IMLB - Instituto Mãos Limpas Brasil

Missão: Ser a Entidade mais ética da História do Brasil

Diretor de Redação

Mtnos Calil

Login

NO BRASIL, um Diretor que é responsável pela garagem do Senado, ganha mais do que um Coronel do Exército, que comanda um Regimento de Blindados.

Liu Hongmei (à dir.) deixoua right, and other foreign-born workers at a temporary dorm they were staying at after losing their jobs in Hashima, Japan, Dec. 2, 2016. Legally, the time Liu spent ironing and packing womenÕs wear in Japan is considered Òtraining,Ó though she says she learned only hardship. ÒMy image of Japan,Ó Liu said, Òwas that it was a good country.Ó (Ko Sasaki/The New York Times)

 

Há no país um mundo nebuloso, e por vezes abusivo, dos trainees técnicos, que são basicamente trabalhadores de segunda classe trazidos do exterior para executar tarefas que o cidadão japonês não está mais aceitando

 

Liu Hongmei estava farta do seu trabalho numa fábrica de roupas de Xangai, onde trabalhava durante longas horas por um salário muito baixo. Há três anos ela deixou o emprego e foi trabalhar no Japão. Uma fábrica de roupas lhe prometeu um salário três vezes maior do que os US$ 430 que recebia na China e seu objetivo era poupar alguns milhares de dólares para a família que estava aumentando, com o nascimento recente do seu filho.

 

“Achei que era uma grande oportunidade”, disse ela. Uma oportunidade, talvez, mas não um trabalho. Legalmente, o tempo gasto por ela para passar a ferro e embalar as roupas femininas no Japão é considerado “treinamento”. Ocorre que Liu ingressou no mundo nebuloso e por vezes abusivo dos trainees técnicos do Japão – que são basicamente trabalhadores de segunda classe trazidos do exterior para executar tarefas que o cidadão japonês não está mais aceitando.

 

Do mesmo modo que nos Estados Unidos e outros países desenvolvidos, o Japão vem tendo dificuldades para contratar pessoas para colher verduras, recolher as comadres em casas de idosos ou lavar pratos nos restaurantes. Nos EUA muitos desses empregos, que pagam um salário baixo e exigem pouca qualificação, são ocupados por imigrantes ilegais, um acordo que foi criticado pelo presidente Trump durante sua campanha.

 

O Japão, por seu lado, já chegou há muito tempo ao que Trump tem prometido: o país tem muitos imigrantes legais e está oficialmente fechado para pessoas que buscam trabalho no setor de manufatura. Mas agora essas medidas mais duras no tocante à imigração, legal ou ilegal, estão causando problemas. Muitas indústrias japonesas estão com uma grave escassez de mão de obra e isto contribui para frear o crescimento econômico.

 

O que está levando o Japão a questionar algumas premissas básicas a respeito das suas necessidades de mão de obra. O debate é politicamente delicado, mas as realidades que vêm mudando no país, nas fábricas e campos, estão forçando os políticos a reagir de modo correspondente. Pela primeira vez a mão de obra estrangeira total no país chegou a um milhão de pessoas no ano passado, segundo o governo, um aumento registrado em parte pela entrada de pessoas no país com vistos reservados para os chamados trainees técnicos.

 

E gerou também um aumento de casos de abusos e fraudes contra o trabalhador. Liu se insere nesse debate. Ela chegou ao Japão já com dívidas depois de pagar US$ 7.000 para intermediários conseguirem um visto de entrada para ele. Uma vez no Japão, descobriu que as condições de trabalho eram opressivas e salário muito menor do que o prometido. Segundo afirmou, os patrões “nos tratam como escravos”.

 

Tecnicamente “treinamento”
Liu e outros trabalhadores chineses na fábrica em que trabalha vieram para o Japão por meio de um programa de aprendizagem patrocinado pelo governo. O objetivo do programa é resolver o problema de escassez de mão de obra e proibir a entrada de imigrantes com baixa remuneração.

 

Fazendas, empresas de processamento de alimentos e muitas fabricantes fariam tudo para se manter sem trainees estrangeiros, afirmam os especialistas. “Praticamente cada legume nos supermercados de Tóquio é colhido por um trainee”, disse Kiyoto Tanno, professor na Universidade Metropolitana de Tóquio.

 

Para acalmar os grupos empresariais, o governo deixou lacunas nas normas de imigração e centenas de milhares de trabalhadores com baixo salários, como Liu, chegaram ao país, vindos da China, Vietnã, Filipinas e Camboja e vêm assumindo as vagas de trabalho no Japão à medida que a população do país encolhe e se tornando um motor crucial, mas não reconhecido, da economia.

 

O número de trabalhadores nessas condições está disparando. O programa de trainees dobrou de tamanho nos últimos cinco anos, para mais de 200.000, de acordo com dados oficiais e o governo planeja expandi-lo. A maior parte deles vem da China, e mais recentemente muitos são do Vietnã.

 

Poucas pessoas duvidam que esse “treinamento” é uma artimanha. Além de um período curto de estudo da língua, muitos trainees não recebem nenhuma, ou pouca, instrução que possa distingui-los dos trabalhadores manuais regulares, é o que afirmam especialistas e participantes.

 

“O que estamos fazendo é importando mão de obra”, disse Yoshio Kimura, membro do Parlamento. “Se queremos crescimento econômico no futuro, precisamos de estrangeiros”, afirmou ele.

 

Proibido sair ou deixar o emprego


Nobuya Takai, advogado que representa trainees estrangeiros em disputas trabalhistas disse que a pretensão de que esses trainees não são trabalhadores contribui para os problemas que ocorrem. As empresas não os contratam diretamente, mas por meio de um sistema bizantino do governo e de intermediários do setor privado. Muitos trainees acabam contraindo milhares de dólares de dívidas para pagar comissões para esses intermediários antes mesmo de chegarem ao Japão, disse Takai e outros que estudaram o programa. E como os trainees não podem mudar facilmente de emprego – seu visto de entrada no país os mantém presos a uma única empresa, eles não têm o que é muito importante: possibilidade de deixar um mau patrão.

 

“Eles não podem mudar de emprego e perdem dinheiro se voltarem para seu país”, disse Takai.

 

Liu Hongmei disse que usou todo seu dinheiro guardado e pediu empréstimos para parentes para pagar a comissão. Ela e outros colegas afirmaram que recebem menos do que o salário mínimo legal e o patrão ainda cobrava a habitação fornecida pela empresa.

 

O empregador é Takeshi Nakahara que junto com sua mulher possui diversas pequenas fábricas de roupa em Gifu. Ele começou a usar trainees há quinze anos porque “nenhum japonês quer trabalhar no setor do vestuário”.

 

E o salário baixo é a única maneira de competir com as fábricas estrangeiras. “Muitas fabricantes foram para o exterior. É a única maneira de manter a lucratividade”.

 

Empregados que decidiram voltar para seu país conseguiram negociar um acordo. Liu, cansada e com saudade de casa, estava pronta para retornar à China, apesar da dívida que contraiu com parentes. Outras quatro mulheres decidiram ficar no Japão e lutar para ter uma indenização melhor.  Indagadas se aprenderam alguma coisa durante seu treinamento, elas deram um sorriso amargo. “Só privações. A imagem que eu tinha do Japão era de um bom país”.

 

Jonathan Soble / The New York Times

Tradução de Terezinha Martino

 

 

Pin It

Logo TAYSAM Web Design 147x29

Selo Google1