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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

 Foto: Ramón Vasconcelos

 

LCF -  Luiz Carlos de Freitas - É possível que, pelos menos para alguns que apoiaram o golpe, a ficha já esteja caindo. Já não deveria restar mais dúvidas de que, mais uma vez, o apelo ao “fim da corrupção” serviu, por um lado, para proteger a própria corrupção e, por outro, promover mais bem-estar para quem já o tinha. O fisiologismo, base da corrupção, é regra declarada no governo Temer (veja aqui). 

 

MC – Mtnos Calil 

a) O fisiologismo está presente em todos os governos e começa com as alianças eleitorais.

 

b) Não foi feito apelo ao “fim da corrupção”. O que aconteceu é que um juiz de primeira instância decidiu inaugurar uma nova estratégia de combate à corrupção prendendo alguns corruptos. Ainda que haja uma seletividade tendo como foco  Lula, o PT e seus aliados, é evidente que esta seletividade está prejudicando muitos não petistas. Além disso pela primeira vez na história do Brasil vemos um penca de empresários e executivos na cadeia. Mesmo que Moro seja um americanófilo, ou pior – um tucanófilo – ele inaugurou uma nova fase na história da corrupção.

 

c) O Brasil está se tornando uma referência no combate à corrupção, apesar dos erros do nosso jovem e aguerrido juiz, que não levou em conta o desemprego que ele estava provocando nas empresas dirigidas por corruptos. O combate à corrupção não interessa nem aos ricos nem aos pobres, porque afeta o bom desempenho da economia (capitalista).

 

LCF - Na outra ponta do golpe, estiveram aqueles empresários que querem carona nas cadeias produtivas internacionais e, como estamos vendo, não se impressionam de fato com governos corruptos e sim em garantir que tais governos, mesmo que sejam corruptos, defendam seus interesses (as reformas que não saíram com Dilma). Tudo indica que a conta vai ser paga, como sempre ocorre com os golpes, pelo andar de baixo: nós. Os motivos do golpe, portanto, vão ficando mais transparentes.  

 

MC – A conta já está sendo paga pelo andar de baixo, e isso se deve à crise econômica e não ao golpe. Se o Brasil não estivesse entrado na mais grave  crise econômica de sua história, dificilmente teria ocorrido o golpe. Haja vista que com Lula não houve golpe nenhum, sendo que  Meirelles estava a seu lado. Se Dilma estive obedecido o Lula colocando Meirelles no Governo, ela continuaria lá, tranquilamente. E talvez a corrupção de Lula não assumisse tanto destaque. Foi o que ocorreu com o Mensalão quando Lula foi poupado pelo Establishment. E se Roberto Jefferson não se insurgisse contra o Zé Dirceu, nem o mensalão teria chegado onde chegou, tendo como marco a prisão de ambos!  O Establishment sempre encontrou uma forma de se acomodar à corrupção, venha ela da direita ou da esquerda. Mas a corrupção não foi inventada nem pela esquerda nem pela direita, nem pelo capitalismo nem pelo socialismo (que nunca existiu).

 

LCF - Que sentido devem ter as políticas públicas sociais se não o de promover o bem público e o de todas as pessoas? O que nos faz acreditar que, de fato, invertendo a lógica e  colocando o bem estar das pessoas como dependente da “saúde do mercado”, isso nos  levaria a um futuro melhor? Ou seja, a ideia alardeada de que a economia indo bem, todos irão bem.

 

MC- Vivemos no regime capitalista em que o desenvolvimento da economia mais beneficia do que prejudica uma boa parte da população. Basta ter em mente que quando as crises aparecem, os mais prejudicados são obviamente os mais pobres. Sempre foi assim na história do capitalismo – e da humanidade!

 

LCF - Até agora, só empresários estão comemorando a “nova” realidade econômica pós golpe. Será que vamos ter que ouvir, de novo, que “o bolo precisa crescer antes de ser dividido”, como dizia a ditadura militar?  

 

MC – Não foram os militares que inventaram a divisão do bolo *. O foco deles era o combate ao comunismo. E se eles aderissem ao comunismo (ou pseudo-comunismo, já que o comunismo nunca existiu) o Brasil estaria melhor ou pior do que está hoje? Basta ver o que aconteceu na China, onde com a implantação do capitalismo   milhões de chineses emergiram para a classe média, enquanto a Venezuela foi conduzida ao abismo pelos “socialistas bolivarianos” Chaves e Maduro.  Na China, a  desigualdade vai continuar, é claro.  Tudo que os mais pobres podem fazer hoje é lutar pela redução da pobreza e da miséria.

 

LCF - A negociação de salários nos últimos meses caiu abaixo de sua linha mais recente. Efeito da crise local? Culpa da Dilma? Mas, não é diferente nos Estados Unidos:

“Embora a economia dos EUA tenha crescido em média 2,1% anuais no pós-crise de 2008/2009 e haja pleno emprego, a renda dos salários caiu bastante.” 

 

MC – Até os economistas pró-capitalismo ( Piketty e muitos outros) estão combatendo a concentração de renda que domina hoje o capitalismo ocidental. Esse processo de concentração  ocorre também no Brasil. Devemos reconhecer que Lula deu uma importante contribuição para aliviar essa concentração através de uma medida micro-econômica de fundamental importância: o aumento progressivo do salário mínimo, acima da inflação. Além dos beneficios sociais como o Bolsa Familia e outros 

 

LCF - Empresários e mídia divulgam a ideia de que promovendo o bem estar do mercado haveria empregos e bem estar social. O objetivo é recuperar empregos, dizem. Uma lógica de sentido comum, mas que a prática não concorda, ou melhor dizendo, reserva apenas para alguns.

 

MC -  A recuperação de empregos - note-se que recuperar não é crescer – é condição  “sine qua non” para o pais sair desta crise. “Sair da crise”, porém não significa “crescer”. Meirelles adotou a proposta de alguns economistas que esperam um crescimento do PIB de 2% a partir do final de 2017. Com essa taxa de crescimento, a simples recuperação dos empregos vai demorar muito. Talvez uma década.

 

LCF-  Os empresários, hoje, para garantir seus lucros, cada vez mais colocam os trabalhadores em uma encruzilhada: ou fazem o que eles querem e pelo valor que querem, ou então, “não brincam mais”: fecham suas filiais e vão para outros países. Detestam regulação – a não ser daquela feita por “agências” que eles mesmos dominam. 

                                                                                                                                                                                

MC – Ué... as empresas não vivem sem lucros. O problema não está nos lucros e sim na sua “repatriação”. O Brasil precisaria  de empresas nacionais fortes e lucrativas para reduzir a pobreza. Porém, os nossos governos entreguistas que se sucederam nos últimos 50 anos, acabaram de vez com essa possibilidade.  

 

LCF-  O fato é que com a inversão de prioridades, colocando as pessoas em segundo plano, quem perde são as próprias pessoas, como se está vendo permanentemente na geração das políticas sociais e econômicas pós golpe, pois, não é automático que a riqueza se distribua a partir do empenho de cada um.

 

“Os seis homens mais ricos do Brasil concentram a mesma riqueza que toda a metade mais pobre da população do país (mais de 100 milhões de brasileiros), segundo o relatório da ONG Oxfam divulgado nesta semana.” 

 

MC –   Sim, mas o Oxfam não está propondo acabar com o capitalismo e sim desconcentrar a renda, o que exige a formação de estados nacionais cujos governos sejam estrategicamente orientados para reduzir a desigualdade e não apenas promover o crescimento da economia.

 

LCF -  Esta conversa fiada que se ouve todo dia na mídia de que com as reformas haverá uma melhora da economia e com isso teremos empregos, é muito relativa. Sabemos que os planos estratégicos das empresas apontam em outra direção: robotização. Com a chamada revolução industrial de quarta geração, desaparecerão milhares de postos de trabalho ou serão precarizados. A robotização (inclusive do setor de serviços) já é um fato do nosso dia-a-dia.

 

MC – Os responsáveis pelo desemprego provocado pelo avanço maluco da tecnologia não são as empresas e sim os cientistas cuja visão social é nula. Mutatis mutandis, repetem o erro de Sergio Moro que combate a corrupção sem se preocupar com o desemprego avassalador que se processa nas empresas corruptas.

 

LCF -  As máquinas inteligentes deveriam vir para aumentar o ócio e o bem estar de toda a humanidade e não para enricar meia dúzia de milionários. Uma diminuição geral do número de horas trabalhadas, deveria aumentar as chances de trabalho para todos, ao mesmo tempo que uma melhor aplicação do tempo de vida. Os neoliberais, neste ponto, dizem que “não há almoço grátis”. De fato, não há, pois a cozinha foi invadida por banqueiros que almoçam grátis todos com os dias os elevados juros da dívida pública. Não sobra para mais ninguém.

 

MC – Ufa... finalmente chegamos a um ponto de convergência. Mas se for apenas para reduzir os juros da divida pública, eles serão em breve reduzidos, devido à queda da inflação,  o que obviamente será apenas um “quebra galho”. Como dar o calote seria desastroso, só resta a opção de negociar a dívida, o que também está fora de cogitação.

 

LCF - Tudo na nossa sociedade é colocado a serviço do aumento do lucro. E o lucro, exige menos postos de trabalho e precarização. Um artigo na Folha de São Paulo resume o cenário, apontando as novas tecnologias que compõem a nova revolução 4.0, ou seja, a revolução das máquinas inteligentes:

Segundo o articulista, Pedro Luis Passos:

 

“… é um quadro [o nosso] que se encontra no limiar de uma profunda mudança, que, embora ainda em fase de amadurecimento, começa a ganhar contornos mais precisos. Os americanos a chamam de manufatura avançada ou manufatura inteligente, enquanto os alemães preferem a denominação indústria 4.0.”

 

Ele considera que é uma transformação que “reside na inteligência que as máquinas passarão a ter” e que altera a organização das cadeias de suprimento, a produção e a comercialização e revoluciona a indústria, os serviços entre outros setores.

 

“A nova indústria se caracteriza pela integração de tecnologias já conhecidas, como inteligência artificial, impressão 3D, big data, computação em nuvem, internet das coisas e realidade ampliada, entre outras. O diálogo contínuo entre tais vetores vai dotar as fábricas de um grau inédito de eficácia e autonomia.”

 

Os lucros serão maximizados – ou terão sua queda detida, pelo menos – com custos menores, mais eficiência e elevação da produtividade.

Mas o que é mesmo extraordinário é que o articulista tivesse examinado as consequências destes avanços sem uma palavra a respeito do que acontecerá com os postos de trabalho e seus atuais ocupantes: as consequências sociais para os trabalhadores – ou o que se chama de desemprego estrutural.

 

Mas isso não é tudo. Se por um lado, estamos precarizando e eliminando postos de trabalho, por outro, a ganância também exige que o Estado seja mínimo e se desentenda do cidadão: tudo que possa levar a cobrar mais impostos dos empresários e dos mais ricos deve ser eliminado e transformado em mais serviços que geram lucro: previdência, saúde, educação, segurança etc. O Estado não pode onerar as cadeias produtivas com mais impostos ou perde-se “competitividade internacional” – dizem. Leia-se: não se realizam os lucros esperados. Precarização  do trabalho acompanhada de isenção fiscal é o sonho dos empresários. Na briga entre capitalistas internacionais, o Estado é sequestrado para criar “competitividade” para os empresários. Como “um favor”, estes proverão empregos precarizados.

 

Tudo que vise proteger o trabalhador deve ser eliminado para que ele fique à mercê das necessidades do mercado e seja obrigado a aceitar as condições dos empresários, postas por estes unilateralmente. Daí a necessidade de retirar os sindicatos da negociação salarial. Alguma proteção só para a extrema pobreza para que a violência não coloque em risco os próprios investimentos.

 

A promessa de um futuro melhor a partir da melhoria da economia, se desfaz com o ritmo da revolução industrial que apaga profissões inteiras e precariza o trabalho, por um lado e, por outro, restringe o alcance do Estado nas políticas sociais. É o capitalismo contorcendo-se nas suas contradições, para viabilizar taxas de acumulação de riqueza crescentes para alguns.

 

Sem trabalho e sem Estado, resta o indivíduo sozinho, lutando para dar conta da vida; resta a política social do “vire-se”.

 

Cabe ao trabalhador assumir seus próprios interesses e deixar de esperar que os “de cima” possam, de fato, interessar-se pelos “de baixo”. Esgotou-se o período da crença na conciliação de classes proposta pelo PT – estamos em plena luta de classes aberta, e quem está na ofensiva são eles. 

 

MC – Essa “luta de classes aberta” requer uma estratégia. Mais uma vez, nos defrontamos com essa limitação crônica da esquerda – faz bons diagnósticos das crises capitalistas, repetindo Marx, mas não propõe nada viável para resolver o problema. Como não estamos no século XIX, não teria sentido a proposta de acabar com o capitalismo. O que fazer então?  Na minha visão, quaisquer que sejam os desdobramentos desta luta, ela deve ter como principio esse aforismo que tem a qualidade  de desagradar tanto à esquerda como à direita:

 

“Morto o comunismo, só resta à humanidade civilizar o capitalismo ou prosseguir na sua marcha em direção ao abismo, conduzida pelos psicopatas do poder” – Mtnos Calil 

 

 

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