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O futuro da humanidade é muitas vezes visto como um tema para uma especulação ociosa. No entanto, nossas crenças e suposições sobre esta matéria influenciam as decisões tanto em nossas vidas pessoais - como em políticas públicas - decisões que têm consequências muito reais e às vezes desafortunadas. Por isso, é importante de um ponto de vista prático, tentar desenvolver um modo realista do pensamento futurista sobre as questões de largo espectro para a humanidade. Este artigo traça um panorama de algumas tentativas recentes nessa direção, e oferece uma breve discussão de quatro famílias de cenários para o futuro da humanidade: extinção, colapso recorrente, platô e pós-humanidade.

O futuro da humanidade como um tema inescapável

Em certo sentido, o futuro da humanidade compreende tudo o que vai acontecer a qualquer ser humano, incluindo o que você vai comer no café da manhã da próxima quinta-feira e todas as descobertas científicas que serão feitas no próximo ano. Nesse sentido, é pouco razoável pensar no futuro da humanidade como um tema: é demasiado grande e demasiado diversificado para ser abordado como um todo em um único ensaio, monografia, ou mesmo em coleções de livros de 100 volumes. O futuro é concebido como um tema por meio de abstração. Nós abstraímos através de detalhes e flutuações de curto prazo e desenvolvimentos que afetam somente alguns aspectos limitados de nossas vidas. A discussão sobre o futuro da humanidade é sobre como as características importantes e fundamentais da condição humana podem mudar ou permanecer constantes num longo prazo.

Quais são as características da condição humana que são importantes e fundamentais? Nesta questão pode haver razoável discordância. Entretanto algumas características são qualificadas quase como um padrão. Por exemplo, se e quando a vida originária da Terra for extinta, se a galáxia vai ser colonizada, se a biologia humana será fundamentalmente transformada para nos fazer pós-humanos, se a inteligência da máquina vai superar a inteligência biológica, se o tamanho da população vai explodir, e se a qualidade de vida vai melhorar radicalmente ou deteriorar-se: todas essas são questões importantes e fundamentais  sobre o futuro da humanidade. Questões menos fundamentais - por exemplo, sobre metodologias ou projeções tecnológicas específicas - também são relevantes na medida em que formam os nossos pontos de vista sobre mais parâmetros fundamentais.

Tradicionalmente, o futuro da humanidade tem sido um tema para a teologia. Todas as grandes religiões têm ensinamentos sobre o destino final da humanidade ou sobre o fim do mundo.1

1 (Hughes 2007)

Temas escatológicos, também foram  explorados por filósofos de grande nome, como Hegel, Kant e Marx. Em tempos mais recentes o gênero literário de ficção científica deu continuidade a essa tradição. Muitas vezes, o futuro tem servido como uma tela de projeção para as nossas esperanças e medos; ou como um palco para o entretenimento dramático, contos de moralidade, ou sátira de tendências na sociedade contemporânea; ou como uma bandeira para a mobilização ideológica. É relativamente raro o futuro da humanidade ser levado a sério como uma matéria sobre a qual seja importante  tentar formar crenças factualmente corretas. Não há nada de errado com a exploração de fantasias  simbólicas e literárias em torno de um futuro desconhecido, assim como não há nada de errado em fantasiar sobre países imaginários povoados por dragões e bruxos. No entanto, é importante tentar (da melhor forma que pudermos)  distinguir cenários futuristas baseados no seu significado simbólico ou num valor de entretenimento, de especulações que se destinam a ser avaliadas com base numa plausibilidade literal. Somente a última forma de um  pensamento futurista “realista" será considerada neste artigo.

Precisamos de imagens realistas sobre o que o futuro pode trazer, a fim de tomarmos decisões sensatas. Cada vez mais, precisamos de imagens realistas, não só de nossos futuros pessoais ou locais de curto prazo, mas também de futuros remotos e globais. Devido aos nossos poderes tecnológicos expandidos, algumas atividades humanas têm agora impactos globais significativos. A escala da organização social humana também cresceu, criando novas oportunidades de coordenação e ação, e há muitas instituições e indivíduos que ou consideram, ou clamam considerar ou deveriam considerar os possíveis impactos globais a longo prazo de suas ações. A mudança no clima, a segurança nacional e internacional, o desenvolvimento econômico, a eliminação de resíduos nucleares, a biodiversidade, a conservação dos recursos naturais, a política demográfica e o financiamento da pesquisa científica e tecnológica são exemplos de áreas políticas que envolvem horizontes de longo prazo.  Argumentos nessas áreas muitas vezes dependem de pressupostos implícitos sobre o futuro da humanidade. Ao fazer estas suposições explícitas, e sujeitando-os a uma análise crítica, deveria ser possível considerar alguns dos grandes desafios da humanidade de uma forma mais bem ponderada e bem pensada.

O fato de que "precisamos" de imagens realistas do futuro não implica que possamos tê-las. Previsões sobre futuros desenvolvimentos técnicos e sociais  são notoriamente não confiáveis - de tal forma que tem levado alguns a propor que abandonemos totalmente as previsões em nosso planejamento e preparação para o futuro. No entanto, enquanto os problemas metodológicos de tais previsões são certamente muito significativos, a visão extrema de que podemos ou devemos abandonar completamente a previsão é equivocada.

Este ponto de vista é expresso, para dar um exemplo, em um artigo recente de Michael Crow e Daniel Sarewitz sobre as implicações sociais da nanotecnologia  em que eles argumentam que a questão da previsibilidade é "irrelevante":

A preparação para o futuro, obviamente, não requer previsão precisa; ao contrário, ela requer uma base de conhecimentos sobre a qual se baseiam a ação, a capacidade de aprender com a experiência, o ato de prestar atenção ao que está acontecendo no presente, e saudáveis ​​e resilientes instituições que possam responder eficazmente ou se adaptar às mudanças em tempo hábil. 2

Note-se que cada um dos elementos do Crow e Sarewitz mencionam como necessários à preparação para o futuro depende de alguma forma da previsão precisa. Umacapacidade de aprender com a experiência não é útil para a preparação para o futuro, a menos que possamos assumir corretamente (prever) que as lições que derivam do passado serão aplicáveis a situações futuras. Muita atenção ao que está acontecendo no presente é igualmente inútil, a menos que nós possamos assumir que aquilo que  está acontecendo no presente vai revelar tendências estáveis ​​ou, caso contrário,  outro modo não vai lançar luz sobre o que é provável acontecer a seguir. Também requer previsão não trivial para descobrir que tipo de instituição irá se revelar saudável, resistente e eficaz na resposta ou adaptação às mudanças futuras.

A realidade é que a previsibilidade é uma questão de grau, e diferentes aspectos do futuro são previsíveis com diferentes graus de confiabilidade e precisão.3

Muitas vezes pode ser uma boa idéia desenvolver planos que sejam flexíveis e adotar políticas que sejam robustas sob uma ampla gama de contingências. Em alguns casos, também faz sentido adotar uma abordagem reativa que consiste na rápida adaptação à mudança das circunstâncias, em vez de seguir um detalhado plano de longo prazo ou uma agenda explícita. No entanto, essas estratégias de enfrentamento são apenas uma parte da solução. Outra parte é trabalhar para melhorar a precisão de nossas crenças sobre o futuro (incluindo a precisão das previsões condicionais da forma "se x é feito, y resultará").

Pode haver armadilhas em cuja direção estejamos caminhando e cuja queda só poderíamos evitar por meio de previsão. Há também oportunidades que poderíamos alcançar muito mais cedo se pudéssemos vê-las mais à distância com antecedência. E em um sentido estrito, a previsão é sempre necessária para a uma tomada de decisão significativa.

2 (Crow e Sarewitz 2001)

3 Por exemplo, é provável que os computadores se tornem mais rápidos, que materiais se tornem mais fortes e que a medicina vá curar mais doenças; cf. (Drexler 2003).

4 Você levanta o copo à boca, porque você prevê que a bebida vai saciar a sua sede; você evita passar na frente de um carro em alta velocidade porque você prevê que a colisão vai feri-lo.

A previsibilidade não falha necessariamente em função da distância temporal. Pode ser altamente imprevisível onde uma viajante estará uma hora após o início da sua viagem, mas é previsível que após cinco horas ela estará no seu destino. O futuro longínquo da humanidade pode ser relativamente fácil de prever, sendo uma questão passível de estudar pelas ciências naturais, especialmente a cosmologia (escatologia física). E para que haja um certo grau de previsibilidade, não é necessário que seja possível identificar um cenário específico como aquele que vai definitivamente  acontecer.

Se houver pelo menos algum cenário que possa ser descartado, isto também expressa um grau de previsibilidade. Mesmo na ausência deste, se houver alguma base para atribuir diferentes probabilidades (no sentido de graus de crença) a diferentes proposições acerca de logicamente possíveis eventos futuros ou alguma base para criticar algumas dessas distribuições de probabilidade como sendo menos racionalmente defensáveis ​​ou razoáveis do que outras, então novamente, há um grau de previsibilidade. E este é certamente o caso em relação a muitos aspectos do futuro da humanidade.

Enquanto nosso conhecimento é insuficiente para limitar o espaço de possibilidades para um futuro da humanidade, amplamente delineado, sabemos de muitos argumentos e considerações pertinentes que, em combinação impõem restrições significativas sobre o que uma visão plausível do futuro possa parecer.

O futuro da humanidade não precisa ser um tema sobre o qual todos os pressupostos sejam totalmente arbitrários e qualquer coisa pode acontecer. Há um imenso abismo entre saber exatamente o que vai acontecer e não se ter absolutamente nenhuma pista sobre o que vai acontecer. A nossa localização epistêmica real é algum lugar da costa deste abismo .5

Tecnologia, crescimento e direcionalidade

A maioria das diferenças entre as nossas vidas e as vidas de nossos antepassados ​​caçadores-coletores  estão em ultima instância, vinculadas à tecnologia, especialmente se entendermos a "tecnologia" em seu sentido mais amplo, para incluir não apenas “gadgets” e máquinas, mas também técnicas, processos e instituições. Neste sentido amplo, poderíamos dizer que a tecnologia é a soma total de informação culturalmente transmissível e instrumentalmente útil. A linguagem é, neste sentido, uma tecnologia  juntamente com tratores, metralhadoras, algoritmos de ordenação, contabilidade de dupla entrada, e as regras de ordem de Robert. 6

A inovação tecnológica é o principal motor do crescimento econômico a longo prazo. Em escalas de longo prazo, os efeitos compostos de um crescimento anual médio, mesmo sendo modestos, são profundos. A mudança tecnológica é em grande parte responsável por muitas das tendências seculares em tais parâmetros básicos da condição humana como o tamanho da população mundial, a expectativa de vida, níveis de educação, padrões materiais de vida e da natureza do trabalho, comunicação, cuidados com a saúde, guerra e os efeitos das atividades humanas sobre o meio ambiente natural. Outros aspectos da sociedade e nossas vidas individuais também são influenciados pela tecnologia de muitas maneiras diretas e indiretas, incluindo governança, entretenimento, relações humanas, e os nossos pontos de vista sobre a moralidade, a mente, a matéria e a nossa própria natureza humana. Nós não temos que abraçar nenhuma modelo forte de determinismo tecnológico para reconhecer que a capacidade tecnológica - através de suas complexas interações com indivíduos, instituições, culturas e ambiente - é um fator chave das regras básicas em que os jogos da civilização humana se desenrolam. 7

5 Para mais informações sobre tecnologia e incertezas, consulte (Bostrom 2007b).

6 Na terminologia proposta, um objeto físico particular, como um trator di agricultor  Bob não é, estritamente falando, tecnologia, mas sim um artefato tecnológico, que depende de e incorpora a tecnologia comoinformação. O trator indivídual é  capital físico. A informação transmissível necessária para produzir tratores é a tecnologia.

7 Ver e.g. (Wright, 1999).

Esta visão do importante papel da tecnologia é consistente com as grandes variações e flutuações na implementação da tecnologia em diferentes épocas e regiões do mundo. Esta visão é também consistente com o fato de o desenvolvimento tecnológico em si ser dependente de fatores sócio-culturais, econômicos ou relativos a competências pessoais. Esta visão é também consistente com a negação de que qualquer vigorosa versão da invevitabilidade  de padrão especifico de crescimento observado na história da humanidade. Pode-se considerar, por exemplo, que em uma  “reviravolta” da história humana, o calendário e a localização da Revolução Industrial poderiam ter sido muito diferentes, ou que poderia não ter ocorrido nenhuma revolução deste tipo, mas, digamos, um gotejamento lento e constante de invenção.

Pode-se até afirmar que existem pontos de bifurcação importantes no desenvolvimento tecnológico, em que a história poderia tomar qualquer caminho, com resultados bastante diferentes quanto às espécies de sistemas tecnológicos desenvolvidos. No entanto, sob o pressuposto de que o desenvolvimento tecnológico continua numa frente ampla, pode-se esperar que, a longo prazo, a maior parte das capacidades básicas importantes que poderiam ser obtidas através de alguma tecnologia, serão de fato obtidas através da tecnologia. Uma versão mais ousada dessa idéia poderia ser formulada da seguinte forma:

Conjectura da Conclusão Tecnológica. Se os esforços de desenvolvimento científico e tecnológico efetivamente não cessarem, então todas as capacidades básicas importantes que poderiam ser obtidas através de alguma tecnologia possível, serão obtidas.

A conjectura não é tautológica. Seria falsa se há alguma possível capacidade básica que poderia ser obtida por meio de uma tecnologia que, embora possível, no sentido de ser consistente com as leis físicas e com as condições materiais, seja tão difícil de desenvolver que permaneceria fora de alcance, mesmo depois de um esforço de desenvolvimento indefinidamente prolongado.

Outra forma em que a conjectura poderia ser falsa é se alguma importante capacidade só possa ser conseguida através de uma possível tecnologia que poderia ter sido desenvolvida, mas que não vai, de fato, ser desenvolvida, embora os esforços de desenvolvimento científico e tecnológico continuem.

A conjectura expressa a idéia de que aquelas importantes capacidades básicas, eventualmente alcançadas, não dependem dos caminhos tomados pela pesquisa científica e tecnológica no curto prazo. O princípio permite que possamos atingir algumas capacidades mais cedo se, por exemplo, podemos direcionar o financiamento da investigação de uma maneira e não de outra; mas sustenta que desde que o nosso empreendimento geral técnico-científico continue, mesmo as capacidades não priorizadas serão eventualmente obtidas, seja através de alguma rota tecnológica indireta, seja quando os avanços gerais na instrumentação e compreensão tornarem a originalmente negligenciada rota tecnológica tão fácil que mesmo um pequeno esforço será bem-sucedido no desenvolvimento da tecnologia em questão.8

8 Para uma analogia visual, imagine uma caixa com enorme, mas finito volume,  representando o espaço de capacidades básicas que poderiam ser obtidos através de alguma tecnologia possível. Imagine areia  sendo derramada dentro desta caixa, representando esforço de pesquisa. A maneira em que você derrama a areia vai determinar os locais e a velocidade com que as pilhas se acumulam na caixa. No entanto, se você manter o derramamento, eventualmente, todo o espaço é preenchido.

Podemos considerar a motivação desta idéia subjacente com sendo plausível sem nos convencermos  de que a Conjectura  da Conclusão Tecnológica seja estritamente verdadeira, e, nesse caso, podemos explorar as possíveis exceções. Alternativamente, podemos aceitar a conjectura mas acreditar que seu antecedente é falso, ou seja, que os esforços de desenvolvimento científico e tecnológico, em algum momento  vão efetivamente cessar (antes que o empreendimento seja terminado). Mas se alguém aceita tanto a conjectura e seu antecedente, quais são as implicações? Quais serão os resultados se, no longo prazo, todos os recursos básicos importantes que poderiam ser obtidos através de alguma tecnologia possível, sejam de fato obtidos?

A resposta pode depender da ordem em que as tecnologias sejam desenvolvidas, dos alicerces sociais, legais e culturais em que estão implantadas, das escolhas dos indivíduos e instituições, e de outros fatores, incluindo eventos fortuitos. A obtenção de uma capacidade básica não implica que ela será utilizada de uma forma particular ou mesmo que será utilizada de alguma forma.

Estes fatores que determinam os usos e impactos de potenciais capacidades básicas são muitas vezes difíceis de prever. O que poderia ser de alguma forma mais previsível é que importantes capacidades básicas serão eventualmente alcançadas. No caso de se assumir que a Conjectura da Conclusão Tecnológica e seu antecedente sejam verdadeiros, as capacidades vão eventualmente incluir todas aquelas que poderiam ser obtidas através de alguma possível tecnologia. Embora possamos não ser capazes de prever todas as tecnologias possíveis, podemos prever muitas tecnologias possíveis, inclusive algumas que estão atualmente inviáveis; e nós podemos mostrar que essas possíveis tecnologias antecipadas iriam fornecer uma grande variedade de novas e importantes capacidades básicas.

Uma maneira de prever possíveis futuras tecnologias é através do que Eric Drexler chamou de "ciência teórica aplicada".9  A ciência teórica aplicada estuda as propriedades de possíveis sistemas físicos, incluindo os que ainda não podem ser construídos, utilizando métodos como a simulação computadorizada e derivação de leis da física estabelecidas.10

A ciência teórica aplicada  não proporcionará em todos as instâncias uma definitiva e incontroversa resposta sim-ou-não  para questões relativas à viabilidade de uma imaginada tecnologia , mas é provavelmente o melhor método que temos para responder a essas questões. Ciência teórica aplicada - tanto em suas mais rigorosas como em suas mais especulativas aplicações - é, portanto, uma importante ferramenta metodológica para a reflexão sobre o futuro da tecnologia e, a fortiori, uma chave determinante do futuro da humanidade.

9 (Drexler 1992)

10 A Ciência teórica aplicada também pode estudar potenciais caminhos para a tecnologia que permitiriam a construção dos sistemas de questões, isto é, como, em princípio, pode-se resolver o problema da inicialização de como ir daqui até lá.

Pode ser tentador nos referirmos à expansão das capacidades tecnológicas como "progresso". Todavia, esta expressão tem conotações valorativas - de coisas melhorando - e está longe de ser uma verdade conceitual que a expansão das capacidades tecnológicas faz com que as coisas melhorem. Mesmo se empiricamente nós achamos que essa associação tem suporte no passado (sem dúvida, com muitas grandes exceções), não devemos  assumir acriticamente que a associação vai sempre continuar a se manter. É preferível, por conseguinte, a utilização de um termo mais neutro, tal como "desenvolvimento tecnológico", para designar a tendência histórica de acumulação de capacidade tecnológica.

O desenvolvimento tecnológico tem contemplado a história humana com um tipo de direcionalidade. Informações instrumentalmente úteis tendiam a se acumular de geração em geração, de modo que cada nova geração teve início a partir de um ponto de partida diferente e tecnologicamente mais avançado que o de seu antecessor. Pode-se apontar como exceções a esta tendência, regiões que estagnaram ou que mesmo regrediram até por longos períodos de tempo. No entanto, olhando para a história humana, do nosso ponto de vista contemporâneo, o macro-padrão é evidente.

Nem foi sempre assim. O desenvolvimento tecnológico para a maior parte da história da humanidade foi tão lento a ponto de ser indiscernível. Quando o desenvolvimento tecnológico que foi assim lento, ele só poderia ter sido detectado verificando-se como os níveis de capacidade tecnológica diferiram ao longo de grandes períodos de tempo. No entanto, os dados necessários para tais comparações - relatos históricos detalhados, escavações arqueológicas com datação por carbono, e assim por diante - não estavam disponíveis até muito recentemente, como Robert Heilbroner explica:

No ápice das primeiras sociedades estratificadas, sonhos dinásticos eram sonhados e visões de triunfo ou ruína eram curtidas; mas não há nenhuma menção nos papiros e nas placas cuneiformes em que essas esperanças e medos foram gravados, que visualizasse, no menor grau, as mudanças nas condições materiais das grandes massas, ou no que tange a essa matéria, da própria classe dominante.

Heilbroner argumentou em Visões do Futuro em defesa da ousada tese de que as percepções da humanidade sobre a forma das coisas passaram exatamente por três fases, desde a primeira aparição do Homo Sapiens

Na primeira fase, que compreende toda a pré-história humana e a maior parte da história, o futuro mundano era visualizado - com raras exceções –como imutável ​nas suas condições materiais, tecnológicas e econômicas. Na segunda fase, que se estendeu aproximadamente do início do século XVIII até a segunda metade do século XX, as expectativas mundanas no mundo industrializado se transformaram  para incorporar a crença de que as forças até então indomáveis ​​da natureza poderiam ser controladas através dos instrumentos da ciência e da racionalidade, e o futuro tornou-se uma grande encenação potencial. A terceira fase - na maior parte do pós-guerra, mas, se sobrepondo com a segunda fase - vê o futuro numa luz mais ambivalente: como dominado por forças impessoais, como disruptivo, arriscado e de mau agouro, bem como promissor.

Supondo que algum observador perspicaz no passado tenha notado algum exemplo de direcionalidade - seja uma tendência tecnológica, cultural, ou social - teria permanecido a questão de se a direcionalidade detectada era uma característica global ou um mero padrão local. Numa visão cíclica da história , podem ocorrer, por exemplo, longos períodos de constante e cumulativo desenvolvimento da tecnologia ou de outros fatores. Dentro de um período, existe uma clara direcionalidade; mas cada surto de crescimento é seguido por um fluxo de decadência, retornando as coisas para onde estavam no início do ciclo. Forte direcionalidade local é, portanto, compatível com a visão de que, globalmente, a história se move em círculos e nunca chega a lugar algum. Se a periodicidade é vista com algo perpétuo, uma forma de eterna recorrência teria seguimento.

Os ocidentais modernos que estão acostumados a ver a história  como um modelo direcional do desenvolvimento podem não perceber como foi uma vez natural  a visão cíclica da história.

11 (Heilbroner 1995), p. 8

12 O padrão cíclico é proeminente nas religiões dharmic. Os antigos maias adotavam uma visão cíclica, como muitos na Grécia antiga. Na mais recente tradição ocidental, o pensamento da eterna recorrência é mais fortemente associado com a filosofia de Nietzsche, mas a idéia foi explorada por inúmeros pensadores, sendo um tropo comum na cultura popular.

Qualquer sistema fechado com apenas um número finito de estados possíveis deve ou estabelecer-se em um estado e permanecer nesse único estado para sempre ou fazer um ciclo de volta aos estados em que já esteve. Em outras palavras, um sistema fechado, de estados finitos, deve ou tornar-se estático ou então começar a repetir-se. Se assumirmos que o sistema já esteve próximo de uma eternidade, então este resultado eventual já deve ter surgido; ou seja, o sistema já está fixo ou está fazendo um ciclo através dos estados nos quais já esteve antes.

A condição de que o sistema tenha apenas um número finito de estados pode não ser tão significativa quanto parece, pois mesmo um sistema que tenha um número infinito de possíveis estados pode ter apenas um número finito de diferentes estados perceptíveis.13

Para muitos efeitos práticos, pode não importar muito se o estado atual do mundo já ocorreu num número infinito de vezes, ou se um número infinito de estados tenha previamente ocorrido, cada um dos quais é apenas imperceptivelmente diferente do presente estado.14

De qualquer maneira, nós poderíamos caracterizar a situação como de eterna recorrência - o caso extremo de uma história cíclica.

No mundo real, a visão cíclica é falsa porque o mundo teve um começo num tempo finito atrás. A espécie humana  existe há uns meros duzentos mil anos ou algo assim, e isso está muito longe do tempo necessário para ela ter experimentado todas as condições e permutações possíveis de que o sistema dos seres humanos e de seu ambiente seja capaz.

Mais fundamentalmente, a razão pela qual a visão cíclica é falsa é que o universo em si já existe há apenas uma quantidade finita de tempo.15

O universo começou com o Big Bang numa estimativa de 13,7 bilhões de anos atrás, em um estado de baixa entropia. A história do universo tem a sua própria direcionalidade: um aumento inelutável da entropia. Durante o seu processo de aumento de entropia, o universo evoluiu através de uma seqüência de etapas distintas.

Nos primeiros agitados três segundos, um número de transições ocorreram, incluindo provavelmente um período de inflação, de reaquecimento, e  quebra de simetria. Estes foram seguidos, mais tarde, pela nucleossíntese, expansão, resfriamento e formação de galáxias, estrelas e planetas, incluindo a Terra (cerca de 4,5 bilhões de anos atrás).

Os mais fósseis certamente mais antigos  ​​têm cerca de 3,5 bilhões de anos, mas há alguma evidência de que a vida já existia  há 3,7 bilhões de anos e possivelmente mais cedo. A evolução de organismos mais complexos foi um processo lento. Demorou cerca de 1,8 bilhões de anos para a vida eucariótica evoluir dos procariontes, e outros 1,4 bilhões de anos antes de os primeiros organismos multicelulares surgirem. Desde o início do período Cambriano (alguns 542 milhões anos atrás), "desenvolvimentos importantes" começaram a acontecer em um ritmo mais rápido, mas ainda extremamente devagar, pelos padrões humanos. O Homo Habilis - nosso primeiro ancestral com forma humana - surgiu cerca de 2 milhões de anos atrás; o Homo sapiens 100.000 anos atrás. A revolução agrícola começou no Crescente Fértil do Oriente Médio 10.000 anos atrás, e o resto é história.

13 A condição de sistema fechado pode também não parecer significativa. O universo é um sistema fechado. O universo pode não ser um sistema de estados finitos, mas qualquer parte finita do universo permite apenas um número finito de configurações diferentes, ou um número finito de configurações perceptivelmente diferentes, autorizando uma espécie de argumento de recorrência. No caso real, um resultado análogo pode estar relacionado com a repetição espacial ao invés da temporal. Se estamos vivendo em um "Big World", então, todas as possíveis observações humanas são de fato feitas por algum observador (na verdade, por infinitamente muitos observadores); ver (Bostrom 2002c).

14 Poderia importar se alguém aceitou a tese da "Unificação". Para uma definição desta tese, e um argumento contra ela, ver (Bostrom 2006).

15 De acordo com o modelo de consenso; mas para uma visão divergente, ver por exemplo, (Steinhardt e Turok 2002).

O tamanho da população humana, que foi cerca de 5 milhões quando vivíamos como caçadores-coletores 10.000 anos atrás, tinha crescido para cerca de 200 milhões até o ano 1; atingiu um bilhão em 1835 AD (depois de Cristo); e hoje mais de 6,6 bilhões de seres humanos estão respirando neste planeta.16 Desde o tempo da revolução industrial, os indivíduos perceptivos que vivem em países desenvolvidos notaram a mudança tecnológica significativa durante suas vidas.

Todos “techno-hype” à parte, é impressionante quão recentes são muitos eventos que definem o que consideramos ser a condição humana moderna. Se comprimirmos a escala de tempo de tal forma que a Terra se formou há um ano, o Homo Sapiens surgiu menos de 12 minutos atrás, a agricultura começou um pouco mais de um minuto atrás, a Revolução Industrial teve lugar menos de 2 segundos atrás, o computador eletrônico foi inventado 0,4 segundos atrás e a Internet menos de 0,1 segundos atrás -  num piscar de um olho.

Quase todo o volume do universo é ultra-alto vácuo, e quase todas os minúsculos pontos de matéria  deste vácuo são tão quentes ou tão frios, tão densos ou tão diluídos, de modo a ser totalmente inóspitos para a vida orgânica. Espacialmente, bem como temporalmente, a nossa situação é uma anomalia.17

16 (Bureau 2007). Há uma considerável incerteza sobre os números, especialmente para as datas mais recentes.

17 Será que nada resulta de interessante a partir dessa observação? Bem, ela está conectada com uma série de questões que fazem da matéria um grande tema para o futuro da humanidade - questões como a “observation selection theory “e o paradoxo de Fermi; CMP. (Bostrom 2002a).

Dada a perspectiva tecnocêntrica aqui adotada, e à luz do nosso conhecimento incompleto, mas substancial da história humana e do seu lugar no universo, como podemos estruturar nossas expectativas em torno das coisas a virem? O restante deste artigo descreve quatro famílias de cenários para o futuro da humanidade:

  • Extinção
  • Colapso Recorrente
  • Platô
  • Pós-humanidade

Nick Bostrom 

Faculty of Philosophy & James Martin 21st Century School 

Future of Humanity Institut

Oxford University

www.nickbostrom.com

Tradução  de Mtnos Calil

(Continua)

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