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"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

 
Ao ler a notícia ontem à noite, veio ligeiro o verso de Dylan Thomas:

"Não entres nessa noite acolhedora com doçura,

Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;

Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura."

A lembrança do poema era o consolo pelo falecimento de Geneton Moraes Neto, profissional do primeiro time cuja qualificação de jornalista não apenas definia o seu ofício, mas ele próprio, Geneton, engrandecia a profissão. Não foi por acaso que ele, dono de um coração enorme, tenha perdido a batalha para um aneurisma na aorta do órgão que simbolizava a sua generosidade.

Era dos poucos jornalistas brasileiros vivos por quem eu nutria admiração e respeito. Sua dignidade pessoal manifestava-se na sua integridade profissional. O seu trabalho ensinou-me a ser um jornalista melhor durante os 12 anos em que exerci o ofício.

Graças a Geneton conheci um pouco mais do que pensavam as grandes cabeças do Brasil e do exterior. Era um entrevistador excelente, o melhor que pude ver em ação. Sua entrevista com o historiador Paul Johnson é excelente; sua entrevista com Paulo Francis é antológica.

Conheci Geneton pessoalmente em 2004. Fui entrevistar a minha referência de entrevistador. Na época, eu iniciava um projeto, depois sepultado, de escrever a biografia do Paulo Francis, que ambos admirávamos. Tenho o áudio desta conversa e não tive coragem de ouvi-lo hoje. Naquele dia, constatei que o Geneton entrevistado era tão excelente quanto o Geneton entrevistador. Alguns anos depois, em 2007, tive o privilégio de ser convidado por ele para escrever no seu blog coletivo Sopa de Tamanco.

Ultimamente, ele também comandava o programa Dossiê, na GloboNews. Formulava as perguntas certas, não se furtava a perguntar, inseria questões que ampliavam a conversa e extraíam o que de melhor o entrevistado tinha a oferecer. Era um prazer vê-lo em ação.

Na última vez em que encontrei Geneton, há poucos meses atrás num café perto da TV Globo no Rio, sempre empolgado e fascinante, ele me falou do projeto do livro com as entrevistas feitas por Paulo Francis que seria lançado em breve. Conversamos novamente sobre um projeto dele para a GloboNews no qual eu participaria. Também falamos de história do Brasil, sobre o meu livro "Pare de Acreditar no Governo" (Editora Record), que ele leu e gostou, sobre o momento político brasileiro, sobre jornalismo, sobre política inglesa, sobre Londres. Sua grandeza e inteligência transbordavam com um sorriso largo.

Nossa última conversa foi por telefone duas semanas antes dele ser internado em maio. Na semana passada, sem saber que ele ainda estava no hospital, tentei ligar e deixei recado em seu celular. Só ontem soube a razão do silêncio. Hoje o dia amanheceu nublado.

Se ontem pensei no poema de Dylan Thomas, hoje lembrei-me do verso de W. H. Auden em Memória de W. B. Yeats:

"Terra, eis um hóspede honroso:

William Yeats jaz em repouso.

Da Irlanda a taça caída

Eis vazia de poesia."

Da terra hóspede honroso, agora jaz em repouso, um homem que tornava o Brasil melhor.

Por: Bruno Garschagen em 

Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/brasil/sem-mimimi/em-memoria-de-geneton-moraes-neto-19981000.html#ixzz4IQhi2HuA

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