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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

                                                        A inclinação da curva de juro longa fez inveja a Quasímodo

                                                                  (reprodução da Carta Capital)

Luiz Gonzaga Belluzzo                 Aproveitando o assunto pergunto ao pessoal da Carta Capital: o Beluzzo merece essa charge horrível? Isso não seria um exemplo de um transtorno da linguagem mídiática?                           

Alinhado com o pensamento multidisciplinar segundo o qual a economia não pode ser compreendida nas suas raízes se não forem consideradas outras disciplinas cientificas, tenho alertado para um fenômeno da psicologia das massas que está se agravando seriamente em nossos dias, que chamamos de esquizofrenia social e que se caracteriza pela patologia da normalidade, que em essência, consiste na normalização da loucura.

O próprio termo loucura  já adquiriu um significado “positivo” segundo o qual os “loucos” se distinguem dos normais por algum desempenho fora do comum. Se é fora do comum, merece aplausos, não importando se a loucura esteja exposta. O bizzaro, o extravagante, o escandaloso, etc. são tratados pela mídia como uma fonte magnífica de noticias que conquista uma audiência cada vez mais loucamente embevecida pelas cenas de loucura expostas a toda hora nas telas de televisão.

O artigo de Belluzzo reproduzido abaixo se aproxima da esquizofrenia social, mas dada a abrangência desta enfermidade, falta muito para o economista perceber (ou admitir) que boa parte dos políticos e economistas estão enlouquecendo, o que sugere um outro artigo com este título: “A louca linguagem dos políticos e economistas”. Que tal?

Mtnos Calil

Ideologia Zero, Simulacro Zero.

A linguagem do dinheiro

Qual bonecos de ventríloquo, os comunicadores “falam” conforme as regras gramaticais dos mercados

por Luiz Gonzaga Belluzzo —  03/02/2016 – Carta Capital

Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Partilhei com Mino Carta o editorial da edição anterior de CartaCapital. Disse, então, que nos últimos meses alguns integrantes do Copom haviam sugerido um aumento de 50 pontos na já alentada taxa Selic. 

Para surpresa de muitos e decepção de uns tantos, às vésperas da reunião do dito Conselho, escudado nas previsões do FMI sobre o PIB brasileiro, o presidente Tombini virou o jogo. Na quarta-feira 20, o Copom manteve a Selic em 14,25%.

Os Senhores da Finança responderam às trapalhadas de comunicação do doutor Tombini & Cia: mandaram um recado antecipando elevações consecutivas da taxa de juros no biênio 2016-2017. O mercado “falou”. Escancarou sua discordância na inclinação da curva de juro longa. A corcova fez inveja a Quasímodo.

Apoiado no linguista John Austen, em seu livro Capital e Linguagem, o economista italiano Christian Marazzi cuida das marchas e contramarchas da finança dos últimos 30 anos. Marazzi sublinha a natureza performativa da linguagem do dinheiro e dos mercados financeiros.

Escusas, caro leitor, pelo pedantismo do jargão linguístico. Performativo quer dizer apenas que a linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não descreve, e muito menos “analisa”, um determinado estado de coisas, mas produz imediatamente fatos reais.

A última decisão do Conselho de Política Monetária do Banco Central foi um exemplo da produção da “realidade” pela linguagem dos mercados financeiros. 

O domínio da finança, ou seja, o capitalismo reinventado segundo sua “natureza”, produziu o que Christian Marazzi chamou de “metamorfose antropológica do indivíduo pós-moderno”. 

Diz Marazzi: é relativamente simples descrever o comportamento mimético-comunicativo das convenções coletivas típicas dos mercados financeiros. No capítulo XII da Teoria Geral, Keynes se vale dos concursos de beleza promovidos pelos jornais para descrever a formação de convenções nos mercados de ativos.  

Os leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será entregue àquela cuja escolha esteja mais próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada um dos participantes, mas, sim, de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião média dos participantes do torneio.

Keynes introduz, assim, na teoria econômica as relações complexas entre Estrutura e Ação, entre papéis sociais e sua execução pelos indivíduos convencidos de sua autodeterminação, mas, de fato, enredados no comportamento de manada. 

Keynes, na esteira de Freud, introduz as configurações subjetivas produzidas pelas interações dos indivíduos no ecúmeno social das “economias de mercado”. O afã de realizar sem perdas o valor dos ativos se esbate no fragor das insuspeitadas e caprichosas evoluções e involuções da opinião coletiva.

Os fâmulos dos mercados passam da euforia à depressão. É implacável o constrangimento dos indivíduos dos mercados, sempre amestrados sob o guante da conversão de seus valores particulares em dinheiro, a forma geral da riqueza.

Nesse percurso, o comportamento mimético dá origem, em suas conjecturas imitativas, a situações nas quais a busca coletiva da liquidez culmina na decepção de todos. A âncora que sustenta precariamente as ariscas subjetividades atormentadas pela incerteza da liquidez está lançada nas areias movediças da peculiar “sociabilidade” do capitalismo financeiro.

No livro Capitalisme et Pulsion de Mort, Gilles Dostaler e Bernard Maris afirmam que nem Freud nem Keynes acreditam na fábula da autonomia do indivíduo, tão cara aos economistas. “O indivíduo está imerso na multidão inquieta, frustrada, insaciável, sobre a qual pesa essa imensa pressão cultural, esse movimento ilimitado da acumulação...” 

A metamorfose do indivíduo pós-moderno aludida por Marazzi é um “salto de qualidade” no comportamento mimético examinado por Keynes. Os “avanços” nas formas de comunicação promovidas pelo desenvolvimento da mídia de massas e o uso das tecnologias de informação tornaram mais rápida e eficazmente perigosa a linguagem do dinheiro.

Na mídia impressa e na eletrônica, as matérias de negócios e economia disseminam os fetiches dos mercados financeiros embuçados na linguagem do saber técnico e esotérico. Qual bonecos de ventríloquo, os comunicadores “falam” a língua articulada conforme as regras gramaticais dos mercados.

Assim, o capitalismo investido em sua roupagem financeira cumpre a missão de “administrar” a constelação de significantes à procura de significados, submetendo os cidadãos-espectadores aos infortúnios da domesticação e da homogeneização decretados pelo “coletivismo de mercado”. 

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