Instituto Mãos Limpas Brasil

Missão: Ser a Entidade mais ética da História do Brasil

Diretor de Redação

Mtnos Calil

Login

"Antigamente os cartazes nas ruas com rostos de criminosos oferecia recompensas, hoje em dia pede votos...
E o pior é que o BRASILEIRO dá...

Edgar Morin  nasceu em Paris, em 8 de julho de 1921 

Vivemos numa realidade multidimensional, simultaneamente econômica, psicológica, mitológica, sociológica, mas estudamos estas dimensões separadamente, e não umas em relação com as outras. O princípio de separação torna-nos talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu contexto, mas nos torna cegos ou míopes sobre a relação entre a parte e o seu contexto - Edgar Morin

Nota da redação

A humanidade atravessa uma das fases mais criticas de sua história que se caracteriza por uma transição rumo a um novo sistema social, politico e econômico desconhecido. Ninguém  sabe como vai ser esse mundo novo e o pior: pode ser que a nossa espécie esteja a caminho de um processo de auto-destruição de consequências inimagináveis. O que agrava mais ainda este quadro é o fato de nossas "classes dirigentes" não estarem dando o minimo de atenção a esta possivel tragédia, como se as crises que estamos vivendo fossem da mesma categoria das crises que vivemos nos últimos 10 mil anos. Essa mesma atitude de descaso é compartilhada pelas universidades, que deveriam estar na vanguarda de um processo de recuperação (ou salvação) de nossa espécie. A boa noticia é que temos alguns pensadores de visão global que têm feito este alerta através de muitos livros e conferências, sendo que Edgar Morin é um dos que mais se destaca. A seguir apresentamos um breve escrito de sua autoria e mais duas entrevistas que ele concedeu no Brasil. 

 

Política de civilização e problema mundial

Vou tentar descrever, de maneira breve, o problema do desafio da complexidade. Começarei pela idéia de que toda e qualquer informação tem apenas um sentido em relação a uma situação, a um contexto. Se, por exemplo; eu disser "amo-te", esta palavra pode ser a expressão de um apaixonado sincero e deve ser tomada nesse sentido; mas pode ser também a farsa de um sedutor e nessa altura será uma mentira.

Pode ser ainda, numa peça de teatro, a palavra de um herói, e não do ator que desempenha o papel do personagem; o sentido das palavras muda, portanto, necessariamente, segundo o contexto em que as empregamos; é por isso que, em lingüística, como todos sabemos, o sentido de um texto é esclarecido pelo seu contexto. Por exemplo: quando ouvimos as informações na televisão ou as lemos nos jornais, a palavra Sarajevo, a palavra Hezbollah e a palavra Kabul não têm sentido se não as situarmos no seu contexto geográfico e histórico, o que quer dizer que, para conhecer, não podemos isolar uma palavra, uma informação; é necessário ligá-Ia a um contexto e mobilizar o nosso saber, a nossa cultura, para chegar a um conhecimento apropriado e oportuno da mesma.

O problema do conhecimento é um desafio porque só podemos conhecer, como dizia Pascal, as partes se conhecermos o todo em que se situam, e só podemos conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem. Ora, hoje vivemos uma época de mundialização, todos os nossos grandes problemas deixaram de ser particulares para se tomar mundiais: o da energia e, em especial, o da bomba atômica, da disseminação nuclear, da ecologia, que é o da nossa biosfera, o dosvírus, como a Aids, imediatamente se mundializam. Todos os problemas se situam em um nível global e, por isso, devemos mobilizar a nossa atitude não só para os contextualizar, mas ainda para os mundializar, para os globalizar; devemos, em seguida, partir do global para o particular e do particular para o global, que é o sentido da frase de Pascal: "Não posso conhecer o todo se não conhecer particularmente as partes, e não posso conhecer as partes se não conhecer o todo". 

Deveríamos, portanto, ser animados por um princípio de pensamento que nos permitisse ligar as coisas que nos parecem separadas umas em relação às outras. Ora, o nosso sistema educativo privilegia a separação em vez de praticar a ligação. A organização do conhecimento sob a forma de disciplinas seria útil se estas não estivessem fechadas em si mesmas, compartimentadas umas em relação às outras; assim, o conhecimento de um conjunto global,o homem, é um conhecimento parcelado. Se quisermos conhecer o espírito humano, podemos fazê-Io através das ciências humanas, como a psicologia, mas o outro aspecto do espírito humano, o cérebro, órgão biológico, será estudado pela biologia.

Vivemos numa realidade multidimensional, simultaneamente econômica, psicológica, mitológica, sociológica, mas estudamos estas dimensões separadamente, e não umas em relação com as outras. O princípio de separação torna-nos talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu contexto, mas nos torna cegos ou míopes sobre a relação entre a parte e o seu contexto. Além disso, o método experimental, que permite tirar um "corpo" do seu meio natural e colocá-Ia num meio artificial, é útil, mas tem os seus limites, pois não podemos estar separados do nosso meio ambiente; o conhecimento de nós próprios não é possível, se nos isolarmos do meio em que vivemos. Não seríamos seres humanos, indivíduos humanos, se não tivéssemos crescido num ambiente cultural onde aprendemos a falar, e não seríamos seres humanos vivos se não nos alimentássemos de elementos e alimentos provenientes do meio natural.

Por outro lado, durante muito tempo, a ciência ocidental foi reducionista (tentou reduzir o conhecimento do conjunto ao conhecimento das partes que o constituem, pensando que podíamos conhecer o todo se conhecêssemos as partes); tal conhecimento ignora o fenômeno mais importante, que podemos qualificar de sistêmico, da palavra sistema, conjunto organizado de partes diferentes, produtor de qualidades que não existiriam-se as partes estivessem isoladas umas as outras. É isto que podemos chamar “emergências". Por exemplo, somos a vida. Um ser humano é constituído por moléculas, moléculas químicas, moléculas de ácidos, ácidos nucléicos e aminoácidos. Nenhuma destas macromoléculas tem, por si só. as qualidades que dão a vida; a organização viva, feita destas moléculas, organização complexa, tem um certo número de qualidades que emergem. qualidades de autoprodução. auto-reprodução, autodesenvolvimento, comunicação, movimento etc.

Não podemos, portanto, compreender o ser humano apenas através dos elementos que o constituem. Se observarmos uma sociedade, verificaremos que nela há interações entre os indivíduos, mas essas interações formam um conjunto e a sociedade, como tal, é possuidora de uma língua e de uma cultura que transmite aos indivíduos; essas "emergências sociais" permitem o desen- volvimento destes. É necessário um modo de conhecimento que permita compreender como as organizações, os sistemas, produzem as qualidades fundamentais do nosso mundo.

Tratemos agora do fenômeno da auto-organização. O ser humano é autônomo, mas a sua autonomia depende do meio exterior. Se temos necessidade de nos alimentar, é porque o nosso organismo trabalha continuamente, degrada a sua energia e tem necessidade de renová-Ia, extraindo-a do mundo exterior sob a for- ma já organizada dos alimentos vegetais ou animais. Por isso, para ser autônomo, tenho de depender do meio exterior; para ser um espírito autônomo, tenho de depender da cultura de que alimento os meus conhecimentos. a minha faculdade de conhecimento e a minha faculdade de julgar.

Assim, somos levados a pensar conjuntamente em duas noções que até agora se encontravam separados, porque durante muito tempo não podíamos compreender a autonomia do ponto de vista científico, visto que o conhecimento científico clássico só conhecia o determinismo. A autonomia só podia ser pensada do ponto de vista puramente metafísico, quer dizer, excluindo qualquer laço material. Por um lado, tínhamos uma ciência com dependência, mas sem autonomia, e por outro lado uma filosofia com autonomia, mas sem conceber a dependência. Ora, penso que o pensamento complexo deve ligar a autonomia e a dependência.

A nossa educação nos habituou a uma concepção linear da causalidade. Temos causas que produzem efeitos. Ora, uma das idéias mais importantes que me parecem ter surgido nos últimos 50 anos foi a da circularidade, cristalizada pela primeira vez por um especialista em cibernética. Para compreender a idéia de cir- cularidade retroativa, podemos imaginar um sistema de aquecimento central: uma caldeira alimenta os radiadores; quando se atingiu a temperatura desejada, um termos tato faz parar o funcionamento da caldeira; se a temperatura baixa, o termos tato faz funcionar a caldeira de novo. Há, em conseqüência, um sistema onde o efeito atua retroativamente sobre a causa.

Passamos de uma visão linear a uma visão circular. A causalidade retroativa possibilita compreender um fenômeno de autonomia térmica: quando faz frio lá fora, o compartimento fica quente e, paradoxalmente, quanto mais frio faz lá fora, mais quente fica o interior do compartimento. Esta autonÓmia, provocada pela re- gulação (circularidade retroativa), é ela própria produzida por uma circularidade mais intensa, chamada circularidade autoprodutiva.

Em que consiste esta circularidade? Consiste no fato de produtos e efeitos serem necessários ao produtor e ao causador.  Tomemos dois exemplos: a vida e a sociedade. A vida é um sistema de reprodução que produz os indivíduos. Somos produtos da reprodução dos nossos pais. Mas, para que este processo de reprodução continue, é necessário que nós próprios nos tomemos produtores e reprodutores de nossos filhos. Somos, portanto, produtos e produtores no processo da vida. Da mesma maneira. somos produtores da sociedade porque sem indivíduos humanos não existiria a sociedade mas, uma vez que a sociedade existe, com a sua cultura, com os seus interditos, com as suas normas, com as suas leis, com as suas regras, produz- nos como indivíduos e, uma vez mais, somos produtos produtores.

Produzimos a sociedade que nos produz. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que somos não só uma pequena parte de um todo, o todo social, mas que esse todo está no interior de nós próprios, ou seja, temos as regras sociais, a linguagem social, a cultura e normas sociais em nosso interior. Segundo este princípio, não só a parte está no todo como o todo está na parte. Isto acarreta conseqüências muito importantes porque, se quisermos julgar qualquer coisa, a nossa sociedade ou uma sociedade exterior, a maneira mais ingênua de o fazer é crer (pensar) que temos o ponto de vista verdadeiro e objetivo da sociedade, porque ignoramos que a sociedade está em nós e ignoramos que somos uma pequena parte da sociedade. Esta concepção de pensamento dános uma lição de prudência, de método e de modéstia.

Devo indicar, neste momento da minha exposição, que o pensamento complexo nos abre o caminho para compreender melhor os problemas humanos. Em primeiro lugar, não devemos esquecer que somos seres trinitários, ou seja, somos triplos em um só. Somos indivíduos, membros de uma espécie biológica chamada Homo Sapiens, e somos, ao mesmo tempo, seres sociais. Temos estas três naturezas numa só. Penso que é importante sabê-Io porque, de uma maneira geral, o nosso modo de pensamento mais habitual nos toma difícil conceber um elo entre estas três naturezas e saber se existe unidade na humanidade ou diversidade, heterogeneidade e, conseqüentemente, ausência de unidade. Tema polêmico a partir do século XVIII. Há quem diga que a natureza humana é una, e que os chineses ou africanos têm uma natureza igual à nossa e por isso, como nós, amores, tristezas, alegrias, felicidades.

Outros pensadores, como os culturalistas, dizem que somos diferentes de cultura para cultura, não existindo verdadeira unidade humana. Foi muitas vezes difícil fazer compreender que o "um" pode ser "múltiplo", e que o "múltiplo" é suscetível de unidade. Que, por exemplo, do ponto de vista do ser
humano, há certamente unidade genética, que todos os seres humanos têm o mesmo patrimônio genético e há unidade cerebral; por essa razão, todos os seres humanos têm as mesmas atitudes cerebrais fundamentais. É também certo que os seres humanos têm uma identidade profunda pelo fato de poder desenvolver a sua nacionalidade e por serem afetivos, capazes, todos eles, de sorrir, de rir e de chorar. A observação de um etólogo alemão sobre uma jovem surda, muda e cega de nascença demonstrou que, por ela rir, chorar e sorrir, não tinha aprendido, através do seu meio cultural, estas manifestações afetivas.

Há, logo, a unidade fundamental do ser humano; mas, ao mesmo tempo, sabemos que certas civilizações inibem as lágrimas, enquanto outras permitem a sua expressão; que sorrimos em condições diferentes numas e noutras; o riso, as lágrimas e o sorriso são diferentemente modulados segundo as culturas, mas devemos saber sobretudo que, a partir da mesma estrutura fundamental da linguagem, se criou uma diversidade inacreditável de línguas ao longo do desenvolvimento da espécie humana, e que as culturas geraram riquezas extraordinárias; o tesouro da humanidade é a sua diversidade. esta não só é compatível com a unidade fundamental, mas produzida pelas possibilidades do ser humano.

Compreender a unidade e a diversidade é muito importante hoje, visto estarmos num processo de mundialização que leva a reconhecer a unidade dos problemas para todos os seres humanos onde quer que estejam; ao mesmo tempo, é preciso preservar a riqueza da humanidade, ou seja, a diversidade cultural; vemos, por exemplo, que as diversidades não são só as das nações, mas estão também no interior destas; cada província, cada região, tem a sua singularidade cultural, a qual deve guardar ciosamente.

Há, no mesmo sentido, o problema com o qual estive confrontado quando quis escrever meu livro "O Homem e a morte": a multidimensionalidade humana. A interrogação que me coloquei desde o início foi a seguinte: O homem btá, como todos os seres biológicos, submetido à morte; por isso, no domínio da morte, é semelhante a todos os outros seres vivos; mas o homem é o único ser vivo que
acredita existir uma vida após a morte, que pratica ritos fúnebres, que tem uma mitologia da morte, porque acredita que a morte existe, quer um renascimento, quer a sobrevivência de um fantasma, quer a ressurreição, etc.

A realidade humana é. pois, por um lado, biológica e, por outro, autobiológica, quer dizer, mitológica. Um dos traços importantes do meu trabalho foi deixar de subestimar os aspectos imaginário e mitológicos do ser humano. Algo que me tinha deveras impressionado quando assisti a uma cerimônia de Candomblé no Brasil, e da qual participei, foi constatar que, num momento determinado, os participantes, os crentes, invocam os espíritos ou deuses tais como Iemanjá; num dado momento, um dos espíritos encama num dos participantes e fala através deste. Além disso, é possível a presença de vários espíritos. O que significa tudo isto? Significa que os deuses têm uma existência real; essa existência é-lhes conferida pela comunidade dos crentes, pela fé, pelo rito. Mas uma vez que o deus existe, é capaz de nos possuir, e é essa a relação particular que nutrimos com os "deuses", ou com o nosso "Deus", ou as com nossas idéias.

Isso significa ainda que damos vida às nossas idéias e, uma vez que lhes damos vida, são elas que indicam o nosso comportamento, que nos mandam matar ou morrer por elas; vale dizer que tais produtos são os nossos próprios produtores, e que as realidades imaginária e mitológica são um aspecto fundamental da reali- dade humana.

Do mesmo modo, penso que devemos considerar a história humana de maneira complexa. Ora, entre as maneiras não complexas de considerar a história humana, a primeira foi a de que esta era uma sucessão de batalhas, de golpes de Estado, de mudanças de reino, de acontecimentos importantes, de acidentes, de guerras. Uma segunda maneira consistiu em julgar que os acidentes, as guerras, as mudanças de reino, eram acontecimentos superficiais enquanto, na realidade, existiria um movimento ascendente, o do progresso; as leis da história estariam escritas no decurso da humanidade e, se surgissem acidentes, seriam provisórios.

Primeiramente, é necessário unir estas duas concepções: a dos acidentes, das
perturbações, aquilo que Shakespeare chamou "o barulho e o furor" e, por outro lado, as determinações, os determinismos. Isto se aplica também à história do Universo, que começamos a conhecer como uma história que nasceu, talvez, de uma catástrofe gigantesca, da qual surgiu o nosso mundo, criado através de enormes destruições, porque se pensa que desde o início a matéria provocou o genocídio da antimatéria ou, ao menos, essa antimatéria desapareceu. Em seguida, houve o choque das estrelas, a colisão das galáxias, explosões...

Ora, o mundo produz, por um lado, galáxias, estrelas, ordem no céu e, ao mesmo tempo, forma-se por entre a desordem; da mesma maneira, a história da terra é uma história atormentada. Pensa-se que, na origem, foram os detritos de um sol anterior que explodiu que se aglomeraram, tendo-se, a partir daí, produzido um fenômeno de auto-organização da terra, com, num dado momento, o aparecimento da primeira célula viva.

Mas a verdadeira história da vida ocorreu através de convulsões e catástrofes; houve um acidente no final da era primária em que 97% das espécies vivas dessa época desapareceram; houve o famoso acidente em que os dinossauros morreram, e que parece ser a conseqüência de um meteorito conjugado com uma enorme explosão vulcânica. A história da nossa terra é acidental, e através desses acidentes houve a extraordinária proliferação de formas vegetais e animais, das quais, de um ramo de um ramo de um ramo... da evolução animal surgiu o ser humano e, finalmente, a consciência humana.

O sentido da evolução não era o de produzir por todo lado a consciência. Foi o ramo de um ramo de um ramo que produziu a humanidade. Somos, portanto, um produto "desviado" da história do mundo; isto nos permite compreender que a evolução não é qualquer coisa que avança frontalmente, majestosamente, como um rio, mas parte sempre de um "desvio" que começa e consegue impor-se, toma-se uma grande tendência e triunfa, o que se aplica à história das idéias; no início, Moisés é um egípcio "desencaminhado" ou "desviado" que se afastou da sua religião quando fundou o judaísmo; o "desencaminhamento" de Jesus foi acrescido pelo de Paulo, quando este disse não haver nem judeus, nem gentios. Maomé, Karl Marx e Lutero foram seres "desencaminhados" ou "desviados";
certos "desencaminhamentos" enraízam-se e transformam-se em tendências fortes.

Isso deve tornar mais complexa a nossa visão da história e levar-nos a compreender a incerteza do nosso tempo, visto que não há progresso necessário e inelutável; sabemos que todos os progressos adquiridos podem ser destruídos pelos nossos inimigos mais implacáveis: nós mesmos, dado que hoje a humanidade é a maior inimiga da humanidade. Sabemos, atualmente, que o progresso deve ser regenerado; sabemos ainda que a barbárie constitui uma ameaça, e vivemos mais do que nunca na incerteza, porque ninguém pode adivinhar o que será o dia de amanhã. O nosso destino é, pois, incerto, e ninguém sabe qual o destino do Cosmos.

Devemos, porém, poder situar-nos nesta incerteza. A nossa situação é, em virtude desta constatação, extremamente complexa, porque somos, integralmente, filhos do Cosmos e estranhos a esse mesmo Cosmos. Poderia exemplificar com o organismo humano, mas vou tomar simplesmente o exemplo de um copo de vinho do Porto. Se pegarem um copo de vinho do Porto e o inter- rogarem, podem ter a certeza de que nesse vinho do Porto há partículas que se formaram nos primeiros segundos do Universo, ou seja, há cerca de sete a quinze milhões de anos; há também o hidrogênio, um dos primeiros elementos a ser formado no Universo, e produtos do átomo do carbono, formado quando da existência do sol anterior ao nosso.

No copo de vinho do Porto, há a conjugação de macromoléculas que se juntaram na terra para dar origem à vida e há ainda a evolução do mundo vegetal, a evolução animal, até o homem, e a evolução técnica que permitiu ao ser humano extrair o sumo da uva e transformá-I o, através da fermentação, em vinho. Hoje, existem técnicas mais evoluídas, mais sofisticadas, da informática, que permitem controlar, nos depósitos, a fermentação desse vinho que vai transformar-se em vinho do Porto. Dito de outra maneira, num copo de vinho do Porto temos toda a história do Cosmos e, simultaneamente, a originalidade de uma bebida encontrada apenas na região do Douro.

Somos filhos da natureza viva da terra e estrangeiros a nós próprios. Esta reflexão leva-nos a abandonar a idéia que considerava o ser humano como centro do mundo, mestre e dominador da natureza, defendida por grandes filósofos ocidentais como Bacom, Descartes, Buffon, Karl Marx. Hoje, essa ambição parecenos completamente irrisória, porque vivemos num planeta minús- culo, satélite de um pequeno sol de segunda classe, que faz parte de uma galáxia extremamente periférica; estamos, por essa razão, perdidos no Universo. Mas, se devemos abandonar a visão que faz do homem o centro do mundo, devemos salvaguardar a visão humanista que nos ensina que é necessário salvar a humanidade e civilizar a terra. Abandonemos a missão de Prometeu e tomemo- nos seres terrestres, quer dizer, cidadãos da terra, o que nos remete à idéia por mim desenvolvida no livro Terra-Pátria; para compreendê-Ia, é necessário refletir sobre a palavra "Pátria".

A palavra "Pátria" significa três coisas: identidade comum, comunidade de origem, do destino e de idéias.

• Identidade comum, como já tive a ocasião de referir.

• Comunidade de origem e comunidade de destino, segundo os dados do conhecimento da hominização e da pré-história: parece haver uma origem comum da humanidade - o continente Africano. É possível que o "HomoSapiens" tenha partido da África e povoado o mundo, assim como é possível que os antepassados do "Homo Sapiens", através do processo de mestiçagem, tenham suscitado na Europa, na Ásia e na África, o aparecimento da nossa espécie; de qualquer maneira, há uma comunidade de origem pertencente ao ramo particular da evolução dos seres vivos.

Comunidade de destino: fazer parte de uma Pátria significa participar de um destino comum; ora, esse destino relacionado com a pátria é um destino que nos vem do passado. Participa-se da Pátria Portuguesa porque se aprende a história de Portugal e tomase parte nas suas dificuldades, nos seus sofrimentos, nas suas grandezas e nas suas glórias; incorpora-se o destino comum dos antepassados. A idéia de comunidade de destino terrestre é uma idéia recente. Vem da era planetária, quer dizer, do momento em que os fragmentos dispersos da humanidade começaram a encontrar-se; no início, de maneira extremamente violenta e brutal, através das conquistas e da colonização. Hoje, todos os seres humanos, apesar de viverem situações diferentes, têm os mesmos problemas fundamentais de vida e morte. Temos necessidade de nos proteger de desastres que podem destruir o homem. Comunidade de idéias: esta noção faz-nos abandonar a alternativa banal segundo a qual, no caso de sermos cosmopolitas, não teríamos raízes e, no caso de termos Pátria, seria uma Pátria singular fechada sobre ela própria.


A idéia de "Terra-Pátria" não nos desenraíza, ao contrário; estamos enraizados em nosso destino terrestre, o qual engloba e respeita todas as Pátrias. Podemos ser membros de várias Pátrias concêntricas. Sinto-me profundamente membro da pátria francesa, mediterrâneo, europeu e cidadão da Terra. Podemos viver di- ferentes Pátrias de maneira concêntrica em vez de negar uma, privilegiando outra. O pensamento complexo conduz-nos a lima série de problemas fundamentais do destino humano, que depende, sobretudo, da nossa capacidade de compreender os nossos problemas essenciais, contextualizando-os, globalizando-os, in- terligando-os: e da nossa capacidade de enfrentar a incerteza e de encontrar os meios que nos permitam navegar num futuro incerto, erguendo ao alto a nossa coragem e a nossa esperança.

Vencer a especialização

Enquanto a cultura geral comportava a possibilidade de buscar a contextualização de toda informação ou idéia, a cultura científica e técnica, por causa de sua característica disciplinar e especializada, separa e compartimenta os saberes, tomando cada vez mais difícil a colocação destes num contexto qualquer. Além disso, até a metade do século XX, a maioria das ciências tinha por método de conhecimento a redução (do conhecimento de um todo ao conhecimento das partes que o compõem), por conceito fundamental o determinismo, isto é, a ocultação do acaso, do novo, da invenção, e a aplicação da lógica mecânica da máquina artificial aos problemas vivos, humanos e sociais.

A especialização abstrai, extrai um objeto de seu contexto e de seu conjunto, rejeita os laços e a intercomunicação do objeto com o seu meio, insere-o no compartimento da disciplina, cujas fronteiras quebram arbitrariamente a sistemicidade (a relação de uma parte com o todo) e a multidimensionalidade dos fenômenos, e conduz à abstração matemática, a qual opera uma cisão com o concreto, privilegiando tudo aquilo que é calculável e formalizável.

Assim, a economia, a ciência social matematicamente mais avançada, é também a ciência social e humanamente mais fechada, pois se abstrai das condições sociais, históricas, políticas, psicológicas, ecológicas, etc, inseparáveis das atividades econômicas. Por isso, os seus experts são cada vez mais incapazes de prever e de predizer o desenvolvimento econômico, mesmo a curto prazo. O conhecimento deve certamente utilizar a abstração, mas procurando construir- se em referência a um contexto.

A compreensão de dados particulares exige a ativação da inteligência geral e a mobilização dos conhecimentos de conjunto. Marcel Mauss dizia: "É preciso recompor o todo". Acrescentemos: é preciso mo- bilizar o todo. Certo, é impossível conhecer tudo do mundo ou captar todas as suas multiformes transformações. Mas, por mais aleatório e difícil que seja, o conhecimento dos problemas essenciais do mundo deve ser tentado para evitar a imbecilidade cognitiva. Ainda mais que o contexto, hoje, de todo conhecimento político, econômico, antropológico, ecológico, etc, é o próprio mundo. Eis o problema universal para todo cidadão: como adquirir a possibilidade de articular e organizar as informações sobre o mundo. Em verdade, para articulá-Ias e organizá-Ias, necessita-se de uma reforma de pensamento.

Edgar Morin Sociólogo, C.N.R.S./França 

Tradução de Juremir Machado da Silva

Entrevista: Edgar Morin – Le Monde Brasil

Publicado por  às 08/01/2013 em Atualidades | Deixe um comentário

O futuro da humanidade

Para o sociólogo e filósofo Edgar Morin, veterano da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra, transformações invisíveis que acontecem neste momento em nossa sociedade escondem as sementes da construção do improvável. “Entre a desilusão e o encantamento existe uma via que é a da vontade e da esperança”, anuncia

por Silvio Caccia Bava

Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris, em 8 de julho de 1921. Fez seus estudos universitários em História, Sociologia, Economia e Filosofia. Licenciou-se em História, Geografia e Direito. Durante a Segunda Guerra Mundial, participou ativamente da Resistência Francesa. É diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês). Em 1991, tornou-se codiretor do Centro de Estudos Transdisciplinares de Sociologia, Antropologia e História (Cetsah) − tutelado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e pelo CNRS −, que em 2008 passou a se chamar Centro Edgar Morin.

Doutor honoris causa por mais de trinta universidades e premiado internacionalmente, durante vinte anos Morin consagrou-se à pesquisa de um método apto a encarar o desafio da complexidade que se impõe na contemporaneidade não apenas ao conhecimento científico, mas também aos problemas humanos, sociais e políticos. Essa pesquisa culmina com a proposta de uma reforma do pensamento apresentada por meio de seus livros divididos em macrotemas. Com mais de 60 livros publicados, destacam-se O método, em seis volumes, Ciência com consciência, Introdução ao pensamento complexo e Os sete saberes necessários para uma educação do futuro.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL– O senhor tem o costume de dizer que não sabe sobre o futuro. Mas, em um de seus diários, o senhor diz que está pessimista com o futuro, o futuro da humanidade, e que as probabilidades não são boas − por isso mesmo é necessário acreditar nas improbabilidades. Essa é uma questão muito importante, porque as improbabilidades acontecem em contextos históricos. Como nós pudemos ver na Primavera Árabe, as revoluções não conseguem garantir novos governos democráticos e populares. Para que surgissem governos democráticos e populares em alguns países da América Latina, movimentos sociais e redes de cidadania construídas ao longo de mais de trinta anos atuaram de maneira muito importante. Um mundo em transformação requer um projeto de transformação e uma rede de sustentação social e política desse projeto. E nós sabemos que o novo não nasce do nada, nasce de mudanças qualitativas, de saltos às vezes imprevisíveis que apontam um sentido comum, mas que partem da realidade atual. Isso também coloca a questão de um programa de transição. Mas, mais do que tudo, coloca a questão de quem serão esses novos atores que vão operar essas mudanças.

EDGAR MORIN – Em primeiro lugar, é preciso definir o que é probabilidade. Para um observador situado em um lugar e em um tempo dados, o conhecimento do processo histórico no qual se encontra é o que lhe permite projetar o futuro. Se hoje projetamos o futuro, o que vemos? Vemos a proliferação dos artefatos nucleares, a degradação da biosfera, uma economia cada vez mais em crise, o crescimento da desigualdade, toda uma série de desastres. Há também alguns processos positivos, mas eles permanecem invisíveis ou são pontuais. O improvável já ocorreu na história da humanidade. O provável não é definido, permanece incerto. Nós podemos observá-lo em diferentes épocas da história. Eu o vi em 1941, quando havia uma grande probabilidade de dominação nazista por toda a Europa. Os soviéticos, com a defesa de Moscou, e os japoneses, bombardeando Pearl Harbor, o que forçou a entrada dos Estados Unidos na guerra, fizeram as probabilidades mudar. Isso para dizer que, quando as probabilidades são negativas, eu não fico desesperado, eu me ponho em defesa de um programa.

Não acredito que se deva pensar em um projeto de sociedade; é necessário, sim, indicar um caminho. É essa a dificuldade. Quanto ao programa de transição, que conheci através de Trotsky, bem, não acredito em programas, mas em estratégias. É que um programa já está determinado antes mesmo da caminhada, e o caminho é uma corrente que vai no sentido favorável. Vamos avaliar a situação: será que podemos mudar o caminho? Aparentemente não.

Ao longo da história, podemos identificar que ocorreram mudanças de caminho a partir de acontecimentos isolados, menores, invisíveis, como as mensagens de Buda, de Jesus, de Maomé, ou mesmo o socialismo, que no século XIX tinha Marx, tinha Proudhon, que difundiram ideias que dezenas de anos depois se transformaram em forças muito importantes, gerando tanto a social-democracia como o comunismo. Portanto, sempre houve um início modesto das novas forças. Podemos recorrer à velha noção de história, que caminha também por seus canais subterrâneos, que sempre está em movimento, que o presente não está imóvel e que nele atuam forças de transformação invisíveis. De resto, quando você pensa na descoberta da energia atômica, percebe que foi uma descoberta totalmente invisível, uma descoberta especulativa, intelectual, do exercício de pesquisa de alguns físicos. E dez anos depois essa energia se transforma em bombas de destruição. Portanto, existem muitas coisas que estão invisíveis, o futuro não é previsível, é preciso resistir e construir o improvável.

Um pouco por toda parte existem iniciativas muito importantes, dispersas em relação umas às outras. Há experiências na agricultura, na agroecologia, na biologia, na educação, nas cooperativas, há a economia que chamamos de social e solidária. Temos a necessidade de recusar a grande agricultura capitalista industrializada para defender os pequenos proprietários rurais e a agricultura familiar; há uma luta contra os atravessadores, os intermediários; há muitas frentes que se criam em todos os domínios, o que demonstra que tudo pode ser reformado. Tudo: a justiça, a conservação, a produção. Mas eu digo também que esses processos, que começam localmente e se firmam, devem confluir.

O que é preciso reformar? As estruturas sociais e econômicas? Ou as pessoas e a moral? Eu digo que esses processos têm de vir juntos. Porque, se você reforma somente as estruturas, você chega à situação da União Soviética. Mas, se você propõe caminhos individuais ou comunitários, eles fracassam depois de alguns anos. Operando nos dois planos, essa corrente conflui para criar o novo. O grande problema é a metamorfose − prefiro a palavra metamorfose à palavra revolução −, pois penso que em um momento dado, quando um sistema não é mais capaz de tratar suas questões vitais, ou ele se desintegra, ou regride e se torna ainda mais bárbaro, ou é capaz de criar um metassistema, que recicla seu projeto. A metamorfose existe não somente nos insetos, que se transformam em borboletas, mas também na história. A Europa se metamorfoseou da Europa medieval, feudal, religiosa, para a Europa moderna, contemporânea. A metamorfose é possível e torna possível criarmos um novo modo de desenvolvimento e um novo tipo de sociedade que não podemos prever, mas que ultrapassa as expectativas dos indivíduos e da sociedade atual. Penso que é isso que podemos esperar, mesmo que hoje não sejamos capazes de descrever ou imaginar essa futura sociedade.

DIPLOMATIQUE – Uma pesquisa feita pela Secretaria de Economia Solidária, do governo federal, identificou mais de 42 mil experiências de economia solidária no país. Veja que em nossa sociedade já há sinais de transformação. Mas, paralelamente, existe tal poder no mundo atual − eu falo do poder do sistema financeiro, das grandes corporações −, que mesmo a The Economist assinala que é preciso mudar essa situação. A revista lança um desafio aos governantes: buscar um modelo que contemple, ao mesmo tempo, o crescimento e uma maior redistribuição da riqueza. É uma discussão da transformação e reforma do capitalismo no sentido de manter as estruturas de poder e buscar a estabilidade política promovendo um pouco mais de distribuição da riqueza. É possível pensar nessa metamorfose com esses grandes poderes financeiros que controlam o mundo?

MORIN – Parece-me que a grande dificuldade de lutar contra a dominação do capitalismo financeiro e contra a especulação financeira é que isso só pode ser feito em nível internacional. Por exemplo, para suprimir os paraísos fiscais é necessário que todos os países se ponham de acordo, assim como para taxar a especulação financeira. Penso que há duas ameaças que atemorizam o mundo: uma delas é o capitalismo financeiro, a dominação financeira; a outra é o fanatismo étnico-religioso. Eles se alimentam uns dos outros. A questão das transnacionais está colocada e isso só pode ser tratado em escala planetária. A tragédia é que sofremos da ausência de instituições planetárias dotadas de poder de decisão. O fracasso da Rio+20 criou uma desilusão enorme. É por isso que não progredimos no desenvolvimento da noção de um destino comum para a comunidade terrestre.

Mesmo considerando a ideia de solidariedade internacional que existia, sendo ela socialista, comunista ou libertária, essas ideias não progrediram para enfrentar a situação atual. Agora, quais são as forças sociais que podem agir? Não podemos mais pensar que seja a classe operária, industrial. Em minha opinião, é a boa vontade dos homens, das mulheres, dos jovens e dos velhos, que vão confluir nessa tomada de consciência. E, bem entendido, esse é o destino dos povos que são dominados, oprimidos, e que querem conquistar sua emancipação. E que vão contribuir para o processo de emancipação.

Você falou da Primavera Árabe, que era imprevista, improvável. Desde o início saudei esses acontecimentos com entusiasmo. Escrevi um artigo no Le Mondeem que dizia para pensarmos em 1789: foi uma primavera maravilhosa, mas o que aconteceu depois? Aconteceu o Terror, o Termidor, Bonaparte, o Império, o retorno do rei e a revolução de 1848, e depois novamente o Império, e a França só chegou à República no século XX. Há aí uma mensagem: se regenerar no curso da história. Haverá regressões, manipulações, traições, mas a questão é saber se esses governos eleitos e de tendência extremista vão respeitar ou não as regras da democracia. Somos desafiados a ter esse mesmo papel histórico que a Primavera Árabe. Reconheço que as forças de transformação para criar uma nova situação para o planeta são muito débeis, estão dispersas, mas há momentos de aceleração e de amplificação que precisam ser considerados.

DIPLOMATIQUE – Mas a Primavera Árabe demonstra também que, mesmo se tivermos irrupções sociais fortes de movimentos sociais, as acomodações políticas que buscam a estabilidade colocam os conservadores no governo. Vejo que Immanuel Wallerstein está de acordo com o senhor quando diz que ainda teremos de enfrentar muitas crises para abrir o caminho para uma sociedade pós-capitalista.

MORIN– Sim, mas quero dizer que as forças energéticas da juventude na Tunísia e no Egito foram capazes de questionar o sistema atual, mas continuam incapazes de anunciar o novo caminho político. E estão divididas. O que faz falta é um pensamento político. A situação demanda um pensamento que não seja somente analítico, mas dê uma direção, um caminho. Hoje, há uma esterilidade total e geral não somente no mundo árabe ou muçulmano, mas também na França. Há uma crise do pensamento político, da capacidade de análise na sociologia mundial. E esse é um fator da impotência atual. É preciso recuperar o pensamento. Jamais haveria o socialismo sem o pensamento de Marx; jamais teríamos um libertarismo sem a contribuição de Kropotkin.

DIPLOMATIQUE – O neoliberalismo, nos anos 1990, terminou com a discussão sobre o futuro. Sua preocupação era administrar a situação presente e melhorar a condição dos mais pobres. Por conta disso não temos uma referência atual, seja do que possa ser a esquerda, seja do que possa ser um programa de transformação no sentido de construir um projeto comum entre os grupos que são diferenciados, mas reivindicam o papel da resistência. Qual é o meio de unificar essas diferenças?

MORIN – O neoliberalismo está em crise. Ele se apresentava como uma ciência, mas hoje sabemos que é uma ideologia. E assistimos à crise gerada por ele. O problema é que sabemos fazer a denúncia, mas não sabemos enunciar o que queremos, qual é o novo caminho. E precisamos caminhar no sentido de construir esse novo caminho comum. Por exemplo, existe todo um conjunto de pequenos camponeses ameaçados pela grande indústria, os pequenos artesãos, o mundo operário − por todos os lados as pessoas são exploradas, alienadas, e tomarão consciência disso. Quando elas tomam consciência − e hoje em dia temos de defender a diversidade, não somente a biodiversidade, mas a diversidade das sociedades −, neste momento estamos no começo de um novo caminho. Não podemos nos iludir, mas também não podemos entrar na desilusão. Entre a desilusão e o encantamento existe uma via que é a da vontade e da esperança.

DIPLOMATIQUE– Qual é a mensagem que o senhor quer dirigir à juventude?

MORIN– Frequentemente, os jovens franceses vêm me encontrar e me dizem que tenho sorte porque, quando eu militava na Resistência, tinha uma causa justa, uma causa bela, que hoje eles não têm. Sua percepção é de que vivemos na precariedade, não temos cultura, futuro algum. E eu lhes respondo que nossa causa tem suas sombras, que não víamos na sua época. Nós libertamos a França em nome da liberdade e contra a dominação. E reafirmamos a dominação sobre a Argélia e sobre nossas colônias. A segunda coisa, eu era comunista; é preciso considerar que Stalingrado foi a maior vitória e a maior derrota. A maior vitória porque barrou o nazismo. A maior derrota porque deu espaço para o stalinismo.

Hoje há uma causa que, em nome da liberdade e contra a dominação, não tem nome; é a causa de toda a humanidade, de todos os povos, de todos os continentes. A humanidade está ameaçada por toda essa loucura, pela busca do lucro, por toda essa insanidade fanática. Minha recomendação é que, aí onde você está, lute pelas mutações, quer elas tenham dimensão global ou local. O desenvolvimento local favorece a melhoria global e a melhoria global favorece o desenvolvimento local. É este o desafio atual: tomar consciência do que hoje são os problemas e se engajar para enfrentá-los. É isso que eu quero dizer para a juventude.

Silvio Caccia Bava

Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

Aos 91 anos, Edgar Morin prega uma nova via para o planeta

27/10/12

por Luciano Trigo - G1

Nesta terça-feira, 30, será realizado em São Paulo o ‘Encontro com Edgar Morin: Diários de um caminhante’, às 20h, no Sesc Pompeia, com ingressos gratuitos. Autor de mais de 30 livros, o sociólogo, antropólogo e filósofo francês vem ao Brasil para lançar três volumes de seus Diários: ‘Diário da Califórnia’, ‘Um ano sísifo’ e ‘Chorar, amar, rir, compreender’.

No prefácio à edição brasileira dos Diários, Morin escreve: “Posso afirmar, entretanto, que é nos meus diários que dou o melhor de mim mesmo: são observações, reflexões, julgamentos nos quais me encanto ou me revolto, nos quais minhas qualidades literárias se expressam e desabrocham. (…) Ainda que eu seja percebido de maneira restrita como sociólogo e, por vezes, de maneira mais aberta, mas ainda classificadora e limitada, como “sociólogo filósofo”, sou antes de mais nada um ser humano que ama o que existe de maravilhoso na vida e tem horror ao que ela tem de cruel, um ser humano bastante comum enraizado nos séculos XX e XXI, que neles viveu e sofreu todos os grandes e pequenos problemas.”

Nascido em Paris em 1921, em 1941 Morin aderiu ao Partido Comunista Francês e, nos anos seguintes, participou da Resistência à ocupação nazista. Acabaria sendo expulso do partido em 1951, por suas posições anti-stalinistas, quando já integrava o Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS. Estimulado por  Maurice Merleau-Ponty e Vladimir Jankélevitch, publicou em 1952 a obra ‘O homem e a morte’.

Teórico da complexidade, que defende a interligação de todos os conhecimentos, Morin reúne em sua trajetória um denso trabalho  de pesquisa e interpretação sobre fenômenos marcantes do nosso tempo, como o conflito entre árabes e judeus e, mais recentemente, a questão ambiental. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre seu apoio ao cacique Raoni e a importância de uma metamorfose planetária.

- Você tem dedicado atenção especial às lutas indígenas e já apoiou publicamente o cacique Raoni em sua luta contra a barragem de Belo Monte. Por quê?

EDGAR MORIN: Esses nativos são os sobreviventes dos ancestrais da humanidade, são nossos pais e nossas mães. Suas civilizações cultivam virtudes que perdemos, como a solidariedade. E o destino desses povos está diretamente ligado à preservação da biosfera na Amazônia. Para mim, esta é uma causa sagrada. É perfeitamente possível encontrar e explorar energia em outros lugares, sem provocar danos humanos.

- Fala-se da necessidade de um novo contrato social para o século 21. Como você define este contrato? Você é pessimista ou otimista sobre o futuro do planeta?

MORIN: Eu não uso esta expressão. Eu falo de uma nova via, que eu defini em meu livro “O Caminho”. Eu sou um “oti-pessimista”. A probabilidade mais é que o caminho que está sendo seguido leve o planeta ao desastre. Mas muitas vezes na História apareceu um salvador improvável. Eu aposto no improvável. A globalização criou uma comunidade de destino que dá a esperança de um mundo novo. Mas também produziu um processo que leva ao desastre. Ela trouxe ao mesmo tempo o melhor e o pior.

- Nossa sociedade atravessa uma crise econômica, social e política? Como escapar do – desencanto e do fim da esperança?

MORIN: Todas as crises – seja ela econômica, social, política, ética, cognitiva – são apenas reflexos da crise maior da humanidade, que não está conseguindo se tornar humana.  Mas é preciso resistir à desilusão e à perda de fé em um novo mundo, porque um novo caminho, uma nova via, é sempre possível. Mas esperança não significa certeza. Não podemos escapar da incerteza.

- Desde a queda do Muro de Berlim e da crise financeira de 2008, parecem faltar intelectuais que dêem conta de pensar a complexidade do presente. Você pensa que existe um vácuo de pensamento?

MORIN: Sim, há uma ausência de pensamento capaz de resolver os problemas fundamentais e globais do nosso tempo. Isso se deve a uma falha estrutural de nossos sistemas educacionais, que dividem e compartimentam o conhecimento. A incapacidade para articular os diferentes conhecimentos de forma integrada para enfrentar as complexidades levou à cegueira coletiva.

- O que você acha de pensadores que criticam a ecologia, como Pascal Bruckner, Clément Rosset e Luc Ferry?

MORIN: Acho que a visão de mundo deles é cega.

- O que representa, hoje, a esquerda?

MORIN: Para mim, a esquerda sempre se alimentará de sua fonte libertária, o desenvolvimento dos indivíduos, de sua fonte socialista, o aprimoramento da sociedade, de sua fonte comunista, a comunhão fraterna entre os homens, e de sua fonte ecológica, o controle duplo do planeta pelo entre o homem e pela natureza.

- Você utiliza a parábola da lagarta e da borboleta para refletir sobre os desafios atuais. Fale sobre isso.

MORIN: Quando um sistema não consegue mais lidar com os seus problemas vitais, ou ele se desintegra ou ele produz um novo meta-sistema mais rico, ele se metamorfoseia. Assim como uma lagarta rastejando se autodestrói para se tornar uma borboleta com asas, até mesmo a sociedade feudal européia foi capaz de se transformar na sociedade moderna, por meio da técnica, do desenvolvimento econômico e das transformações culturais. Hoje é necessária uma ova metamorfose em escala planetária, e é isso o que eu proponho quando falo de uma nova via.

Pin It

Logo TAYSAM Web Design 147x29