Malecón

A calçada e os muros do Malecón são o principal ponto de turismo sexual de Havana (Diogo Schelp/VEJA)

 

Já faz quase um mês que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, mas a imprensa americana ainda não se cansou de fazer um mea culpa por ter, na maior parte do tempo, dado a previsão oposta, a de que ele seria derrotado por Hillary Clinton. Colunistas, comentaristas e repórteres de política, mesmo quando cuidavam para não apontar um vencedor, tratavam Trump como perdedor, como candidato-aberração e seus eleitores como cretinos racistas. A culpa, dizem eles agora, foi das pesquisas de opinião. Isso é apenas parcialmente verdade.

 

A era digital fez surgir o fenômeno do big data, a capacidade de reunir um mundaréu de dados que, bem analisados e interpretados, têm o potencial de permitir conclusões antes insondáveis sobre fenômenos diversos. O big data fez até surgir uma nova vertente do jornalismo, o “jornalismo de dados”. Na eleição americana deste ano, o jornalismo de dados reinou quase absoluto. Visitar o site do New York Times ou de outros jornais e revistas americanos era uma diversão para quem gosta de números. Infográficos lindos, interativos, instrutivos e surpreendentes sobre a campanha pululavam a cada clique. O mais visível deles, que na reta final da campanha ficou na primeira página do New York Times, era uma régua que indicava a probabilidade de um ou outro candidato ser vencedor. Ali, Hillary chegou a aparecer com 90% de chance de vencer a eleição.

 

Por que os estatísticos erraram tanto a previsão das eleições, e junto com eles tantos comentarias, colunistas e repórteres? Porque as redações investiram ou acreditaram menos na reportagem de rua, na conversa com os eleitores comuns, no mergulho no desconhecido que permite aos jornalistas capturar um pouco da realidade com sua percepção individual. Faltou, enfim, a boa e velha reportagem.

 

Muitos jornalistas fizeram isso, claro, mas quase não foram ouvidos. Alec MacGillis foi um deles. Neste texto para o site ProPublica, ele conta o que percebeu acompanhando cabos eleitorais de Trump que iam de porta em porta em Ohio conversando com eleitores. Umas das coisas que chamou a atenção de MacGillis foi a quantidade de eleitores de Trump que ele encontrou que disseram que iam votar pela primeira vez na vida – cidadãos com mais de 40 anos.

 

Uma das entrevistadas de MacGillis, Contessa Hammel, da cidade de Dayton, deu a seguinte razão para nunca ter votado antes: “Eu não queria tomar uma decisão equivocada.” E, no entanto, depois de tantos anos, ela teve a segurança de achar que Trump sem dúvida alguma merecia o seu voto. A experiência subjetiva e individual do repórter é importante, neste caso, por uma razão bastante objetiva: os modelos estatísticos das pesquisas de intenção de voto nos Estados Unidos, onde a participação nas urnas é facultativa, levam em conta o comportamento pregresso dos eleitores na hora de preparar os dados. Os que nunca votaram costumam ser ignorados na consolidação dos números das pesquisas.

 

MacGillis também encontrou em suas viagens um grande número de eleitores que votaram em candidatos democratas nas eleições passadas, mas que este ano estavam inclinados a votar em Trump. As pesquisas, porém, indicavam uma baixa porcentagem do chamado “voto cruzado”. Estavam erradas. No dia 8 de novembro, antigos bastiões democratas deram seu voto a Trump. Os estatísticos fracassaram. Mas quem se dignou a ir para a rua e conversar com as pessoas comuns percebeu algo de diferente no ar.

 

Uma das grandes falácias repetidas pela imprensa americana era a de que os eleitores de Trump eram homens brancos pobres ou desempregados. A realidade, como comentei neste post, com base num artigo de uma jornalista que conhece muito bem os redutos rednecks dos Estados Unidos, era um pouco diferente. Os eleitores de Trump podiam até ter uma escolaridade mais baixa do que a dos que preferiam Hillary, mas não eram de forma alguma mais pobres.

 

Foi com isso em mente que preparamos a reportagem especial que foi capa de VEJA na edição de número 2503. Decidimos mostrar o racha político no país visitando os principais redutos de cada candidato. Eu agarrei a tarefa de visitar Maryland, um dos estados em que Hillary tinha mais vantagem sobre Trump. Coube ao editor Duda Teixeira enfronhar-se em Wyoming, estado onde Trump ganharia de lavada de Hillary Clinton. As estatísticas nos levaram a esses lugares, mas nossa missão lá era conversar com as pessoas e entender suas razões. A realidade demográfica e econômica que Teixeira encontrou em Wyoming é exatamente a realidade que hoje todos os especialistas apontam como a razão para a vitória de Trump. Estava lá para quem quisesse ver. Era só recorrer à boa e velha reportagem.

 

Em medicina, esse encanto desmedido pelos dados também tem levado a uma incapacidade de interpretar os fatos corretamente. Um professor de ortopedia de uma universidade estadual paulista me contou recentemente que a nova geração de especialistas de sua área, por exemplo, costuma pedir inúmeros exames que perscrutam o corpo humano em centenas de imagens de diversos ângulos, mas quase não sabe o que fazer diante de tanta informação. O fascínio pelas novas tecnologias de diagnóstico faz com que ele deixe de lado métodos mais simples, mas consagrados, como a radiografia. Ou seja, muitos ortopedistas, hoje, não sabem “ler” uma radiografia.

 

O jornalismo corre o risco de ir para o mesmo caminho: em vez de treinar o olhar para capturar o que acontece à sua volta, com base na sua experiência e na sua intuição, e usar as estatísticas como complemento ou como ponto de partida para o seu trabalho, muitos repórteres estão se tornando máquinas de calcular. Em vez de fazer uma radiografia da sociedade ou de um fenômeno político qualquer, atrapalham-se com o equivalente jornalístico da ressonância magnética: o jornalismo de dados. Não estou dizendo que o big data não tem nada a oferecer para entender o mundo. Claro que tem. O que não se pode é abandonar o básico. A percepção pessoal do repórter é insubstituível.

 

Mas o que Fidel Castro tem a ver com tudo isso? Bem, a morte do velho ditador despertou novamente, nos últimos dias, o acirramento ideológico na timeline dos brasileiros nas redes sociais. Observando os argumentos que vêm sendo usados por aqueles que tentam defender o regime do falecido, percebo a repetição de velhos clichês sobre as “conquistas sociais” da revolução e sobre a suposta culpa que os governos americanos tiveram em endurecer as condições de vida dos cubanos. Sentados em seus sofás da Tok&Stok, esses comentaristas citam dados da ONU para confirmar suas teses.

 

Basta um dia em Havana conversando com o povo cubano, no entanto, para compreender a falácia dessas estatísticas e dessas teses. Eu estive em Cuba há uma semana como turista e aproveitei para buscar algumas respostas. A taxa de mortalidade infantil é baixa? Ora, os hospitais registram como natimortas crianças que nasceram vivas mas morreram antes de completar um ano de idade. Ou seja, o dado é fraudado. A taxa de analfabetismo é baixa? Pode ser, mas o que mais as crianças aprendem na escola? A questionar e a produzir conhecimento, claramente não. Nivela-se por baixo. Entre em uma livraria cubana: nas estantes semivazias você só encontrará obras aprovadas pelo regime.

 

E o embargo americano a Cuba? Ora, o embargo. Um amigo me encomendou charutos Cohiba do tipo que Fidel Castro costumava fumar. Não estão à venda nas lojas de Havana. “Vai tudo para exportação”, me contou mais de um vendedor. Mas e o embargo? Cuba pode fazer comércio com praticamente qualquer país, com a exceção dos Estados Unidos. O problema não é falta de parceiro comercial. O problema é quase não ter o que vender.

 

Durante minha viagem de férias, cruzei metade da ilha de ônibus. Vi uma única plantação de cana-de-açúcar, um único pasto com gado bovino e uma única horta de verduras. O resto eram campos abandonados. (As estatísticas, olha elas aí, comprovam: entre 1988 e 1998, a produção de açúcar, antes um dos principais produtos de exportação, caiu pela metade em Cuba.) Num restaurante à beira-mar, o pescado servido à moda cubana era importado da Europa. O garçom chegou a apontar para o mar caribenho quando perguntado de onde vinha o peixe. Depois sorriu e explicou que estava só fazendo uma piada. Afinal, a indústria pesqueira cubana está sucateada.

 

Difícil é achar um cubano que acredite seriamente que os americanos são os culpados por sua penúria. Quem criou a lei que proíbe um cidadão de comprar amendoim ou qualquer outro item agrícola de um produtor e vendê-lo diretamente aos consumidores na capital? O governo cubano, não os Estados Unidos. Quem criou a lei que impede os cubanos de escolher em qual cidade querem viver, sob o risco de serem deportados dentro do próprio país para sua província de origem? O governo cubano, não os Estados Unidos. E assim por diante.

 

Uma questão para a qual acredito ser impossível encontrar resposta é se há mais prostituição hoje do que nos tempos do ditador Fulgêncio Batista, deposto por Fidel em 1959. “Cuba era um grande bordel antes da revolução”, reza o clichê. A quantidade de jovens mulheres oferecendo seu corpo no Malecón, em Havana, indica que continua sendo. E há outro tipo de prostituição, mais sutil: os guias de viagem estrangeiros alertam os turistas homens que ao fazer amizade com uma cubana devem saber de antemão que ela espera algum favor material em troca, ainda que seja apenas uma roupa de presente ou um jantar em um restaurante turístico. Isso é pior do que o que havia nos tempos de Batista? Parece-me que esta é uma discussão inútil. Não há estatística ou investigação subjetiva que responda à questão.

 

Uma das perguntas que eu fiz aos cubanos era: quando Fidel e seu irmão e sucessor Raúl morrerem, a situação vai melhorar? A maioria dizia, ainda que sem muito entusiasmo, que era impossível não ficar melhor sem eles. Cinco dias depois, Fidel Castro morreu. Para entender o impacto disso, basta esperar alguns meses e perguntar novamente aos cubanos.

 

Por Diogo Schelp

28 nov 2016 - VEJA