuada de seus objetivos iniciais de dar segurança jurídica de posse à terra, inclusive para imigrantes. Além disso, uma afirmação como essa ignora totalmente a expansão agrícola no centro oeste e no norte nas últimas décadas, bem como a política agressiva de aquisição de terras por grandes players internacionais. É igualmente risível atribuir a razão dos problemas brasileiros ao fato de que parte dos colonos embarcados para a América eram degredados, ou ver no pedido de mercê de Pero Vaz de Caminha a gênese dos cabides de emprego em Brasília (isso, aliás, um equívoco factual). Todos os anos, quando meus calouros iniciam argumentos desse tipo começo a minha já tradicional distribuição do prêmio Arnaldo Jabor, em homenagem ao campeão do anacronismo nacional. Não há remédio mais efetivo.

Da mesma forma, a nossa absurda desigualdade social não é uma simples herança da escravidão. A realidade em Cuba, com uma escravidão tão persistente como a nossa, é muito distinta. Mesmo nos EUA, a comparação sempre mais imediata, a desigualdade e a discriminação racial têm contornos diferentes, com nuances tanto melhores como piores. A escravidão é uma marca fundante da realidade brasileira, mas o grande enigma da nossa sociedade é compreender como os grupos de poder e mando, que preguiçosamente chamamos de “elites”, conseguiram manter uma parte expressiva da população nacional excluída de qualquer chance de ascensão social, fosse através da educação ou da garantia de direitos trabalhistas. 

O nosso problema hoje, aliás, é bem capitalista: a existência de uma gigantesca reserva de mão de obra que pelo menos até 10 anos atrás tinha sua resistência quebrada pela falta de acesso a qualquer coisa básica, até mesmo comida. E isso, logicamente, está diretamente relacionado à forma como superamos a escravidão. Como lembram alguns historiadores, a imigração europeia não foi uma decisão inescapável e, sim, política. Ao invés de incorporar uma imensa massa de trabalhadores nacionais, preferiu-se importar mão de obra que, além disso, podia embranquecer o Brasil.  

A babá da foto não é uma escrava, é uma trabalhadora em um mundo capitalista. Mas a foto, tão parecida com os retratos da escravidão suscita uma pergunta: por que os que estão à frente continuam de mãos limpas?

Folguistas e folgados

Minha filha teve três babás ao longo de quatro anos. Entendo bem que às vezes essa é a única ou a melhor saída para uma família na qual os pais trabalham em uma cidade como São Paulo, na qual o déficit de vagas em creche é absurda. Também pesava o fato de que parte do nosso trabalho é feita em casa e, assim, poderíamos acompanhar melhor o crescimento da criança. De resto, há um fato que todos negam, mas é verdade: o salário de uma babá é barato no Brasil. Com certeza, é difícil para um trabalhador pagar, mas a ideia de barato ou caro é sempre relativo ao de serviços similares. Dessa forma, excluído o serviço público, um salário de uma babá compatível com a média do mercado é igual ao valor de uma creche ou escola de ensino infantil mediana e muito mais barato que as de grife. E torna-se muito mais barato quando se pensa que se trata de optar por um serviço de massa ou um exclusivo. É uma inversão total da lógica.

Mas foi uma decisão difícil, cheia de dúvidas e patrulhamentos. Um pouco antes de tomar a decisão conversamos com alguns amigos no Amigo Gianotti, um bar do Bexiga típico daqueles que o Antonio Prata classificou como “meio intelectual, meio de esquerda”. Nunca vou esquecer daquela noite em que me senti em um filme do Godard, talvez em A Chinesa. De um lado, havia quem perguntava se não estávamos levando a luta de classes para casa. Do outro, quem criticava o chilique da classe média e dizia que tinha muito orgulho dos parentes que criaram os filhos trabalhando como domésticas. 

Ao fim da licença maternidade, a decisão não podia mais ser postergada. Aí conhecemos um mundo que até então era totalmente estranho para nós. O universo das agências de babás parece a entrada para uma sociedade secreta, com regras bem particulares. Na época, chegamos a denunciar uma agência que permitia os empregadores restringirem sua oferta de vagas a pessoas que tivessem determinada cor de pele. Em uma, das várias entrevistas que fizemos, uma menina de não mais do que 22 anos nos perguntou como seria a relação dela com os outros empregados da casa. Explicamos, então, que a nossa Downton Abbey tinha apenas 50 metros quadrados e nenhum outro empregado. 

Foi nessa ocasião que descobri algo novo: a existência da babá folguista. Em resumo, é a babá ou as babás que assumem nos períodos em que a titular está de folga. Conversando com as babás, fui descobrindo a existência de casas em que o serviço de babá existe durante 24 horas, sete dias por semana, por várias profissionais. Mais do que isso, foi ficando claro que para algumas famílias isso era um serviço indispensável, não só para as ocasiões de trabalho, mas para os momentos de lazer. E assim ia coletando histórias das babás, com seus impecáveis uniformes brancos, cuidando das crianças em clubes, praças ou outros passeios a poucos metros dos pais. Foi aí também desvendado quem eram aquelas mulheres de branco que tantas vezes vi nos aviões e que claramente não eram as mães das crianças ao seu lado. A cena da foto, de uma babá acompanhando os patrões em um dia de folga, é corriqueira em um segmento da população brasileira que já não consegue nem mesmo perceber a bizarrice da situação. 

No universo das domésticas, ser folguista pode ser muito valorizado pelas pretendentes. Em alguns casos, ganham mais proporcionalmente e, com alguns arranjos, podem cuidar dos próprios filhos. Entre elas, sempre ouvi história ainda piores. De uma das babás ouvi as condições do seu emprego anterior, quando assumia todas as tarefas da casa e folgava uma única vez por semana, quando só então encontrava seu próprio colchão, ao invés da cama improvisada em que dormia todos os outros dias e que ficava embaixo dos varais da casa. Por isso, não há surpresa alguma nas entrevistas da babá folguista, quando esta defendeu a família Pracownik . No universo das oportunidades disponíveis, no cotidiano das decisões pragmáticas, este pode ser um bom emprego para ela. Mas isso é apenas o resto que sobrou após várias e várias exclusões. Involuntariamente, a babá da foto se tornou um símbolo desse processo. 

O uso de uma babá, diuturnamente, até mesmo em dias de folga, retoma o velho debate sobre o gosto do brasileiro por serviçais, algo sem paralelo em qualquer país rico. Há uma continuidade da mentalidade escravista? Esta é uma tese tentadora, sobretudo pela já citada semelhança entre a foto de 2016 e os retratos e pinturas sobre a escravidão. A necessidade da babá em um dia de folga para não só cuidar das crianças, mas para carregá-las, de fato lembra a ojeriza dos homens livres na colônia portuguesa e no Brasil Imperial em levar os seus pertences, ou mesmo se ocupar de atividades manuais, os chamados “ofícios mecânicos”. O que hoje parece uma anedota, era uma marco de distinção dessas sociedades, podendo atingir as pretensões de ascensão por gerações. Kenneth Maxwell lembra que o poeta Cláudio Manuel da Costa, famoso por seu envolvimento na Inconfidência Mineira, esteve perto de não conseguir o Hábito da Ordem de Cristo, mercê de grande prestígio. A razão para isso? Cláudio tinha um avô cuja profissão era vender óleos, um ofício mecânico. 

O medo de ser contaminado por situações semelhantes fazia com que, mesmo no século 19, os homens livres tomassem atitudes que não só a nós parecem bizarras, mas mesmo aos europeus da mesma época. Exemplos disso são fartamente encontrados em relatos de viagem, pinturas e retomados pela historiografia. Esse é um tema que pode ser trabalhado, inclusive, por professores da educação básica através de atividades do site Detetives do Passado. Criado por historiadoras da UNIRIO, o Detetives do Passado simula investigações dos alunos a partir de casos do século 19. Um dos mais interessantes é o que trata dos carregadores de piano, trabalhadores de primeira necessidade em um Rio de Janeiro em que o uso desse instrumento tinha virado uma febre. Ali é possível encontrar vários recortes de relatos de viagem, em que europeus se mostram constrangidos pelo fato de que os brasileiros livres se recusavam a carregar até mesmo pequenos volumes que seriam possíveis de se levar nos bolsos. Tanto bolsas pesadas, quanto simples lenços eram carregadas por escravos. Ainda neste site, há a reprodução de uma aquarela de Debret na qual se retrata uma criança branca seguindo para uma “escola de meninas”, levando apenas uma pequena bolsa, meramente decorativa. Um pouco atrás, uma criança e uma mulher negra, esta última carregando o material escolar da menina branca que lhe ocupa todas as mãos, restando equilibrar com a cabeça a sombrinha de sua senhorinha. 

No entanto, parece claro que esse apreço por se cercar de criados só se mantém porque o Estado garantiu uma série de privilégios aos patrões. Um dos primeiros abalos sísmicos da sociedade no governo Dilma foi justamente quando se votou a PEC das Domésticas, que nada mais era que dar a esses trabalhadores os direitos que todos os outros gozam há décadas. Entre eles, sem dúvida, o mais importante era o de estabelecer pela primeira vez que estes trabalhadores tinham uma jornada de, no máximo, 44 horas semanais, que só poderia ser estendida com o pagamento de horas extras. O que pode parecer uma medida justa, já que igual a de qualquer outro trabalhador brasileiro, foi encarado como uma afronta. Símbolo disso, circulou bastante nesse período uma pequena crônica “O gagau de Tete e as horas extras”. Em síntese, um pai relata o desespero de uma filha pequena – o suficiente para dizer gagau em vez de mingau – ao ouvir da babá que essa não faria o mingau porque estava trabalhando desde antes da sete da manhã e já eram nove da noite. A criança, então, pede ao pai, que descreve sua saga ao tentar convencer a desalmada babá a fazer o mingau da filha – algo que ele mesmo confessava que jamais saberia fazer. Na sequência, a criança pede para dormir com a babá que novamente se nega a estender a sua jornada de trabalho para revolta absoluta do pai que agora teria que passar pelo suplício de pôr a filha para dormir. No final, lógico, a redenção: a empregada arrepende-se e quer dormir com a criança. Logo, pai e babá dizem que a Dilma não pensou neles e que deveria ficar tudo como antes. FGTS, Banco de Horas, Adicional noturno são transformados em monstros que amedrontam a criancinha. 

Acha tudo isso absurdo? Saiba que é um texto com muitos fãs. 

O direito de ser senhor. SQN

Logo depois da polêmica da foto, o advogado Claudio Pracownik se manifestou publicamente. Em tom raivoso, disse que a babá era uma funcionária com registro e com todos os direitos devidamente pagos, lembrando ainda que ela era livre para procurar outra ocupação se assim quisesse. A declaração teve o efeito inverso ao desejado: choveram montagens de fotos nas redes sociais, algumas do século 19, nas quais pequenas crianças montavam em escravas acompanhadas com os dizeres como “comprei e tenho nota fiscal”. Em geral, as elites brasileiras têm uma dificuldade em distinguir o moral do legal. 

A verdade é que cada época tem um conjunto de ideias que justificam os privilégios de certos grupos. No entanto, um dia essas ideias deixam de ser compartilhadas também por aqueles que são explorados. É aí que tudo pode mudar. Quando penso nisso, sempre lembro do famoso encontro, narrado por István Jancsó, entre um procurador de causas e o alfaiate João de Deus, homem pardo que se tornaria famoso por sua liderança na conhecida Inconfidência Baiana de 1798. Era um dia chuvoso e procurador chegou até a loja de João de Deus trazido em uma cadeira por escravos, bem ao costume da época. João de Deus ironizou a cena, mas imediatamente o procurador buscou defender que esse era um direito seu, graças a uma mercê dos céus. João de Deus respondeu desaforadamente, dizendo que chegaria o dia em que as coisas se inverteriam e que ele andaria em uma cadeira e o procurador a pé. 

Como se sabe, João de Deus, ao invés de conseguir ser carregado em uma cadeira, acabou sendo enforcado pelo seu envolvimento na Inconfidência. Mas até lá levou muito terror a todos aos senhores da terra e dos céus.    

André Roberto de A. Machado é historiador e professor da UNIFESP.      

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