Instituto Mãos Limpas Brasil

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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

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Desde o dia em que o Mãos Limpas foi criado em agosto de 2005, que eu me lembre é a primeira vez que um membro do grupo usa o termo “comunidade” para descrevê-lo. Reproduzo a seguir as palavras de José  Simantob Netto, brasileiro nato, de origem judaico-libanesa:

 

“Sinceramente, considero Mãos Limpas uma comunidade intelectualizada, onde até mesmo as mast...... mentais são válidas, uma vez que nos obrigam a pensar e a exercitar nosso cérebro, assim como devemos exercitar nossos músculos, mesmo nos meus 78 anos de idade.  A verdade só tem significado, quando é difícil de ser admitida.  Em outras palavras, ninguém é dono da verdade. Tudo é relativo. As pessoas podem estar errando quando pensam que estão acertando; podem estar acertando quando pensam que estão errando. Isto se dá tanto em relação a si mesmo, como em relação ao próximo. Por isso mesmo, temos conflitos internos, com nós mesmos, assim como, com os nossos semelhantes.”

 

 

Como se nota,  em poucas frases, Simantob expôs um forte conteúdo que dá margem a uma ampla discussão.

 

O que mais me chamou a atenção nesse texto  foi o termo “comunidade” que nos remete à revisão (ou mesmo elaboração) do planejamento estratégico do grupo que constitui, digamos assim, uma base social do Instituto (ou Movimento) Mãos Limpas Brasil, registrado em cartório e na receita federal.  

 

A afirmativa de Simantob qualificando o grupo como uma comunidade provocou um efeito inesperado de importância fundamental, como veremos na sequência.  Antes de mais nada vamos mergulhar no significado do termo.  Na minha visão semântica, que não foi baseada em nenhuma pesquisa anterior, uma comunidade é um grupo de seres humanos cuja conduta é orientada por  um “espírito comunitário”. A definição de comunidade apresentada no dicionário do Aurélio como veremos é convencional, superficial, além de ignorar o espirito comunitário. A meu ver o espirito comunitário é o que distingue as verdadeiras comunidades, que não são apenas agrupamentos humanos. Penso que através deste espirito se formam amizades no interior das comunidades. A definição de comunidade teria assim uma configuração trinitária constituída por estes 3 conceitos:  grupo, espirito comunitário e amizade. Para fundamentar essa definição encontramos na internet algumas matérias que reproduzimos abaixo. Seria interessante conhecermos o conceito de comunidade adotado  Simantob e por outras pessoas do grupo.

 

Abraços

Mtnos Calil - Coordenador do Instituto Mãos Limpas Brasil 

mtnoscalil@terra.com.br

 

Ps. Para participar deste e de outros debates, mande um e-mail para

maoslimpasbrasil-subscribe@yahoogrupos.com.br

 

 

Seis matérias como fonte para a construção de uma definição de "comunidade"

 

 

Matéria 1 – Espirito comunitário

 

 

Uma das coisas mais admiráveis dos Estados Unidos é o senso comunitário de um bom número de seus empresários mais ricos e sua disposição de doar grandes somas para instituições beneficentes, universidades, museus, fundações socioculturais ou de pesquisa científica. A despeito das sequelas da crise econômica de 2008/2009, essa tradição continua viva, como mostra a divulgação da lista de 40 bilionários que se comprometeram a doar metade, pelo menos, de seu patrimônio por meio da organização Giving Pledge. A iniciativa de convocá-los foi de Bill Gates, co-fundador da Microsoft, e de Warren Buffett, presidente da Berkshire Hathaway, que estão nos primeiros lugares entre os homens mais ricos do mundo e se destacam também como grandes filantropos.

 

10 Agosto 2010 –Estadão

http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,espirito-comunitario-imp-,592892

 

 

Matéria 2 – Prêmio Espírito Comunitário: inscrições terminam em 5 de outubro

 

 

Falta menos de um mês para o término das inscrições para o Prêmio Espírito Comunitário. Até o dia 5 de outubro, alunos do Ensino Médio de 15 a 19 anos matriculados nas escolas públicas ou particulares da cidade do Rio de Janeiro que realizam trabalhos voluntários, poderão se inscrever pelo site www.premioprudential.com.br. Serão selecionados 26 projetos que melhor atenderem aos critérios da premiação - iniciativa, esforço, impacto na sociedade, crescimento pessoal e relação com as metas do milênio da ONU. O primeiro lugar (medalha de ouro) recebe R$ 10 mil, o segundo (prata), R$ 5 mil e o terceiro (bronze), R$ 3,5 mil para doarem à instituição na qual realizaram a ação voluntária. Os vencedores das medalhas de ouro e prata ganharão uma viagem com as despesas pagas para representar o Brasil na premiação mundial da Prudential, em Washington DC, nos EUA, em maio de 2016.

 

A Prudential do Brasil realiza 1ª edição da premiação na cidade do Rio de Janeiro com o objetivo de estimular o voluntariado entre os jovens estudantes. O Prêmio Prudential Espírito Comunitário conta com a parceria da Secretaria de Estado de Educação, do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particulares do Rio de Janeiro (Sinepe-Rio) e Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC)

 

 


15/09/15

 http://extra.globo.com/noticias/educacao/premio-espirito-comunitario-inscricoes-terminam-em-5-de-outubro-17497036.html#ixzz4WcX3rb00

 

Matéria 3 - GUIA DO VOLUNTÁRIO

 

 

Prêmio Prudential
 
 

Um em cada quatro jovens brasileiros com mais de 16 anos faz ou já fez algum tipo de serviço voluntário. O número é de uma pesquisa realizada pela Rede Brasil Voluntário e o Ibope Inteligência.

 

 

E qual seria o motivo para gastar o restinho de tempo disponível com algo que demanda dedicação e energia e não traz qualquer recompensa financeira?

 

 

De acordo com essa turma, as explicações são várias:

 

 

Solidariedade
Vontade de mudar o mundo
Satisfação pessoal
Melhorar o currículo
Sentir-se útil
Desenvolver novas habilidades
Faz bem para o corpo e para a mente

 

 

©2016 - Todos Direitos Reservados a Prudential

 

Prudential do Brasil

https://www.premioprudential.com.br/guia-do-voluntario

 

 

 

 

Matéria 4 (de Portugal) -  Retrato de um novo espírito comunitário

 

 

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A exposição “Jardim Imaginário – retrato de um novo espírito comunitário” é uma mostra de mais de dois anos de iniciativas sociais na zona habitacional de Areosa – Paranhos.

 

 

As fotografias foram captadas por pessoas diferentes em atividades muito diversas, que vão desde um fórum de vizinhos a uma feira de trocas ou um piquenique. Na maioria dos casos, o cenário é um terreno camarário abandonado conhecido como “Jardim Imaginário”, onde os moradores da zona gostariam que fosse construído um jardim público com parque infantil e tendo, para tal, entregado uma petição à Câmara Municipal do Porto em dezembro de 2013.

 

 

A necessidade de encontrar âmbitos de comunicação e entreajuda para superar uma crise geral de solidão e individualismo levou ao nascimento do projeto “Humanistas pela não-violência” em 2012. Desde essa altura as iniciativas em Paranhos têm crescido, à medida que o espírito de comunidade se fortalece e a desconfiança em relação ao outro perde terreno.

 

 

Com a exposição fotográfica “Jardim Imaginário”, pretende-se dar a conhecer uma experiência de humanização nesta zona habitacional do Porto e também partilhar aquilo que não se pode explicar: um alegria profunda por podermos construir um projeto que nos aproxima verdadeiramente de outras pessoas.

 

 

No âmbito da exposição será exibido um filme dedicado ao tema da não-violência no dia 26 de novembro e está prevista a realização de um dia aberto à iniciativa dos estudantes universitários, no dia 3 de dezembro.

 

 

07.11.2015 Luis Filipe Guerra

 

https://www.pressenza.com/pt-pt/2015/11/retrato-de-um-novo-espirito-comunitario/

 

 

Matéria 5 A vocação da amizade em nossas vidas

 

 

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A vida comunitária e os vínculos da caridade fraterna já nos despertam a consciência do fato real de sermos irmãos. Sentimos assim a necessidade de celebrar a vida dos que partilham conosco o viver vocacional, e que participam do grande mistério da comunhão e do amor de Deus. A caridade fraterna já nos faz pertencer um ao outro pela graça do carisma em nossas vidas. Esse estar junto é importante e necessário mais do que nunca, por causa da comunhão uns com os outros para a qual todos fomos criados, vindo a ser também o antídoto da solidão, do egoísmo e do individualismo que impera hoje entre as pessoas. “Na situação do homem moderno, o que é trágico, o que constitui o seu isolamento é a falta de diálogo, de comunicação espiritual com o outro” (Ignace Lepp). O homem está cada vez mais necessitado de viver junto. No entanto, não basta estar junto de qualquer forma, é preciso estar junto com um viver de qualidade.

 

“Quem escolhe a vida consagrada decide viver com outros, seus semelhantes, numa comunidade. Como conseqüência, crescer na vida espiritual implica também crescer no modo de estar com os outros e apurar sempre mais o próprio estilo de comunicação” (Giuseppe Colombero).

 

A caridade fraterna nos faz comprometidos com o outro e portamos por esses laços uma dívida ao nosso irmão, em acolhê-lo e amá-lo na sua diferença e na sua maneira particular de ser. A caridade de Cristo nos fez um com ele e por isso já não carregamos mais o peso de termos o outro como inimigo. Nosso direito de progenitura não precisa mais ser vendido como fez Esaú com seu irmão Jacó (Cf: Gn 25,29-34), para sermos saciados com qualquer coisa, pois o corpo e o sangue de Cristo nos inseriram na comunhão do amor da Trindade. Cristo é o referencial de todo amor humano e não necessitamos mendigar o amor do mundo baseado unicamente no prazer. Cristo nos redimiu de todo pecado e também redimiu o amor que escravo estava dos prazeres carnais. Nossos irmãos e amigos participam desse amor redimido e dessa novidade da caridade. É a caridade fraterna que nos permite viver o dom da vida comunitária e consagrada. E aí, essa caridade fraterna guiada pela Providência de Deus nos faz perceber também aqueles com quem queremos partilhar mais de perto as nossas dores e alegrias, os nossos segredos, a vida de Deus que vai moldando a nossa. A esses nós chamamos de amigos, amados amigos!

Cristo nos mostrou que é uma necessidade do coração do homem ter amigos. A amizade nos recorda e renova o sentido da vida em Deus e do amor aos homens: amar até o extremo! Dar a vida por eles completamente. “Assim como o Pai me amou, também eu vos amei. Permanecei em meu amor…Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo15,9.13). Paul Hinnebusch completa em seu livro intitulado, O Ministério da Amizade: “Jesus mostrou-se verdadeiramente nosso amigo, dando sua vida por nós na cruz”. Sabemos que Cristo mostrou-se também nosso amigo revelando-nos todos os segredos do seu coração. “Eu vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer” (Jo15,15). Então é-nos dado, da parte de Deus, o dom da amizade, “a vocação à amizade” como escreveram alguns filósofos e como confirma aqueles que a vivem traduzida nas páginas de tantos escritores contemporâneos.

A amizade é um dom de Deus dado a quem ele quer para uma missão na vida dos amigos e na vida dos homens de boa vontade. Diríamos ainda que a amizade é um dom e exerce uma missão particular na vida comunitária. A necessidade da amizade de que nos mostrou Jesus recebe uma particular observação quando se trata da vida comunitária. Ninguém procuraria uma comunidade religiosa se não tivesse certeza de encontrar, entre as suas paredes e na convivência daqueles que dentro delas habitam, pelo menos aquela ternura que poderia se encontrar na família. A vida comunitária comporta uma escolha diária e com muitas renúncias, inclusive no que diz respeito à vida fraterna. Não somos chamados a ser amigos de todos, pois é impossível, mas somos chamados a acolhermos a todos na caridade de Cristo.

Como disse nosso tão amado Papa João Paulo II: “Amar em si é uma escola; e a vida comunitária é esse lugar onde melhor se exercita ese aprende a amar”. Giuseppe Colombero diz isso com outras palavras de forma brilhante e profunda: “Não amar e não ser amado é sentir-se ninguém. Sentimos então a mais dolorosa das frustrações: a inutilidade da própria vida. Amor é calor e cor, aquilo que dá um rosto e um sentido às coisas e aos dias, mas é preciso querer esse amor, e querê-lo juntos, um pelo outro, e não apenas dizê-lo ou dissimulá-lo. É preciso viver em comunidade conforme o seu verdadeiro espírito de koinonya”.

Para mim tem sido uma grande novidade a convivência com alguns importantes amigos e, posteriormente, a descoberta da amizade, desse fazer parte do coração do amigo. A amizade nunca se faz da noite para o dia, é preciso disposições concretas para trilhar um caminho de acolhida, conhecimento do outro e de si mesmo, capacidade de sair de si para deixarmos que o outro se aproxime e queira livremente partilhar da sua vida, das suas fraquezas, limitações, das alegrias e dos dons com que o Senhor cumulou cada vida. Penso e sinto que isso vem acontecendo conosco, amigo, quando aos poucos vamos participando da vida um do outro nas coisas mais simples, mesmo que tantas vezes seja difícil conseguir um tempo pra sentarmos e conversarmos. A dinâmica da vida comunitária nos coloca diante de desafios que precisam ser superados. Amar implica decisão e coragem de não se deixar levar por tantos obstáculos. Nem todos estão disponíveis para a construção dos laços de amizade, e muitas são as causas que levam a isso que aqui não me compete descrevê-las.

Mesmo com as impossibilidades e com todos os desafios que comporta o dom da amizade, Deus vai nos dando a graça da escolha gratuita e a criatividade de darmos provas de amor um ao outro simplesmente sendo nós mesmos. Aprende-se muito com o amigo, mesmo que esteja distante ou próximo. A prende-se muito com o amigo, exatamente se deixando conduzir e temperar a amizade pelo amor a Deus, a discrição, a alegria, na transparência em ser aquilo que de fato é o nosso coração. O amigo que cultiva os relacionamentos e a arte de ter aprendido que dentro da vida comunitária não nos serve escondermos o que constitui o nosso potencial interior, a nossa verdade, aquilo que Deus mesmo realizou nas nossas vidas. Somos um mistério fascinante mesmo que tenhamos de admitir que a limitação e a fragilidade nos marquem. A amizade acontece mesmo quando é preciso tocar naquele mistério de graças como de misérias presentes no coração de cada um de nós. “Característica da amizade é a certeza de encontrar o imutável no mutável” (Giuseppe Colombero). Recordo-me de uma expressão que tomei conhecimento já há alguns anos: “Quero um amigo com o qual eu tenha, na sua presença, a liberdade de sentir-me fraco, ser diante dele aquilo que realmente eu sou” (Padre João Wilkes,CCSh).

Quando nos deparamos com as fragilidades dos nossos irmãos e amigos, costumamos considerar como um desafio, mas nunca ao ponto que nos desestimule. Acho que não é possível explicar o porquê que os irmãos nos escolhem como amigos, pois é Deus mesmo cuidando, protegendo, nos dando a sua misericórdia e nos convidando à santidade. Quando procuramos a amizade não a encontramos, porque a amizade verdadeira não é objeto de procura. Acredito que é Deus mesmo que cuida de despertar em nós todo o potencial humano e, sua graça utiliza-se das nossas capacidades humanas, tais como: a percepção, a intuição, o esvaziamento, humildade e a disposição para sairmos de nós mesmos para acolhermos o dom da vida do nosso irmão. Quando caçamos a amizade ela nos escorre pelos dedos, não a alcançamos porque ela se encontra primeiramente dentro de nós. Reconhecemos, essencialmente, no mais profundo do nosso coração aquela identidade que comunga com quem começa a viver conosco o período de conquista da amizade.

Não é possível que a amizade seja autêntica e transparente quando não deixamos que o próprio coração tenha sentido a necessidade de reconhecer o outro como alguém que parece trazer consigo aquelas disposições necessárias para conosco construir uma amizade. É pobreza de coração e de personalidade chamar alguém de amigo quando ainda de fato não o é. Quem acha que amizade é ter pressa em dizer que “somos amigos” e não compreende que ela é um exercício que exige escolha, decisão de amar, cultivo generoso, paciência, fidelidade e transparência, não está mesmo preparado para viver a amizade que atinge a profundidade e a maturidade. As pessoas superficiais costumam evidenciar suas amizades, não para celebrá-las, mas para fugir da sensação de angústia e dor de não terem amigos de verdade, amigos que foram conquistados, cultivados e inseridos no nosso ser mais profundo pelo próprio amor de Deus. Quem não trilha esse caminho constrói amizades vulgares e medíocres, interesseiras e incapazes de permanecerem quando chega o tempo da adversidade. Nessa condição, o amigo é amigo enquanto dele sempre consigo extrair, aprender ou ganhar algo que satisfaça as minhas próprias carências.

Temos necessidades de amizades verdadeiras que promovam a felicidade mais esplêndida e, pela partilha e comunicação, amenize a adversidade, a dor e a solidão que tantas vezes nos pesa na alma, próprios do caminho da purificação e do amadurecimento da liberdade interior. Descrevo aqui o que o filósofo Cícero escreveu no seu célebre tratado sobre a amizade: “É possível realmente viver a vida sem conhecer a felicidade de encontrar num amigo os mesmos sentimentos? Que haverá de mais doce que poder falar a alguém como falarias a ti mesmo?  Ora, a amizade encerra em si inumeráveis utilidades. Para onde quer que te voltes, lá está ela a teu alcance. Por isso nem o fogo nem a água, como se diz, são usados em tantos lugares quanto à amizade. Eis, pois, que a amizade apresenta vantagens muito numerosas e importantíssimas; mas a que a todas ultrapassa é a de inspirar uma doce confiança no futuro sem permitir que os ânimos desfaleçam ou sucumbam. Assim, quem contempla um amigo verdadeiro contempla como que uma imagem de si mesmo. Eis porque os ausentes se fazem presentes, os pobres se tornam ricos, os fracos ganham robustez e, o que é mais difícil de dizer, os mortos recobram vida: de tanto inspirarem estima, recordação e saudade aos seus amigos. Assim, uns parecem ter encontrado felicidade na morte, outros vivem uma vida digna de louvor”.

Alegro-me por ter a liberdade e a segurança de hoje poder ter amigos e amigas, embora compreendendo que a amizade é sempre um caminho de cultivo, doação e provas de amor, ainda que essa prova maior de amor seja a oração. As Sagradas Escrituras nos apresentam amizades que começaram e logo parecem ter atingido a maturidade. Um exemplo concreto e tão fecundo é a experiência da amizade que viveu Jônatan e David, como nos narra o Primeiro livro de Samuel: “Assim que David terminou de falar com Saul, Jônatan se apegou a David e começou a amá-lo tanto quanto a si mesmo” (I Sm 18,1-4). Assim também é possível acreditarmos que tantas amizades chegam a uma comunhão profunda de maneira misteriosamente rápida, e não podemos julgar que todas essas amizades sejam interesseiras ou movidas por sentimentos contrários aos que correspondem com os princípios do amor amizade.

Quando começamos a nos relacionar a pretensão do nosso coração não deve ser egoísta, mas deixar que Deus conduza na sua graça o relacionamento, caminhar com o dom da vida do outro na tranquilidade. É nisso que consiste a sabedoria de viver bem o próprio amor fraterno que já nos fez irmãos e participantes da comunhão e do mistério do Carisma Shalom. Aos poucos se vai percebendo que Deus, com a sua providência, vai cuidando de nos aproximarmos mais e sentirmos a necessidade de acolhermos o dom da amizade que desabrocha. Verdadeiramente, bem jovem pode ser uma amizade ou mesmo que se esteja começando agora a trilhar um longo caminho de surpresas, novidades, desafios e purificações, no entanto, a graça de Deus nos é dada para cada circunstância. A amizade não isenta-nos da tentação de sermos guiados pelas nossas vontades e feridas. Este é um risco e um desafio que todos os amigos passam e em todas as fases da amizade. A amizade comporta a necessidade dos amigos estarem lúcidos e com o coração em Deus, seus sentimentos e suas carências afetivas.

O ouro da caridade passará pela prova, como nos escreve nossa mãe Maria Emmir no livro “Fio de Ouro”. Ela diz: “O ouro, assim, é esse amor de amizade, que só existe quando é vivido e que é purificado no relacionamento concreto e não em conceitos abstratos. Não existe amor sem riscos. Não existe amizade sem risco. Não existe fé sem riscos, não existe confiança sem riscos”. Ao ver Emmir falar que “não há uma confiança sem riscos” me lembro das palavras da homilia do Cardeal Ratzinger na missa de início pelo conclave, quando cita as duas definições de amizade deixadas por Cristo: “Não há segredos entre amigos: Cristo nos diz tudo o que escuta do Pai; Dá-nos sua plena confiança e, com a confiança também o conhecimento”. A confiança construída sob a caridade é essa a maior segurança que temos no relacionamento da amizade; essa amizade é assim um bem nela mesmo por causa do reflexo do amor de Deus.

Não seria possível vivermos todos os riscos que comportam a amizade, sem de fato a vivermos numa dimensão vocacional na nossa vida. É preciso ter “paixão” pelas belezas que Deus colocou para a nossa felicidade. Infelizmente, a trajetória do homem ao longo dos últimos séculos o deixou escravo de si mesmo e dependente do que ele mesmo criou para tornar a vida mais eficiente e qualitativa. Os relacionamentos são os mais atingidos por essa ilusão do homem em “ter, possuir e poder”, de forma que sua vida se asfixia na solidão, na depressão e no isolamento mais cruel que ele possa viver. Como explicar os altos índices de suicídio e loucuras nos países de primeiro mundo? Como explicar o índice crescente da violência no meio da nossa juventude? Como explicar certa indiferença nas causas sociais, o esvaziamento das igrejas, o desencanto pela arte e pela vida social e comunitária? Se falarmos especificamente da vida consagrada, evidenciaremos muitas questões que hoje são preocupantes para aqueles que trabalham a formação na vida religiosa e para todos nós que vivemos a vida fraterna na Comunidade ou na Congregação ou Seminário.

Os homens estão isolados embora estejam juntos, por isso agonizam. Querem alguém que os escute ao menos. Gritam no seu silêncio que precisam de irmãos e de amigos, caso contrário, morrerão. Descobrem a cada dia que suas escolhas excluíram os relacionamentos e por isso correm os riscos de perder o mais belo de vida: viver para o outro! Estar com o outro; Eu presente nele; Ele presente em mim; Existir um para o outro e viver a vocação sublime da Caridade fraterna e da amizade para as quais nos criou Trindade. Felizes aqueles que têm amigos! Esta é uma das mais evidentes verdades da vida humana. É tão necessária a amizade como necessário é o ar para respirar! Relacionar-se é uma necessidade vital e uma arte que se aprende. Uma amizade autêntica nos abre a outras e nos capacita a superar obstáculos da vida comunitária. Uma amizade fecunda, livre, aberta aos outros, transparente, cultivada no serviço, na verdade e nos sentimentos de Cristo transforma as nossas vidas e a daqueles que estão ao nosso redor. Transborda na vida comunitária, onde quer que estejamos e gera alegria, convivência, harmonia, santidade. É esse o caminho e os frutos da vocação da amizade em nossas vidas. A vocação é sempre uma resposta livre ao chamado que alguém nos faz. A vida consagrada tem esse “mistério evidente.” Não seguimos uma coisa ou uma idéia, mas uma Pessoa: Jesus Cristo. Temos para com ele uma amizade verdadeira, transparente e livre. É Senhor e amigo ao mesmo tempo. Cristo é o referencial de todo amor humano e divino. Não há amizade segura e vocacionada à eternidade se não tem como fundamento Aquele que sublimou a nossa humanidade e nos deu a possibilidade nova de vivermos relacionamentos novos, santos e duradouros.

Isso não significa dizer que estamos prontos para amizade humana, porque na verdade não estamos! Tudo é graça de Deus! Não somos nós que sustentamos a amizade. Ela é primeiramente dom de Deus. Uma semente que é plantada no coração de dois irmãos para que cresça com a descoberta, a escolha, o cultivo e a decisão de amar o outro por ele mesmo, embora sejam eles tão diferentes. Quando vamos conhecendo o amigo, tão logo percebemos nossas semelhanças e aquilo que é comum nos desejos e na maneira de conceber a vida. As diferenças não anulam amizade e nem são obstáculos para que ela se desenvolva em toda a sua potencialidade.

O amor será sempre a força e o fundamento, o sentido e a vocação maior da amizade. Mas não esqueçamos que é Deus quem “rega” a semente e a faz crescer com a ajuda da nossa frágil colaboração, mas quando livre e na sua graça, gera muitos frutos que permanecem além do tempo e das fronteiras.

27 de outubro de 2015 - http://www.comshalom.org/a-vocacao-da-amizade-em-nossas-vidas/ 

 

Matéria 6 O ateísmo "paz e amor"

 

“Organizador da comunidade de ateus e agnósticos da Universidade Harvard, Stedman afirma que a diversidade de opiniões deve ser celebrada. “As pes­soas fazem coisas boas ou ruins com ou sem religião”, afirma. Para ele, os ateus devem se organizar em comunidades para debater em pé de igualdade o privilégio religioso em sociedades como a americana.”

 

Uma nova geração de pensadores ateus defende a tolerância religiosa 
e questiona a militância do biólogo Richard Dawkins e de seus seguidores

 

Um dos biólogos mais brilhantes e influentes da atualidade trocou a ciência pelas discussões religiosas. A maior parte de seu tempo é dedicada a escrever e a falar sobre Deus. Seria apenas mais um caso de fanatismo religioso, não fosse um fato: Richard Daw­kins não tem religião. Britânico de 72 anos, autor de Deus, um delírio, ele é um dos mais célebres militantes do ateís­mo. Seu estilo aguerrido e suas críticas impiedosas a diversas religiões, ocidentais e orientais, deram visibilidade aos ateus nos últimos anos – e renderam um sem-número de críticas a sua intolerância. Em agosto, uma frase sua sobre a pequena quantidade de muçulmanos vencedores do Prêmio Nobel despertou indignação nos jornais e nas redes sociais. Em resposta, o escritor Reza Aslan, muçulmano, afirmou que Dawkins era “o pior tipo de fanático”. “Ele diz que nunca leu o Alcorão, mas tem certeza de que o islã é a maior força do mal no mundo.”

 

>> A volta do Jesus revolucionário

 

A postura agressiva e muitas vezes preconceituosa de Dawkins e de seus asseclas, como o neurocientista americano Sam Harris ou o filósofo americano Daniel Dennett, começa aos poucos a ceder espaço a um ateísmo de postura mais tolerante. O filósofo britânico A.C. Grayling é um representante dessa transição. Grayling está longe de ser um fã da religião. “O mundo seria bem melhor se não acreditássemos em conto de fadas”, disse ele a ÉPOCA. “A religião é simplesmente inconsistente com a modernidade.” Mas suas obras são bem menos cáusticas que as de Daw­kins. Em março, Grayling lançou The god argument (O argumento divino, em tradução livre). O livro apresenta argumentos filosóficos contra a existência de Deus. Trata-se basicamente de um manifesto humanista. Mesmo acreditando que a religião é prejudicial à humanidade, Grayling não gasta muita energia em debates com religiosos. Em 2011, ele publicou The good book (O livro bom), uma espécie de guia de vida para ateus. Em 608 páginas, apresenta citações e conceitos de grandes pensadores, como Aristóteles, Confúcio, Cícero, Isaac Newton e Charles Darwin, em capítulos e versículos. Não bastasse isso, Grayling imita a estrutura bíblica. O primeiro capítulo, sobre a origem do Universo de acordo com a ciência, é o Gênesis – então seguido de Lamentações e Provérbios, e assim por diante. Em vez de apenas criticar as religiões, os livros de Grayling tentam construir alternativas a elas.

>> Lawrence Wright: "A religião muda pessoas para o bem e para o mal"

 

Um passo além de Grayling estão os ateus que desejam dialogar com religiosos. Um defensor da ideia é o americano Chris Stedman. Autor de blogs de religião no jornal Washington Post, no site da emissora CNN e no site Huffington Post, ele lançou em novembro do ano passado o livro Faitheist (trocadilho com as palavras “ateu” e fé”, em inglês). Organizador da comunidade de ateus e agnósticos da Universidade Harvard, Stedman afirma que a diversidade de opiniões deve ser celebrada. “As pes­soas fazem coisas boas ou ruins com ou sem religião”, afirma. Para ele, os ateus devem se organizar em comunidades para debater em pé de igualdade o privilégio religioso em sociedades como a americana. 


 

As várias maneiras de não acreditar (Foto: David Levenson/Getty Images (2), divulgação (2),  Jeremy Sutton-Hibbert/Getty Images e Colin McPherson/Corbis)

 

Mas sem incitar qualquer tipo de rixa. “Uma verdadeira sociedade secular precisa de pluralismo”, afirma. Para Stedman, os ateus e religiosos devem se engajar em diálogos construtivos e pacientes. “É preciso identificar valores em comum, porque a religião dificilmente sairá do mapa. A cooperação é extremamente necessária num mundo em que as vozes extremistas costumam afogar as outras”, diz. Stedman fala com conhecimento de causa. Em suas próprias palavras, ele era um “católico fundamentalista” antes de virar ateu.

 

O filósofo suíço Alain de Botton é ainda mais conciliador que Stedman. “Tenho um respeito profundo pela religião, apesar de não acreditar em seus aspectos sobrenaturais”, disse Botton a ÉPOCA. “As grandes religiões são enormes máquinas capazes de transmitir ideias sobre a bondade, a morte, a família e a comunidade. Não há nada parecido com isso no mundo laico, e isso é uma pena.” Em seu livro Religião para ateus (editora Intrínseca), Botton se propõe a “roubar” das religiões ideias sobre como viver. Uma de suas sugestões mais polêmicas é a construção de um templo para ateus, no centro de Londres. Dawkins, é claro, detestou a ideia. “Ateus não precisam de templos para buscar o sentido da vida”, disse ele ao jornal britânico The Guardian. Botton, em resposta, afirmou que a ideia era uma reação a Dawkins. “Por causa de Richard Dawkins, o ateísmo tornou-se conhecido como uma força destrutiva”, diz. “Escrevo para pessoas que não acreditam em Deus, mas, mesmo assim, reconhecem o lado positivo da religião: os rituais, a arquitetura, a música e a conexão com o passado.”

 

Nem todos os ateus aderiram à postura mais tolerante defendida por Botton e Stedman. Um exemplo é a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea). Ela tem 10 mil membros e arrecada R$ 2 mil por mês. Apesar dos números modestos, ganhou destaque ao organizar a primeira campanha publicitária ateísta do país em Porto Alegre. Em julho, voltou às manchetes graças a um protesto contra os gastos públicos relacionados à chegada do papa Francisco ao Brasil. “É preciso ser enérgico. Quem não é engajado ignora os males causados pela religião, como a ascensão da bancada evangélica no Brasil”, diz Daniel Sottomaior, um dos fundadores da Atea. “Até porque criar ativismo para depois ficar sentado não faz muito sentido.”

 

Nesse debate, uma das vozes mais sensatas é de Peter Steinberger, professor de ciência política do Reed College, em Portland, nos Estados Unidos. Steinberger lançou em julho o livro The problem with God: why atheists, true believers, and even agnostics must all be wrong (O problema com Deus: por que ateus, crentes e até agnósticos devem todos estar errados). O livro defende uma tese antiga, mas esquecida no meio do debate religioso iniciado por Dawkins: qualquer discussão relacionada à existência divina é uma perda de tempo. “As religiões são incoerentes, mas Dawkins também é incoerente por não ter uma prova definitiva da inexistência de Deus”, diz. “Os novos ateus acham que a ciência atual é suficiente para explicar o mundo, mas isso não é possível.” Se as discussões entre religiosos e ateus se esvaziarem por falta de provas, como Steinberger sugere, os ateus moderados estarão um passo à frente dos militantes: terão sido os primeiros a abandonar um confronto inútil e a buscar maneiras de coexistir com os religiosos. “Ser ateu é como não colecionar selos”, diz Grayling. “É possível ser um ‘não colecionador de selos’ militante? Basta não colecionar selos.” 


Os 10 mandamentos do bom ateu (Foto: ÉPOCA)
FELIPE PONTES E DANILO VENTICINQUE - Revista Época
18/09/2013 



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