Pokemon Go. O jogo que deixou o mundo louco

Desafio lançado para smartphone há pouco mais de uma semana está no top dos oito países onde já chegou e contabiliza mais de 65 milhões de jogadores. Portugal não é exceção

Horas depois da chegada do novo jogo Pokémon Go a Portugal, na sexta-feira, já havia vários anúncios de "Poké Táxis" no portal OLX: a oferta de um serviço de transporte para que fãs do jogo possam andar pelas cidades a apanharem Pókemon.

Na mesma altura, os três grandes do futebol aderiram à febre do jogo de realidade aumentada. O Sporting partilhou a imagem de um Squirtle a ser apanhado na Loja Verde. O Benfica declarou o Estádio da Luz como "o melhor e mais bonito PokéStop do mundo." O Futebol Clube do Porto foi dar com um Onix nas bancadas do Estádio do Dragão. Está instalada a loucura com este novo jogo para smartphones que em pouco mais de uma semana colocou o mundo do jogo online em ebulição.

Ana Barros, de 21 anos, conta ao DN que o namorado "já estourou dinheiro em dados móveis" para jogar Pokémon Go. Lúcia Amaro, de 25 anos, diz que não quer gastar dinheiro a comprar items dentro do jogo, mas está a adorar a experiência. "Gosto que tenham trazido para nossa realidade os bonecos com que muitos de nós crescemos", explica. "É giro ver os nossos Pokémon favoritos no ambiente que nos rodeia", acrescentou.

Lúcia esteve a trabalhar no festival Super Bock Super Rock que terminou ontem e aproveitou todos os momentos de pausa para "apanhar" Pokémons por ali, no Parque das Nações. Há centenas destas pequenas criaturas fantásticas, que podem surgir em qualquer lado e aparecem sobrepostas à realidade no ecrã do smartphone. Mas o truque do jogo é que obriga os utilizadores a andarem: os Pokémon estão nas ruas, nos parques, nos jardins. Nascida nos anos noventa, Lúcia cresceu a jogar Pokémon, a trocar cartas do jogo e a ver a série animada na televisão. O franchise original surgiu em 1996, concebido por Satoshi Tajiri para a consola Game Boy da Nintendo, e tornou-se um sucesso mundial.

O fenómeno regressou agora em força com este jogo gratuito, o primeiro da Nintendo para smartphones, e a febre apanhou toda a gente. "Tenho colegas meus a jogarem", revela. "Ainda ontem me perguntaram se havia algum ginásio por aqui. E, ao que parece, o Meo Arena é um ginásio para treinar Pokémon."

Os "ginásios" são locais onde os "treinadores" se podem concentrar para porem as suas criaturas a lutarem contra outras. Já as PokéStops, como o Estádio do Luz, são locais em que o jogador pode ir abastecer-se de PokéBalls - bolas para apanhar os Pokémon - e, com sorte, de ovos. Pode depois pôr os ovos numa incubadora e fazer nascer um novo Pokémon... mas só depois de andar 2, 5 ou 10 quilómetros. Bem-vindos ao plano de fitness do Pokémon Go.

A origem do jogo

Se o Pokémon Go ainda agora chegou a Portugal, como é que já tem o Estádio da Luz na lista de PokéStops? E o Meo Arena (Parque das Nações) como ginásio? Tudo se explica com a sua origem. Este título é, na verdade, uma aplicação de mapas com uma camada de jogo por cima. A Niantic Labs, que criou o jogo, é um spin-off da gigante Google. E por trás da Niantic estão os visionários que levaram à criação do Google Earth.

Para perceber como foi criado o Pokémon Go, é preciso recuar a 2004. Foi nesse ano que a Google comprou uma startup chamada Keyhole, que usava uma base de dados de imagens por satélite e fotos aéreas para criar mapas 3D interativos e permitia fazer zoom até às próprias ruas. A solução "Earth Viewer" emergiu no ano seguinte como "Google Earth", e vários dos seus responsáveis transitaram para a Google - incluindo John Hanke, o CEO. Cinco anos depois, em 2010, Hanke decidiu criar uma startup interna dentro da tecnológica, chamada Niantic Labs, que foi lançando uns jogos e aplicações interessantes, como o Ingress.

Em 2014, tal como faz todos os anos, a Google preparou uma mentira elaborada para mostrar aos utilizadores a 1 de abril. Chamava-se "Google Maps: Pokémon Challenge" e prometia uma nova versão da app de mapas que permitia ver e apanhar Pokémon nos sítios mais estranhos - como florestas e no cume de montanhas. O objetivo era encontrar o "Pokémon Master", uma nova vaga aberta na Google. O vídeo tem hoje quase 19 milhões de visualizações e foi a semente que fez brotar a ideia do Pokémon Go: Hanke perguntou-se se não seria possível tornar isso realidade. Quando reuniu com executivos da Pokémon Company (uma joint venture entre a Nintendo, a Creatures e a Game Freak), percebeu que estavam a pensar em algo semelhante. A Niantic Labs acabou por se tornar uma empresa independente em agosto de 2015 e concluiu o jogo a tempo do verão deste ano.

As referências locais - PokéStops e ginásios - vão buscar os dados geográficos ao Google Maps e usam a base de dados do Ingress, que permitia aos utilizadores carregarem locais na plataforma. Isso significa que nalguns casos as imagens ou o tipo de local podem estar desatualizados, ou ser inapropriados.

Por exemplo, o Museu do Holocausto em Washington DC pediu às pessoas que não joguem por ali, e há petições para retirar do mapa o Ground Zero em Nova Iorque, onde as torres gémeas foram atacadas no 11 de setembro de 2001. Em Massachusetts, um homem viu o seu quintal invadido por jogadores porque a sua casa é uma antiga igreja que aparece no mapa como um local de treino. E os jogadores lutam para que o seu Pokémon seja o "dono" de cada ginásio. A loucura, ao que parece, está apenas a começar