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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

 

O artigo “Infâmia: o quem-é-quem da burguesia brasileira” foi escrito por Igor Fuser, Doutor em Ciência Política  pela USP e Professor de Relações Internacionais  na Universidade Federal do ABC (UFABC)

 

Igor Fuser –IF-  O golpe de estado de 17 de abril de 2016 atropelou as ilusões de quem acreditava nas virtudes infinitas da política de conciliação de classes – a ideia de que seria possível superar o apartheid social e o subdesenvolvimento no Brasil sem confronto com as elites dominantes, mas apenas por meio do crescimento da economia. No pós-golpe, essas mesmas elites demonstram plena convicção de que agiram corretamente, em defesa dos seus interesses.

 

Ideologia Zero – IZ – Virtudes infinitas da politica de conciliação de classes??? Nem o Lula que se manteve ao lado de Henrique Meirelles durante seus dois mandatos, acredita nessa “infinitude”.

 

IF - Tal como ocorreu em tragédias históricas anteriores, como o golpe de 1964, o campo progressista discutirá ainda por muito tempo os fatores e as circunstâncias da derrubada de Dilma Rousseff, a começar pelos motivos da espantosa passividade das camadas mais pobres da população, as mais beneficiadas pelos governos liderados pelo PT.

 

IZ – As  camadas mais pobres da população, beneficiadas pelo assistencialismo lulo-petista constituem um imenso “lumpen proletariat” do qual não se pode esperar a tão proclamada (e fantasiosa) consciência de classe.  A consciência que domina a mente dos trabalhadores é a sindical-corporativista, e no caso do lumpen ele não tem organização para se manifestar a favor ou contra golpes.

 

IF - Outro traço marcante no golpe de 2016 – tema da presente coluna – é o alto grau de coesão que as classes dominantes demonstraram na agressiva ofensiva contra o governo legítimo.

 

IZ – Essa coesão foi bem fortalecida pela opinião pública que elevou às alturas o índice de Impopularidade de Dilma Roussef, que não seguiu a orientação de Lula, recusando-se a colocar Meirelles no Governo.

 

IF - Com a óbvia exceção dos empreiteiros da engenharia pesada, enrolados na Operação Lava Jato (que claramente inclui entre seus objetivos a destruição desse setor estratégico da economia nacional), o que se viu na mobilização golpista foi um verdadeiro quem-é-quem da burguesia brasileira. Lá estavam, unidos pelo “fora Dilma”, os banqueiros, os barões do agronegócio, os magnatas da mídia, os caciques da indústria brasileira remanescente, a fina flor do “PIB” nacional de mãos dadas com os grupelhos fascistas, os políticos picaretas e os pit bulls do Judiciário. Não faltou nem mesmo a rede de lanchonetes Habib’s, hoje tristemente famosa pela morte de um menino numa de suas lojas, que deu um desconto especial aos clientes que comparecessem aos atos pró-impeachment.

 

IZ – Os empreiteiros eram parceiros da camarilha corrupta do PT. Vamos ver se IF fala alguma coisa sobre a corrupção lulo-petista.

 

IF - Na vanguarda, para eliminar eventuais dúvidas sobre os interesses de classe em jogo, marchava o patético pato da Fiesp. Justamente a Fiesp, aquela mesma entidade que, tradicionalmente, é vista como principal porta-voz de uma burguesia brasileira, “interna” como dizem alguns teóricos. Por esse termo se costuma designar um segmento da classe dominante supostamente autônomo e portador de interesses próprios, contraditórios (dizem) com as preferências do imperialismo estadunidense e dos seus aliados no país.

 

De acordo com essa teoria, que não se confunde com a fé ingênua da cúpula ex-governista na conciliação de classes, as gestões presidenciais de Lula e Dilma seriam a expressão política de uma “frente neodesenvolvimentista”, articulada em torno de uma “grande burguesia interna” que estaria gerindo o país em aliança com a classe trabalhadora e em conflito com uma chamada “burguesia associada”, neoliberal e pró-imperialista.

 

IZ – O conflito se acirrou com a Dilma. Se ela tivesse seguido a orientação de Lula, não teria havido golpe algum. Portanto, como muito bem profetizou o General Golbery, Lula era o grande cara da “conciliação de classes”. Por isso ele conseguiu se safar do Mensalão deixando seu companheiro Dirceu na rua da amargura. Fez algo semelhante ao que Fidel fez com Guevara que morreu na selva boliviana enquanto ele permanecia no seu conforto em Havana.

 

IF - Enquanto o primeiro grupo burguês teria o foco dos seus interesses voltado para o mercado interno e a expansão produtiva, o segundo grupo agiria a serviço dos interesses externos, do bloqueio a qualquer tipo de desenvolvimento autônomo.

 

A “grande burguesia interna” incluiria os maiores grupos econômicos de capital nacional em todas as áreas, desde o agronegócio até empresas financeiras como o Bradesco e o Itaú, gigantes empresariais como a JBS Friboi, a Votorantim, a Ambev, a Gerdau e a Vale, os grandes grupos de ensino e saúde privados, além, é claro, dos colossos da construção civil – Odebrecht & cia.

 

Essas e outras empresas, favorecidas com linhas de crédito e todo tipo de apoio oficial, amealharam, de fato, lucros fabulosos no ciclo de governos progressistas. Porém em momento algum mostraram qualquer compromisso ou apoio ativo ao projeto político liderado pelo PT.

 

Aceitaram todas as benesses, pressionaram (em geral, com sucesso) por vantagens setoriais aqui e ali. Mas no campo político se limitaraml, nos melhores casos, a tolerar os governos “de esquerda” como uma extravagância temporária numa trajetória histórica de cinco séculos de poder irrestrito da elite dominante.

 

Houve quem encarasse essa postura pragmática como expressão de uma sólida aliança de classes, o que explicaria a relativa estabilidade política naquele período, apesar da permanente campanha midiática anti-PT e anti-governo.

 

IZ – Essa terminologia de luta de classes, consciência de classe e derivativos é anacrônica. Tinha sentido quando havia um conflito entre capitalismo e comunismo. Morto o comunismo, os conflitos permanecem agora dentro do sistema capitalista, a exemplo do que ocorreu sempre na história da humanidade, independente dos regimes politicos e econômicos vigentes. O homem é o lobo do homem, e a revolução russa ao invés de combater essa selvageria natural, acabou nas mãos de um psicopata genocida, o Stalin, que foi em termos de psicopatologia social um irmão gêmeo de Hitler.

 

IF - Quando surgiu a oportunidade, a burguesia agiu em bloco para golpear a democracia. Se alguém ainda tem alguma dúvida, recomendo que leia a bela reportagem da jornalista Aline Maciel, da Agência Pública, sobre o envolvimento ativo das entidades representativas da indústria brasileira, em nível nacional e nos estados mais importantes, para pressionar os parlamentares indecisos nas vésperas da votação na Câmara dos Deputados (25/08/2016).

 

IZ – “Golpear a democracia”? Uai...desde quando se combate a burguesia capitalista apelando-se para a democracia? Nunca houve democracia verdadeira em lugar algum e no Brasil, nem se fala né?

 

IF- Muita coisa aconteceu nos onze meses que se passaram depois daquele dia de infâmia. Ministros do desgoverno golpista caíram e foram trocados em meio a denúncias de corrupção. Um deles chegou a comparar o núcleo do poder político em Brasília a uma suruba. A economia mergulhou de vez na recessão. A soberania nacional está sendo desmantelada e a imensa riqueza do pré-sal entregue de bandeja às empresas estrangeiras.

 

IZ – Nem a dupla Lula-Meirelles teria evitado essa recessão que foi causada principalmente pela queda do boom das commodities.

 

IF - E não se verifica no seio da burguesia brasileira o menor sinal de arrependimento, a menor intenção de alterar o rumo do retrocesso em curso. Alguém ousaria, nesse cenário, profetizar a reconstituição da “frente neodesenvolvimentista”? Difícil.

 

IZ – Frente neodesenvolvimentista baseada na corrupção lulo-petista que promoveu a Odebrechet à primeira posição no ranking mundial da corrupção empresarial? Lula teve 8 anos para elaborar um “projeto de desenvolvimento nacional”. Mas isso não é tarefa para um populista de esquerda corrupto, obviamente.

 

IF -  De concreto, o que se vê nos meios empresariais, além do entusiasmo pela destruição de direitos trabalhistas, pelo desmonte da previdência pública e pelo congelamento dos investimentos sociais, são, no máximo, queixas pontuais, sem maior relevância no cenário político.

 

IZ – O congelamento dos investimentos sociais não interessa de forma alguma às empresas. O que elas precisam é de estabilidade política e social. Até o combate a corrupção prejudica o mercado, visto que no Brasil e no mundo as propinas e outras formas de corrupção constituem um combustível da economia. Mas a grande maioria das empresas não participa deste processo. Pelo contrário, elas são vítimas de leis que criam dificuldades para vender facilidades. Só as grandes empresas são beneficiadas pela corrupção de forma significativa.

 

IF - A mesma Fiesp que liderou as multidões de verde-amarelo na Avenida Paulista agora reclama do desmonte das políticas de “conteúdo local” na exploração do pré-sal. Mas sua insatisfação fica por aí mesmo, sem qualquer desdobramento prático, sem ao menos a intenção de inserir esse assunto na agenda política geral (quem quiser conferir, olhe o site da entidade).

 

IZ – Se o Brasil tivesse uma elite votada para o desenvolvimento do país, como ocorreu por exemplo, com os Estados Unidos, a história seria outra.

 

IF-  A burguesia, como classe, vê os seus interesses essenciais contemplados pelo retrocesso histórico que o governo golpista tenta impor à sociedade brasileira. Nunca teve interesse genuíno no projeto (neo) desenvolvimentista defendido pelo PT, por setores da burocracia estatal e sindical e por alguns intelectuais independentes, como Luiz Carlos Bresser-Pereira.

 

IZ – O projeto desenvolvimentistas do PT era baseado em corrupção e só podia dar no que deu. A corrupção foi a grande arma que Lula e o PT deram  de mão beijada para seus adversários. Mas essa mesma arma já está soltando alguns tiros no pé destes adversários.

 

IF - Desde sua ascensão à classe dirigente, na primeira metade do século 20, a burguesia brasileira tem clara consciência de que seu futuro está associado à dominação imperialista e à inserção numa ordem mundial capitalista sob hegemonia dos EUA.

 

IZ – Não é uma “clara consciência” que explica a conduta desta burguesia e sim uma fragilidade provocada pela falta de capital associada à enorme incompetência dos governos  de realizar as imensas potencialidades do Brasil. O estado brasileiro teve um papel fundamental no nosso sub-desenvolvimento.

 

IF - Os burgueses brasileiros – isto está no seu DNA – desconfiam dos projetos de desenvolvimento nacional porque sentem que esse caminho os levaria a se marginalizar do sistema imperialista ao qual associam sua existência e seu futuro. Odeiam os trabalhadores, desprezam os pobres e têm dificuldade até mesmo em assumir plenamente uma identidade nacional brasileira.

 

IZ – Os empresários, sejam eles burgueses ou não, não têm ódio de seus funcionários. Quanto ao desprezo pelos pobres, trata-se de um problema histórico da humanidade. Os pobres são desprezados porque tem um perfil e uma conduta que contrasta com as “boas maneiras” das classes “superiores”. A causa é a falta da educação que o Estado não lhes fornece.

 

IF - “Queremos o nosso país de volta”, gritavam, nas ruas. Agora o têm, espero que não por muito tempo. Dessa gente, nada de bom se pode esperar.

 

IZ – E de quem pode-se esperar alguma coisa? O problema do Brasil é mais ESTRUTURAL do que nunca. O PT não mudou a estrutura, recorrendo ao assistencialismo para mantê-la. E hoje a crise da economia (ou do capitalismo) é mundial. Seja quem estiver no Governo, tudo que poderá fazer é minimizar o colapso que já atingiu vários estados brasileiros e que ameaça outros.

 

Moral da história:  Morto o comunismo, só resta à humanidade civilizar ou capitalismo ou prosseguir na sua marcha em direção ao abismo, conduzida pelos psicopatas do poder. 

 

 

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