IMLB - Instituto Mãos Limpas Brasil

Missão: Ser a Entidade mais ética da História do Brasil

Diretor de Redação

Mtnos Calil

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NO BRASIL, um Diretor que é responsável pela garagem do Senado, ganha mais do que um Coronel do Exército, que comanda um Regimento de Blindados.

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A característica comum das três fases constitutivas do capitalismo (mercantilista, industrial e financeira) consiste tanto na capacidade de criar empregos como na de não incluir na sua dinâmica estrutural grandes parcelas da população: do capitalismo comercial ou mercantilista ficaram de fora segmentos da sociedade rural-estamental; do capitalismo industrial, que disseminou o assalariado, ficaram excluídas milhões de pessoas sem qualificação técnica ou que se recusavam ganhar salários de fome; também o aumento da produtividade contribuiu bastante para engrossar a classe dos excluídos.

Com o capitalismo financeiro e suas crises (particularmente a de 2008) tornou-se indiscutível um novo patamar de insegurança no trabalho (com raríssimas exceções, sendo o Brasil, por ora, é uma delas): há milhões de desempregados, sub-empregados, empregados temporários, meia jornada e precariados. Isso significa menos qualidade de vida e aumento (ou não diminuição) dos que passam fome diariamente no mundo todo.

Por que tanto desequilíbrio e enorme concentração de riqueza nesta terceira etapa evolutiva do capitalismo? Dentre tantas outras razões, merece prioritária consideração o modo como o dinheiro passou a ser valorado (Regnasco: 2012, p. 67 e ss.), em muitos países: deveria ser um meio, mas se transformou em um fim em si mesmo. Com base numa clássica distinção aristotélica, o dinheiro deixou de constituir a base da economia dirigida à produção de valores de uso para se transformar em crematística, ou seja, na busca incessante de produção e de riqueza por puro prazer.

A confusão levou muitas pessoas a afirmarem que o único fim da economia é a acumulação de dinheiro até o infinito (Regnasco: 2012, p. 67). Essa é a lógica que governa a maior parcela do mundo capitalista financeiro atual, que vai muito além da mera acumulação de riqueza (objetivo de lucro) como meio de prosperidade do próprio capitalismo. A acumulação de riqueza se transformou num prazer que se esgota em si mesmo.

No capital financeiro o capital se reproduz dispensando-se o lado produtivo. São milhões de transações diárias, sem envolver qualquer tipo de produção industrial ou mesmo uma troca comercial. É o dinheiro gerando mais dinheiro sem tocar no comércio ou na indústria (juros, compra e venda de ações, especulações nas bolsas, bônus etc.). O dinheiro, que hoje circula na velocidade da luz por meros impulsos eletrônicos, prescindindo-se até mesmo da sua materialização (em metal ou papel), é uma realidade mais poderosa que a produção de bens e de empregos. Poder simbólico (que deixou de ser meio para se converter em fim). Tudo virou ou está virando mercadoria (os serviços públicos, a saúde, a educação, a arte, o conhecimento). Estamos sendo socializados de acordo com a sociedade tecnocapitalista.

Produtividade e rentabilidade são agora as instâncias “morais” de todas as nossas ações. O mundo do cinema, das artes, da música e do teatro virou “indústria cultural”. Gastos com educação viraram investimentos. Logo, ela existe para dar dividendos assim como para formar “capital humano”, “competitivo”, “expansivo”,  “ultrassônico” e “nanotecnológico” (Regnasco: 2012, p. 69). Absoluta sujeição psicológica e ideológica. Nada é para ser questionado, sim, interiorizado. Eliminação de resistências. Cultura homogênea, sociedade conformista, cidadania convertida em “força produtiva”, gente transformada em “recursos humanos”.

E tudo pelo simples processo de universalização impessoal do novo valor do dinheiro, que passou a existir só para gerar mais dinheiro, não mais empregos, progressos, desenvolvimentos. Poder disseminado que passa por todos os poros, sob a aparência de autonomia individual, de decisões pessoais. Daí a concentração absurda de riqueza (85 pessoas possuem capital equivalente a metade do capital do planeta). Com exceção de uns pouquíssimos países que preservaram o modelo do capitalismo distributivo (Dinamarca, Suécia, Noruega, Japão, Holanda, Bélgica etc.), existe alguma democracia capaz de enfrentá-los?

  • 21 de março de 2014
  • Luiz Flávio Gomes
  • http://institutoavantebrasil.com.br/nos-e-o-dinheiro-quem-e-escravo-de-quem/

    Comentário de Mtnos Calil · Completo

  • A má formação genética da economia de mercado se deve, logicamente, aos genes humanos. O mercado nasceu para atender a uma necessidade básica imposta pelas “relações de troca”. 

  • Existe porém um elemento de subjetividade na troca caracterizado pelo egoísmo (e esperteza) daqueles que procuram “levar vantagem” no processo da troca. A troca entre mercadorias (escambo) não era regulada por nenhum princípio ético que garantisse uma suposta justiça. Cada um dos envolvidos no processo levava em conta apenas seus interesses. Ninguém estava influenciado, ao trocar seus produtos por outros, pelo “interesse coletivo”.* Quem por qualquer razão tivesse o privilégio de dispor do trigo para trocar por outras mercadorias, já se encontrava numa posição vantajosa em relação aos demais. É neste contexto regulado pela “lei da vantagem” que surge o dinheiro. A sua praticidade foi desvirtuada e o dinheiro se transformou numa mercadoria que poderia ser acumulada sem limites. Essa acumulação só visava, obviamente o interesse do acumulador. Como o dinheiro passou a ser, além da moeda de troca, a “moeda da sobrevivência” os acumuladores de dinheiro tiveram a idéia genial (genial para os genes egoístas) de emprestar dinheiro recebendo um valor superior ao emprestado. Bastava ao sujeito ter dinheiro para ganhar dinheiro, sem ter que produzir nenhum bem de interesse coletivo. E a partir daí a sociedade passou a depender daqueles que possuíam grandes quantidades de dinheiro. + 

  • E hoje o que distingue os “agentes de mercado” é a quantidade de dinheiro que possuem, sendo que o grau de liberdade dos individuos é diretamente proporcional à posse do dinheiro. Não tem sentido, portanto, se falar em mercado sem associá-lo a dinheiro que funciona como o motor da economia. Mas os três conceitos, obviamente, não se confundem: mercado, dinheiro e economia. 

  • Por outro lado têm em comum o fato de atenderem ao egocentrismo natural da espécie humana, que resiste tenazmente ao processo civilizatório. A civilização e a ética como ciência da conduta humana são criações da cultura indispensáveis à sobrevivência da humanidade, cujo futuro é incerto e vai depender de quanto seremos capazes de conter o ímpeto selvagem de nossos instintos. 

  • E para nos dar a sensação ilusória de que o homem caminha em direção ao progresso, existem as leis, de onde emanou um dos aforismos mais hipócritas da história da humanidade: “todos são iguais perante a lei” – um simulacro que serve de “fundamento” da “democracia”. 

  • O interesse coletivo existe somente na medida em que atenda aos interesses individuais. E o mais grave é que a coletividade está dividida em muitos coletivos, brigando entre si. Assim a coletividade não passa de uma abstração. O coletivo, no frigir dos ovos é uma falácia. Isso explica porque hoje existem no planeta, segundo a ONU cerca de um bilhão de famintos e sub-nutridos. Explica também porque apenas 85 pessoas concentram riqueza equivalente à possuída por 3,5 bilhões, o que revela um outro traço da economia de mercado: a esquizofrenia da acumulação (ou da concentração).

  •  E a ciência, o que tem a ver com o caso? O simples fato de ainda termos que fazer essa pergunta mostra o atraso em que se encontra a humanidade. Ainda temos que discutir se as soluções dos problemas sociais, políticos e econômicos devem ser cientificas? Será que a ciência é ainda algo tão recente na História que ainda não sabemos como fazer uso dela fora dos laboratórios de química, física, engenharia, medicina e congêneres? Estariam a economia, a sociologia e a política num estágio de seu desenvolvimento cientifico ainda embrionário? Ou será que os donos do poder não têm interesse em governar com o amparo da ciência, o que prejudicaria seus interesses? Face a seus sistemas lógicos e organizacionais, a ciência limitaria sim a ânsia insaciável pelo poder político e econômico. Se para controlar essa ânsia o homem criou leis que ele próprio não cumpre, estamos ainda muito longe de uma possível “administração cientifica” da sociedade. Por ora, a ciência só pode ser útil para o diagnóstico dos problemas sociais da humanidade. Já é alguma coisa... 

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