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JULIO CABRERA 
Julio Cabrera - Doutor em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba (Argentina). Professor Titular aposentado do Dpto de Filosofia da Universidade de Brasília. Trabalha nas áreas de filosofias da linguagem, éticas negativas, cinema e filosofia latino-americana. 
 

Resumo: Assumindo as categorias da ética negativa, uma corrente de pensamento que comecei há mais de duas décadas, apresento críticas contra a noção de cultura sustentada pelo culturalismo brasileiro. Após mostrar, de passagem, que não se trata de movimento apenas brasileiro, mas latino-americano, tento mostrar que essa noção de cultura é, por um lado, exclusivamente afirmativa, deixando de lado o caráter necessário reativo e moralmente oneroso da criação de valores; por outro lado, a noção pode ser tão abrangente até o ponto de incluir os elementos negativos indesejados para a própria visão culturalista.

 

1. Considerações iniciais: Ética negativa

 

Ética negativa é uma tentativa de criar uma tradição filosófica desde o Brasil, baseada em reflexão própria, inserida na tradição filosófica europeia e latino-americana de maneira crítica e não exegética. Trata-se basicamente de uma ética do nascimento como fato humano primordial e da morte (morrer, matar, matar-se) como fenômeno derivado.

 

As primeiras ideias surgem com o livro “Projeto de Ética negativa”, publicado em São Paulo em 1990, recentemente re-lançado pela Rocco como “A ética e suas negações”. Um segundo livro foi publicado em Barcelona, seis anos depois, “Crítica de la Moral Afirmativa”. Ao longo dos anos 2000 foram publicados novos livros e numerosos artigos sobre o tópico: “Ética negativa: problemas e discussões”, uma coletânea de textos publicada pela editora da UFG, em 2008; este volume contém a primeira dissertação de graduação sobre temas ético-negativos, de autoria de Jorge Alam Pereira, hoje mestre em filosofia pela UnB.

 

Entre os artigos, conta-se uma polêmica nacional com Paulo Margutti sobre sentido e valor da vida humana, integralmente publicada pela revista Filósofos de Goiânia em 2004, e uma internacional, com Enrique Dussel, sobre suicídio, publicada pela revista Dianoia de México.

 

 

Também foram apresentadas teses ético-negativas vinculadas à Bioética num encontro internacional em Montevidéu, material publicado em espanhol e em português pela Unesco. Por último, acabou de ser defendida com sucesso na UnB a primeira dissertação de mestrado sobre temas éticonegativos, por Diógenes Coimbra, sobre o tema do suicídio.

 

Recentemente escrevi um pequeno livro chamado “Três ensaios críticos sobre culturalismo”, constando das seguintes partes: “O culturalismo não é uma filosofia especificamente brasileira, mas latino-americana”, “O culturalismo utiliza uma noção puramente afirmativa de cultura”, e “O culturalismo não é nem pode ser uma filosofia da existência”. Hoje eu vou lhes falar exclusivamente da segunda questão. Mas para melhor enquadrar meu assunto, eu exprimo rapidamente a tese central do primeiro ensaio.

 

2. Culturalismos latino-americanos

 

O culturalismo brasileiro é muito variado, mas podem formular-se as suas ideias centrais da seguinte maneira:

 

 

a. Rejeição da explicação objetivista, cientificista e positivista do humano, como determinado funcionalmente dentro de uma engenharia social eficiente1.

 

 

b. Superação do marco religioso de pensamento (Escolástica) e apoio na filosofia da tradição cartesiano-kantiana como indicador de modernidade2.

 

 

c. A ideia de que o humano transcende o plano da pura natureza enquanto ação dinâmica do espírito e construção de cultura através da geração de valores, transcendendo o marco puramente material3.

 

 

d. Ideia do humano como pessoa, como valioso por ser fonte criadora de valores, livre, digno e responsável4.

 

 

e. Ideia de moralidade como inserida na cultura e na criação de valores, endereçada ao dever-ser5.

 

f. A finitude como pano de fundo, horizonte e limite da livre criação de valores6.

 

 

Os historiógrafos brasileiros falam como se estas ideias fossem especificamente brasileiras ou, pelo menos, nunca dizem claramente que não seriam exclusivas do Brasil7. O que eu tento mostrar no meu primeiro ensaio é que, quando nos assomamos ao contexto latino-americano mais amplo, onde o Brasil se insere geograficamente, podemos perceber que as ideias culturalistas (como listadas em (a)-(f)), inserem-se em todos esses países no mesmo lugar dessa história partilhada.

 

 

Entre os pensadores latino-americanos não brasileiros que assumiram todas as teses (a)-(f), analiso nesse texto os casos do mexicano Samuel Ramos (1897-1959) e dos argentinos Alejandro Korn (1860-1936) e Francisco Romero (1891-1962).

 

 

Estes pensadores, entre muitos outros, reagem contra o positivismo, defendem um espiritualismo da ação criadora que leva além do meramente natural, utilizam explicitamente a fonte kantiana e rejeitam a Escolástica, erigem o valor da pessoa humana como valor supremo, formulam uma ética baseada na cultura e na pessoa humana, e mantêm a finitude como limite último da criação de valores. Eles são, pois, culturalistas, mesmo que todos eles (brasileiros e não-brasileiros) apresentem características diferenciais. Pergunto-me se não ajudaria ao auto-conhecimento de América Latina tomar ciência deste fenômeno continental que ficou escondido na mútua ignorância das apropriações em benefício de uma única referência européia. Mas meu assunto aqui não é historiográfico, de maneira que devo deixar esta questão de lado.

 

3. A noção culturalista de cultura e seu confronto com a ética negativa

 

3.1. Nesse meu livrinho sobre culturalismo, depois de tentar mostrar, no primeiro ensaio,

que não existe culturalismo em singular, mas culturalismos em plural, passo a criticar, no segundo

ensaio, a noção de “cultura” que todos esses culturalismos utilizam (inclusive os culturalismos

alemães). Por um lado, ela parece uma noção exclusivamente afirmativa, como criação de valores

positivos.

 

1 “...os culturalistas precisaram ocupar-se dos limites do saber científico (...) eles foram levados a examinar os

paradigmas da ciência, sobretudo no século passado, quando estiveram às voltas com o referencial positivista (...) não

era legítimo reduzir a realidade à sua dimensão de objeto material, como postulava o positivismo” (CARVALHO,

Antologia do Culturalismo brasileiro, p. 12-13). “Esta forma de tratar o progresso humano foi formulada recentemente e

aparece historicamente na superação da filosofia positivista” (CARVALHO, Ética, p. 96).

 

 

2 “Em seus diversos ciclos os tradicionalistas adotaram o modelo ético católico que teve pequenas variações conforme o

perfil dos diferentes ciclos. Seguindo trilha diversa, a escola culturalista representa um esforço bem sucedido de

superação da herança moral católica herdada de Portugal...” (CARVALHO, Ética, p. 80). “Não é de surpreender que, em

meio destas considerações, acabemos sempre recordando o velho Immanuel Kant. Estas lembranças não serão fruto do

acaso, o pai do criticismo é o esteio do culturalismo. Ele tratou (...) dos motivos que nos levam a pensar o mundo,

modificando-o e aperfeiçoando-o continuamente” (CARVALHO, Antologia, P. 6). “Depois desta orientação, o homem

compreendeu-se criador das representações, identificou o peso da sensibilidade neste processo e entendeu que tudo que

existe assim o é porque ele próprio criou. No meio a tudo isto o homem tomou consciência de sua autonomia e de sua

liberdade. A solução de Kant foi o elemento de aproximação dos homens entre si com a idéia da subjetividade

transcendental...” (CARVALHO, Antologia, P. 112). Cf. PAIM A, Problemática do culturalismo, p. 54.

 

 

3 “...é desta forma que enfrentam (os culturalistas) o significado da transcendência. A existência é uma forma de

criação, de expressão de um modo de ser, da tentativa de elaborar um sentido para a vida (...) o homem faz isso quando

ele projeta seu modo de ser no mundo que edifica, o seu mundo, o espaço da cultura” (Carvalho, Antologia, p. 4). “É

próprio do culturalismo tomar o homem em contínuo processo de superação...O homem não se satisfaz apenas em viver,

a transcendência é a expressão de um desejo de fazê-lo cada vez melhor” (CARVALHO, Antologia, p. 6). “O principal

esforço da filosofia culturalista dirige-se (...) para o exame da criação humana” (Idem, 15).

 

 

4 “...os temas a que essa corrente filosófica (o culturalismo) dá preferência estão centrados em torno da pessoa humana”

(PROTA L, Prefácio da Antologia do Culturalismo brasileiro, de José M. De Carvalho). “A liberdade tornou-se

proposta de criação de uma ordem de existência que não se prende nos acontecimentos, mas os transcende” (Antologia, 8).

 

 

5 “Para que os ideais humanos possam enfrentar as ameaças da violência e se apresentem como força modificadora do

futuro é necessário que se formulem na esfera da moralidade” (CARVALHO, Antologia, P. 13). “o sonho milenar de

desenvolvimento material, afetivo e intelectual (...) somente se formula com sucesso na esfera da moralidade”  (CARVALHO, Ética, P. 96).

 

 

6 “É que fazendo cultura o homem exterioriza valores e isto está diretamente relacionado à consciência da sua finitude,

à compreensão de suas carências, ao esforço de conviver com elas” (CARVALHO, Introdução à Antologia, p. 4). Cfr

Ética, p. 104-105.

 

 

7 Há algumas declarações explícitas de exclusividade. Por exemplo, depois de referir-se ao problema da pessoa

humana, no prefácio à Antologia do Culturalismo, Leonardo Prota escreve: “Não foram os culturalistas que o

inventaram. A própria filosofia brasileira é que estabeleceu esse caminho” (xiv).

 

Só se considera cultura aquilo que constrói, que eleva o espírito, que potencializa a vida

humana em direção ao bem, aquilo que ajuda ao convívio, a construir uma sociedade mais justa e

elevada, etc. Ao expor o pensamento de Miguel Reale em seu estimulante livro Ética, publicado em

2010, José Mauricio de Carvalho salienta que:

 

Miguel Reale aponta a Cultura como realização especificamente humana, olha-a como reveladora do modo humano de ser. (...) Cada sujeito (...) contribui para enriquecer o patrimônio cultural matéria prima de sua vida. O vínculo humano com a Cultura deixa claro que ele realiza o que de mais nobre o homem possui, portanto a Cultura é guardiã da liberdade (p. 102) 

 

Roque Spencer Maciel de Barros, em esplêndido ensaio, defende fervorosamente esta noção

afirmativa de “cultura”, contra a atitude de “cultura é tudo” de certa reflexão atual (Ética e cultura,

em: Razão e Racionalidade, p. 59). Contra a visão demasiado inclusiva do antropólogo, Roque

Spencer defende uma noção de cultura não desligada de

 

uma significação normativa, de uma conotação ética, pouco importa que convencional, sem a qual tudo se equivaleria e na qual, para ir logo aos extremos, não haveria porque insurgir-se contra as atrocidades dos campos de concentração, nazistas ou soviéticos (para referir-nos a um mundo supostamente civilizado) ou contra os hábitos antropofágicos de uma humanidade arcaica... (Idem, p. 63). ...é a noção mesma de pessoa...que se perde com a permissão a tudo concedida (p. 67).

 

Mas, por outro lado, nos escritos culturalistas encontraremos caracterizações tão genéricas de cultura que o perigo de incluir os casos indesejados (do “tudo é cultura”) aparece claramente. Por exemplo, no momento de tratar do Tobias Barreto em seu livro Ética, Mauricio de Carvalho caracteriza “cultura” como “capacidade de estruturar projetos racionais”, como “expressão de valores”, e como “uma forma de controle e aperfeiçoamento do homem como o resultado da ação humana sobre o mundo material” (p. 99). “Devemos compreender a cultura como um elemento capaz de impor ao sujeito o auto-aperfeiçoamento. A cultura é guiada por “uma finalidade impossível de ser reduzida à causalidade eficiente...” (p. 100). Na sua Antologia do Culturalismo brasileiro, Mauricio de Carvalho escreve:

 

Para o pensador sergipano (...) cultura é (...) a reunião de idéias que alteram o livre curso da natureza no sentido de nela introduzir a algo diferente. A natureza, ao contrário, é a seqüência de eventos ainda não modificados pelos ideais humanos. A particularidade da cultura é que ela congrega ideais, finalidades e não pode ser reduzida àquela lógica que preside a natureza, não podendo, por conseqüência, ser examinada pelo esquema da ciência experimental, que é o reino das causas eficientes (p. 22-23).

 

 

Ao expor Tobias, Antonio Paim diz que aquele “...afirmava que a cultura correspondia ao sistema de forças erigidas para humanizar a luta pela vida” (Problemática do culturalismo, p. 47).

 

 

Citando o próprio Tobias: “O homem tem a capacidade de realizar um plano por ele mesmo traçado, de atingir um alvo que ele mesmo se propõe” (PAIM, p. 49).

 

 

Como é bem sabido, Tobias traçou uma diferença nítida entre natureza e cultura, colocando a imoralidade do lado da natureza, a moralidade do lado da cultura. Se é natural que exista escravidão, é cultural que não exista; a existência de ladrões é natural, mas é cultural que não existam; é natural que existam fortes e fracos, os primeiros tentando dominar os segundos; mas é cultural que todos sejam iguais, etc. Em conhecidíssima citação, Tobias escreve: “Logo, o seguir a natureza, em vez de ser o fundamento da moral, pelo contrário, é a fonte última de toda imoralidade”8. Mas se cultural se opõe à natural, teremos que incluir dentro da cultura muitas mais coisas das que uma noção puramente afirmativa de cultura estaria disposta a incluir.

 

 

Pensemos juntos: o Nazismo teve capacidade de “estruturar projetos racionais” e “expressar valores”; instaurou “critérios de auto-aperfeiçoamento”; o que o Nazismo fez é irredutível a qualquer causalidade eficiente da natureza; ao construir o Nacional-socialismo, seus executores se afastaram da natureza tanto quanto Mozart quando fez suas sinfonias: nem as sinfonias de Mozart nem o Terceiro Reich poderiam nunca ter sido feitos pela natureza; trata-se de poderosos atos de vontade cultural, de criação de valores. Na medida em que ergueu um certo tipo de dever-ser que não podia ser gerado pela natureza, o Nazismo foi, em termos tobiáticos, totalmente antinatural, não seguiu os ritmos da natureza, foi uma construção cultural. O Nazismo também humanizou a luta pela vida, pois criou formas completamente novas de exclusão não encontradiças no mundo animal não humano; por mais brutal que nos pareça, o Nazismo não pode ser dito de animalesco; isto seria uma ofensa ao animal, pois nenhum animal é capaz de tamanho horror; o Nazismo é obra exclusiva da cultura humana. Ela foi também uma intencionalidade objetivada e instaurou uma certa forma de dever-ser. Nada nestas formulações exclui o Nazismo da definição de cultura. Mas este resultado deve desagradar aos culturalistas, na linha da reflexão de Roque Spencer9.

 

Em citação famosa, Tobias disse que “ser natural não livra de ser ilógico, falso e inconveniente”, mas o mesmo poderia ser dito da cultura; tampouco o cultural livra de ser ilógico, falso e inconveniente: podemos nos opor à natureza de maneira ética ou antiética. Tobias diz que é cultural que a escravidão não exista; mas também é cultural que a escravidão passe a existir de maneiras especificamente humanas (como as que diversas formas de totalitarismo promoveram).

 

 

Talvez o sublime erro de Tobias foi pensar que quando um humano faz o mal, ele volta para a natureza (“fonte de toda imoralidade”). Mas na natureza não há nem bem nem mal; quando os humanos fazem monstruosidades (e as fizeram e fazem) eles são perfeitamente culturais, e não naturais; o mal também está na cultura, e não numa suposta (e impossível) volta à natureza10.

 

 

3.2. Para analisar criticamente, numa reflexão radical, a noção de cultura, a ética negativa começa pelo fato primordial da condição humana: o nascimento. Nascer não é uma ação, mas uma paixão, um padecimento, uma ação que fazem conosco (somos nascidos), e a respeito da qual somos passivos, nem livres nem responsáveis. A nossa situação primordial não é, pois, de liberdade, mas de sujeição, subordinação e manipulação. Em segundo lugar, ao sermos nascidos, somos lançados numa estrutura natural caracterizada pelo que chamo “terminalidade do ser”, um processo de desgaste gradativo caracterizado por três tipos principais de padecimentos, ou de atritos: dor (já expresso no choro primordial do bebê recém-nascido diante da agressão da luz, dos sons, do desconhecido, do desamparo); tédio (o não saber o que fazer consigo mesmo, com o próprio corpo, os próprios desejos) e a premente preocupação consigo mesmo, a necessidade de usar aos outros para o próprio benefício (tudo isto já se faz presente no bebê, um ser forçosamente egocêntrico).

 

8 Num ensaio exclusivo sobre Tobias (que valeria a pensa escrever!) haveria que lidar com alguns problemas óbvios

que esta tese da imoralidade da natureza coloca; por exemplo, como salvar desse estigma as tendências sexuais

consideradas “naturais” como o heterossexualismo? Também existe uma tendência “natural” a seguir vivendo;

deveríamos considerá-la imoral e tentar, através da cultura, de encurtar as nossas vidas contra a tendência natural de

continuá-la? (Tobias como favorável ao suicídio e à eutanásia?). Por último, parafraseando Tobias, se poderia dizer: é

natural que os humanos sintam tendência natural a reproduzir-se, mas é cultural que não o façam, colocando Tobias

como um precursor precoce do anti-natalismo contemporâneo. Numa palavra, levando à risca sua premissa da

imoralidade da natureza, Tobias apareceria como um bom ético negativo.

 

9 Na discussão que seguiu à conferência no Colóquio Luso-brasileiro, alegou-se que o respeito pela pessoa humana

seria uma característica do culturalismo que totalitarismos jamais poderiam satisfazer. Na verdade, no texto eu estava

me referindo exclusivamente às relações entre natureza e cultura: os totalitarismos pareceriam preencher todas as

exigências do “anti-natural” que Tobias exige dos objetos culturais. No que se refere à noção de pessoa, ainda se

poderia replicar que também os totalitarismos apresentam uma noção muito elevada de pessoa humana, até o ponto de

serem poucos os que conseguem atingi-la (eles pensavam estar exterminando não-pessoas). Tudo isto leva a pensar que

a noção de cultura teria mesmo que incluir algum elemento ético muito forte para, realmente, deixar de fora claramente

esses casos indesejáveis.

 

 

10 Este que considero, em minha modesta opinião, como um déficit descritivo da condição humana nos culturalismos,

se manifestou de maneira irônica na própria história do culturalismo alemão, como brilhantemente narrada por Antonio

Paim no primeiro capítulo do livro Problemática do culturalismo. Ali se conta como o culturalismo, com sua noção

afirmativa de cultura, viu-se impedido de agir pela ascensão do Nazismo ao poder. O que estava acontecendo na Europa

nesse momento, com toda a sua violência, não foi uma sombria resposta que o mundo deu para o próprio culturalismo?

Tudo isso que estava acontecendo não era o que aparecia no conteúdo da filosofia culturalista, mas tudo o contrário.

Estava realmente o culturalismo descrevendo o mundo, ou apenas dizendo como ele deveria ser? Para uma noção do

humano como terminal, reativa e moralmente onerosa (como a sustentada pela ética negativa) todos esses

acontecimentos terríveis ficam, pelo contrário, tristemente claros.

 

A partir desta situação primordial, somos compulsivamente obrigados a criar todo tipo de

valores para poder sobreviver; este é o momento existencial da vida, tal como descrito por

Heidegger, e culturalista, tal como visto por Cassirer, Reale, etc. ; mas que vale apenas para o que

fazemos dentro da estrutura terminal do ser, sem poder modificá-la com nossos manejos ecsistenciais

e culturais. Esta situação leva a afirmar que todos os valores positivos – aqueles

acentuados pelos culturalistas - são criados dentro de uma estrutura negativa e em reação a ela, o

que os influi de maneira radical. Estamos inicialmente numa situação de des-valor radical; mas não

somos primariamente nós os que carecemos de valor, mas a situação em que nos encontramos, que

nos maltrata e nos obriga a sobreviver de formas mesmo não corretas com os outros. O que não se

visualiza na formulação puramente afirmativa de cultura é precisamente o caráter terminal das

nossas ações, a sua inserção na condição humana, o momento descendente dos valores, a luta contra

a desvalia que destrói o que construímos, do tempo que avança inexorável sobre nossas construções

e nos impele a gerar valores afirmativos de maneira constante, reativa e (isto é essencial)

moralmente onerosa.

 

Com efeito, a questão ética primordial é que esta maneira reativa e compulsiva de criar

valores é também onerosa do ponto de vista moral, porque, para sobreviver, precisamos muitas

vezes ofender as exigências morais e atropelar os projetos dos outros; mesmo quando criamos

valores positivos, temos que gerar outros negativos e desconsiderados, dentro de uma complexa

rede holística de ações. Os valores são apresentados pelos culturalismos num espaço de plena

liberdade e realização, como se escolhêssemos livremente criar valores para a glória do espírito

humano; não se consegue vê-los como um premente elemento de sobrevivência: se não criamos

valores, desaparecemos. A criação de valores culturais não é ativa e livre, mas reativa,

compensadora, reivindicativa e onerosa.

 

Não se trata apenas de apontar para o fato dos humanos gerarem tanto objetos culturais

positivos quanto negativos, mas ao fato mais radical de que mesmo a criação positiva de valores

gera forçosamente negatividade, que o humano, ao criar valores dentro do espaço da sua finitude,

não consegue positivar totalmente a geração de valores sem acarretar negatividades, mesmo

involuntárias. No início do capítulo IV da Ética, Maurício de Carvalho escreve: “Na sua história o

homem construiu coisas maravilhosas, mas também fez coisas das quais se envergonha. Exemplo

dos primeiros são as pirâmides do Egito e o Código de Hamurabi e do segundo as guerras étnicas e

religiosas” (p. 95). Mas a construção das pirâmides de Egito não foi menos bárbara que as guerras,

não deixaram menos vítimas do que as perseguições étnicas e religiosas, e nem sequer é possível

separar ambas coisas, pois os escravos que foram obrigados a construir essas “coisas maravilhosas”

(maravilhosas para quem?) eram também, entre outras coisas, vítimas de segregações étnicas e

religiosas11. Aqui vemos claramente a impossibilidade de diferenciar nitidamente valores

afirmativos e valores negativos, e o caráter oneroso mesmo do mais nobre.

 

Tampouco se trata, numa tentativa de compreender a condição humana, de ver a construção

escrava das pirâmides como um ato de “maldade” dos egípcios, mas simplesmente como uma das

suas tentativas de sobre-vivência: os valores em torno das pirâmides foram necessários para esse

povo, não constituíram simplesmente um recurso de tormento gratuito sobre seus submetidos; mas,

de fato, os prejudicou. Qualquer valor cultural positivo é artificialmente “destacado” de uma

complicada rede de ações holísticas. Estas são algumas das questões levantadas pela ética negativa.

Se poderá replicar que o culturalismo, na sua característica f, reconhece os terrores da

condição humana, apenas se recusando a cair na sua morbidez12. Mas, parece-me que o culturalismo

vê a finitude humana apenas como limite longínquo ou mero horizonte de uma atividade positiva e

bem-sucedida de criação de valores, que nos indica que não podemos fazer tudo o que quisermos. A

ética negativa, pelo contrário, visualiza a finitude como a condição que perpassa a existência de

lado a lado, de maneira constante e presente, fazendo com que a criação de valores culturais fique

afetada estruturalmente, e impedindo que os valores positivos se realizem sem um considerável

custo negativo. A finitude não é, pois, mero horizonte ou limite, mas algo presente nas ações do

nosso cotidiano. É o que denomino, em meus livros, inabilitação moral. Não temos tempo para

desenvolver aqui as linhas de ação ético-negativas diante deste fato primordial13.

 

4. Epílogo sobre a pessoa (diálogo com Miguel Reale)

 

Todos os culturalismos, europeus e latino-americanos, acentuam, de uma maneira ou outra,

a noção de “pessoa”, como caracterização do humano. A “pessoa humana” aparece como valor

supremo na hierarquia de valores: “Para Reale, a teia de valores se organiza à volta de um central e

em torno do qual gravitam os outros valores. Na nossa cultura ocidental cristã o valor fundamental

ou fonte de todos os outros ‘é a pessoa humana’” (CARVALHO, Ética, p.102-103). Esta noção de

pessoa provém da tradição humanista metafísica da filosofia europeia, e, tal como formulada, é

muito difícil de aceitar para uma abordagem ético-negativa14.

 

Na abordagem negativa, como foi visto, o ser humano nasce numa situação desvantajosa:

nasce mortal, sujeito a sofrimentos, numa temporalidade curta e rápida, e toda a sua vida se

estrutura como reação contra essa adversidade inicial. Essa situação terminal e decadente é aquela

que os valores têm que enfrentar, opondo-se a uma natureza que, afinal, nos derrota como

indivíduos, ficando apenas aquilo que conseguimos construir. Não se poderia dizer que se trata de

uma situação valiosa; dir-se-ia, pelo contrário, que se trata de uma desvalia fundamental contra a

qual temos que lutar gerando valores. Nesta perspectiva, parece que o ser humano não possui valor

por ter nascido nessa situação desvantajosa, mas seu valor será gerado historicamente através dos

valores que seja capaz de criar contra aquela situação; portanto, é difícil atribuir um valor original

ou intrínseco ao humano anterior a sua atividade valorativa efetiva; seu valor parece claramente

reativo e posterior, e não algo que ele ganhara pelo fato mesmo de nascer.

Se o ser humano cria seu valor, sua dignidade, o sentido da sua vida, etc., seu ser não pode

ser valor básico, mas apenas meio para gerar o que é bom; ele não é bom, mas apenas um meio para

o bom. Os culturalismos – brasileiros ou não - sustentam a ideia contrária: “Todos estes valores

mantêm um vínculo com o valor central, a pessoa humana. Considerada como um fim em si mesma,

a pessoa pode realizar sua humanidade de muitos modos, conforme os valores a que deu

preferência” (CARVALHO, p. 116-117). E Francisco Romero, um culturalista argentino, escreve:

 

 

“ A ética negativa pensa exatamente o contrário: o humano não é valioso por ser, mas pelo que

é capaz de fazer com seu mero ser (des-valioso) através de suas obras. Suas obras são melhores que

ele. O máximo que se pode dizer é que o ser humano é condição meramente empírica da criação dos

valores (obviamente, se ele não está ali fisicamente, não haverá valores; mas isto é uma mera

condição empírica, e não moral; não existe nenhuma exigência cósmica que deva havê-los, pelo

menos após caídos os referenciais religiosos e metafísicos). Nesse sentido, o ser humano deve ser

sempre tomado como meio para o valor, nunca como fim15. Parece, pois, que a “pessoa” é resultante

de valores mais básicos do que ela.

 

Uma resposta possível consistiria em dizer: precisamente, o ser humano é valioso em seu ser

por ele ser fonte dos valores. “O homem enquanto fonte de valor é pessoa e como pessoa dá

significação ao mundo em que habita” (CARVALHO, Ética, p. 118). E citando Reale: “Há um valor

que deve ser reputado valor fundamental, ou valor fonte, como condição que é de todos os demais

valores. Trata-se daquele que chamamos valor da pessoa humana”. Reale menciona, na Introdução

à Filosofia, que alguém já dirigiu uma crítica a esta ideia: “Contra esta nossa tese de que a pessoa é

o valor-fonte de todos os valores, foi-nos objetado que a pessoa é uma categoria histórica, ou seja,

uma conquista da obra civilizadora da espécie humana...” (REALE, Introdução à Filosofia, p.

181)16. Reale responde à objeção dizendo que ela confunde os planos lógico e genético; o homem

pode geneticamente desenvolver-se em sociedade porque possui, intrinsecamente, no plano lógico,

uma “sociabilidade” e uma “personalidade”:

 

O fato do homem só vir a adquirir consciência de sua personalidade em dado momento da vida social não elide a verdade de que o “social” já estava originariamente no ser mesmo do homem...em suma (...) algo não teria se convertido em experiência social se não fosse intrínseco ao homem a “condição transcendental de ser pessoa” (Idem).

 

Estas frases devem ser cuidadosamente re-pensadas além dos sentimentos nobres que desperta, pois ser “fonte de valores” não pode ser considerado um mérito per se, por dois motivos:

 

 

(a) porque uma fonte de valores também gera valores abomináveis, e inclusive monstruosidades; e

 

 

(b) porque uma fonte de valores, mesmo que gere sempre valores positivos, poderá gerar valores

melhores que a própria fonte. As sinfonias de Mozart podem ser melhores que Mozart. A luz de uma

vela pode ser condição empírica para escrever um livro sagrado, mas isso não torna a vela mesma

sagrada. Por isso, o fato do humano ser “fonte de todos os valores” não lhe outorga valor “em si”,

mas apenas um valor de condição, e sempre incerta. A objeção está certa: o valor tem que ser

conquistado, ele não é dado primário; o valor supremo pode estar no resultado, não na fonte.

 

 

Assim, contra a réplica de Reale, e em favor da objeção, a ética negativa diria que no

momento de criar os valores, não “tomamos consciência” de um valor anterior, pois não existe esse

valor, mas, pelo contrário, um desvalor, como foi mostrado; no melhor dos casos, se conseguirmos

algum valor positivo, é porque o criamos nesse momento; não há nenhum “valor prévio” do qual

possamos “tomar consciência” depois, pois a fonte não pode dar nenhuma garantia de valor a partir

de seu desvalor fundamental, independentemente dos resultados obtidos.

 

 

Na ética negativa, nada é bom simplesmente por ser; nada é bom só por ter surgido; pelo

contrário, tudo é mau por ser17, por surgir-terminal; os entes tentam melhorar o ser, mas só podem

fazê-lo intra-mundanamente; a busca incessante de entes é a tentativa de inventar o bem contra a

maldade do ser; o bem não é a vida, mas o que se faz dentro dela e contra ela. (No filme italiano “A

vida é bela”, não é a vida o que é belo; a vida é terrível, é o nazismo, é a intolerância, é o

extermínio; o que é belo é tudo o que Guido faz para tornar belo para seu filho aquilo que é

terrível). Se a pessoa fosse valiosa em seu ser, ela não precisaria construir o valor positivo tão

ardentemente, não teria uma necessidade tão premente de ter seu valor reconhecido. Os humanos

não são como Deus, que só pode criar coisas piores ou menos boas do que Ele, transmitindo Seu

valor a seus produtos; pelo contrário, o ser humano cria coisas melhores que ele (melhores que a

fonte); extrai todo seu imenso valor da sua mais profunda miséria.

 

11 Aqui há inevitáveis ecos benjamineanos: “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um

monumento da barbárie” (“Sobre o conceito da história”, em Obras escolhidas, p. 225).

 

 

12 Cfr. Carvalho, Antologia, Introdução, p. 4, e Ética, pp. 105, 113.

 

 

13 Algumas seriam: tomar plena consciência da condição humana e da inabilitação moral, recusar-se a culpar aos

outros pela mortalidade do ser, sobriedade na procriação e disponibilidade para um morrer meritório. Cfr. Crítica de la

Moral Afirmativa, Parte III, seção 2.

 

 

14 A filosofia da existência de origem heideggeriana também proporciona categorias para criticar frontalmente a noção

de pessoa como noção metafísica; disto eu me ocupo no meu terceiro ensaio sobre culturalismo brasileiro na medida em

que este tem pretendido uma aproximação à filosofia heideggeriana da existência, aproximação que eu acho

problemática.

 

 

15 Aqui há novamente ecos negativos tobiáticos, na concepção da natureza como imoral; de acordo com isto, o mero

nascer natural do ser humano não poderia ter nenhum valor, mas o que de cultural o humano seja capaz de construir em

cima disso. É natural padecer um nascimento incômodo, mas é cultural que nosso nascimento seja valioso (ou se torne

tal).

 

 

16 Curiosamente, Reale não diz quem lhe dirigiu tal crítica, mas menciona Émile Durkheim para formular a objeção.

 

 

17 Para fugir de teses metafísicas acerca do “mal”, seria mais correto dizer: “tudo causa mal-estar – ou atrito – por

simplesmente ser”, nas formas da dor, do tédio e, sobretudo, da inabilitação moral. Mas não posso expor melhor tudo

isto neste curto espaço.

Referências:

 

BARROS, Roque Spencer Maciel de. Razão e racionalidade. Ensaios de Filosofia. São Paulo:

Queiroz, 1993.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da história. In:Benjamim W. Obras escolhidas. São Paulo:

Brasiliense, 1994).

CABRERA, Julio. Crítica de la Moral Afirmativa. Barcelona: Gedisa, 1996.

______. Dussel y el suicidio. Revista Dianoia, volume XLIX, número 52, México, 2004.

______. Sentido da vida e valor da vida: uma diferença crucial. Revista Filósofos, volume 9,

número 1, Goiânia, 2004.

______. (Org). Ética Negativa: problemas e discussões. Goiânia: UFG, 2008.

______. Três Ensaios sobre Culturalismo. (Inédito).

CARVALHO, José Maurício de. Antologia do culturalismo brasileiro. Londrina: Cefil, 1998.

______. Ética. São João del-Rei: UFSJ, 2010.

KORN, Alejandro. Sistema filosófico. Buenos Aires: Nova, 1959.

PAIM, Antonio. Problemática do culturalismo. Porto Alegre: Edipucrs, 1995.

REALE, Miguel. Cinco temas do culturalismo. São Paulo: Editora Saraiva, 2000.

______. Introdução à Filosofia. 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2007.

RAMOS, Samuel. Hacia um nuevo humanismo. 3 ed. México: Fondo de Cultura Econômica, 1997.

ROMERO, Francisco. Filosofia de ayer y de hoy. Buenos Aires: Argos, 1947.

SALDANHA, Nelson. Historicismo e culturalismo. Rio de Janeiro, Recife: Tempo Brasileiro,

Fundarpe, 1986.

 Data de registro: 22/04/2011 

 

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