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Nota da redação

 

Chamou a atenção de muita gente o fato de Delfim Netto ter se aliado a Lula e Cia. Para compreender esse estranho fenômeno vamos fazer um estudo a respeito, começando por compilar artigos publicados por este controvertido ou polêmico economista. 

 

charge-perfil-psicologico-economista

 

Matéria 1 - DELFIM NETTO ANALISA O FRACASSO DOS ECONOMISTAS

 
 

Delfim Netto analisa “o fracasso da economia acadêmica”, e consequentemente, dos “economistas neoclássicos”, ou “economistas mainstream (corrente principal) pré-galileanos” 

 

A crise econômica global evidenciou as falhas da economia como ciência, na avaliação do ex-ministro da Fazenda Delfim Netto. Em artigo publicado ontem, 10/03/2009, no “Valor Econômico”, ele recorre a Galileu e a Aristóteles para criticar os economistas neoclássicos.

Estes, diz Delfim, gabavam-se do “aparente sucesso da sua teoria na explicação do mundo dos últimos 25 anos”. O que a turbulência internacional fez, afirma, foi desconstruir essa ilusão.

Delfim cita o artigo “A crise financeira e o fracasso sistêmico da economia acadêmica”, em que um grupo de economistas do mainstream reconhece as falhas do ofício.

 

“A profissão dos economistas parece ter ignorado a longa construção que terminou nesta crise financeira internacional e ter significativamente subestimado suas dimensões. (…) Fixamos as raízes desse fracasso na insistência em produzir modelos que ignoram elementos fundamentais que controlam os resultados no mundo dos mercados reais”,

 

diz o trecho reproduzido pelo ex-ministro.

Isso exigiria uma reorientação da profissão, segundo ele, que sugere uma receita simples: retornar “à modesta e útil economia política”.

 

Leia abaixo:

Observação: O artigo em questão, de autoria do Professor Delfim Netto, foi publicado no Valor Economico, 3ª feira, 10/03/2009 via COFECON

 

O fracasso da economia acadêmica

Antonio Delfim Netto (*)

 

Em 1609, Galileu Galilei, (1564-1642) depois de ter aperfeiçoado um instrumento construído um pouco antes por óticos holandeses, produziu uma luneta que chamou de “Perspicillum”. Com ela deu origem a uma revolução na astronomia. Por isso, a União Astronômica Internacional e a Unesco elegeram 2009 como o Ano Internacional da Astronomia. Qual é a profunda importância de Galileu?

 

A resposta é simples, como nos informa o ilustre prof. Antonio Augusto Passos Videira (revista “Ciência Hoje”, jan./fev./2009: 18): “Suas descobertas contribuíram para minar a primazia da concepção aristotélica do cosmo, baseada na beleza dos corpos celestes e na imutabilidade dos céus. Em longo prazo, suas ideias – sustentadas pela matemática, por medidas e por uma retórica afiada – ergueram uma visão do mundo na qual se buscavam leis para os fenômenos naturais”.

 

Mas qual a importância disso agora, há de perguntar-se, irritado, um daqueles economistas que se pensa portador da “verdadeira” ciência econômica? Eu também uso a matemática! A pequena diferença é que o seu “tipo” de conhecimento tem muito mais a ver com Aristóteles esteticamente matematizado do que com Galileu.

 

Em lugar de tentar entender como funciona o sistema econômico, tenta ensiná-lo como deveria funcionar em resposta à beleza dos seus axiomas…

Essa é uma crítica antiga, mas que a corrente majoritária dos economistas (que à falta de nome melhor chama-se a si mesma de neoclássica) recusava-se a considerar diante do aparente sucesso da sua teoria na “explicação” do mundo dos últimos 25 anos.

 

A cavalar crise financeira (em parte produzida pelos equívocos propagados pela própria “teoria”) desconstruiu essa ilusão.

 

Um grupo de oito importantes economistas (todos um pouco mais ou um pouco menos críticos, mas sem dúvida, competentes membros do “mainstream” e senhores da mais sofisticada matemática e econometria) acabam de publicar um trabalho, “A Crise Financeira e o Fracasso Sistêmico da Economia Acadêmica”1.

 

É um verdadeiro réquiem de corpo presente para a economia pré-galileliana, que foi dominante na última geração.

 

A síntese do artigo (em tradução livre) é a seguinte: “A profissão dos economistas parece ter ignorado a longa construção que terminou nesta crise financeira internacional e ter significativamente subestimado as suas dimensões quando ela começou a manifestar-se.

Na nossa opinião, essa falta de entendimento foi devida à má alocação dos recursos de pesquisa na economia.

 

Fixamos as raízes profundas desse fracasso na insistência da profissão em produzir modelos que – por construção – ignoram elementos fundamentais que controlam os resultados no mundo dos mercados reais.

 

A profissão falhou, lamentavelmente, na comunicação ao público das limitações e fraquezas e, mesmo, dosperigos que caracterizam os modelos de sua preferência.

Esse estado de coisas deixa claro a necessidade de uma fundamental reorientação das pesquisas que devem ser feitas pelos economistas e, também, do estabelecimento de um código de comportamento ético, que exija deles o conhecimento e a comunicação (para o público) das limitações e dos maus usos potenciais possíveis de seus modelos”.

 

O final do trabalho é ainda mais preocupante: “Acreditamos que a teoria econômica caiu numa armadilha de um equilíbrio subótimo, no qual o grosso do esforço de pesquisa não foi dirigido para as mais angustiantes necessidades das sociedade.

 

Paradoxalmente, um efeito retroativo, que se autorreforça dentro da profissão, levou à dominância de um paradigma que tem base metodológica pouco sólida e cuja performance empírica é, para dizer o menos, apenas modesta.

 

Pondo de lado os mais prementes problemas da moderna economia e fracassando na comunicação das limitações e das hipóteses contidas nos seus modelos mais populares, a profissão dos economistas tem certa responsabilidade na produção da crise atual.

Ela falhou na sua relação com asociedade. Não produziu tanto conhecimento quanto seria possível sobre o comportamento da economia e não a alertou dos riscos implícitos nas inovações que criava. Além do mais, relutou em enfatizar as limitações da sua análise.

 

Acreditamos que o seu fracasso em sequer antecipar os problemas gerados pela crise do sistema financeiro e a sua incapacidade de prover qualquer sinal antecipado dos eventos que iriam se passar exigem uma reorientação fundamental dessas áreas e uma reconsideração de suas premissas básicas”.

 

Trata-se de um trágico “requiescat in pace”, não para a teoria econômica, mas para o “mainstream” pré-galileliano, que se apropriou dela com imensa irresponsabilidade.

Podemos voltar agora à modesta e útil economia política?

 

1 Os autores são David Colander, Katarina Inlesuis, Alan Kirman e outros

 

(*) Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

Fonte: O Globo, Economia, Página 21, 4ª feira, 11/03/2009 via Ministério da Fazenda 

 

Leia também:

 

ECONOMIA VERSUS POLÍTICA

E Delfim dá uma aula em Goldfajn

Ex-ministro ensina ao economista-chefe do Itaú que “a política monetária não é independente das consequências sociais”

Enquanto Ilan Goldfajn pede, no Estado de S. Paulo, mais juros e recessão para combater a inflação, o ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto, recomenda, no Valor Econômico, mais cautela.

 

 

Matéria 2 -  Economia versus política

Por Antonio Delfim Netto (*)

 

Nossa política econômica enfrenta um dilema extremamente sério. Deve elevar, ou não, a taxa de juros real para gerar algum desemprego e, assim, reduzir a perturbadora taxa de inflação, que teima em namorar com o limite superior da meta inflacionária? Por um lado, é claro que se trata de um desequilíbrio entre a oferta e a demanda globais, que poderia ser minorado pela redução da demanda pública. Por outro, não é menos claro que, ainda que estejamos com um baixo grau de desemprego, a economia está crescendo muito pouco e abaixo da sua capacidade.

 

Isso fala a favor de uma estagnação da produtividade total dos fatores, produzida pelo aparentemente passageiro choque de oferta da agricultura, pelo evidente problema estrutural do mercado de trabalho, pela mudança induzida pela taxa de câmbio no comportamento dos setores industrial e de serviços e pela visível deterioração da infraestrutura que há três décadas esteve abandonada.

 

Ainda que a relação empírica entre taxa de desemprego e a taxa de inflação seja pouco precisa ela é, em geral, negativa. Isso sugere que a resposta da demanda global e da oferta global ao aumento da taxa de juros real seria no sentido de reduzir as duas, produzindo menor taxa de inflação, menor PIB e maior desemprego.

 

A política monetária não é independente das consequências sociais

 

Devido à complexidade do nosso problema inflacionário, à visível volatilidade da economia mundial, à esperança de que o choque de oferta da agricultura seja corrigido pelo menos em parte pela nova safra e diante do enorme custo social da medida, é compreensível a atitude de cautela da autoridade monetária. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central não pode e não deve apressar-se, mas deve estar preparado para implementá-la.

 

É preciso lembrar que a redução permanente da taxa de inflação no Brasil para limites civilizados está longe de poder ser resolvida apenas pela manipulação da taxa Selic. Exige uma ação coordenada de todo o governo e o suporte de toda a sociedade na redução dos benefícios ilegítimos de que se apropriaram amplos grupos dos setores público e privado.

 

Estamos vivenciando um problema antigo, que põe em confronto a economia, ou seja, medidas econômicas razoavelmente apoiadas em construções teóricas e pesquisas empíricas, e os problemas do seu custo social, de que cuida a política no sentido geral. Isso se deve ao fato de que a economia é uma disciplina que esconde suas incertezas com letras gregas e apresenta rigor matemático, mas que, no fim e ao cabo, continuam incertezas…

 

Quando contratamos um competente engenheiro para projetar uma ponte com um dado coeficiente de ignorância, sabemos que ela vai dar conta de sua função despachando o tráfego estimado. O processo termina com sucesso, sem que seja necessário consultar o cimento, a areia, o ferro que conformaram a ponte. Quando a sociedade entrega a política monetária ao mais competente de seus economistas, cujo domínio sobre a disciplina é indisputado, o problema é mais complexo.

 

As regularidades econômicas não são invariantes no tempo como as leis da física (seu mundo não é ergódico). e os objetos de sua ação não são ponto sem dimensão num espaço topológico. São indivíduos que aprendem, protestam, reagem e no fim, votam! A ponte é uma obra morta e segura. A política monetária é um jogo vivo, dinâmico e sujeito às fraquezas de ambos os atores. Isso sugere que ela não é, e nem pode ser, independente das suas consequências sociais, que são objeto da política em geral e, nos regimes democráticos, da urna, em particular…

 

Como é evidente, nem a solução proposta por assessores econômicos, que aviam as receitas sem consideração dos seus custos sociais, defendida por economistas que se supõem portadores de uma “ciência monetária”, nem as propostas “sociais” sustentadas por mal disfarçada ideologia, que ignoram as relações econômicas (por mais imperfeitas que sejam), podem levar à construção de uma sociedade civilizada e eficiente.

 

Essa questão acaba de receber a contribuição de dois brilhantes economistas. Eles estão construindo uma compreensão mais abrangente do desenvolvimento econômico e social, incorporando à economia a história, a geografia, a antropologia, a sociologia, a psicologia e a política, em modelos simples e quantificáveis. O último artigo da dupla Daron Acemoglu-James Robinson (“Economics versus Politics: Pitfalls of Policy Advice”, Fev., 2013) é rigorosamente imperdível.

 

O objeto do artigo pode ser resumido na proposição que “a análise econômica deve identificar, teórica e empiricamente, as condições sobre as quais a política e a economia entram em conflito e, então, avaliar as ações da política econômica levando em conta tal conflito, junto com as potenciais reações às quais ela levará”.

 

Como em todos os seus trabalhos, os argumentos são sofisticados e logicamente construídos. Mostram que nem sempre, apesar de ser consenso entre os economistas, “a redução ou remoção das falhas e distorções do mercado deve ser recomendada”. Como argumentam no artigo, “essa conclusão é muitas vezes incorreta, porque ignora a política”… e… “reformas econômicas executadas sem um amplo entendimento das suas consequências, em lugar de promover a eficiência, podem reduzi-la significantemente”.

 

Não deixem de ler a convincente análise do papel dos sindicatos (que os economistas consideram uma “falha de mercado” e combatem) na construção do processo democrático.

Bom apetite!

 

(*) Antonio Delfim Netto,  é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

 

19 de maio de 2013 at 12:47

 

Matéria 3 - ‘Existe um pessimismo muito acima do razoável’, diz Delfim Netto

 

Na avaliação do economista, Brasil não está tão fora do eixo como alguns fazem crer

 

Às vésperas do aniversário de 50 anos do golpe, o economista Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda durante o regime militar, nunca esteve tão alinhado com o PT. Deu um voto de confiança ao atual governo porque, segundo ele, "reconheceu os problemas e tomou providências" para corrigi-los. Quando fala da campanha à presidência, declara cultivar um "viés": "Tenho admiração pela Dilma." Ele também considerou precipitado o rebaixamento da nota do Brasil, na semana passada, pela agência de risco Standard & Poor's (S &P). Mas nem por isso, não deixa de fazer críticas à atual política econômica. "A política de combate a inflação foi muito ruim", diz em entrevista que concedeu ao Estado. Veja os principais trechos abaixo.

 

O rebaixamento da nota do Brasil pela Standard & Poor's seria o início do que o senhor chamou há alguns meses de a "tempestade perfeita"?

 

Quando eu me referi a tempestade perfeita no fim do ano passado, falava da coincidência do rebaixamento - que, naquele momento, era uma novidade - e a elevação da taxa de juros do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA). Naquele instante, quando o mercado ainda não tinha prefixado o rebaixamento, a coincidência dos dois teria sido uma tragédia. O rebaixamento agora é o que eu chamaria de tragédia anunciada. Você anunciou, o mercado absorveu, de forma que quando ele saiu já não teve nenhum efeito - pelo contrário. O câmbio se valorizou. Os juros subiram um pouquinho.

 

A bolsa se valorizou. A própria redução do rating (nota de risco) das empresas não teve, nem terá, nenhum efeito porque tudo isso já estava antecipado pelo mercado. E a elevação dos juros americanos, talvez, vá ficar para o primeiro semestre de 2015. De forma que aquele fenômeno não aconteceu e não há razão para acontecer. Mas eu acho que a S&P não deu o voto de confiança. A priori, disse: eu conheço o teu passado, portanto eu determino o teu futuro - o que é uma grande idiotice porque, seguramente, o futuro não está contigo no passado. Nós aqui no Brasil colaboramos com isso. A receptividade à visita da S&P dava a impressão de que o papa estava chegando. O governo se mobilizou. Estenderam o tapete vermelho. Me disseram que cederam até automóveis para eles. Essa gente está em busca de credibilidade e, na minha opinião, com essa medida, conseguiu os seus 15 segundos de glória.

 

Qual a perspectiva daqui para frente após o rebaixamento?

 

Primeiro, se você ler com cuidado o relatório do S&P, verá que ele traz todos os problemas que já são apontados por todos nós aqui dentro. E pior - são exatamente os problemas que o governo já reconheceu que existem e em relação aos quais está tomando algumas providências. Peguemos o problema fiscal. A dívida bruta do Brasil não é um exagero. Está em 60%, um pouco menos até, nos últimos 10 anos. Os superávits primários dos últimos 10 anos têm sido suficientes para manter a dívida em torno de 57%. Ela é um pouco elevada quando você considera que o Brasil é um país emergente.

 

Talvez fosse melhor ter 40%. Por que melhor? Porque se você tiver necessidade de fazer uma política anticíclica, com 40% pode chegar a 60% sem causar grandes perturbações. Mas com 60%, não pode chegar a 80% sem grandes perturbações. O governo entendeu isso. Tanto que não se pode considerar como teatro ele estabelecer 1,9% (de meta para o superávit primário deste ano). Na minha opinião, esse 1,9% se transformou em um compromisso sério para o governo. O segundo ponto que a S&P destacou foi a inflação. A inflação não está fora de controle. Não está ameaçando voltar para dois dígitos. Mas a política de combate a inflação foi muito ruim. Primeiro, usaram o câmbio. Isso é um erro. Desde 1984, o Brasil não resiste a essa tentação. Cada vez que há uma melhoria nas relações de troca, usam o câmbio para combater a inflação - e foi o que aconteceu agora. Com isso, você destruiu a indústria nacional - essa é a verdade.

 

Não temos que ficar discutindo se câmbio é ou não importante. É evidente que o câmbio é importante. Essa discussão é completamente fora de propósito. Não é só câmbio, obviamente. Também quando se faz isenções para combater a inflação, você não combate a inflação. Você está empurrando a inflação com a barriga. O velho Gudin (economista Eugênio Gudin Filho) já dizia que uma pequena inflação é como uma pequena gravidez - inevitavelmente é posta para fora. Também não existe nenhuma dúvida do que o País precisa voltar a crescer. Precisa de aumento de produtividade. Esgotou-se a possibilidade de crescimento pela simples expansão da mão de obra.

 

O que significa que é preciso aumentar a quantidade de capital por unidade de trabalho - e é isso que o governo está fazendo. O governo levou três anos para aprender como fazer concessões, como atrair o setor privado, mas aprendeu. A prova disso é o sucesso dos leilões. Leilão é coisa para profissionais e o governo não acreditava nisso. Tinha muito amador nesse negócio. Concessão pública é injeção na veia do investimento. Eleva a produtividade do sistema brutalmente. Basta ver o seguinte: para levar uma tonelada da soja do Mato Grosso para Paranaguá você gasta 400 quilos de soja. Sai de lá com mil quilos e chega com 600. Quando essas concessões estiverem prontas, não vão ser gastos 100 quilos - será como ganhar 300 quilos de soja em produtividade.

 

Pensando junto com o sr.: o governo empurrou o reajuste da energia elétrica para 2015. Isso foi um sinal que o aprendizado ainda não foi concluído?

 

Você está apontando um fato que na minha opinião foi decisivo para antecipar a decisão da S&P. O governo não demonstrou nenhuma segurança no que vai fazer. Na minha opinião, deu um sinal ruim. Esse problema de energia elétrica é extremamente técnico. Tem opiniões de todas as formas. O governo diz que não tem nenhum problema. Profissionais do setor privado dizem que têm todos os problemas. Vamos ficar no meio. Realmente há um estresse no setor. Estão usando as térmicas no limite. Qual é a forma mais fácil de reduzir o estresse? Provavelmente não é tentando elevar a oferta em três meses - é reduzindo a demanda. Ora, mas qual é o único instrumento para reduzir demanda? O preço. Mas o governo se recusa a dar uma oportunidade para que o sistema de preços funcione. Precisa aumentar, mesmo, a tarifa. Logo depois que S&P saiu do Brasil, houve essa discussão no governo.

 

A essa altura, no último ano de mandato, já dá para ter uma ideia do governo Dilma. Como esse período, na sua opinião, vai ser lembrado?

 

Toda intervenção do governo foi feita na direção certa, mas sempre de forma muito complicada. Portos. É óbvio que estava na direção correta. Mas é óbvio também que se tivesse ouvido o setor privado poderia ter feito tudo de forma mais eficiente e mais rápida. Os leilões hoje são muito profissionais. Mas o governo demorou para entender. Em um bom leilão, você convoca os competidores e eles fixam a taxa de retorno. Ou você fixa a taxa de retorno e o leilão estabelece a porcaria que eu posso oferecer para essa taxa de retorno. O que não é possível é controlar os dois - a não ser por uma divina coincidência. Como Deus não se envolve nisso, é difícil de acontecer. Mas isso criou uma enorme desconfiança entre o setor privado e o governo.

 

Ainda sobre o governo Dilma, qual a sua opinião sobre o que chama de nova matriz econômica?

 

Eu acho isso um jogo de palavras. É uma conversa mole para boi dormir, do mesmo jeito que é o tal tripé. São coisas óbvias. Quem é que propõe alguma coisa fora disso? Todo mundo sabe: é preciso uma política fiscal razoável. Ou seja: não posso ter dívida pública crescendo permanentemente, não posso ter déficits permanentemente porque isso acaba tendo consequências, não posso deixar de prestar atenção para esse equilíbrio.

 

Eu preciso de relativa estabilidade de preços - coisa que não consigo obter se não tiver uma política fiscal adequada. Portanto, a política econômica envolve uma coordenação entre política fiscal, monetária e cambial. O que me parece é que existe um pessimismo muito superior ao que seria razoável. Há uma diferença inegável entre o setor privado empresarial e o governo. É um absurdo acreditar que a Dilma queira chegar ao socialismo. Seria a única vez na história que fariam socialismo destruindo empresa estatal. O mesmo vale para o governo achar que o setor empresarial só olha para o seu umbigo. É uma meia verdade.

 

O sr. falou bastante da presidente Dilma, mas como o sr. vê Aécio Neves e Eduardo Campos?

 

São pessoas competentes e acho que têm lá as suas oportunidades, mas até agora não vi nada, vi um pouco mais do mesmo. Seguramente, dariam um pouco mais de espaço para o mercado funcionar. Mas deixa eu dizer uma coisa: eu tenho uma inclinação, um viés. Tenho admiração pela Dilma porque ela é absolutamente correta.

 

Como o senhor está vendo o cenário eleitoral?

 

É difícil dizer, mas eu acho que ainda hoje ela leva uma vantagem. Isso pode mudar. Falar hoje que não vai ter segundo turno é palpite. A única coisa que eu digo é o seguinte: o andar de baixo está muito mais satisfeito do que parece. Não adianta se apropriar do andar de cima. É precisa se apropriar do andar de baixo se quisermos manter o processo civilizatório do Brasil.

 

Segunda-feira são 50 anos do golpe. O sr. foi influente na economia daquele período. Olhando para trás, quais foram os erros, os acertos, o que faria diferente se tivesse a oportunidade?

Deixa eu explicar: você só faz em cada momento o que tem na cabeça e conhece, em certas condições objetivas. Uma decisão só vai se mostrar certa ou errada depois, pela qualidade do seu conhecimento e pelo ambiente em que você está. Eu fico muito entusiasmado quando vejo um sujeito se tornar um grande sábio quando o futuro já virou passado - daí emerge a sapiência. Quando o futuro ainda é futuro, isso nunca acontece.

 

Por isso, eu digo: eu não me arrependo de nada. O que fiz foi baseado naquilo que eu achava que sabia, naquele momento e nas condições que me circundavam. É o velho José Ortega y Gasset (filósofo e ensaísta espanhol): "Yo soy yo y mi circunstância". E qual era a teoria econômica nos anos 70? O intervencionismo. O controle de preço. Nós aprendemos, aprendemos apanhando, que esse não era um caminho adequado. Na minha opinião essa ideia é uma coisa preposta - se eu soubesse, teria feito diferente, mas aí seria com c cedilha. 



ALEXA SALOMÃO E RICARDO GRINBAUM, DE O ESTADO DE S. PAULO

29 Março 2014 | 14h 02

 

Matéria 4

 

“Somos todos marxistas”, diz Delfim Netto. Eu não!

 

É tóis!

É tóis!

“Insanidade é fazer tudo do mesmo jeito e esperar resultados diferentes”. (Einstein)

 

Em sua coluna de hoje, Delfim Netto, uma espécie de Sarney da economia (há décadas em torno do “puder”), tentou resgatar ninguém menos do que Karl Marx. Tentou resgatar parte dele, é verdade, a parte teórica, separando-a da parte revolucionária, que merece, segundo Delfim, todas as críticas por ter virado uma “igreja” de fanáticos. Diz ele:

 

Os dois gigantes que estavam em Marx, o teórico e o revolucionário vão pouco a pouco tomando distância entre si. De sua imensa obra teórica ficarão sólidos resíduos, incorporados definitivamente à consciência da humanidade e que irão perdendo a sua identidade por submergirem no que se supõe ser o estoque das “verdades” que conhecemos.

A sua obra revolucionária, ao contrário, continua a empalidecer porque a experiência mostrou que o “marxismo” implementado distingue-se muito pouco da “ditadura dos intelectuais proletarizados”, como queria Bakunin.

 

Quais sólidos resíduos seriam esses? O autor não diz. Temos de aceitar assim, por imposição, por apelo à autoridade. A experiência mostrou, de fato, que sua obra revolucionária leva, quando colocada em prática, a uma ditadura dos “proletários”, ou daqueles que falam em seu nome. Curiosamente, Delfim parece crer que tal resultado não tem ligação alguma com suas teorias. Ledo engano!

 

Como vários teóricos mostraram, especialmente os economistas austríacos, a teoria marxista colocada em prática levaria inexoravelmente ao resultado catastrófico que vimos por todo lugar. Não foi coincidência, mero acaso ou falta de sorte. Não foi uma má interpretação de sua obra. Foi o resultado lógico de premissas absolutamente equivocadas.

 

Não é possível separar o Marx teórico do revolucionário: sua teoria serviu de arcabouço para a revolução que defendeu, e sua honestidade intelectual foi turvada pelo desejo revolucionário. Quando um fato ia contra sua teoria, era o fato que saía perdendo e acabava ignorado. Delfim parece compreender parte do problema, mas não sua essência:

 

A obra de Marx só não conheceu a mais completa absorção pela corrente do pensamento universal porque, depois de 1917, foi falsificada e transformada na religião oficial do Império soviético. Em lugar da sociedade sem classes, eles construíram um mundo fantástico de opressão e de obscurantismo, como só intelectuais sabem fazer. A experiência mostrou que a vontade de poder, o desejo de submeter o outro homem, está no próprio homem e que ele só pode ser controlado por um regime autenticamente político.

 

Os soviéticos não chegaram a falsificar Marx. Não foi preciso. A sua teoria caiu como uma luva para os interesses leninistas. O desejo de poder presente na natureza humana só pode ser contido por um modelo de descentralização de poder, como ocorre no capitalismo de livre mercado, e o contrário do que pregam os marxistas, inclusive o próprio Marx.

 

Não há incoerência maior do que pregar uma “ditadura do proletário” como fase intermediária para o comunismo, uma sociedade sem a necessidade de um estado. Concentrar todo o poder estatal em uma classe ou um grupo qualquer, para depois defender sua abolição voluntária é uma piada de muito mau gosto, que só marxistas podem levar a sério. Delfim conclui:

A miséria humana não é produto da propriedade privada, pelo menos não exclusivamente. Os “intelectuais proletarizados” nunca entenderam, de fato, as dificuldades que cercam a organização de uma economia moderna. É por isso que o mundo comunista se dissolveu. A “Igreja” faliu. Agora qualquer um de nós pode ser “marxista”, sem medo de ser feliz! 

A miséria humana não é produto da propriedade privada, “pelo menos não exclusivamente”? Delfim faz uma concessão absurda aos marxistas para poder acusá-los de seita fracassada em seguida. A propriedade privada não é culpada pela miséria; é sua salvação! Não é que ela produza parte da miséria; ela produz a riqueza que elimina a miséria!

 

A história da civilização ocidental é em boa parte a história das maravilhas produzidas pela propriedade privada em um ambiente de livre mercado. Ignorar isso é ignorar a essência do capitalismo e suas vantagens, observadas já por Adam Smith em 1776. A riqueza das naçõesdepende da propriedade privada e do livre comércio.

 

Ou Delfim não tem coragem de afirmar o óbvio, ou não concorda com isso e está simplesmente errado, como os marxistas revolucionários que condena. Pensando ter separado o joio do trigo, Delfim acredita que podemos todos nos considerar marxistas hoje, sem medo de ser feliz. Fale por si só. Eu não sou marxista em nada!

 

Tanto o Marx teórico como o revolucionário estavam equivocados ao extremo. Resgatar qualquer um desses marxismos é insistir em um erro responsável pela miséria, escravidão e morte de milhões de inocentes.

 

Rodrigo Constantino

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