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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

José Mariano Beltrame ex-secretário de Segurança do Rio (Foto: Andre Arruda/ÉPOCA)

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O ex-secretário José Mariano Beltrame. Até ele se assustou ao ver armas de grosso calibre em um assalto na rua no Recife (Foto: Andre Arruda/ÉPOCA)

 

O ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro atesta que os governos estão paralisados diante do avanço da criminalidade no Brasil

 

Sondado por deputados do PMDB para ser secretário nacional de Segurança do governo Michel Temer, José Mariano Beltrame recusou. Diz querer distância do serviço público para sempre. Aposentado da Polícia Federal, está satisfeito como consultor da mineradora Vale. “Na iniciativa privada, tudo é mais ágil”, diz. Em dez anos como secretário de Segurança do Rio de Janeiro, ele criou as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e reduziu os índices de criminalidade, que voltaram a crescer de forma alarmante. “Só uma união de esforços pode mudar o quadro. Nessa luta do bem contra o mal, não pode haver tantas barreiras constitucionais”, afirma nesta entrevista a ÉPOCA. Dos tempos de governo, Beltrame mantém apenas dois guarda-costas, devido às 51 ameaças de morte que colecionou. E duas ações judiciais contra o ex-governador Anthony Garotinho, que insinuou haver ligação dele com o esquema de propinas do ex-governador Sérgio Cabral, preso por corrupção.

 

ÉPOCA – Seus seguranças são da secretaria ou da Vale?
José Mariano Beltrame –
 Da secretaria. É padrão. Ando só com dois agora. O resto eu dispensei. Estou pensando em desmamar esses também. Mantenho por enquanto a segurança porque é mais fácil acontecer algo comigo agora, eu saí com muito recadinho, 51 ameaças de morte. Foram muitas punições, muitas expulsões de policiais que não se conformam.

 

ÉPOCA – O senhor sente mais medo de policial que de bandido?
Beltrame –
 Dos milicianos, que eu também considero bandidos. Policial que se desvia de conduta é pior que bandido comum. O traficante, quando perde, entende e aceita. O policial em desvio não.

 

ÉPOCA – O senhor foi convidado a integrar o governo Michel Temer?
Beltrame – 
O convite formal do governo Temer não houve, apenas sondagem e muita especulação. Não aceitaria nem aceitarei. Não tenho mais interesse no serviço público. Foram 36 anos de serviço – e os últimos dez, como secretário no Rio, eu vivi de maneira muito intensa. Posso até um dia contribuir, mas não quero mais vínculo. No Rio, se forem situações sérias, transparentes e objetivas, estou sempre disposto a ajudar caso precisem de mim. Em São Paulo, faço parte do conselho de segurança do prefeito João Doria, sem remuneração.

 

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ÉPOCA – Como o senhor vê o acirramento da violência no Rio de Janeiro?
Beltrame – 
Vejo com muita tristeza. Porque é uma realidade nacional. A atuação do PCC [Primeiro Comando da Capital, a maior facção criminosa do país] no Recife, o túnel que os presos escavavam no Rio Grande do Sul... o serviço público brasileiro está ruindo, a segurança em primeiro lugar. Infelizmente, não vejo nenhuma atuação concreta para que isso seja evitado e repensado. Acho que o governo federal precisa entrar, mas corre do problema e vê tudo à distância. Os estados terão cada vez mais dificuldade de fazer frente a isso.

 

ÉPOCA – O que pode mudar isso?
Beltrame –
 Só uma união de esforços. Iniciamos no Rio quando juntamos várias entidades em prol de um projeto. Continuo achando que é uma luta do bem contra o mal. Não pode haver muitas fronteiras nem tantas barreiras constitucionais. O Ministério da Defesa tem de entrar nisso para mitigar o problema. Que os Ministérios e secretarias conversem entre si e mostrem à população um horizonte ao menos. Sem segurança, nada prospera. A violência barra investimentos, afugenta empresas, impede que as pessoas saiam de casa.

 

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ÉPOCA – A quais barreiras o senhor se refere?
Beltrame –
 O Exército alega limitações constitucionais, a Polícia Federal também. Não falo de rasgar a Constituição. Mas de unir esforços com a Polícia Rodoviária, a Receita Federal, o Coaf que podem buscar muito para a Segurança na movimentação financeira. O Brasil precisa disso. Quando se quer mudar a Constituição, se muda até de madrugada no Brasil. A luta da segurança não se vence. O que pode dar a vitória a longo prazo é educação e coisas atreladas às causas da violência. No momento, os governos nem pensam em estratégia, estrutura, em planejamento.

 

ÉPOCA – Qual sua opinião sobre essas convocações-relâmpago das Forças Armadas?
Beltrame – 
Isso não pode acontecer, esse vaivém eterno. Precisamos perenizar essas atuações junto com as polícias, dividir esse ônus. Temos um contingente imenso dentro do Ministério da Defesa que pode ser somado à Força Nacional, à Polícia Federal, à Polícia Rodoviária, às polícias estaduais. Um mapeamento, uma estratégia, metas. De que adianta dizer que, segundo a Constituição, o problema é dos estados? Essa é uma desculpa que não dá para dar.

 

ÉPOCA – Greve de policiais é ilegal?
Beltrame –
 Acho que tudo deve ser feito em ordem e com sensatez. É possível fazer um movimento em que os atendimentos essenciais à população sejam mantidos, para evitar o caos. O que não pode é deixar a população desassistida. No Rio de Janeiro, as polícias se comportaram bem. A paralisação no Espírito Santo não poderia ter acontecido.

 

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ÉPOCA – A ferocidade dos motins em presídios o surpreendeu?
Beltrame –
 O Brasil tem certas batalhas já avisadas e as atitudes não são tomadas. O sistema carcerário é uma delas. É preciso uma inteligência carcerária que oriente os serviços de segurança. No Rio, nós antecipamos muita coisa nos presídios. Nós mandamos cerca de 90 bandidos para presídios federais. Fundamentalmente, é preciso identificar as lideranças, separá-las e mandar para fora do estado.

 

ÉPOCA – O PCC se tornou a facção mais poderosa?
Beltrame – 
Desde setembro principalmente, o PCC formou uma rede muito grande nos presídios. Foi quando mataram as lideranças do tráfico de armas, drogas e munições no Paraguai. Agora, o Brasil está dentro do Paraguai, com o PCC e o Comando Vermelho comprando e remetendo cada vez mais armas para nossas cidades. O assalto ao carro-forte no Recife, por exemplo. Nunca imaginei ver .50, .30, AK-47 em assalto na rua no Recife. Mas assaltaram a Brinks e levaram R$ 60 milhões. Essa foi uma ação planejada que tem a cara do PCC. Há coisas anunciadas que a gente não pode ficar esperando acontecer. Na semana passada, foram apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal na estrada, escondidos dentro do painel de um carro, 9 mil cartuchos de fuzil 762, a arma automática de maior energia, velocidade e potência que existe. Imagina tudo isso dentro de uma cidade como o Rio.

 

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ÉPOCA – O senhor sente alívio por não chefiar a segurança de um estado falido?
Beltrame –
 Não, eu não diria isso. Fui muito feliz no período em que estive na secretaria. O que sinto hoje é tristeza. A situação financeira do Rio é gravíssima.

 

ÉPOCA – Como agir para mexer nos números da violência no estado do Rio de Janeiro?
Beltrame –
 Ah, eu iria insistir muito na união dos esforços. O estado colocou todas as suas forças na rua. Mas há uma série de limitações. Uma hora falta combustível, outra alimentação para cavalo ou para cães. Ficamos vulneráveis. A crise chegou até ao tráfico. Traficantes apelam para roubo de veículos e de carga, furto de rua.

 

ÉPOCA – O senhor trabalhou sete anos com o governador Sérgio Cabral, preso por corrupção. Como vê a situação dele?
Beltrame –
 Vejo com tristeza. Meu contato com ele era no Palácio. Não sabia detalhes da vida dele. Não tínhamos intimidade. Eram despachos, conversas sobre trabalho.

 

ÉPOCA – Como o senhor se sentiu quando foi publicada sua foto com seus filhos na lancha de Cabral, presenteada pelo empresário Paulo Magalhães Pinto?
Beltrame –
 Diante dessas pessoas que tentam denegrir minha imagem e de minha família, procuro o caminho racional e democrático, que é a Justiça. Tenho duas ações contra o [ex-governador Anthony] Garotinho com sentença já dada. Quando iria imaginar que a lancha que o governador me emprestara não tinha sido comprada legalmente? 

 

ÉPOCA – O apartamento em que o senhor morava pertence ao empresário Paulo Magalhães Pinto, apontado como “laranja” de Cabral?

Beltrame – Uma coisa é o apartamento pertencer a alguém – e esse alguém era um empresário, amigo do governador. Outra coisa é saber se eu pagava o aluguel e as taxas. Garotinho me acusa de viver de favor. E pagará por isso. Tenho todos os documentos provando que sempre paguei e declarei tudo. Esse é outro motivo da ação judicial. Não pode uma pessoa entrincheirada na internet vir com acusações infundadas e perseguir sua família. Exijo de Garotinho na Justiça R$ 120 mil por danos morais. O que ele fez é crime. 

 

08/03/2017 
 
 
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