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NO BRASIL, um ascensorista da Câmara Federal, ganha mais para servir os elevadores da Casa, do que um Oficial da Força Aérea, que pilota um Mirage.

Em meio à crise política, colunistas da Folha falam sobre os desafios do país

Pela segunda vez em um quarto de século, a Câmara dos Deputados decidirá a partir das 14h deste domingo (17) o impeachment de um presidente da República. Dilma Rousseff (PT) chega em situação delicada à votação crucial, na qual são necessários 342 votos favoráveis para o seguimento do processo. O país então saberá se é o começo do fim da era PT no governo, iniciada há 13 anos.

À luz deste momento de turbulência política, a Folha convidou colunistas para traçarem os principais desafios do Brasil, independentemente de como terminar o processo para destituir a presidente.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Desafio quase tão grande quanto resolver os problemas econômicos do Brasil é escolher quais deles cabem num único parágrafo, a menos que estejamos falando da taxa de câmbio e taxa de juros. Mas, não, os problemas econômicos do Brasil não são tão fáceis de resolver quanto botar, à força, juros e câmbio no lugar onde os iluminados assim o desejam. O primeiro é conciliar o desejo de uma sociedade que muito pede do Estado com os meios crescentemente escassos para satisfazê-la, ou seja, fazer o governo caber no PIB, reconquistando o orçamento como instrumento de políticas públicas. O segundo, dentre muitos que ainda restam, é recuperar o crescimento da produtividade, de forma a permitir a expansão sustentável da renda, por meio do incremento à competição doméstica e internacional, afastando os grupos que se privilegiam da proximidade com o poder, os alvos últimos da Lava Jato. Não são os únicos, mas, se resolvidos, recolocariam o país na rota do crescimento.

ANDRÉ SINGER

Vejo quatro grandes desafios. O mais urgente é a reconstrução das condições de crescimento do PIB. Cabe ao Estado orientar a política econômica no sentido de interromper a contração das atividades produtivas e sinalizar para a retomada do emprego e da renda, sem o que o sofrimento humano, sobretudo entre os pobres, será cada vez mais alto. A segunda é o equacionamento da Operação Lava Jato. A desmontagem da corrupção precisa continuar, mas faz-se necessário equilibrar as investigações de modo a que todos os partidos relevantes, uma vez que se trata de problema sistêmico, sejam obrigados a prestar esclarecimentos e modificar os seus procedimentos. Em terceiro lugar, será preciso reconstruir a ecologia partidária. A crise em curso desde o final de 2014 está desmontando a esquerda e o centro do sistema, sem os quais este não pode funcionar bem. Por fim, está posto o problema de impedir que a presente onda conservadora revogue os direitos consagrados na Constituição de 1988, a qual representou uma síntese das melhores aspirações brasileiras depois do trauma de 1964.                           

ANTONIO PRATA

O principal desafio segue o mesmo de sempre, reduzir o abismo que separa os ricos dos pobres. Pegue o Rodoanel entre Raposo Tavares e Castello Branco, cortando aquele Afeganistão de favelas em Carapicuíba. Chegue no Rio de Janeiro pela Linha Vermelha, atravessando o Complexo da Maré. Isso é o Brasil. (E o fato de eu estar me dirigindo aos que estão no carro, não aos que estão no morro, é fruto da desigualdade: este jornal dificilmente atravessará o fosso e o insulfilm que separam o lado de cá do lado de lá). O Haiti (ainda) é aqui.

CONTARDO CALLIGARIS

O desafio é voltar a ter a coragem das ideias que nos importam. Se tivéssemos a coragem de nossas ideias (e elegêssemos pessoas também corajosas), os governos poderiam errar, mas errariam na tentativa de transformar o país, para o bem ou para o mal. Sairíamos do ciclo da democracia abstrata, em que os governos só trabalham para se manter no poder, e o intento dos eleitos é só o de se reeleger. Na democracia abstrata, há conflitos de poder, mas, com poucas exceções, ninguém se arrisca no conflito de ideias, pois todos são aliados potenciais no futuro -são aliados potenciais porque todos renunciaram às suas posições para se sentar à mesma mesa (e eventualmente dividir o butim). O desafio de amanhã, então, é ter a coragem de discordar. Sem concessões.

DELFIM NETTO

As situações social e econômica são muito difíceis e não serão alteradas sem uma mudança profunda da confiança da sociedade no governo. O problema é a expectativa negativa que emerge do desencontro produzido por um presidencialismo de coalizão que nem preside, nem coaliza e provoca a judicialização da política pela arbitragem do STF. Precisamos de uma solução o mais cedo possível para que se estabeleçam as reformar constitucionais que restabelecerão o equilíbrio fiscal estrutural que emergiu da queda dramática do nível de atividade. Com impeachment ou sem ele, precisamos de governo, isto é, que o Poder Executivo resultante assuma o seu protagonismo, reúna suas forças e mobilize o Congresso para a aprovação do seu programa.

DEMÉTRIO MAGNOLI

No cerne de nossa crise política está a privatização do Estado, expressa no chamado "presidencialismo de coalizão", um eufemismo que designa o sistema de intercâmbios corruptos entre o Executivo e o Congresso. A estabilidade política da Nova República, fundada na polaridade PT-PSDB, no jogo pendular do PMDB e na proliferação de "partidos de negócios" apodreceu na era lulopetista, que conduziu o "presidencialismo de coalizão" a um paroxismo, esvaziando de conteúdo a democracia representativa. Para superá-lo, seria preciso: a) uma reforma do Estado, com radical redução dos cargos de livre provimento político e regras de governança profissional das empresas estatais e fundos de pensão; b) uma reforma política destinada a eliminar os "partidos de negócios", por meio de diversas medidas, entre as quais a proibição de coalizões proporcionais e uma cláusula de barreira eleitoral.

DENISE FRAGA

Utilizando o volume morto de meu reservatório de otimismo, desconfio que temos a possibilidade de sair fortalecidos de todo este imbróglio. No mínimo, mais bem capacitados em nosso alfabeto político. Resta-nos continuar em reflexão, transformando tudo que lemos e tentamos entender dentro deste pobre Fla-Flu em uma força cidadã múltipla, atenta e com poder de transformação. Está mais que claro: precisamos de uma reforma política. Mais: vivemos uma crise de fé no material humano. Portanto, precisamos usar a força adquirida para clamar por transformações sociais intensas, que, mesmo que a longo prazo, nos ponham de volta no caminho da evolução. Um grande primeiro passo seria o cuidado urgente, radical e qualitativo com o sistema educacional do país.

ELIO GASPARI

Aqui vai um problema perene e complicado, de solução simples. Todo mundo diz que o sistema político brasileiro está falido e que não pode funcionar com 35 partidos políticos. Tudo bem, a maioria desses partidos existe porque em 2006 o Supremo Tribunal Federal derrubou a clausula de barreira, aprovada pelo Congresso em 1995, cuja aplicação era marotamente adiada. O partido que não conseguisse 5% dos votos em todo o país seria afastado das verbas do Fundo Partidário e do horário gratuito de televisão. Basta recriar a cláusula de barreira. Quem quiser fazer maiores reformas, vá à luta, mas essa é fácil.

FERNANDA TORRES

A crise de representatividade é séria: a constatação de que, com raras exceções, os políticos trabalham para si mesmos e não para a sociedade. Fala-se de reforma política, mas ninguém consegue levá-la adiante. Esse distanciamento entre eleitores e eleitos alimenta o ódio dos debates e aprofunda a cisão entre pobres e ricos, brancos e pretos, homens e mulheres, povo e elite, patrões e empregados, coxinhas e mortadelas. Não conheço nenhuma liderança que simbolize o caminho do meio, ou se mostre capaz de restabelecer o diálogo entre gregos e troianos. Esse, penso, é um dos grandes desafios futuros.

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