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NO BRASIL, um motorista do Senado, ganha mais para dirigir um automóvel, do que um Oficial da Marinha, para comandar uma fragata!

 

  Seth Wenig/Associated Press  
President-elect Donald Trump takes questions during a news conference, Wednesday, Jan. 11, 2017, in New York. The news conference was his first as President-elect. (AP Photo/Seth Wenig) ORG XMIT: NYJJ115
Donald Trump, do partido Republicano e presidente eleito dos Estados Unidos

"Para cada dois passos adiante, frequentemente parece que damos um atrás". Nesse caso, são dois atrás, para apenas um adiante. O presidente que entra fala pelo Twitter, em mensagens grosseiras, autocentradas, quase boçais. O que sai oferece discursos reflexivos, de qualidade literária, empapados por um agudo senso de história, devotados a confrontar o presente com os princípios inscritos na Constituição. O adeus de Obama, às vésperas da posse de Trump, descortina o tamanho do retrocesso —e uma coleção de trágicas ironias.

 

Sob Obama, como ele pontuou no adeus, os EUA reverteram uma grande recessão, reativaram a máquina da criação de empregos, universalizaram a cobertura de saúde, restabeleceram relações com Cuba, prenderam o Irã na teia diplomática do acordo nuclear.

 

O presidente sai com taxa de aprovação de 57%, similar à de Bill Clinton, entre as mais altas já registradas. Mas, ironia número 1, entrega a Casa Branca a sua nêmesis, alguém disposto a explodir cada uma das pontes que ele construiu.

 

Dentro da primeira ironia, abriga-se a segunda. Obama resgatou partes da indústria tradicional do Cinturão da Ferrugem devastadas pelo crash de 2008, em operações de intervenção estatal nunca experimentadas antes nos EUA.

 

Contudo, foi justamente nessas áreas do Meio-Oeste que Trump obteve sua série decisiva de vitórias. A classe trabalhadora branca, empobrecida, conduziu ao poder um governo que despreza os direitos sociais, ou seja, "o alargamento de nosso credo fundador para incluir a todos, e não apenas alguns" mencionado no discurso do adeus.

 

Obama, um mestiço, o "primeiro presidente negro", simbolizou a natureza contratual da democracia americana: a ideia de uma nação constituída por "pioneiros do Oeste", "escravos que encararam a ferrovia improvisada rumo à liberdade", "imigrantes e refugiados que atravessaram o oceano e o Rio Grande", "mulheres que conquistaram o direito de voto", "trabalhadores que se organizaram".

 

Entretanto, os americanos elegeram um presidente que simboliza a ideia oposta, da "nação de sangue", nucleada por colonos brancos protestantes. O eixo organizador do adeus foi o "estado de nossa democracia". A terceira ironia: a democracia americana está em pior estado que em 2008, não porque um republicano foi eleito, mas porque o eleito chama-se Trump.

 

A ironia número 4, apontada no discurso, é uma das causas da número 3 —e manifesta-se também no Brasil. Na era da informação, "o estilhaçamento da nossa mídia em canais para cada gosto" sedimenta fortalezas culturais –e "tornamo-nos tão seguros em nossas bolhas que aceitamos unicamente as informações, verdadeiras ou não, que se conformam às nossas opiniões".

 

Trump venceu culpando a China, os mexicanos e a "elite globalista" pelos problemas americanos –e, em seguida, montou um governo de megabilionários com negócios globalizados.

 

No adeus, Obama pronunciou os nomes da Rússia e do Estado Islâmico —mas não a palavra Aleppo.

 

O silêncio sobre o lugar do seu fracasso maior só realça a quinta ironia: uma política global alinhavada em torno de valores será substituída por uma paradoxal espécie de realpolitik que, de fato, mina os interesses americanos.

 

Trump entra em colisão com a China para defender um suposto direito à soberania de Taiwan enquanto prepara uma aproximação com a Rússia às custas dos direitos de nações soberanas como a Ucrânia e os países bálticos. Trump transferirá para Jerusalém a embaixada em Israel, estimulando os ultranacionalistas a anexarem a Cisjordânia e destruindo as chances de paz na Palestina. É meia noite no século.

 

A Casa Branca de Barack, Michelle, Malia e Sasha atravessou oito anos sem escândalos, intrigas ou vulgaridades. Os americanos logo sentirão saudades desse exemplo de integridade pessoal e política. Adeus, Obama. Boas ondas na Sandy Beach. 

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