Marcos Troyjo é economista, diplomata e cientista social, dirige o BRICLab da Universidade Columbia em NY, onde é professor-adjunto de relações internacionais e políticas públicas. 

 

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Ao final de 2016, num contexto em que forças de desglobalização operam grandes inflexões (Brexit, Trump, ascensão de populismos), ganha força entre muitos analistas o argumento de que estamos adentrando uma nova Guerra Fria.

 

Tal "Guerra Fria 2.0" teria duas dimensões principais. A primeira é mera continuação, numa escala e abrangência geográfica menor, do embate EUA-URSS – agora, no entanto, tendo por antagonista de Washington a Rússia supostamente autocrática de Vladimir Putin.

 

Essa versão "light" de Guerra Fria seria, no entanto, menos potencialmente danosa do que a confrontação no campo geoeconômico. E, aí, os grandes contendores são EUA e China.

 

O mundo teve um aperitivo de tal cenário nesta semana como resultado da conversa telefônica entre o presidente-eleito Donald Trump e Tsai Ing-wen, presidente de Taiwan.

 

Pequim se enervou com a conversa, pois há décadas tem na chamada "One China Policy"– a noção de que Taiwan deveria ser agregada política e territorialmente ao país de Xi Jinping – cláusula pétrea de sua política externa.

 

O curioso é que nessa eventual Guerra Fria econômica entre EUA e China, a ocupação de espaços de influência ou mesmo a costura de alinhados parecem menos importantes para a Washington de Trump. Isso desagrada muitos em seu partido.

 

Derrotado por Obama nas eleições presidenciais de 2008, o senador republicano John McCain defende em artigo no Financial Times que o abandono, por parte da futura administração Trump, de mega-acordos comerciais apenas fará com que regiões produtivamente dinâmicas como a Ásia passem crescentemente a gravitar em torno da China.

 

Trump estaria mais disposto a engendrar sua estratégia perante a China por duas vias – a da negociação de acordos bilaterais com países da Ásia-Pacífico e a imposição de restrições a exportações chinesas aos EUA. Trata-se de uma aposta de elevado risco.

 

Por outro, caso os EUA endureçam para cima da China, Pequim tem muitas formas de buscar retaliação. Os chineses podem diminuir o volume de compras de soja que realizam dos EUA – exportações norte-americanas nesse setor que em 2016 devem ultrapassar US$ 10 bilhões. Ou então dizer "não" a aeronaves da Boeing – cujas vendas para a China em 2015 alcançaram a impressionante cifra de US$ 15 bilhões.

 

Para as empresas multinacionais norte-americanas – e os EUA têm mais companhias de atuação global do que qualquer outro país – isso significaria enormes abalos em seus balanços patrimoniais. Ademais, haveria um expressivo aumento de custos de produção, com muitas empresas norte-americanas forçadas a redesenhar completamente sua cadeia global de fornecedores.

 

Há ainda a possibilidade de a China responder à imposição unilateral de barreiras por parte dos EUA com desvalorizações seletivas de sua moeda de modo a dotar suas exportações de mais competitividade. Ou mesmo vender lotes dos títulos do Tesouro norte-americano nas mãos do governo de Pequim. Hoje os EUA devem à China cerca de US$ 1,2 trilhão, o que representa 30% de toda a dívida norte-americana junto a governos estrangeiros.

 

EUA e China (e o mundo) nada têm a ganhar com um "equilíbrio do terror" em versão geoeconômica. Tomara esse potencial de desentendimento, hoje tão alentado, seja restringido pela imensa interdependência em comércio e investimentos que marca as duas maiores economias do planeta.