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NO BRASIL, um ascensorista da Câmara Federal, ganha mais para servir os elevadores da Casa, do que um Oficial da Força Aérea, que pilota um Mirage.

 

No Brasil de hoje, A flor da Inglaterra, de George Orwell, mostra quanto mal nos causa não só a crise, mas sobretudo o idealismo adolescente que infesta a nação

 

 
O ano de 2017 começa com perspectivas tétricas para o Brasil. Do início da recessão atual, em março de 2014, até setembro de 2016, a economia encolheu 8,3%. A taxa de desemprego subiu de 6,9% para 11,8%. Só entre os jovens, alcançou 27,8%. Mais de 4,5 milhões de postos de trabalho foram fechados em dois anos, e o número de desempregados passou dos 12 milhões. É com números assim que estamos acostumados a ser apresentados à realidade econômica. Eles são úteis a economistas, jornalistas e políticos, mas não ajudam a entender o verdadeiro impacto de uma crise no dia a dia.
 
Caiu – ou cairá – o padrão de vida de milhões que alcançaram a tão falada “nova classe média”. Sem viagens de avião nem restaurantes, sem universidades nem tudo o que se associa a uma existência respeitável, a cada dia mais brasileiros voltam para a “velha classe baixa”. Basta andar pelas ruas de uma metrópole como São Paulo para testemunhar a luta renhida por comida mais barata, moradia precária, saúde declinante e educação lastimável. A decadência social e o ressentimento de quem teve um vislumbre de futuro melhor, foi iludido por promessas irrealizáveis e não chegou lá são o maior desafio do Brasil nos próximos anos. Nas palavras lapidares do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, “as forças eram escassas, a meta estava distante”, “vivemos tempos sombrios”.
 
Brecht pensava na década de 1930, quando a crise de 1929 abriu o caminho para o nazismo e para a Segunda Guerra Mundial. Nos países que aderiram ao socialismo soviético defendido por ele, a pobreza também era endêmica. Tanto na versão nazista quanto na stalinista, o totalitarismo mentia enquanto matava. Os pobres se multiplicavam até onde sobreviveram as liberdades democráticas, nos Estados Unidos e na Inglaterra. É no espírito e nos romances daquele período, mais que nas estatísticas, que o brasileiro encontra o melhor retrato da realidade que se avizinha. Uma realidade em que todos se engalfinham na disputa por recursos escassos, a disputa pelo dinheiro e pelo poder se antepõe a qualquer decência moral – e o ser humano se vê presa de seus instintos mais vis. Tempos realmente sombrios.
 
Ninguém escreveu sobre a vida dos pobres naquele período como o inglês Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell. Famoso como autor da alegoria A revolução dos bichos ou da distopia futurista 1984 – críticas ferinas ao stalinismo –, Orwell também traçou um panorama desesperador da miséria em ensaios e relatos jornalísticos (os melhores: Como morrem os pobres, Na pior em Paris e Londres e O caminho para Wigan Pier). Ele tinha sensibilidade apurada para a angústia ligada ao status e para os códigos culturais sutis com que os ingleses classificavam seus cidadãos em inúmeros estratos sociais. Orwell nascera, segundo ele próprio, na “baixa classe média alta”.
 
Estudara com a elite britânica, falava o inglês dos aristocratas. Mas sua família não tinha mais dinheiro, e ele sempre viveu um conflito interno entre seu ideal socialista e a necessidade de sobreviver no capitalismo – dilema comum na esquerda brasileira. Para a “baixa classe média alta”, a possibilidade de cair para a “classe média” estava sempre ali, ao alcance da primeira crise. Da mesma forma, o espectro da “classe baixa” ameaçava o tempo todo a “classe média baixa”. Daí o apego a símbolos de status fúteis, como se pudessem substituir o dinheiro e provassem ao ameaçado pela crise que ainda mantinha a decência e não era, nas palavras de Orwell, “daquela gentinha que fede”.
 
O maior desses símbolos era uma planta, a aspidistra, uma espécie resistente, com pouca necessidade de cuidados, presente em todo lar de classe média britânica. No romance A flor da Inglaterra, de 1936, Orwell narra com ironia os dilemas adolescentes de Gordon Cormstock, um vendedor de livros de mais de 30 anos, metido a poeta, que renega o “deus-dinheiro”, prefere levar uma vida de pobreza extrema, rejeita ofertas de trabalho vantajosas, considera-se perseguido por ser pobre e não consegue sequer transar, quanto mais casar, com a namorada. Seu inimigo simbólico é a famigerada aspidistra, com que todos, mesmo a dona da pensão decadente onde morava, tentam transmitir status e respeitabilidade.
 
Da única vez em que ganha algum dinheiro, faz jus ao lugar-comum: torra tudo numa farra, agride um policial e acaba preso. Não é exatamente um roteiro criativo. O próprio Orwell renegou a obra – não se sabe se por ironia, disse tê-la escrito apenas pelo dinheiro. Ela costuma ser classificada na categoria dos “ótimos livros ruins”. Bom de ler, apesar do enredo previsível. No Brasil de hoje, a história de Cormstock mostra quanto mal nos causa não só a crise, mas sobretudo o idealismo adolescente que infesta a nação como uma planta decorativa, resistente – e inútil.
HELIO GUROVITZ    
 
25/12/2016
 
 
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