IMLB - Instituto Mãos Limpas Brasil

Missão: Ser a Entidade mais ética da História do Brasil

Diretor de Redação

Mtnos Calil

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NO BRASIL, um Diretor que é responsável pela garagem do Senado, ganha mais do que um Coronel do Exército, que comanda um Regimento de Blindados.

 

Vemos hoje milhões de pessoas na rua promovendo o maior carnaval do mundo  no país que atravessa uma das maiores crises de sua História desde que, por acaso, Cabral aqui aportou. Mas essa é a função histórica do carnaval brasileiro, ainda pouco conhecida por nossos historiadores:

abafar todas as crises que vão e voltam, mas especialmente uma crise permanente que fez do Brasil um pais do futuro, com muita ordem e progresso, só como lema a enfeitar uma bandeira, é claro. Para os brasileiros, o Brasil é um país do futuro. Mas para os estrangeiros que agora estão vibrando com a desvalorização do real que lhes permite comprar nossos ativos a preço de banana, o Brasil tem sido há muito tempo o país do presente. Presente dos bons negócios e lucros generosos.

Será que o povo brasileiro, cuja identidade foi produto de uma miscelânia cultural raramente ou nunca vista na história da humanidade, tem  hoje algum sentimento de culpa por ser tão carnavalesco, ou tão malandro no seu jeitinho de ser? É claro que não: a culpa é toda dos políticos! O povo se sente apenas vitima de seus (des)governantes e faz do carnaval o grande consolo para suas dores e desilusões, ao mesmo tempo que condena seu próprio país - não há povo no mundo que mais critica sua pátria do que o povo brasileiro! 

Assim, o mito do país do futuro se alimenta com um sentimento de inferioridade que se consolida ao longo do tempo, fazendo do Brasil um país não apenas do Carnaval, mas também da resignação diante de um futuro que nunca chega. Que povo resignado é esse, carente de uma identidade nacional e que se vangloriava de ter o melhor futebol do mundo?  Essa glória já se foi, mas o nosso Carnaval não tem nem nunca terá competidores. Para nossa sorte o carnaval não é bom negócio para os clubes da Europa e de outras plagas, para os quais doravante vamos exportar uma nova e lucrativa commoditie – jogadores de futebol.

E para melhor curtir a tristeza deste carnaval de 2016, vamos contar com a colaboração de Jorge Amado que começou sua brilhante carreira aos 19 anos publicando, em 1931, o livro “Brasil, o país do Carnaval”. Neste livro ele compartilhava  o desdém do povo brasileiro pela sua pátria, escrevendo num romance o que a realidade está confirmando quase 100 anos depois. Veja:

                             Trechos do livro “O Pais do Carnaval”, de Jorge Amado

ENTRE O AZUL DO CÉU E O VERDE DO MAR, o navio ruma o verde-amarelo pátrio. Três horas da tarde. Ar parado. Calor. No tombadilho, entre franceses, ingleses, argentinos e ianques está todo o Brasil (Evoé, Carnaval!). Fazendeiros ricos de volta da Europa, onde correram igrejas e museus. Diplomatas a dar ideia de manequins de uma casa de modas masculinas... Políticos imbecis e gordos, suas magras e imbecis filhas e seus imbecis filhos doutores. Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas caras, aventureira viajada, da qual se dizia conhecer todos os países e todas as raças, o que equivale a dizer que conhecia toda espécie de homem, tolera, com um sorriso condescendente, o galanteio juliodantesco de uma dúzia de filhos-família brasileiros e argentinos:

— A senhorita é linda... — Minha vida pela sua vida... — Faça um sinal e me atirarei n’água! — Eu queria que o navio naufragasse para poder provar quanto a amo...

Tudo isso era dito em mau francês, num mau francês de causar inveja aos rapazes que leem Dekobra e têm por Tiradentes uma grande paixão patriótica. Toda essa gente sua muito debaixo da elegância das suas roupas quentes, feitas em Londres e Paris a preços elevados. Toda a gente, menos a francesa, que traja um vestido simples de musselina branca. É, em verdade, bela. Olhos verdes como o mar e pele alva. Não admira que aqueles tropicais brasileiros e argentinos gastem com ela a sua retórica, “tão precisa à pátria”.

Adiante, um senador, um fazendeiro, um bispo, um diplomata e a senhora do senador conversam na boa paz burguesa dos que têm o reino da terra e a certeza de comprarem o do céu.

— Sim — diz o fazendeiro —, foi regular a safra. Mas os preços...

 — Ora, coronel, o senhor quer dizer a mim?... Mesmo pelo preço em que está, o café continua a dar um lucro fabuloso... É a riqueza de São Paulo e a do Brasil. — Mesmo porque o Brasil é São Paulo! — fez a senhora do senador, bairrista de irritar.

— Oh, minha senhora! Perdoe-me se discordo de Vossa Excelência mas...

Era o diplomata que falava. Primeiro-secretário de Embaixada em Paris, ainda estava inédito o seu primeiro serviço à pátria. Nascera na Bahia, e trazia no sangue e no cabelo a marca dos deboches de avôs portugueses com avós africanas.

— ... mas há outros grandes estados... Olhe a Bahia, minha senhora. A Bahia, veja Vossa Excelência, produz tudo... Cacau. Fumo. Feijão. E produz homens, minha senhora, grandes gênios. Rui Barbosa era baiano...

— Mas hoje, doutor...

— Oh! minha senhora, não diga... Ainda hoje grandes talentos...

 E o bispo, conciliador: — O doutor mesmo é uma prova

 — Amabilidade do senhor bispo... A Igreja sempre caridosa...

O senador, com o prestígio que lhe dava a posição, resumiu toda a conversa:

— É o país de mais futuro do mundo! — Perfeitamente! — falou um rapaz que chegara no momento.

— O senhor acaba de definir o Brasil. (O senador sorriu baboso.) O Brasil é o país verde por excelência. Futuroso, esperançoso... Nunca passou disso... Vocês, brasileiros, velhos que já foram e rapazes que são a esperança da pátria, sonham o futuro. “Dentro de cem anos o Brasil será o primeiro país do mundo.” Garanto que aquele detestável cronista Pero Vaz de Caminha teve essa mesma frase ao achar Cabral, por um acaso, o país que viera expressamente descobrir.

 — Não! — protestou o diplomata, elevando num gesto oratório a mão ao peito.

 — Hoje, todo estrangeiro conhece, graças ao nosso corpo diplomático, sem modéstia, o grande, o portentoso Brasil!

 — Entretanto, aquela francesinha que conhece o mundo todo, que já teve casa de rendez-vous em Pequim, já foi amante de pretos na Colônia do Cabo e ganhou dinheiro em Monte Carlo, julga que viaja para um país chamado Buenos Aires, que tem por capital o Brasil, uma cidade onde a população anda de tanga. E posso lhe afirmar, senhor bispo, que ela vai até lá exatamente para poder andar de tanga, pois é primitivista.

 — Ela é imoral, isto sim.

— Vai ter uma decepção, coitada!

— Mas, doutor Rigger, pelo menos do ponto de vista religioso, o Brasil tem progredido muito. Hoje...

— Hoje o feitiço domina. No Norte, senhor bispo, a religião é uma mistura de fetichismo, espiritismo e catolicismo. Aliás, eu não acredito que Cristo haja pregado religiões. Cristo foi apenas um romântico judeu revoltoso. Os senhores, padres e papas, é que fizeram a religião... Mas se o senhor pensa que essa religião domina o Brasil, está enganado. Há uma falsificação africana dessa religião. A macumba, no Norte, substitui a Igreja, que, no Sul, pais do é substituída pelas lojas espíritas. No Brasil a questão de religião é uma questão de medo.

 A senhora do senador, escandalizada, benzia-se. O diplomata sorria por vaidade. O bispo, que era inteligente, quis protestar. Não houve, porém, tempo. Um rapaz de bordo agitava uma sineta enorme chamando para o lanche. E todos obedeceram a Sua Majestade, o Estômago. No tombadilho, Paulo Rigger abandonou-se aos seus pensamentos. Estava de volta ao Brasil depois de sete anos de ausência. Ainda estudante de ginásio morrera-lhe o pai, riquíssimo fazendeiro de cacau no sul do estado da Bahia. A última vontade do velho Rigger foi que mandassem o seu rapaz for marse na Europa. E, terminado o curso ginasial, Paulo seguiu para Paris em busca de um anel de bacharel. O velho Rigger queria o filho formado. Mas já estava muito banal a formatura no Brasil. Só poderia fazer sucesso um doutor da Europa.

Paulo Rigger, em Paris, como é natural, fez tudo, menos estudar Direito. Ao formar-se era um blasé, contaminado de toda a literatura de antes da guerra, um gastador de espírito, que tinha amigos entre os intelectuais e frequentava as rodas jornalísticas, fazendo frases, discutindo, sempre em oposição. A atitude oposta era sempre a sua atitude. Não chegara, muito francês que era, a fazer uma base para a sua vida. Não tinha filosofias e fazia blagues acerca do espírito de seriedade da geração que surgia.

Dizia que o homem de talento não precisa de filosofia. Aos vinte e seis anos, era o tipo do cerebral, quase indiferente, espectador da vida, tendo perdido há muito o sentido de Deus e não tendo achado o sentido de pátria. Frio, não se emocionava. Tinha prazeres diferentes: amava ser contra as ideias dos seus vizinhos de mesa e gostava de estudar almas. Correra toda Paris, dos mais aristocráticos salões aos mais sórdidos cabarés, numa volúpia de escalpelar as almas, pôr-lhes à mostra sentimentos, estudá-las...

Assim, pensava, no dia em que houvesse “um caso” na sua vida, estaria preparado para enfrentá- lo, estudá-lo, dissecá-lo. Usava monóculo porque diziam que o monóculo já havia caído da moda. Aprendera em Paris a vestir-se com muita elegância e a satisfazer todos os seus desejos.

Sibarita, tinha pelos seus instintos uma quase adoração. Conhecia, assim, todos os vícios. No seu olhar cansado, muito triste, parecia viver a tragédia do homem que esgotou todas as volúpias e não se satisfez. Nos seus lábios finos bailava sempre um sorriso mau, de escárnio, que irritava. Já descrera da felicidade. No fundo, entretanto, Paulo Rigger sentia que era um insatisfeito. Compreendia que faltava qualquer coisa na sua vida. O quê? Não o sabia. Isso torturava-o. E dedicava toda a sua vida à procura do fim. “Sim, murmurava no tombadilho, olhando as ondas, porque toda vida deve ter, necessariamente, um fim... Qual?”

Mas o mar, indiferente, não lhe respondia. O sol que morria desenhava no horizonte paisagens berrantes. O sol foi o primeiro cubista do mundo... Ao jantar, a francesinha sorria-lhe. Havia no seu sorriso uma promessa enlouquecedora de volúpias incríveis. E Paulo Rigger ficou a idealizá-la nua. Devia ser linda... Aquela mulher, tão jovem e tão conhecedora da vida, devia ser uma requintada. E jurou conhecê-la. No tombadilho, ela sorria ingênua do ingênuo brinquedo das ondas. Paulo Rigger aproximou-se.

 — Mademoiselle...

 — Mademoiselle, não. Julie, sim.

— Ah, Julie, você é adorável!

—Só isso que você me diz? Isso me disseram todos aqueles rapazes que me galanteavam há pouco. Eu pensei que você tivesse qualquer coisa mais nova para me dizer...

— Sim, tenho. Quero lhe dizer que os seus olhos prometem coisas absurdas, mas eu conheço todas as coisas absurdas e duvido muito que você me dê qualquer coisa nova.

 — Hoje à uma hora. A porta do meu camarote estará aberta... Esperá-lo-ei.

No seu camarote, Paulo Rigger pensava se devia ir ao encontro de Julie. Uma grande lassidão invadia-lhe os membros. Pensou em Julie. E teve medo dos seus olhos. Não, não iria. Aquela mulher era capaz de se agarrar a ele como uma sarna, no Brasil. E, demais, ela não passava de uma rameira conhecida. Uma mulher que amava por dinheiro, sem amor. Que lhe poderia dar de novo? Prazer, ele conhecia muito. Carne... Mas o amor talvez não fosse somente carne... Talvez fosse alguma coisa mais... Essa outra coisa, ele não conhecia. Afirmava até que ela não existia. Existisse ou não, a francesinha não lhe poderia dar. Daria somente o sexo... E do mesmo modo de sempre. Bolas! Não iria lá... E Julie esperou por toda a noite, nua, a sonhar volúpias incríveis. Depois, chorou de raiva, mordendo o travesseiro... Afinal, xingava-o, era um animal. Não sabia que ela reservara para ele as carícias que nunca vendera a ninguém... Imbecil! E Paulo Rigger sonhava que tinha uma namorada romântica que lia Henri Ardel e tocava valsas muito sentimentais ao piano. No outro dia, o grito da descoberta: — Terra! Terra! Lá longe, o país do Carnaval.

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