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No Brasil, um Assessor de 3º nível de um Deputado, que também tem esse título para justificar seus ganhos, mas que não passa de um "aspone" ou mero estafeta de correspondências, ganha mais que um Cientista-pesquisador da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, com muitos anos de formado, que dedica o seu tempo e a sua vida, buscando curas e vacinas para salvar vidas.

A ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar. - Sigmund Freud - Frases

Nota redação. Cumprimentamos o autor deste artigo, EUGÊNIO  BUCCI, pela interessante referência que fez de Freud, mostrando que o  pai da psicanálise via o ser humano muito além das fronteiras do divã. Porém Freud não acreditava muito no futuro da humanidade (como dá a entender o articulista) se alinhando, sob este aspecto, aos filósofos tidos como pessimistas, a exemplo de Nietszche, Shoppenhauer e outros

Antes que o improvável leitor pergunte se desilusões têm futuro, e desde quando, talvez seja mais ajuizado tratar inicialmente das ilusões. Estas, sim, têm futuro promissor (em mais de um sentido). Para encontrá-lo e conhecê-lo um pouco melhor devemos viajar ao passado, pois é lá que ele começa

Façamos a viagem pelo roteiro mais seguro (e mais óbvio): o livro O Futuro de uma Ilusão, que Sigmund Freud escreveu em 1927. A leitura é prazerosa até hoje. Freud acreditava que a civilização reduziria gradativamente a influência dos deuses sobre a Terra. Afirmava que todas as religiões eram ilusões infantis – ainda que muito eficazes para dar conforto psíquico aos homens assombrados pelo desamparo e pela morte – e, como ilusões, deveriam ser vencidas. “Os homens não podem permanecer crianças para sempre”, escreve o médico psicanalista, convencido de que a humanidade seria menos infantil e menos neurótica se fosse menos religiosa.

O leitor de O Futuro de uma Ilusão se vê convidado a imaginar um mundo sem altares e sem paraísos celestiais, como viria a cantar John Lennon, algumas décadas mais tarde. Freud contenta-se com outro poeta. Nas páginas finais, cita dois versos de Heinrich Heine: “Nós deixaremos o céu/ Para os anjos e os pardais”. Deixando o céu, deixaríamos as ilusões para lá e apostaríamos na civilização, a utopia freudiana.

Freud acertou ou errou? Nem uma coisa, nem outra. Por vezes, olhando as guerras entre fundamentalismos extremistas, temos a impressão de que errou. Mas no chamado mundo democrático o balanço é menos negativo. Depois do trauma da 2.ª Guerra o Estado de Direito se fortaleceu e ficou mais inclusivo, mais impessoal e mais laico. Nas sociedades livres os agnósticos já não são estigmatizados como antes e, de modo geral, as pessoas convivem melhor com a “sensação de insignificância ou impotência diante do universo”, sem ter de ir à igreja em busca de alívio. A religiosidade já não se baseia em “pontificar” sobre isso e aquilo e ninguém mais causa escândalo se disser que Deus não existe. De todo modo, a humanidade ainda não desocupou o céu “para os anjos e os pardais”. O futuro da tal ilusão continua sendo uma questão em aberto – divinamente aberta por Freud.

Isto posto, voltemos ao Brasil, onde o céu é do urubu. Aqui, a laicidade nunca foi esporte nacional. Nossos ateus mais ousados são aqueles que juram em prosa e verso ter visto milagres incríveis na Bahia de todos os santos. O problema civilizatório destas terras não passa pelo declínio das ilusões religiosas. Passa antes por saber o que virá depois da grande desilusão política que nos pegou por traição.

Nossa desilusão sobreveio à morte de uma utopia. Não era uma utopia grandiosa e universal como a ideia de uma “civilização adulta”, mas também foi arrebatadora: reduzir as desigualdades sociais do Brasil, a partir de um projeto político igualitário, democrático e libertário, que gerasse um novo modelo de desenvolvimento econômico, social e humano. Foi então que a utopia se esboroou como se nunca tivesse passado de farsa. Desmantelou-se. A utopia petista dos anos 80 e 90, que ingressou no século 20 como a esperança que venceria o medo, agora sai de cena sem honra e sem elegância. O burlesco se confunde com o trágico, heróis se revelam palhaços, a epopeia se dissolve em bazófia.

A desilusão é tamanha que faz corar até os adversários. Ninguém, nem os antagonistas mais raivosos, desejava um ocaso tão degradante para uma promessa que tinha sido tão bonita. O apagar da estrela desmotiva a Nação inteira. Uns ainda tentam gritar: “Eu avisei!”. Não adianta. São bufões, como os demais, no meio da rua.

A notícia não seria tão ruim se estivéssemos vivendo um epílogo, mas o infortúnio não acaba aqui. Não estamos lidando com uma desilusão qualquer, dessas que só têm passado. Diante dela, não basta perguntar: “Como fui me iludir?”. O maior problema é o que ainda está por vir. A utopia morta ainda vai ainda ficar por aí, ocupando o espaço (não apenas o céu) por um bom (mau) tempo. O pior é que essa é uma desilusão que tem futuro.

E seu futuro não vai ser luminoso. Trará a recidiva das mentalidades mais atrasadas, que aprisionaram por tanto tempo a sociedade brasileira à selva, à lei do mais forte travestida de norma institucional. Vai fazer com que o preconceito de que um presidente sem diploma só poderia conduzir o País à corrupção adquira o estatuto de verdade testada e comprovada. Os porta-vozes do reacionarismo vão dizer, com escárnio, que o líder operário não fez bobagem na entrada, mas estragou tudo na saída. Vão dizer que a esquerda é a mãe de toda a corrupção e, embora a História do Brasil exponha com fatura a corrupção da direita e das oligarquias feudais, será difícil mostrar que estão errados.

Mas o pior, o pior de tudo, é que a culpa pelo futuro que terá muito de treva, insensibilidade e violência – além de um grave estreitamento das alternativas políticas – não poderá ser imputada aos reacionários ou aos supostos golpistas. Não. A culpa é dos assassinos da velha utopia, que não são outros senão alguns de seus primeiros profetas. Eles a mataram com suas próprias mãos – leves.

Estes ainda tentarão sobreviver à sombra do imenso cadáver ideológico que fabricaram, inventando falsos inimigos e falsas divindades. Tentarão, como já vêm tentando, erguer uma religião política para substituir a utopia que mataram. Vão se converter em mercadores de ilusões, ilusões religiosas da pior espécie, puro charlatanismo populista, sem nenhum laço com a experiência concreta dos seres humanos.

O futuro dessa desilusão brasileira será, por fim, o fanatismo vulgar, que então se dissolverá sem dor. A travessia será bíblica, eis o toque de ironia, mas não haverá nenhum Moisés a conduzi-la.

Um Michel Temer, será? Ou, quem sabe, os pardais?

* EUGÊNIO  BUCCI É JORNALISTA, É PROFESSORDA ECA-USP

Este artigo foi publicado no Estadão em 17/09/2015

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